quarta-feira, 14 de maio de 2008

o ano que não acabou

foto Evandro Teixeira

Ontem, no programa que a TV Cultura dedicou ao louco e importantíssimo ano de 1968, o maestro Júlio Medaglia deu um depoimento que não confere com os fatos: ao defender o Tropicalismo e as conseqüências comportamentais que o movimento trouxe, disse que "Geraldo Vandré e suas canções de protesto não incomodaram o governo militar. Vandré nem foi preso. Já Caetano e Gil o foram".

Não foi bem assim, caro maestro. Sabe-se que a ditadura perseguiu tudo que vinha pela frente: tropicalistas, música popular brasileira, cinema, teatro, tudo que viesse caminhando e cantando em sentido contrário. Até os chamados cantores bregas sofreram nas costas de suas canções ingênuas e sinceras a peia dos generais de plantão. Vide o livro "Eu não sou cachorro, não", de Paulo César de Araújo.

Voltando a Vandré, o crítico de cinema Leon Cakoff, que trabalhou com o compositor paraibano, conta que ouviu de Caetano Veloso o testemunho de que os militares procuravam Vandré nas escolas, nas ruas, campos, construções, sem trégua, doidos pra esganá-lo.

Mais: o jornalista Enock Byron de Quevedo, que serviu ao Exército em Brasília, lá pelo final dos anos 60, relata que no quartel era ensinada uma outra lição: a letra de "Pra não dizer que não falei de flores", era colocada em grandes cartazes para os soldados armados, amados ou não, e desmentida categoricamente, verso a verso, em seu mais forte refrão.

Geraldo Vandré só não foi preso mesmo porque a família de Guimarães Rosa o escondeu em sua casa, no Rio de Janeiro. De lá fugiu para o Uruguai.

Um comentário:

Sandra Leite disse...

foto maravilhosa do mestre evandro teixeira