domingo, 28 de junho de 2009

filosofia a 24 quadros

"Asas do desejo", de Wim Wenders (Der Himmel über Berlin), 1987

"Os filmes trazem filosofia não só no conteúdo, mas também nos recursos que deles se utiliza o diretor para contar uma história. Não são só os cineastas como Bergman que se enquadram nisso. A filosofia é estilo, é a forma como se usa uma câmera, como se conta uma história. A possibilidade de mudar a maneira de ver das pessoas já é filosófica. Por isso, o cinema não é só uma ilustração de idéias pré-concebidas. O cinema também gera idéias."


Júlio Cabrera, filósofo e professor da Universidade de Brasília, autor de "O cinema pensa", Ed. Rocco, 2006, e "De Hitchcock a Greenaway — Pela história da filosofia, novas reflexões", Ed. Nankim, 2007.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

o eterno Billie Jean

foto LastFM

Quando Madonna veio ao Brasil recentemente, pensei “se fosse o Michael Jackson daria um jeito de ir ao Rio..." Não sou de me despedaçar por nenhum artista, mas alguns internacionais merecem pelo menos calcular o esforço de sair de Brasília e ir ao Rio ou São Paulo assistir ao show. Nomes como Tom Waits, Dead Can Dance, Yello, B.B. King, Bob Dylan, Chuck Berry, Roger Waters, Leonard Cohen, Morphine, Nick Cave, Keith Richards (não exatamente o Rolling Stones), Amy Winehouse... e o maior astro pop, Michael Jackson.

Estava lendo na internet sobre a morte da "pantera" Farrah Fawcett quando me deparei com a notícia de Michael Jackson. No final do ano passado o jornal inglês The Sun publicou uma matéria em que o biógrafo do cantor, Ian Halperin, dizia que ele sofria de uma doença genética que o deixou parcialmente cego do olho esquerdo, além de precisar de um transplante de pulmão, e, o que era pior, um sangramento gastrointestinal que os médicos tinham dificuldade para controlar, o que poderia matá-lo. A morte dele ontem foi anunciada ainda envolta em mistério. Parada cardíaca, provocada por abuso de medicamentos é o que está sendo divulgado. Mesmo sabendo da debilidade da saúde de Michael Jackson, todos ficaram surpresos e comovidos com a notícia. Eu fiquei. Estou.

Michael Jackson foi o maior cantor e ídolo da música pop. Um dos seus melhores discos, "Thriller", de 1983, consolida a indústria fonográfica, e praticamente revoluciona a linguagem e a estética do videoclipe. Nesse disco está uma das belas canções dos últimos tempos, pela sua musicalidade alegre e dançante, "Billie Jean". De certa forma, ela soa diferente do mundo exótico de Michael. É uma simples linha rítmica composta em uma bateria, um determinante baixo que dá potência e uniformidade à música, tudo com o auxílio luxuoso dos arranjos e produção do maestro Quincy Jones. "Billie Jean" é um clássico contemporâneo. Caetano Veloso, no disco de 1986, fez um ótimo medley de "Billie Jean" com o samba "Nega maluca", de Fernando Lobo e Ewaldo Ruy, e "Eleanor Rigby", de Lennon e McCartney.

Michael estava às vésperas de iniciar uma turnê com cinquenta shows pelo mundo, começando por Londres - e eu torcia pra que viesse ao Brasil. A imprensa propagava como uma reviravolta em sua carreira, por conta da decaída na última década, envolvimentos em escândalos e a sempre questionada transformação física. Acredito que seria uma volta triunfante, ele nunca deixou de ser ouvido, adorado, reverenciado pelo mundo inteiro. Os ingressos para o show em Londres já estavam esgotados, e seria assim por onde passasse, Billie Jean.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Legrand no verão de 42

foto Dan Porges

Assisti ontem à apresentação do pianista, arranjador e compositor francês Michel Legrand, aqui em Brasília. Do alto dos seus 77 anos de idade o músico esbanjou simpatia e o talento de sempre.
Suas composições têm a sofisticação apaixonante do jazz; nomes como Miles Davies, John Coltrane e Bill Evans começaram com ele lá pela década de 50.

Mas foi compondo trilhas sonoras para o cinema que Michel Legrand marcou sua carreira e ganhou três Oscars. Fui impulsionado para o show para ver e ouvir de perto o compositor das músicas de clássicos como "Lola", "Os guardas-chuvas do amor" e "Duas garotas românticas", todos de Jacques Demmy, "Crown, o magnífico", de Norman Jewison, os filmes de Claude Lelouch, como "Um homem, uma mulher" e "Os miseráveis", "Yentl", de Barbra Streisand, e entre outras trilhas, a que mais tenho na memória, "Houve uma vez um verão" (Summer of 42), filme que Robert Mullingan dirigiu em 1971.

Como diz no título original, no verão de 1942, três amigos vão passar as férias com seus pais numa pequena ilha da Nova Inglaterra. Assim como qualquer adolescente na faixa dos 15 anos, os três estão começando a descobrir sua sexualidade, e cada um deles tem uma visão diferente sobre a tão aguardada primeira vez. Numa casa afastada, encontram uma jovem de vinte e poucos anos, recém-casada com um militar que aguarda o momento de partir para o front europeu da 2ª Guerra Mundial. E é por ela que um dos garotos se apaixona. O filme é de uma extrema sensibilidade. A jovem é a bela Jennifer O'Neill, por quem também me apaixonei. Pois é, assisti a esse filme várias vezes na majestosa tela do cine São Luiz em Fortaleza, só pra me encontrar com ela. Eu, adolescente como o personagem, vivi aquela paixão impossível, distante, platônica. O carinha lá tinha a chance de estar perto de Jennifer, era o protagonista, teve a vez dele, eu não. O máximo de proximidade que tive com Jennifer O'Neill foi saber que somos brasileiros: a atriz por acaso nasceu no Rio de Janeiro, quando seus pais, um espanhol e uma inglesa, estavam de férias na cidade maravilhosa.

A música de Michel Legrand em "Summer of 42" acompanha o drama do adolescente, desde a abertura dos letreiros, e se sobressai sem incomodar a narrativa. Não revi mais o filme, e me reencontrei com Jennifer em um ou outro filme sem muita expressão - o filme, ela continua encantadora alguns verões depois.

terça-feira, 16 de junho de 2009

inéditos de Kafka


Quando Franz Kafka morreu, em 1928, aos 41 anos, seu amigo e também escritor Max Brod, tornou-se seu biógrafo e testamenteiro. Organizou e publicou muitos de seus escritos, entre eles "Amerika" e "Narrativas do espólio". É dele "Franz Kafka, a biografia", publicada em 1934 e reeditada quarenta anos depois, em 1974.

Poucos, pouquíssimos conheceram tão bem o escritor tcheco quanto Max Brod. Há quem o considere um canalha traidor, porque Kafka o pediu, no leito de morte, que queimasse seus papéis pessoais e obras incompletas, por considerar sem muita qualidade.

Max Brod prometeu mas não atendeu o pedido do amigo. E a "traição" trouxe à Literatura obras como "O processo" e "O castelo". Obras que muitas vezes foram lidas, nos originais, pelo autor ao amigo e alguns poucos mais chegados. Kafka era de uma timidez patológica, e Max Brod não descansou enquanto não publicou os inéditos e lhe dedicou uma biografia.

Não, não o considero um canalha traidor.

Max Brod morreu 40 anos depois de Kafka, no final de 1968, em Tel Aviv, Israel, onde morava.

Com ele ficaram mais de 40 volumes com documentos, cartões postais e objetos pessoais do escritor. Relíquias que não foram levadas à público, e que continuaram em segredo nas mãos da secretária de Brod, Esther Holfe.

Essa senhora faleceu recentemente, aos 101 anos de idade, lá mesmo em Israel. Foram outros cabalísticos 40 anos após a morte do patrão.

Estudiosos de Kafka temem pela estado físico desse tesouro. Esther Holfe morava em um apartamento úmido, mal cuidado, ao lado de cachorros, gatos, e quem sabe, baratas kafkanianas. Nada mais irônico.

Acompanho pela internet alguma notícia da revelação desses inéditos de Kafka, esperando que tenham sobrevividos aos processos de metamorfoses...

Na foto acima, Jeremy Irons numa cena de "Kafka", excelente filme que Steven Soderbergh dirigiu em 1991.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

A travessia do golpe

foto Arquivo NV

O golpe militar de 1964 é um assunto que sempre me interessou. Em 1999 realizei um curta-metragem de ficção, "O último dia de sol", que se passa no dia seguinte ao golpe, 1º de abril, e narra a fuga de um militante político no interior cearense. Tenho outros projetos sobre o tema, que considero inesgotável. Filmes recentes como "Cabra cega", de Toni Venturi, "Hércules 56", de Silvio Da Rin, "Batismo de Sangue", de Helvécio Ratton, são exemplos que esse período na história do Brasil precisa ser revisitado em seus mais diversos ângulos.

Hoje estreia na TV Brasil, às 20h30, a minissérie "Travessia", em que aborda pessoas que viveram dramas particulares em consequência do golpe, como elas enfrentaram a ditadura, a vida após a anistia e o que pensam do Brasil de agora. Dirigida pelo cineasta João Batista de Andrade, as histórias são ilustradas por imagens de época e depoimentos de anônimos e personalidades como o teatrólogo Augusto Boal, recentemente falecido, o compositor da Bossa Nova Carlos Lira, o ex-ministro do Trabalho de Jango, Almino Afonso, e a organizadora das marchas da família, Maria Paula Caetano. Esses dois últimos estão focalizados no epísódio de hoje, "O conflito", em que apresenta os fatos que marcaram o período anterior ao golpe.

domingo, 14 de junho de 2009

rock tremendão



"Ouço tudo, tudo me chama a atenção. Mas nada nunca mais me tirou do sério. As únicas coisas que me fizeram isso foram 'Rock around the clock', com Bill Haley & his Comets, porque nunca tinha ouvido uma coisa assim, e 'Sgt,. Pepper's', dos Beatles, que mudaram tudo. O resto é evolução do que já existe."

Olha aí o Tremendão Erasmo Carlos falando certo, certíssimo! Desde as despreocupadas tardes de domingo da Jovem Guarda, que o grandalhão roqueiro tijucano diz coisa com coisa, sim.
Erasmo era o badboy daquela turma, ao contrário do parceiro Roberto, com seu eterno ar de moço bom. Pose pra capa de disco ou não, Erasmo se manteve autêntico, com boas letras, boas melodias, e sobreviveu ao natural apagão do iê-iê-iê, com bons discos nas décadas de 70 a 90, com um e outro não tão inspirados. "Carlos, Erasmo", de 1971 é um bolachão essencial, assim como "Banda dos contentes", seis anos depois. São quase 30 discos de 1965, quando lançou o aparentemente ingênuo "A pescaria", até esse recente, "Rock 'n' roll", lançado no último dia 5, quando completou 68 anos de idade. É... nossos ídolos estão envelhecendo, revelando assim nossas bem ou mal traçadas linhas no tempo. Mas como diz o belo título do livro do poeta mineiro Márcio Borges, "Os sonhos não envelhecem", Erasmo chega aí todo de preto empunhando sua guitarra, com o som do seu rockzinho antigo que não tem perigo de ferir ninguém...

Produzido por Liminha e com 12 faixas em parceria com Nelson Motta, Nando Reis e Chico Amaral, o disco não é rigorosamente roquenrou do começo ao fim, como sugere o título. Mas tem nas canções a essência do rock, em sua tempestade e calmaria. Gostei das letras, da criatividade com simplicidade que costuram os versos.

Como ele mesmo confessa na ótima "Cover" ("eu sou meu cover, cover de mim"), o disco é exatamente autêntico por ser evolução do que existe.

terça-feira, 9 de junho de 2009

BriqueDIM

foto Rubens Venancio. Cartaz Rui Ferreira/Cabessa Central Multimídia

Em 2007 dirigi um documentário, em curta-metragem, sobre o artista plástico cearense Antonio Jader Pereira, ou bem melhor, Dim, como assina, como é conhecido, como é chamado, como é querido.

Conheci Dim em 1998, quando trabalhou na equipe de cenografia do meu filme "O último dia de sol". Com uma maestria impressionante em carpintaria ele recompôs um velho vagão de trem para que se tornasse um daqueles de 1964, época em que se passava a história.


De lá para cá nos tornamos amigos, e por armação do destino, vizinhos, quando veio morar em Brasília. Foi quando mais nos aproximamos e surgiu a idéia do documentário.
Sempre que podia, estava no seu atelier, acompanhando suas mãos mágicas na confecção de uma peça, na fascinante explosão de cores de um quadro, isso enquanto ouvíamos a Rádio Senado e ríamos dos discursos absurdos de suas excelências. E o melhor ainda era ouvir as histórias que o Dim contava, de sua infância na bela cidade sertão-litoral Camocim, dos personagens verdadeiros que habitavam o coração do menino observador e sapeca. E um dia falei, de súbito, "cara, tua vida dá um filme".

Ele levou à risca meu comentário e tempos depois, de cara, de supetão: "se eu conseguir a grana, você faz o filme?". "Claro." Escrevi o roteiro, ele conseguiu a grana, vendendo seus quadros, um apoio daqui e dali, colocou projeto na Secretaria de Cultura do Ceará e seguimos pra Camocim e Pindoretama, onde hoje mora, a 40 quilômetros de Fortaleza.

O filme, "Dim", foi selecionado para o 18º Cine Ceará Festival Ibero-americano de Cinema e Vídeo, 4º Curta Canoa Festival Latino de Cinema e Video e 8ª Mostra Curta Taguatinga de Cinema e Video, além de exibições em escolas e eventos audiovisuais.

A lembrança desse trabalho, que tive o prazer de realizar, veio-me agora ao ler uma ótima matéria sobre o Dim no blog da Folhinha, página virtual da Folha de São Paulo, que se destina a interação das crianças com o suplemento publicado aos sábados no jornal. Na matéria tem reprodução de alguns de seus trabalhos.