segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

habitar o presente


Eles estão caminhando. Não estão marchando. Não correndo. Muito menos disputando espaço. Os monges estão apenas caminhando.

Num país onde tudo grita — anúncios, opiniões, urgências, sirenes —, aqueles monges avançam em silêncio, passo após passo, como se cada metro percorrido fosse um gesto de reconciliação com o tempo. Não carregam cartazes. Não exigem respostas. Não explicam demais. O corpo deles é a mensagem.
Enquanto o mundo se acostumou a ir sem estar, eles estão indo.
Cada passo toca o chão como quem pede licença. Cada respiração parece lembrar algo esquecido: que a vida não acontece no destino, mas no intervalo entre um passo e outro. Pessoas passam de carro, diminuem a velocidade, olham intrigadas. Algumas sentem desconforto. Outras, inexplicável paz. Porque aquele caminhar expõe uma ferida coletiva: desaprendemos a habitar o presente.
Eles caminham como quem ora com os pés.
Não porque acreditam que o mundo vai mudar de repente, mas porque sabem que ninguém muda o mundo sem antes mudar o próprio ritmo. O gesto deles é simples demais para ser ignorado, e profundo demais para ser reduzido a protesto. É um lembrete vivo de que ainda é possível atravessar o caos sem se tornar caótico.
O mais desconcertante é isso: eles não parecem com pressa de salvar nada. E, justamente por isso, salvam algo essencial — a possibilidade de presença.
- Chandramukha Swami, monge e líder espiritual brasileiro.

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