terça-feira, 20 de janeiro de 2015

caminhando e encantando


Gustavo Portela é um dos artistas mais originais que conheço. A sua música, a sua confecção de ritmos e melodias é de uma universalidade própria de quem sabe com beleza e profundidade a profundidade e a beleza de sua aldeia, para lembrar aqui a máxima de Lev Tolstoi. Aliás, mais do que sabe, sente. Sentir vale mais porque leva ao saber. Sentir vem do coração e segue o caminho do raciocínio, sem o sangue errar de veia e se perder. Originalidade. 

O disco Le son sur scène, de 2013, tem o todo, o tudo, a soma da música nordestina-brasileira às canções de um mundo ethnos-sincrético. Os arranjos das composições que partem de uma certa uniformidade cultural, partilham das mesmas tradições, conhecimentos, técnicas, habilidades, língua e comportamento das criações do músico e compositor sérvio-bósnio Goran Bregovic, por exemplo. E não à toa, e sim, atento, Goran faz trilhas pros filmes de Emir Kusturica, assim como Portela, também cineasta e editor, faz cinema em sua música e vice-versa nesses reversos dos sentidos. 

A música de Gustavo Portela remete a lugares e tempos. O circo solar de lona perfurada pelas estrelas, com sua trupe mambembe e humana, vai de Itapipoca da banda Dona Zefinha, dos sertões mais esquecidos, aos prados mais diversificados das canções francesas, dos nômades das fronteiras bizantinas sérvias, da miscigenação de elementos africanos.

Barlavento, seu novo disco, gravado nos outubros passados, tem pré-lançamento hoje no Teatro Sesc Iracema de Fortaleza, com show, perfomances, fotos e bate-papo, como um teaser do que virá depois que o carnaval passar. É um trabalho distinto, sem nenhuma faixa e essência ser diferente do que é a música de Gustavo Portela. É o passo de uma caminhada. É a estrada se fazendo com suas descobertas, com suas gentes, com seus índios e suas lágrimas etimológicas dos mondubins e marapongas, com seu foguete blue de George Méliès, em viagem à lua pelo menino que foi feito oferenda à Iemanjá nas águas fundas do Mucuripe. Portela faz num lamento o sertão virar mar. Um lamento sertanejo. 

Gustavo em Barlavento é um disco de reencontros na caminhada. O velho bar Estoril da Praia de Iracema redivivo em um desenho na capa, garimpado nos tesouros arqueológicos afetivos do cantor e compositor Calé Alencar. Um desenho que vibra beleza em seus traços simples. Um desenho com a assinatura do ator Chico Alves, um dos maiores artistas que o teatro já teve e continua tendo com o pulso que ainda pulsa em nossa memória.

O clipe da faixa “Paratodos”, filmado em Fortaleza e Cabo Verde, tem um clima dos dois sertões, a cegueira da solidão do cinema de Abbas Kiorastami em “Gosto de cereja” (Ta'm e guilass), 1997.

A beleza tem essa mania de conectar a beleza.Não creio em coincidências. O Universo articula suas tramas, nós é que somos distraídos.

Gustavo Portela está no documentário que realizo, Pessoal do Ceará - Lado A Lado B.

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