terça-feira, 13 de janeiro de 2026

felicidade

Logo nas primeiras linhas de Anna Karenina (1877), Leon Tolstói constata que “Todas as famílias felizes são parecidas entre si. As infelizes são infelizes a sua maneira”.
Tal observação, na firmeza de uma sentença, é espelhada no relato do parágrafo seguinte: Darya Alexandrovna, esposa do Príncipe Oblonski, descobrira as relações extraconjugais do marido com a preceptora francesa. Não havia mais motivos para continuarem juntos. As crianças de um lado para outro, perdidas; uma das funcionárias se indispusera com a governanta, que passou a procurar outra casa para trabalhar; o cozinheiro larga as atividades na hora de preparar o jantar; o cocheiro e a copeira pedem as contas... O caos se instalara no palácio.
Haruki Murakami, escritor japonês, faz uma curiosa paráfrase da máxima no clássico romance russo em seu ótimo Kafka à beira-mar (2002). Lá pelo adiantado capítulo 17, Oshima, rapaz erudito e bibliotecário, diz para o jovem Tamura, a quem ajuda com conselhos e refúgio, que “A felicidade é uma alegoria, a infelicidade é uma história”. Enquanto a primeira é invariável, a outra demonstra inúmeras facetas. É assim que, implacavelmente, se constroem os grandes enredos humanos, acrescenta Oshima.
Por um algum motivo no meio da noite, vieram-me essas definições do que sejam felicidade e infelicidade e suas variações conceituais, seus desdobramentos de procura de entendimento, já que a vida é misteriosa e perplexa por definição.
No meio de tantas distinções de metáfrases, lembrei-me também de um verso da canção Fanzine kitsch, de Felipe Cordeiro, compositor e cantor paraense, do disco Kitsch Pop Cult (2013):
“A felicidade é uma maneira bem sofisticada de ser distraído”

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