quinta-feira, 8 de abril de 2010

o amor de Nietzsche

foto Jules Bonnet

"Adeus. Não a verei mais. Proteja sua alma contra ações semelhantes e realize melhor com os outros aquilo que comigo não tem reparação. Não li sua carta, mas li demais.”


O bilhete em tom firme, dolorido e poético é de autoria do filósofo alemão Friedrich Nietzsche, endereçado com a pontaria de um dardo à psicanalista e escritora de origem russa Lou Andreas-Salomé, em 1882, depois de ter seu pedido de casamento por ela recusado.

Nietzsche, o grande pensador da evolução humana, sucumbiu à beleza e magnetismo de Lou ao ser apresentado a ela pelo amigo Paul Rée, também alemão e filósofo, autor do clássico “Escritas básicas”. “Que estrelas em nós caíram para nos encontrarmos aqui?”, teria dito Nietzsche quando a viu na Basílica de São Pedro, em Roma. Mas as intenções de Lou eram outras. Os três, na verdade, mantiveram um intenso relacionamento até que Lou e Paul decidiram viver juntos, quando Nietzsche parte para Veneza.

A foto acima é dessa época do triângulo amoroso, onde se vê Lou com um pequeno chicote e os dois amigos no lugar onde se puxa a carroça... Mas Nietzsche não aceitou a situação e deprimido recolheu-se na casa de sua irmã Elisabeth, falecendo em 1900. Um ano depois Paul abandona Lou e suicida-se.

A escritora tinha convicções e curiosidades avançadas para aquele final do século 19. Frequentava regularmente clubes para encontros lésbicos em Viena. Casou-se com o filologista Frederick Carl, 16 anos mais velho que ela, e tinha como amante nada menos que o famoso poeta Rainer Maria Rilke, 14 anos mais novo. Em 1952 foram publicadas as correspondências entre os dois. Lou faleceu em 1937, aos 76 anos, de uremia.

Sobre o relacionamento dos três, a cineasta italiana Liliana Cavani dirigiu em 1977 “Além do bem e do mal” (Al di là del bene e del male), tendo a bela Dominique Sanda no papel de Lou. Mas o filme não foi bem recebido. O sensacionalismo em torno do tema deformou a vida de Nietzsche, na fita interpretado pelo desconhecido Erland Jose, enquanto o inglês Robert Powell, que um ano antes pegaram-no para Cristo em “Jesus de Nazaré”, de Franco Zeffirelli, ressuscitou no papel de Paul.

Melhor é o livro “Quando Nietzsche chorou”, um magnífico romance sobre o nascimento da psicanálise, lançado no Brasil em 1995. Nele, o autor Irvin D. Yalom, um psicoterapeuta americano, traça com personagens reais e situações que não aconteceram um interessante paralelo entre ficção e realidade. Lá estão Nietzsche, Lou, e os médicos austríacos Josef Breuer e Sigmund Freud.

Já o filme, baseado do livro, dirigido por um tal de Pinchas Perry em 2007, é de fazer Nietzsche chorar. 

2 comentários:

Sir G. disse...

o que há de errado com filme?
Nunca li o livro, gostaria de saber se tem muita divergência.
grato.

Nirton Venancio disse...

Um filme não precisa - e nem deve - ser uma ilustração do livro em que foi baseado a história. Mas precisa de outros elementos de interpretação para ser outra obra à altura da original. A literatura tem sua linguagem, em relação ao cinema ela é até mais livre no sentido em que se possa criar mundos e questionamentos em que no cinema, pelas suas definições e características, se tornam inviáveis. Proust dizia que "Em busca do tempo perdido" era infilmável, Saramago dizia o mesmo de "Ensaio sobre a cegueira", mas as duas obras foram transpostas para a tela, e em que pesem alguns percalços nos roteiros, são filmes que se impõem pela ousadia. O mesmo não acontece com “Quando Nietzsche chorou”, que tem um roteiro frouxo, sem cadência, sem uma audácia necessária pra reinventar sem fugir da essência, e um ator que cai na caricatura do personagem.