quinta-feira, 15 de maio de 2008

a imaginação da cegueira

foto APF

“O cinema destrói a imaginação.”

A afirmação é do escritor português José Saramago, ao justificar ao cineasta brasileiro Fernando Meirelles porque não liberava os direitos autorais do seu livro “Ensaio sobre a cequeira” para adaptação cinematográfica.

Isso aconteceu em 1998, três anos após o lançamento do romance, uma angustiante narrativa sobre uma epidemia de cegueira que de uma hora para a outra ataca a população de uma cidade. A única pessoa não atingida é justamente a esposa de um oftalmologista.

Mas Saramago sucumbiu aos "riscos" que seu livro poderia sofrer com a transposição para a linguagem cinematográfica, e em 2004 cedeu aos argumentos de Meirelles, já embalado pela repercussão internacional de “Cidade de Deus” e filmando “O jardineiro fiel”, ambos adaptados da literatura, respectivamente de Paulo Lins e John le Carré.

Realmente, a premissa de José Saramago é compreensível. A literatura conceitua-se numa cultura que combina pensamento, raciocínio, interpretação, provocando a imaginação. O cinema, como arte audiovisual, estimula o sensorial, a percepção mais pelos sentidos, o que não o torna um gênero menor, claro. Nem foi isso que o escritor quis dizer, ao resistir pela liberação de sua obra para as telas. São duas linguagens bastante distintas.

O filme foi feito, numa produção que envolve Brasil, Canadá, Reino Unido e Japão, com elenco que reúne Juliane Moore, Alice Braga, Gael Garcia Bernal, Mark Ruffalo e atores japoneses. Teve cenas rodadas em São Paulo e Canadá.

“Ensaio sobre a cegueira”, ou “Blindness", abriu ontem o Festival de Cannes. Leio na internet várias notícias sobre a repercussão do filme. Aplausos de uns, frieza de outros. Mas todas as observações iniciais têm em comum que o cineasta soube trabalhar com perfeição a imaginação do espectador, como por exemplo, o uso de uma fotografia estourada para dar o aspecto da cor branca que Saramago descreve como cegueira.

Por mais que o filme seja de difícil digestão, a história imaginada por Saramago não é nada agradável. Um livro para se refletir sob o ponto de vista patológico, e também sociológico e político. Um livro sobre a fragilidade humana. E isso creio que Fernando Meirelles soube muito bem imaginar para o filme.

Na foto acima, Julianne Moore e Mark Ruffalo.

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