terça-feira, 15 de novembro de 2011

e o palhaço, o que é?

A primeira lembrança que se pode ter ao assistir o filme “O palhaço”, de Selton Mello, é justamente “Os palhaços”, que Federico Fellini realizou em 1970. Mas a citação, por analogia ou semelhança, para por aí. O diretor italiano fez então um quase documentário, originalmente para a televisão, indo pelo mundo com sua equipe atrás dos palhaços do passado, dos clowns que lhe marcaram.

Selton Mello diz que se inspirou no personagem de Renato Aragão, o trapalhão Didi Mocó, para escrever o roteiro do seu segundo longa-metragem. Pode ser um ponto de partida pessoal, mas as referências desse belo filme são muitos personagens clowns que o cinema versou, de Buster Keaton a Jacques Tati, passando, claro, pelo Carlitos de Charles Chaplin, como menção primitiva, e até mesmo conceitual. A modelagem do personagem concebido por Selton Mello se faz, na verdade, do que caracterizou a alma que o genial Chaplin dissecou em sua mais conhecida criação: a solidão do palhaço. A solidão que humaniza, a desesperança que questiona, a tristeza que não mata – nem morre. No filme em comentário, podemos encontrar um pouco de cada um desses clowns que o cinema, ao longo da sua história e matinês, guardou em nossa memória afetiva. E com todas essas prováveis alusões, magnificamente o palhaço Pangaré de Selton Mello, tem vida própria, tem sua solidão pessoal e intransferível.

Na história, um circo mambembe – não à toa chamado Esperança – caminha atrás de sua platéia pelo interior do Brasil, mais exatamente pelo sertão roseano de Minas Gerais. A paisagem é atemporal e em cada cidadezinha, o circo levanta sua lona e repete as mesmas piadas nos espetáculos, trazendo o riso, o encantamento e os trocados dos moradores. Estão lá alguns dos elementos que compõem um grupo teatral volante em condições precárias: o anão, a mulher gorda, os músicos desafinados, os mágicos fajutos, a bailarina sedutora... e, claro, o palhaço, no caso, dois. Paulo José, na pele, ou maquiagem, do palhaço Puro Sangue, mantém uma química contínua como pai de Pangaré. E Pangaré é o triste Benjamin. E o filme é Benjamin.  Os enquadramentos estáticos do personagem, a demora necessária de planos no rosto abatido de Benjamin, é o melhor da pulsação narrativa que o diretor imprimiu ao seu trabalho.  A razão do filme está justamente nesses momentos. A alma do filme está nesses enquadramentos. “O palhaço” tem uma concepção minimalista. E, por essência, cada gesto, cada extensão de silêncio, se define na imagem. E se há a palavra, ela faz parte do silêncio que a imagem apresenta.

A trilha sonora remete a alguns clássicos do neo-realismo. A fotografia de uma beleza crua e ao mesmo tempo poética, ilumina uma paisagem rural e humana que lembra as andanças de trupes na geografia sérvia.  As atuações especiais de Moacir Franco, Jorge Loredo, Tonico Pereira e o comediante Ferrugem, respectivamente como o delegado, o contador de piadas, o mecânico e o funcionário do cartório, dão ao filme o brilho que o diretor soube muito bem pontuar.

Selton Mello estreou em 2008 em longa com “Feliz Natal”, um filme denso e de direção segura.  E agora reforça sua sensibilidade, e, sobretudo, sua personalidade como diretor.

Um filme singular na recente safra do cinema brasileiro. É isso o que “O palhaço” é.

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