quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

cinema dos trópicos

Foto Paulo de Araújo/CB

O cinema brasileiro começa o mês de fevereiro bem representado em dois dos principais festivais internacionais.

Primeiro acontece o Festival de Curtas de Clermont-Ferrand, de amanhã até o dia 9, na França. Depois vem o Festival de Berlim, na Alemanha, de 7 a 17. Em Clermont, será exibido o excelente "O Trópico de Cabras", produção paulista dirigida por Fernando Coimbra, com a atriz brasiliense Larissa Salgado (foto), merecidamente premiada no Festival de Brasília do ano passado. Ainda no festival francês o cineasta carioca André Lavaquial apresentará "O som e o resto".

Em Berlim, os longas "Tropa de Elite", de José Padilha, e "Maré, nossa história de amor", de Lúcia Murat, e o curta "Café com leite", de Daniel Ribeiro, são os destaques na competição.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

o olhar de Orson Welles

Orson Welles dirigindo "Soberba" (The magnificent ambersons). Foto RKO Radio Pictures Inc.


“Procuro sempre a síntese: é um trabalho que me apaixona, pois devo ser sincero para com aquilo que sou, e não passo de um experimentador. A meus olhos, o único valor consiste em não ditar leis, mas ser um experimentador, experimentar é a única coisa que me entusiasma.
Um filme não é nunca um relatório sobre a vida. Um filme é um sonho. Um sonho pode ser vulgar, trivial e informe, e talvez um pesadelo. Mas um sonho não é nunca uma mentira.
Um filme não é realmente bom senão quando a câmera é um olho na cabeça do poeta. Tudo o que é vivo deriva da capacidade que a câmera tem de ver. Não vê naturalmente em vez de um artista, vê com ele. A câmera é, nesses momentos, muito mais que um aparelho registrador, é uma via por onde chegam as mensagens de um outro mundo, um mundo que não é nosso e que nos introduz no seio do grande segredo."


Orson Welles ( 1915 – 1985). “Soberba” foi seu segundo longa-metragem, de 1942. Um ano antes, o cineasta deixara sua marca de gênio no filme de estréia, “Cidadão Kane” (Citizen Kane). “Soberba” não teve uma boa repercussão. Temendo um desastre financeiro os produtores ordenaram um corte brutal no filme, que passou de 131 para 88 minutos. Esse corte foi feito por Robert Wise (1914 – 2005), editor do filme, durante viagem de Welles ao Brasil para filmar o mitológico e inacabado “It’s all true”.
Na foto acima, de costas, a atriz Anne Baxter.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

raridade na Caixa


Depois do cinema italiano, mais precisamente o neo-realismo, sou um apaixonado pelo cinema japonês, mais exatamente todos os filmes de Yasujiro Ozu, seguidos da filmografia de Kenji Mizoguchi, indo para o mais conhecido e contemporâneo Akira Kurosawa, e avistando ainda outros mestres nipônicos.

Hoje, aqui em Brasília, será exibido no Teatro da Caixa Cultural, às 19h, o filme "Intendente Sansho" (Sanshô Dayû), de Mizoguchi, dando início ao projeto Cinema Falado deste ano, que tem curadoria do crítico Sérgio Moriconi. O antropólogo, escritor e professor José Jorge de Carvalho, que considera "Intendente" como o filme de sua vida, estará presente para um debate após a sessão, e promete destacar aspectos pouco conhecidos da obra.

"Intendende Sansho", rodado em 1954, contém todos os elementos que fizeram a fama do cinema de Mizoguchi. Seus planos-sequências são de tirar o fôlego. Cineasta que misturava com maestria o melodrama a uma narrativa realista, Mizoguchi buscou apresentar a vida de personagens comuns, principalmente de mulheres, que, para ele, encarnam o sentido trágico da vida. O tema da exploração das mulheres, recorrente no seu cinema, teve raiz numa tragédia pessoal: quando criança, viu a irmã ser vendida como gueixa. Esse episódio marcaria irremediavelmente sua trajetória. No filme de hoje o assunto está profunda e belamente representado.

A história se passa na virada do século XI para o XII, e mostra o drama que se abate sobre uma família da aristocracia da época. O pai, um governador de província, sai em defesa dos camponeses e é exilado. Sua esposa parte em viagem com os dois filhos e uma criada, mas a família se dispersa em várias direções, sob o signo da dor e da injustiça. A seqüência das separações e desventuras vividas pelos personagens vai tocando o coração do espectador de um modo cada vez mais intenso e transcendente.

O filme recebeu merecidamente o Leão de Prata no Festival de Veneza.

domingo, 13 de janeiro de 2008

sem roteiro


“Todo mundo acha que faço roteiros de viagens! Sempre brinco que ninguém sabe o que faço. Nem minha mãe nem a mídia nem o próprio cinema sabe para quem eu escrevo”,


A frase é do roteirista brasileiro Di Moretti, autor do ótimo "Cabra cega", dirigido por Toni Venturi.

Se no Brasil ainda estamos na pré-história da afirmação do roteirista como profissional indispensável aos bons produtos audiovisuais, nos EUA a classe não só é consolidada como tem força para fazer barulho.

Insatisfeitos com os ganhos com a reprodução de suas histórias na internet, os 12 mil roteiristas afiliados à WGA (a Associação dos Roteiristas da América) começaram uma greve em 5 de novembro que dura até hoje e não tem data para terminar. O maior estrondo foi sentido esta semana. A cerimônia do Globo de Ouro foi cancelada. Em vez da tradicional prévia do Oscar, haverá apenas anúncio formal dos vencedores.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

memória coletiva

foto Frank Seimer

"Nossas lembranças permanecem coletivas, e elas chegam a nós também através dos outros, mesmo que se trate de acontecimentos nos quais só nós estivemos envolvidos e com objetos que só nós vimos. É porque, na realidade, nunca estamos sós."


(Maurice Halbwachs, em seu livro "A memória coletiva", Ed. Vértice, 1990)