quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

um girassol da cor dos seus cabelos

 
No dia 23 de dezembro de 1888, em um momento de forte depressão, o pintor holandês Vincent Van Gogh cortou uma navalha um pedaço da própria orelha esquerda. Embrulhou em um lenço e levou para uma amiga, a prostituta Rachel, que desmaiou ao receber o mórbido presente natalino. "Guarde com cuidado", dizia um bilhete anexo.

Essa é a versão que conhecemos sobre o fato ao longo desses dois séculos, desde as Enciclopédias Barsa, Delta-Larousse... até a Wikipédia. Em 2009, os historiadores suíços Hans Kaufmann e Rita Widegans publicaram o livro A orelha de Van Gogh, Paul Gaugin e o pacto de silêncio (Van Goghs Ohr, Paul Gauguin und der Packt des Schweigens), resultado de dez anos de pesquisa, e conta outra história para a atitude radical do pintor.

No bombástico livro, os autores apontam situações que em parte sabemos, a relação dificil de Van Gogh com o pintor francês Paul Gauguin. Morando juntos por um tempo, os dois discutiam muito sobre conceitos e formas de criação artística, e suas teorias eram sempre incompatíveis. Van Gogh, de temperamento instável, não se conformava com o plano do amigo sair do atelier nos arredores de Paris e voltar para a capital. Queria mantê-lo sempre por perto. Gauguin era um exímio esgrimista, e numa violenta discussão o fere acidentalmente. Diante da tragédia, sem quererem repercussão, os dois fizeram pacto de silêncio. Apaixonado pelo amigo, Van Gogh manteve a história de autoflagelo. Foi internado por um ano num hospício, e ao sair, no tempo que não se imaginavam as selfies, postou-se diante do espelho e pintou para a posteridade, e eternidade, o autorretrato reproduzido abaixo. O quadro encontra-se exposto no Instituto de Arte Courtauld, em Londres.

Van Gogh foi ao extremo: suicidou-se dois anos depois do acontecido.

O livro de Kaufman e Widegans, em uma investigação preciosa, baseia-se em inúmeras cartas de amigos e dos próprios pintores, relatórios policiais, escritos de testemunhas, notas de jornais. A leitura joga novas luzes sobre os girassóis e nos deixa com a pulga atrás da orelha - sem trocadilhos.

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