quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Ariano e sua sina

foto Canindé Soares/ABF

O escritor, poeta e dramaturgo Ariano Suassuna é em si um espetáculo. Fazer um documentário sobre ele, deve ser uma tarefa difícil: Ariano "rouba" o filme. Qualquer frase, qualquer depoimento, qualquer opinião, qualquer discurso é uma profunda reflexão sobre qualquer assunto que ele discorra, principalmente se a matéria em consideração for a cultura nordestina, e mais ainda se estamos falando sobre a nossa língua portuguesa, que ele defende de forma assumidamente radical. O cantor pernambucano Chico Science que o diga lá de onde estiver regando as glórias do movimento mangue-beat, pois a ele foi sugerido pelo mestre que o certo seria mesmo Chico Ciência.

O cineasta paraibano Marcus Vilar enfrentou essa difícil tarefa de filmar Ariano Suassuna. Pode até ser que o diretor nem assim considere, mas creio que não foi fácil deixar o filme acontecer com Ariano tomando conta dele. Tomando conta pelo seu brilho nas palavras, pela lucidez de sua oratória, pela inteligência e acuidade de suas opiniões e argumentos, pela graça e humor de suas colocações, pela pureza quase infantil naquele senhor octogenário, pelo amor que ele tem pela arte na sua mais sagrada essência, pelas histórias narradas entre a verdade e o que poderia ter sido. Ariano é autêntico, genuíno, legítimo. É autor de si, é personagem de si. É mítico e é real. É clássico e usual. É novo e é histórico. É um dom Quixote de Taperoá, cidade  nos cafundós da Paraíba, que o acolheu menino nos anos 30. É um senhor dos castelos erguidos nas fábulas dos sertões nordestinos. É um sebastianista em que todos precisamos acreditar para salvar a miséria intelectual.

É um desafio fazer um filme a altura de um personagem tão luzidio e cativante. Marcus Vilar abarcou o projeto do documentário por longos quinze anos. Registrou eventos, aulas, palestras, fez entrevistas, perseguiu Ariano como foi possível de maneira impossível, captando imagens nas bitolas e novas mídias ao alcance da mão e da imaginação.

"O senhor do castelo", o filme, longa-metragem de 72 minutos, é uma homenagem sincera e carinhosa a esse grande brasileiro universal. Marcus Vilar não inova o gênero documentário, e nem seria essa a pretensão. O seu filme tem o mérito de consignar um patrimônio. E como trabalho, o filme tem  o mérito de não se tornar óbvio, de não ser um manifesto evidente sobre um personagem incontestável, ou não. Para isso, destaco a montagem, assinada pelo diretor e por Carlos Carvalho, aliada a uma pontual e certeira trilha musical, que teve consultoria de Fernando Farias. Destaco a montagem porque o roteiro, que está bem elaborado, é o que deveria ser mesmo, que expõe a trajetória de vida de Ariano e sua sina, não necessariamente de forma cronológica, mas ao sabor das caminhadas pelo tempo.  E melhor: não caiu na armadilha do recurso conhecido e repisado de entrevistas com terceiros. Ariano basta-se.

"O senhor do castelo" foi lançado ano passado em alguns festivais, e tem previsão de estréia para este ano no circuito em salas que se prezem a uma boa programação.

9 comentários:

Selma Santiago disse...

Fiquei curiosa pra ver esse filme? Sabe quando entra em cartaz?

Nirton Venancio disse...

Acho que você colocou uma interrogação a mais, Selma.
Pelo que sei o filme ainda não tem uma data certa pra lançamento comercial. É bom ficar atenta.

Anônimo disse...

Nilton, uma análise perfeita da obra "O senhor do castelo". Eu tenho o DVD e já vi e revi milhões de vezes e sempre me surpreendo. A montagem de Carlos Carvalho valorizou cada cena desse longa. Parabenizo todos os envolvidos no filme.
Rosana

Rosana disse...

Desculpe Nirton, no post anterior cometi duas indelicadezas: errei o seu nome e postei como anônimo. Estou me redimindo.
Rosana

Nirton Venancio disse...

Rosana, tudo bem... tranquilo. O que importa é que você gostou do texto.
Um abraço!

Rubens disse...

Só a notícia do documentário sobre o Ariano é um evento a parte. Assim como o texto, agradável de si ler. Desse jeito fica fácil se interessar pelo filme.
Continuo com a campanha: o jornalismo cultural precisa de mais textos assim.
PS: Rosana você poderia apontar o caminho para conseguirmos o DVD.

Nirton Venancio disse...

Rubens, no site www.paraiwa@gmail.com tem maiores informações sobre o dvd.

Raquel disse...

Nirton, sou também sou fã do Ariano e adorei seu texto sobre esse documentário. Já estou doida pra ver. Adoro o radicalismo assumido dele e suas aulas-espetáculos são sempre imperdíveis. Beijão e parabéns atrasado pelo aniversário.

Raquel Chaves

Nirton Venancio disse...

Raquel,

aguarde o documentário. Você vai gostar. Beijão!