segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

cotidiano


 

habitar o presente


Eles estão caminhando. Não estão marchando. Não correndo. Muito menos disputando espaço. Os monges estão apenas caminhando.

Num país onde tudo grita — anúncios, opiniões, urgências, sirenes —, aqueles monges avançam em silêncio, passo após passo, como se cada metro percorrido fosse um gesto de reconciliação com o tempo. Não carregam cartazes. Não exigem respostas. Não explicam demais. O corpo deles é a mensagem.
Enquanto o mundo se acostumou a ir sem estar, eles estão indo.
Cada passo toca o chão como quem pede licença. Cada respiração parece lembrar algo esquecido: que a vida não acontece no destino, mas no intervalo entre um passo e outro. Pessoas passam de carro, diminuem a velocidade, olham intrigadas. Algumas sentem desconforto. Outras, inexplicável paz. Porque aquele caminhar expõe uma ferida coletiva: desaprendemos a habitar o presente.
Eles caminham como quem ora com os pés.
Não porque acreditam que o mundo vai mudar de repente, mas porque sabem que ninguém muda o mundo sem antes mudar o próprio ritmo. O gesto deles é simples demais para ser ignorado, e profundo demais para ser reduzido a protesto. É um lembrete vivo de que ainda é possível atravessar o caos sem se tornar caótico.
O mais desconcertante é isso: eles não parecem com pressa de salvar nada. E, justamente por isso, salvam algo essencial — a possibilidade de presença.
- Chandramukha Swami, monge e líder espiritual brasileiro.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

assim falou Dalí


Em sua biografia As Confissões Inconfessáveis de Salvador Dalí (Editora José Olympio, 1976), o genial pintor catalão discorre em uma narrativa vulcânica, histórias hilariantes, fatos inimagináveis, opiniões desavergonhadas sobre amigos, parentes, amores, arte, religião...
São 20 densos e inquietos capítulos ironicamente intitulados como se fossem prescrições de aprimoramento pessoal a partir de como viveu, e não é nada disso ao mesmo tempo que é tudo e muito mais. A impressão que se tem na leitura é a de rápidas e ininterruptas pinceladas numa tela.
Lançado originalmente em 1973, quando ele tinha 69 anos, o “receituário” dos capítulos vai desde Como conviver com a morte, que abre o livro, passa por Como se livrar do próprio pai, Como descobrir a própria genialidade, Como orar a Deus sem acreditar Nele, e entre outras inconfissões nada surreais, finaliza com a propriedade do eu na terceira pessoa, Como Dalí pensa na imortalidade.
Se Nietzsche o tivesse conhecido, teria se perturbado com a sensação de encontrar seu Zaratustra no paroxismo do delírio lúcido de Salvador Dalí.
Um livro para ter sido filmado por Buñuel, depois de muitos tratamentos de um roteiro feito por Jean-Claude Carrière.
37 anos hoje que o pintor iniciou sua imortalidade. 

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

se todos fossem iguais a vocês


Acervo Instituto Moreira Salles
 

Drummond, Vinicius, Bandeira, Quintana e Paulo Mendes Campos, fotografados por Moacir Gomes, na casa de Rubem Braga, Rio de Janeiro, 1966. Figuras centrais do Modernismo brasileiro e da literatura do século 20.
Eles foram à casa do cronista para um almoço e muita conversa com um hóspede igualmente ilustre, Pablo Neruda.
Quando viu aquela turma ali sentada, Braga ficou atrás do fotógrafo, como “dirigindo” o registro. “Time fortíssimo, imbatível”, escreveu em uma crônica sobre os 80 anos de Mário Quintana, em 1986.
Olho imantado essa foto como se olha uma imagem sacra.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

eu me lembro


 Foto: Giuseppe Rotunno

Fantástico, onírico, nostálgico e memorialístico, Federico Fellini concebeu em Amarcord, 1973, um dos mais fortes libelos cinematográficos contra o fascismo. Autobiográfico, o cineasta ambienta seu delírio e expurgação nos anos 30 da Itália devastada pela figura pústula de Mussolini, pela moral repressora e destrutiva.
Na história, o personagem Titta é o alter ego do diretor. Mas todos os personagens que o rodeiam e habitam o passado nessa depuração de revogação nostálgica, são Fellinis. Mesmo não tendo tragédias sérias na família, o cineasta tomou posição e dizia que o fascismo aprisionou os italianos em uma adolescência perpétua de pesadelos, pelos tempos opressivos que viveram. O cinema o acolheu para espantar os fantasmas.
‘Amarcord’ é uma referência à tradução fonética das palavras "mi recordo" usada em Rimini, província da região de Emilia-Romagna, onde Fellini nasceu na noite de 20 de janeiro de 1920.
Foto: Giuseppe Rotunno

Fellini

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

eu me lembro



“Nós só percebemos, praticamente, o passado, o presente puro sendo o inapreensível avanço do passado a roer o futuro. Toda percepção já é memória”
- Henri Bergson, filósofo francês, em Matéria e memóriaEnsaio sobre a relação do corpo com o espírito (1896).
Sempre bom de reler, mesmo abrindo aleatoriamente as páginas.
O autor é chamado de “espiritualista evolucionista” na história da filosofia.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

responsabilidades

"Nos sonhos começam as responsabilidades"

- W. B. Yeats, em epígrafe de seu belo e importante poema Responsibilities (1914).
O poeta foi fundamental para o renascimento da literatura irlandesa

 

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

felicidade

Logo nas primeiras linhas de Anna Karenina (1877), Leon Tolstói constata que “Todas as famílias felizes são parecidas entre si. As infelizes são infelizes a sua maneira”.
Tal observação, na firmeza de uma sentença, é espelhada no relato do parágrafo seguinte: Darya Alexandrovna, esposa do Príncipe Oblonski, descobrira as relações extraconjugais do marido com a preceptora francesa. Não havia mais motivos para continuarem juntos. As crianças de um lado para outro, perdidas; uma das funcionárias se indispusera com a governanta, que passou a procurar outra casa para trabalhar; o cozinheiro larga as atividades na hora de preparar o jantar; o cocheiro e a copeira pedem as contas... O caos se instalara no palácio.
Haruki Murakami, escritor japonês, faz uma curiosa paráfrase da máxima no clássico romance russo em seu ótimo Kafka à beira-mar (2002). Lá pelo adiantado capítulo 17, Oshima, rapaz erudito e bibliotecário, diz para o jovem Tamura, a quem ajuda com conselhos e refúgio, que “A felicidade é uma alegoria, a infelicidade é uma história”. Enquanto a primeira é invariável, a outra demonstra inúmeras facetas. É assim que, implacavelmente, se constroem os grandes enredos humanos, acrescenta Oshima.
Por um algum motivo no meio da noite, vieram-me essas definições do que sejam felicidade e infelicidade e suas variações conceituais, seus desdobramentos de procura de entendimento, já que a vida é misteriosa e perplexa por definição.
No meio de tantas distinções de metáfrases, lembrei-me também de um verso da canção Fanzine kitsch, de Felipe Cordeiro, compositor e cantor paraense, do disco Kitsch Pop Cult (2013):
“A felicidade é uma maneira bem sofisticada de ser distraído”

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

experiências vitais com Zé Tarcísio


Em julho de 2018 o Museu de Arte Contemporâneo, no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, em Fortaleza, abriu a exposição "Zé: Acervo de Experiências Vitais", em homenagem ao cearense Zé Tarcísio.
“Tudo que vivi se incorporou, automaticamente, ao meu acervo de experiências vitais, estando de uma ou outra forma, expresso em meus trabalhos”, afirmou o sempre alegre Zé, brilhante com seus olhos de amável bruxo.
Com obras de seu acervo, coleções particulares e de órgãos institucionais como do Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro, a exposição reuniu mais de 100 trabalhos entre pinturas, esculturas, instalações, fotos e vídeos, ocupando três ambientes do Museu.
Os trabalhos foram agrupados pelos espaços numa concepção que se integra aos signos de criação do autor. As peças produzidas nas décadas de 60 e 70, por exemplo, refletem questões ambientais, do corpo, comportamento, e se estendem às questões políticas, quando Zé Tarcísio esteve ligado a movimentos de resistência e teve seus trabalhos apreendidos pelos censores da ditadura.
Foi uma honra imensa para mim ser convidado para escrever o roteiro do vídeo Zé Tarcísio, apresentado na noite de abertura da exposição, e que ficou em exibição no período em que esteve aberta.
Juntamente com uma equipe afinada nos meus projetos de cinema, Rui Ferreira (direção e edição), Alex Meira (direção de fotografia), Lenio Oliveira (som), e as assistências fundamentais dos fotógrafos Valdo SIlva e Nildo Silva, o vídeo narra o percurso de construção do projeto e da composição curatorial, permitindo a todos uma participação afetiva na elaboração da exposição.
Experiências vitais para todos nós, proporcionadas pela essência da arte de Zé Tarcísio, que partiu hoje, aos 84 anos, num alvorecer de fim semana de um ano que começa junto com a saudade por toda a vida
Para você, meu querido Zé, parafraseio versos de Vinicius de Moraes:
Amo-te tanto, meu amigo...
E te amo além, presente na saudade
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Zé Tarcísio


 

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

O cinema de Béla Tarr


Em Turim, Itália, no ano de 1889, nada menos do que Friedrich Nietzsche protege um cavalo que é brutalmente espancado pelo seu dono, numa praça. O filósofo abraça-se ao pescoço do animal, em prantos.
De volta à sua casa, Nietzsche então permanece imóvel e em silêncio durante dois dias estendido em um sofá, até que pronuncia as definitivas palavras finais: “Mãe, eu sou um idiota”. E vive por mais dez anos, mudo e demente, sendo cuidado por sua mãe e suas irmãs.
Esse é ponto de partida do filme O cavalo de Turim (A torinói ló), 2011.
O que aconteceu com o animal socorrido é o tema desenvolvido pelo imenso cineasta húngaro Béla Tarr nesse belíssimo exemplar da cinematografia mundial.
O cineasta partiu hoje, aos 70 anos.
Acima, 5 minutos e 55 segundos de um dos mais fascinantes planos-sequências. O fôlego do cinema. A perfeição.




Béla Tarr


 

sábado, 3 de janeiro de 2026