sexta-feira, 23 de maio de 2008

uma grande alma

foto Greg Toland

- Uma pessoa não tem uma alma própria, só um pedaço de uma grande alma. Uma grande alma que pertence a todos. E então...

- Então, o quê?

- Eu estarei nos cantos escuros. Estarei em todo lugar. Onde quer que olhe. Onde houver uma luta para que os famintos possam comer, eu estarei lá. Onde houver um policial surrando um sujeito, eu estarei lá. Estarei onde os homens gritam quando estão enlouquecidos. Estarei onde as crianças riem quando estão com fome e sabem que o jantar está pronto. E, quando as pessoas estiverem comendo o que plantaram e vivendo nas casas que construíram, eu também estarei lá.”

- Não compreendo.

- Nem eu, mas é uma coisa em que tenho andado pensando.

- Dê-me a sua mão.

- Adeus.

- Depois, quando isto passar, há de voltar.

- Claro, mãe.

- Não somos dados a beijinhos, mas...

- Adeus, mãe.

- Adeus.

Diálogo de uma das cenas mais emocionantes da história do cinema. Nos minutos finais de "As vinhas da ira" (The grapes of wrath), de John Ford, o filho, marcante interpretação de Henry Fonda, se despede da mãe, fugindo da miséria, da injustiça, em busca de uma nova vida.

O filme, de 1940, relata a história de uma família pobre do estado de Oklahoma, que durante a Grande Depressão de 1929, vê-se obrigada a abandonar suas terras e partir para um novo mundo, na Califórnia, em busca de melhores condições para viver.
Ludibriados por falsas promessas, a família toda parte em um velho caminhão pela Route 66, em uma jornada em que nada pode ser previsto. Um road-movie diferente.

Difícil dizer se é o melhor filme de John Ford. Sua filmografia é pontuada de obras-primas, verdadeiros exemplos do que há de significante na cinematografia mundial. Mas é, sem dúvida, um filme destacável entre os melhores. Comovente e tocante.

O roteiro é fielmente baseado no romance homônimo de John Steinbeck, retrato épico do desapiedado conflito entre os poderosos e aqueles que nada têm, do modo como um homem pode reagir à injustiça, e também da força tranqüila e estóica de uma mulher, no caso, a mãe, magnificamente vivida na tela por Jane Darwell.

Assim como o filme é um dos clássicos do cinema, "As vinhas da ira" é um marco da literatura norte-americana. Os dois, pedaços de uma grande alma.

domingo, 18 de maio de 2008

o dito cujo do mesmo



Essa plaquinha da foto está no prédio onde moro e em muitos outros residenciais e de trabalho, espalhados por todo este meu Brasil brasileiro.

À parte a boa intenção e necessidade para a segurança de todos nós, o texto é de um absurdo impressionante. A língua portuguesa despenca elevador abaixo, sem piedade.

Há três erros: dois de gramática e um de lógica.

Apertem o botão e vamos a eles. Subindo:

- Mesmo é desnecessário para substituir o termo referido antes, elevador. O certo é o pronome “ele”. Em linguística é o que se chama de função anafórica, quando uma expressão se refere a uma outra que ocorre na mesma frase.

- O se no verbo “encontrar” está no lugar errado. Como é função subordinativa, funciona como um imã, atraindo o verbo, devendo, portanto, estar antes dele. E mesmo assim, os dois são dispensáveis.

- Se o elevador não estiver no piso, naquele andar onde você está, como entrar nele?! O vocábulo elevador está sobrando, não tem sentido.

Resumo da ópera:

ANTES DE ENTRAR, VERIFIQUE SE O ELEVADOR ESTÁ NESTE ANDAR.

Esta é a frase correta. Comparem com a de cima. As palavras curtas são preferíveis às longas, economizam espaço e dá fluidez à leitura.

A famigerada plaquinha é resultado de uma lei distrital, de Brasília, número 3.112, de 2003. Não tinha um revisor naquele momento que visse a aberração no nascedouro? O pior é que o deputado federal paraense Raimundo dos Santos copiou a idéia e a frase, apresentou o projeto de lei ao Congresso, e, aprovado, tornou advertência obrigatória em todo o país.

E ficou por isso mesmo. Descendo.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

a imaginação da cegueira

foto APF

“O cinema destrói a imaginação.”

A afirmação é do escritor português José Saramago, ao justificar ao cineasta brasileiro Fernando Meirelles porque não liberava os direitos autorais do seu livro “Ensaio sobre a cequeira” para adaptação cinematográfica.

Isso aconteceu em 1998, três anos após o lançamento do romance, uma angustiante narrativa sobre uma epidemia de cegueira que de uma hora para a outra ataca a população de uma cidade. A única pessoa não atingida é justamente a esposa de um oftalmologista.

Mas Saramago sucumbiu aos "riscos" que seu livro poderia sofrer com a transposição para a linguagem cinematográfica, e em 2004 cedeu aos argumentos de Meirelles, já embalado pela repercussão internacional de “Cidade de Deus” e filmando “O jardineiro fiel”, ambos adaptados da literatura, respectivamente de Paulo Lins e John le Carré.

Realmente, a premissa de José Saramago é compreensível. A literatura conceitua-se numa cultura que combina pensamento, raciocínio, interpretação, provocando a imaginação. O cinema, como arte audiovisual, estimula o sensorial, a percepção mais pelos sentidos, o que não o torna um gênero menor, claro. Nem foi isso que o escritor quis dizer, ao resistir pela liberação de sua obra para as telas. São duas linguagens bastante distintas.

O filme foi feito, numa produção que envolve Brasil, Canadá, Reino Unido e Japão, com elenco que reúne Juliane Moore, Alice Braga, Gael Garcia Bernal, Mark Ruffalo e atores japoneses. Teve cenas rodadas em São Paulo e Canadá.

“Ensaio sobre a cegueira”, ou “Blindness", abriu ontem o Festival de Cannes. Leio na internet várias notícias sobre a repercussão do filme. Aplausos de uns, frieza de outros. Mas todas as observações iniciais têm em comum que o cineasta soube trabalhar com perfeição a imaginação do espectador, como por exemplo, o uso de uma fotografia estourada para dar o aspecto da cor branca que Saramago descreve como cegueira.

Por mais que o filme seja de difícil digestão, a história imaginada por Saramago não é nada agradável. Um livro para se refletir sob o ponto de vista patológico, e também sociológico e político. Um livro sobre a fragilidade humana. E isso creio que Fernando Meirelles soube muito bem imaginar para o filme.

Na foto acima, Julianne Moore e Mark Ruffalo.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

o ano que não acabou

foto Evandro Teixeira

Ontem, no programa que a TV Cultura dedicou ao louco e importantíssimo ano de 1968, o maestro Júlio Medaglia deu um depoimento que não confere com os fatos: ao defender o Tropicalismo e as conseqüências comportamentais que o movimento trouxe, disse que "Geraldo Vandré e suas canções de protesto não incomodaram o governo militar. Vandré nem foi preso. Já Caetano e Gil o foram".

Não foi bem assim, caro maestro. Sabe-se que a ditadura perseguiu tudo que vinha pela frente: tropicalistas, música popular brasileira, cinema, teatro, tudo que viesse caminhando e cantando em sentido contrário. Até os chamados cantores bregas sofreram nas costas de suas canções ingênuas e sinceras a peia dos generais de plantão. Vide o livro "Eu não sou cachorro, não", de Paulo César de Araújo.

Voltando a Vandré, o crítico de cinema Leon Cakoff, que trabalhou com o compositor paraibano, conta que ouviu de Caetano Veloso o testemunho de que os militares procuravam Vandré nas escolas, nas ruas, campos, construções, sem trégua, doidos pra esganá-lo.

Mais: o jornalista Enock Byron de Quevedo, que serviu ao Exército em Brasília, lá pelo final dos anos 60, relata que no quartel era ensinada uma outra lição: a letra de "Pra não dizer que não falei de flores", era colocada em grandes cartazes para os soldados armados, amados ou não, e desmentida categoricamente, verso a verso, em seu mais forte refrão.

Geraldo Vandré só não foi preso mesmo porque a família de Guimarães Rosa o escondeu em sua casa, no Rio de Janeiro. De lá fugiu para o Uruguai.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

o grão do tempo

foto Iluminura Filmes / Divulgação

Há uma cena no filme "O grão" de Petrus Cariry, em que a filha fala para a mãe, "e esse tempo que não passa...". As duas estão sentadas à beira de um rio, de costas para a câmera. O tempo é o grande personagem desse grande filme, dirigido pelo cineasta cearense, que estréia magnificamente no longa-metragem.

A contrário do que a garota diz, o tempo passa, sim, nos 88 minutos em que o diretor de forma elegante e poética narra as últimas horas da avó que prepara o neto para o sentimento de separação, a aceitação da perda, o incômodo da dor, contando uma história ambientada bem longe daquele cenário áspero do interior nordestino, sobre um rei e uma rainha, muito ricos e poderosos, que perderam seu único filho e sonham em trazê-lo de volta à vida. Paralelamente, no realismo das paredes caiadas, os pais trabalham com sacrifício para manter a casa, enquanto a filha mais velha almeja o sonho de um casamento de véu e grinalda.

Petrus fez um filme corajoso, acima de tudo. Sem atores conhecidos, sem a narrativa de video-clip, sem malabarismos digitais. Um filme sem concessões. A cumplicidade do diretor é com o cinema. O cinema propriamente dito, na sua essência e dramaturgia.

Como um Andrei Tarkovski do sertão, Petrus Cariry filma o tempo como raramente se vê nas atuais produções brasileiras. Planos longos que adentram não somente a alma de cada personagem, como também se embrenham no cerne e na substância interior da paisagem agreste. O tempo passa, sim, porque é através dessa narrativa criativa, precisa, e, repito, poética, que vemos a pulsação dos minutos, das horas, dos dias. Tudo que envolve e descreve a afirmativa do passado, a intimativa do presente e a estimativa do futuro daqueles personagens. A câmera de Petrus Cariry, num excepcional desenho de decupagem de planos e sequências, com uma belíssima fotografia de Ivo Lopes, debulha o tempo em grãos. Nada no filme sobra ou faz falta. Tudo se compõe no propósito de um trabalho que utiliza a opção de uma linguagem cinematograficamente pura.

Não à toa, a velha avó se chama Perpétua, como uma eternização do ser humano, que não finaliza um ciclo com o incômodo da morte.
Não à toa, a neta, aquela que acha que o tempo não passa, sonha com o casamento e seu vestido branco, como uma transposição para uma outra vida melhor, mesmo que seja na capital Fortaleza e com um marido que conserta bicicletas.
Não à toa, o pai se chama Damião, um dos santos gêmeos do calendário católico, que apesar de se originarem de pais nobres cristãos, no sincretismo, na relação com as religiões afro-brasileiras, significa "o popular", ou ainda, segundo a mitologia grega, tinha o poder de curar doenças e dar filhos às mulheres estéreis. O Damião do filme sustenta a família tangendo bode a 50 centavos de real por cabeça, e com esses trocados tenta curar a miséria diária da fome e manter a esperança naquela terra infecunda.

Não à toa, a mãe se chama Josefa, o que me faz lembrar a lenda da santa negra, que depois de morrer resistindo à violência do patrão que a assediava, do seu túmulo brotava sangue. Josefa no filme resiste à opressão cotidiana da miséria e mantém o equilíbrio da casa com o que circula e emana do seu coração de mãe.

Claro, essas referências até podem não ser deliberadas do diretor e dos roteiristas Rosemberg Cariry e Firmino Holanda. Mas um bom filme sempre está aberto a várias leituras que convergem para uma mesma definição.

Se há Tarkovski na contemplação crítica do tempo, há também Mário Peixoto de "Limite" no barco parcialmente afundado na beira do rio. Assim como há Nelson Pereira dos Santos na célula familiar que faz o percurso inverso, retirantes que são e estão no mesmo espaço, no mesmo chão sagrado. Mais Graciliano Ramos há ainda no cachorrinho, que não é a Baleia, mas tem nome de boi: Mu.
"O grão" ainda não foi lançado. Pecorre os festivais e mostras nacionais e internacionais, ganhando merecidamente prêmios, como o de melhor filme do Festival Viña Del Mar, no Chile.

No momento integra a programação da Mostra Ceará: Cinema & Luz, no Centro Cultural Banco do Brasil, em Brasília (1º a 18/5), Rio de Janeiro (6 a 25/5) e São Paulo (14/5 a 1º/6).