quinta-feira, 24 de julho de 2008

apelo em nome próprio


Reproduzo o artigo do cineasta e fotógrafo MURILO SALLES, publicado no jornal O Globo, na edição do dia 18 deste mês. Reproduzo e concordo com ele.


Veja meu filme antes que ele saia de cartaz


Estou surpreso com a repercussão de um texto que publiquei no blog de lançamento de meu novo filme, "Nome próprio" e enviei por e-mail para amigos. Nele, faço um apelo para as pessoas irem assistir o filme neste fim de semana, no lançamento, para que ele não saia de cartaz. É esse primeiro fim de semana que vai determinar se meu filme vai continuar em cartaz ou cair no esquecimento. Se o filme continuar, mantém-se a esperança de um fundamental aliado entrar em campo: o boca a boca.

Minha surpresa se deve ao fato que esse procedimento de mercado é muito conhecido. Agora, nos EUA, isso virou concurso: a disputa entre as megaproduções de qual delas faz a maior bilheteria no fim de semana de estréia. Isso passa a "avalizar" o filme, principalmente para o mercado internacional.

Talvez essa repercussão venha do meu tom enfático, quando afirmo que a situação no Brasil é perversa. Mais que perversa, é cruel. A exibição de cinema mudou muito nos últimos 20 anos. A produção mundial de filmes multiplicou-se incrivelmente como conseqüência da globalização e as salas de cinema diminuíram muito em quantidade. Hoje, temos menos de duas mil salas de cinema em todo o Brasil, e multiplicou-se por cem a quantidade de filmes oferecidos para essas salas. Só entram em cartaz as megaproduções, com alta possibilidade de retorno de bilheteria.

Numa mudança também radical, esses filmes entram com 200 ou 300 cópias, o que era impensável anos atrás quando havia o Concine, um órgão fiscalizador do mercado que não permitia distorções de ocupação pelo produto importado. Mas o mais marcante e diferenciado era que o exibidor, quando gostava do filme, "apostava" nele um tempo, mantendo-o em cartaz para provocar o boca a boca. Hoje, esse mesmo exibidor está lutando para manter seu negócio contra o esvaziamento das salas de cinema.

No Brasil, o que ocorre também é um cinismo generalizado, incluindo-se aí as instâncias governamentais que tocam a política cinematográfica e que deveriam regular e estabelecer a isonomia no mercado — exibir 300 cópias por título? Qual a regulamentação que existe sobre isso hoje? Nenhuma!

Essas mesmas pessoas estão fomentando a discussão em torno da auto-sustentabilidade da indústria cinematográfica brasileira. Como discurso é perfeito. É isso que queremos. Mas como assim? A política que rege a operação da distribuição e exibição de filmes brasileiros é a de mercado, correto? Não. Faço a pergunta: que mercado? Temos menos de duas mil salas de cinema no país ocupadas em 95% do seu tempo pelo produto estrangeiro. Com que autoridade pode-se falar em "política de mercado” para o cinema brasileiro?

Não existe nenhum movimento de planejamento de ações palpáveis para sairmos desse estado de “circuito exibidor de produto estrangeiro”. Isso é determinante e atrofia tudo. Mercado sem a possibilidade de exposição da mercadoria? Que mercado é esse?

O cinema brasileiro, na década de 70, sim, viveu uma realidade de mercado. Os filmes rendiam dinheiro. Portanto, havia espaço para uma produção plural. Em 1986, a distribuição dos filmes dos Trapalhões ajudava a marcação de lançamento de "Nunca fomos tão felizes", meu primeiro filme. E o preço do ingresso era viável para grande parte da população. Meu filme foi visto por 270 mil espectadores! Hoje, o desenho da exibição e, principalmente, do preço do ingresso é focado no produto estrangeiro blockbuster. Cinema virou uma diversão de classe média alta. E o paradoxo é que a classe média alta está deixando de ir ao cinema. Ela tem em casa supertelas de cristal líquido com som surround e computadores com conexão de 8 Gb. Para que ir ao cinema?

O cinema como exibição poderia voltar a ser um espaço mais popular. Quando digo popular, estou falando do preço do ingresso, que hoje é igual ao preço praticado na Europa. Por que essa situação permanece? Quem ganha com isso? Não é nem o produtor, muito menos o dono da sala de cinema, que está vendo os seus cinemas se esvaziarem e as falsas carteiras de estudante proliferarem.

Para tornar a questão da auto-sustentabilidade do cinema brasileiro uma discussão produtiva, teríamos que começar por discutir concretamente como criar um mercado exibidor nacional e popular. Se não forem regulamentadas as relações de comércio que regem a exibição de cinema no Brasil, criando isonomia entre o produto estrangeiro e o nacional, não se pode falar em mercado.

A desculpa pela omissão e pela preguiça é a de que a internet e a tecnologia digital estão mudando tudo. Isso é engraçado, pois pode-se usar a tecnologia de projeção digital para a criação de salas populares espalhadas pelo Brasil porque a projeção digital permite a abertura de salas exibidoras bem mais baratas do que os multiplex.

Estou lançando meu filme, "Nome próprio". Um filme com o mesmo perfil de meus filmes anteriores. Faço um cinema mais pessoal, autoral, procurando imprimir uma singularidade própria a cada filme que faço. O filme foi patrocinado pelo Ministério da Cultura, ganhei um concurso que viabilizou a sua produção. Não tenho grandes dívidas. O dinheiro é público.

Na verdade, um monte de filmes muito bons tem entrado em cartaz e rendido entre cinco mil e 30 mil ingressos. Não se paga nem o custo do lançamento. Mas continuamos assim meio coniventes com isso, pois é uma situação confortável. Fazemos filmes bacanas, ganhamos prêmios nos festivais, temos críticas excelentes. Mas isso, no fundo, me angustia porque sou reduzido a um nada, ao esquecimento, saio na primeira semana do circuito lançador e, na terceira semana, estou naquele cinema do museu, numa sessão às três da tarde! E nossos filmes representaram em média quatro anos de nossas vidas, isso tudo tinha que fazer mais sentido.

Estou aqui meio solitário me debatendo com essa questão, que no fundo é ética. Enquanto continuarmos coniventes com essa política oficial do "finge que existe mercado", nada vai mudar muito. "Nome próprio" vai entrar em cartaz ao lado de um filme que custou milhares de milhões de dólares e mais alguns milhões de reais no seu lançamento no Brasil. Está ocupando mais de 300 salas de cinema e o seu ingresso custa o mesmo que o meu. Como posso pensar em sobreviver a tamanho massacre?

Um comentário:

dioneide disse...

Belo texto e tb concordo com ele.

abraços