sexta-feira, 21 de novembro de 2008

o Siri-Ará de Rosemberg

Everaldo Pontes em "Siri-Ará", de Rosemberg Cariry. Foto Iluminura Filmes

Cioran é um mestiço brasileiro que, depois do exílio na França, resolve voltar ao sertão, em busca da sua origem e da história do seu povo. Por guia, ele toma a figura misteriosa de uma velha índia. O destino de Cioran, que vive um novo exílio na nação real/imaginada, cruza com os guerreiros do reisado e os índios da banda de pífanos, grupos de folguedos dramáticos populares que vagam pelo sertão. Os conflitos entre o Reisado e a banda de pífanos remetem à tragédia fundadora do Ceará, quando Dom Pero Coelho, no ano de 1603, em busca do Eldorado, encontra a guerra, a peste, a fome e a loucura.

Em poucas palavras é essa a proposta de "Siri-Ará", oitavo longa-metragem de Rosemberg Cariry, que será exibido hoje à noite na competição do 41º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. O filme é uma reflexão sobre os encontros e desencontros dos “mundos” que marcam a invenção da nação brasileira.

Tive o prazer de ser assistente de direção de Rosemberg em "Corisco e Dadá" e em alguns curtas-metragens. É um dos cineastas mais dedicados ao estudo da cultura nordestina. Conversar com ele sobre o tema não dá: o bom é somente ouví-lo. E está sempre se renovando na busca de compreender e divulgar nossa história. Seus filmes estabelecem uma poética ligação entre o erudito e o popular, característica que o identifica como um diretor que sabe fazer o caminho do particular para o universal.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

sem meios-termos

foto Cris Berrenbach / Divulgação


“Sempre comentam que Brasília tem um público ativo. Acho isso muito interessante. Este não é um filme para ser ovacionado no meio da projeção. Mas eu detestaria uma sessão apática”

A espectativa é do cineasta paulista Kiko Goifman, diretor do longa "FilmeFobia", que será exibido hoje na segunda noite do 41º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

O filme mostra o diretor de um documentário que explora os limites psicológicos, contrapondo a fobia das pessoas com situações fortes, emocionalmente violentas. A principal idéia do diretor do documentário que acontece dentro do filme é que a única imagem verdadeiramente autêntica, real e convincente é a de um ser humano em contato com a sua própria fobia. Os gestos erráticos, desesperados e fora de controle dos fóbicos trariam a verdade da imagem. "FilmeFobia" se constrói como um making of desse documentário fictício.

Depois de filmes polêmicos como "Amarelo manga" e "Baixio das bestas", ambos de Cláudio Assis, e "Cama de gato", de Alexandre Stockler, exibidos em festivais anteriores, a platéia de hoje no cine Brasília não decepcionará mais uma vez, não ficará quietinha, com certeza. O Festival de Brasília tem um público ativo, que aplaude e vaia na mesma proporção e intensidade. Essa interatividade manisfesta-se tanto durante as exibições dos filmes quanto nos debates e na solenidade de encerramento. Ninguém escapa, não se sai premiado ou esquecido impunemente. O cineasta precisa ir com uma reserva de adrenalina pra esse contato direto com um público que tem seus meios e muitos termos.

domingo, 16 de novembro de 2008

o poeta da angústia

foto FilmKultúra


"Um filme não precisa ser entendido, basta que seja sentido".



A frase é do italiano Michelangelo Antonioni, chamado de o cineasta da incomunicabilidade. Prefiro considerá-lo o poeta da angústia. Ou mesmo da modernidade, como bem dizia o seu compatriota Walter Veltroni, um dos mais apurados críticos de cinema, outra espécie em extinção, infelizmente.

Antonioni não segurou a solidão neste mundo cheio de poucos bons cineastas e seguiu atrás de Ingmar Bergman, falecido em julho do ano passado. Tinha 94 anos e morreu numa segunda-feira à noite, na tranquilidade de sua casa, sentado numa poltrona, ao lado da esposa Enrica Fico, como numa cena dirigida por ele.

É difícil escolher somente um ou dois filmes bons desses mestres que se vão e deixam o cinema órfão.

Antonioni dizia que se esforçava em exigir do ator o seu instinto mais do que seu cérebro. É exatamente isso que sentimos ao adentrar na tela quando assistimos "A noite" (La notte), de 1960, "O eclipse" (L'Eclisse), de 61, ou "O deserto vermelho" (Il deserto rosso), de 64. Ou ainda o clássico "Blow-up", de 67, ou a viagem psicodélica de "Zabriskie point", no sintomático ano de 1969. Ou ainda "O passageiro - Profissão: repórter" (The passenger), 1975, um dos pouquíssimos filmes em que Jack Nicholson não faz o papel de Jack Nicholson.

O cinema de Antonioni é marcado pela obsessão da imagem e a busca de uma linguagem formal e estética, com cenas longas e lentas, o que servia para indagar o interior de suas personagens, num espaço enigmático. Comunicava-se com sua câmera com a incomunicabilidade desses personagens.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

black is beautiful

foto Aguy

Uma reflexão sobre como na língua o negro está manchado irremediavelmente é oportunizada com a chegada de Obama ao poder. É o que propõe a jornalista Sandra Russo, do jornal argentino Página/12, sugerindo que se estabeleçam algumas normas que permitam àqueles que trabalham com a responsabilidade da informação um necessário cuidado com a linguagem.

Sandra lembra que a reflexão consta de consagrada letra do músico colombiano Andrés Landera, cujo título é bastante eloqüente: “O que acontecerá quando o negro for belo?”. O questionamento de Landera é pertinente face à enorme quantidade de conotações pejorativas, depreciativas e discriminatórias que nos proporciona a fala quotidiana para nos referirmos ao negro.

Os negros são aqueles que têm a pele da mesma cor que tudo o que nos espanta. Qualquer dia da semana inocente se assenta na catástrofe ou na tragédia quando se lhe agrega o adjetivo “negro”, como: “uma quarta-feira negra para as bolsas”. O negro, como a esquerda, diz Sandra, foi deslocado na língua para zonas obscuras e miseráveis. O branco conota pureza o negro traz a idéia de sujeira.

Enquanto o branco é o vestido da noiva, negras são as vestes da viúva. Do mesmo modo, atuar pela esquerda é fazer trapaça, corromper-se, delinqüir. Ir pela direita, em troca, é ser frontal, ter coragem, paciência, moral. E a história ocidental está escrita por uma mão branca.

É compreensível o pipocar de alegria com a eleição de um afro-americano. Boa ocasião para rever as costuras da nossa língua. Mas, Colin Powell e Condoleeza Rice foram negros aceitos por esquecerem quem eram. Melhor torcer por Obama pelo que prometeu fazer. Não por sua negritude.


Transcrito de o Boletim H S Liberal

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

contemplação crítica

foto Moviemobz

"A natureza nunca faz nada apenas para ser decorativo"


Uma das falas do personagem Fiona, vivida com extrema sensibilidade pela atriz britânica Julie Christie no filme "Longe dela" (Away from her), primeiro longa de Sarah Polley.

Baseado no livro de Alice Munro, conta a história de um casal sexagenário abalado pelo mal de Alzheimer que atinge a mulher. O filme é tocante em todos os momentos, sem cair na esparrela do pieguismo. Muito se deve às atuações da sempre ótima Julie Christie, que nem aparenta 67 anos de idade, e pelo pouco conhecido ator canadense Gordon Pinsent. Lembro-me dele em seu primeiro filme, num pequeno papel em "Crown, o magnífico" (The Thomas Crown affair), de Norman Jewison, e mais recentemente em "Chegadas e partidas" (The Shipping News), que o sueco Lars Hallström rodou nos Estados Unidos em 2001.

Julie Christie foi indicada ao Oscar deste ano e perdeu para Marion Cotillard que viveu a cantora francesa em "Piaf: um hino ao amor". Escolha difícil: eram as melhores das cinco concorrentes na categoria. Prefiro Julie Christie que mantém a delicadeza e precisão da personagem em todo o filme, enquanto Marion esbarra na caricatura em alguns momentos.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

proibido proibir


Depois da absurdo da proibição, recolhimento das livrarias e inceneração do livro "Roberto Carlos em detalhes", ano passado, mais uma obra literária está ameaçada pela censura dessa gente hipócrita, careta e covarde. A autobiografia do produtor musical André Midani, "Música, ídolos e poder - do vinil ao download", lançada mês passado pela editora Nova Fronteira, corre sério risco de ser banida das prateleiras.

Seguinte: a família de Enrique Lebendiger, que foi proprietário da gravadora RGE, exige que a venda nas livrarias seja proibida. Por que? Porque o autor escreveu que o senhor Lebendiger, "era figura exótica que não tinha capacidade nem seriedade profissional para acompanhar a carreira de um profissional do calibre de Chico Buarque".

Não conheci o tal Enrique Lebendiger, mas acompanhei esses anos todos a carreira de André Midani, competente profissional que atuou como executivo no mercado fonográfico brasileiro, passando por gravadoras de peso como a Odeon, Phonogran, WEA. A música brasileira deve muito a ele. Desde da década de 50, esse sírio de nascimento tem lugar privilegiado nos bastidores da nossa música. E não por acaso, é conhecedor de todos os meandros que envolvem a indústria do disco. Se está equivocado quanto à capacidade do ex-dono da RGE, os senhores herdeiros têm todo o direito de reclamar, claro. Agora, proibir a venda do livro é de uma estupidez medieval. Censurar, há ainda quem se atreva, sim!

Ao contrário da editora do livro biográfico de Roberto Carlos, a Planeta, que simplesmente abandonou o autor Paulo César de Araújo no embargo com o "rei", a Nova Fronteira está propondo um acordo à família, comprometendo-se a retirar das próximas edições o trecho que desagrada aos queixumeiros. Tudo bem, é uma atitude que busca uma solução pacífica. Mas continua uma censura em termos e meios.

Ah, em tempo: Midani está presente nos discos da Bossa Nova à Tropicália, dos principais grupos de rock das décadas 70, 80 e 90, nos festivais de música. Ele reuniu um número importante de cantoras, cantores e bandas. De todos os grandes, o único que não esteve sob a sua condução foi o "rei" Roberto Carlos, aquele que é uma brasa, mora! e manda queimar livros.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

terça-feira, 4 de novembro de 2008

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

meditando com David Lynch

foto Reuters Pictures

O sempre surpreendente cineasta americano David Lynch será o entrevistado de hoje no programa Roda Viva, às 22h40, pelos canais abertos das tvs Cultura e Brasil.

O diretor de filmes esquisitos e magníficos, como "Veludo azul" (Blue velvet), 1986, "Cidade dos sonhos" (Mullohand drive), de 2001, e o recente "Império dos sonhos" (Inland empire), 2006, é um artista multifacetário, igualmente talentoso como fotógrafo, artista plástico e escritor.

Esteve há dois meses no Brasil para o lançamento de “Águas profundas: criatividade e meditação”, uma compilação de vários textos que define como uma espécie de "auto-ajuda" para difundir a paz mundial. Em se tratando de David Lynch é recomendável levar a sério o que chama de "auto-ajuda".

Ainda não li o livro, mas até onde me informei, trata-se de questionamentos sobre o sofrimento, tensão, raiva, conflitos no mundo em que vivemos, em um tom autobiográfico. Gosto de uma frase dele em que diz "o cineasta não tem que sofrer para mostrar o sofrimento, deixe o sofrimento para os seus personagens'' . Basta ver os filmes dele que mesmo mentindo devo acreditar.