quinta-feira, 25 de agosto de 2011

a última esperança da Terra

Esta cena da foto é o final do filme "O planeta dos macacos". Considero uma das imagens mais impactantes que já vi na história do cinema.  Foi essa  sensação de espanto,  de choque,  de assombro que senti quando, menino, assisti ao filme de Franklin J. Schaffner, em 1968, no magestoso cine São Luiz, em Fortaleza. E essa impressão de pavor ainda me causa quando revejo o filme.

O enredo, baseado no livro de ficção científica de Pierre Boulle, conta a história de uma tripulação espacial, que depois de muito tempo hibernada na nave, pousa num planeta parecido com a Terra, dominado por uma civilização de macacos, já no adiantado e inimaginável ano 3900. Como creio que todos conhecem o filme, não seria estragar a surpresa, e dizer que o planeta é a própria Terra, sem vestígios de seres humanos, e numa curiosa inversão, tem o símios como seres inteligentes, poderosos, e, como nada é perfeito, bélicos.

Charlton Heston, que tinha a minha admiração até me conscientizar do ator cretino que se manifestou com sua adoração às armas, era o astronauta George Taylor,  sobrevivente que enfrentava a raça dos macacos falantes em busca de respostas para aquilo tudo. Heston, que já tinha sido “salvador da humanidade” como Moisés em “Os dez mandamentos”, o lendário herói espanhol  em “El Cid”, o judeu libertário em “Ben Hur”, e em muitos outros filmes, como “A última esperança da Terra”, não foi à toa que a Century Fox o escalou para mais um papel de Messias-reloaded.

Depois de muito embate com os macacos, Taylor numa fuga que extasiava a plateia, em desesperado galope à beira-mar, dá de cara com a estátua da Liberdade, afundada parcialmente na areia, a tocha apagada em suspiro final. Repito: a cena é impactante. O personagem ajoelha-se e sucumbe à dor. A imagem resume toda a certeza que a humanidade estava ali disseminada, coagulada na mais grave desesperança. O que Hollywood, como fábrica mágica de sonhos e pesadelos, explicitou em inúmeras sequências de destruição de alguns filmes interessantes e muitos outros desprezíveis, “elipsou” o apocalipse numa cena extremamente simbólica, não somente por sabermos da cidade de Nova Iorque acabada e sumida do mapa, mas de toda a população da Terra literalmente enterrada com a estátua presenteada pelos franceses, e, sobretudo, um certificado anti-Guerra  Fria, por que não?

Lembro-me que saí do cine São Luiz pequeno e amedrontado pelas ruas do centro de Fortaleza, querendo chegar logo em casa. Aquilo seria possível? Olho ao redor deste mundão, e não duvido. O planeta explode diariamente em meio a paz que regamos para os nossos filhos. O homem avança na maravilha da tecnologia enquanto diametralmente regride na brutalidade da ganância pessoal, da prepotência imperialista, no desprezo ao próximo. É assustador, sim.

“O planeta dos macacos” teve quatro continuações,  razoáveis, mas sem o mesmo impacto, explorando o mais do mesmo, estendendo-se até em série na TV. Em 2001, o assanhado Tim Burton fez um remake lamentável,  cheio de malabarismos digitais,  mais parecendo um vídeo-game.

Amanhã estréia no Brasil a refilmagem digirida pelo inglês Rupert Wyatt, “Planeta dos macacos: a origem.”  O trailer desperta atenção.  Resta saber em que praia enterraram a Liberdade.

2 comentários:

Adriana Horta Fernandes disse...

" Resta saber em que praia enterraram a Liberdade" ...a frase me causou impacto semelhante à cena do filme, que vi na TV, nos anos 70. Suspeito que tenha que esperar pelo menos mais quatro décadas para arriscar uma resposta...a menos que nós, macacos que somos, possamos achar em nosso próprio avesso uma faísca que seja dos sonhos de outrora.

Cristina disse...

Resta saber onde a Terra vai parar...
"Chegará o dia em que os homens conhecerão o íntimo dos animais, e nesse dia, um crime contra um animal será um crime contra a humanidade" - Leonardo Da Vinci