domingo, 15 de abril de 2012

o porto de Saraceni

Uma mulher quer se livrar do marido opressor, machão, chato. Não por acaso tem um amante, a quem pede para eliminá-lo de uma vez por todas da vida dela, no caso, deles. Com um plano na cabeça, estende o pedido para um soldado e barbeiro. Mas os três se negam a cometer o crime. Diante da recusa, a mulher resolve tudo sozinha.

O cenário dessa história é a pequena cidade Itaboraí, no Rio de Janeiro, e se passa no começo dos anos 60. Foi levada para o cinema por Paulo César Saraceni, em "Porto das Caixas", de 1962, seu primeiro longa, com roteiro baseado na história original de Lúcio Cardoso, o grande escritor mineiro que teve ainda outros livros adaptados pelo cineasta, "A casa assassinada", 1970, e "O viajante", 1998, fechando a chamada "trilogia das paixões". "Mãos vazias", seu romance de 1938, foi transposto ao cinema por Luiz Carlos Lacerda, em 1971, um dos filmes que mais me impressionou na adolescência.

"Porto das Caixas", é um dos filmes seminais do movimento Cinema Novo. Nessa época foi assinado o Manifesto Cinemanovista, juntamente com Glauber, Alex Viany, Nelson Pereira dos Santos, Joaquim Pedro de Andrade, Cacá Diegues, Ruy Guerra...

É um dos mais belos filmes do cinema brasileiro. O clima da cidade do interior, a quietude e decadência de fábricas paradas, um convento em ruínas, o barulho enferrujado de uma estação de trem, um parque de diversões vazio, são alguns elementos que dão grande força poética ao tratamento cinematográfico de Saraceni, em que pese o enredo trágico da história.

A primeira vez que assisti a "Porto das Caixas", pareceu-me estar diante de um exemplar neo-realista. A presença de Reginaldo Faria e Irma Alvarez no elenco, a câmera de Mário Carneiro e os longos planos, a música de Tom Jobim, realçam a composição de um cinema que ousava com uma proposta diferente do que se via nas produções da Atlântida e Vera Cruz.

Paulo César Sareceni foi embora ontem para outros portos, aos 78 anos.

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