segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

"erro de digitação"


A Folha de S. Paulo de hoje, 17/12/2007, segunda-feira, traz um contundente artigo de Paulo Cesar de Araújo sobre a adulteração que os advogados do rei fizeram do conteúdo do livro "Roberto Carlos em detalhes".

Não posso e não devo me calar
Paulo César de Araújo

Foi um "erro de digitação". Essa foi a resposta que o advogado de Roberto Carlos forneceu à Folha ao ser indagado sobre a denúncia de adulteração do conteúdo do livro "Roberto Carlos em Detalhes" na queixa-crime que seu escritório enviou à Justiça contra mim. Recapitulando: no livro, digo que na jovem guarda havia uma "combinação de sexo, garotas e playboys". Pois na página 16 da queixa-crime essa frase é citada com a troca da palavra "garotas" por "drogas" e, em seguida, os advogados escreveram: "(...) e por aí vai o querelante, misturando sexo grupal com homicídio, consumo de drogas com corrupção de menores e bestialismo".

Ressalte-se que não apenas naquele documento como também em entrevistas o advogado Marco Antônio Campos tem atribuído ao livro frases que não escrevi. À revista "Aplauso", por exemplo, ele afirmou que no livro está dito que Roberto "era assíduo freqüentador da cobertura de Carlos Imperial, onde as festinhas eram regadas a todos os tipos de drogas", e que, "uma vez, uma menor foi estuprada e morta numa dessas festas".

Ocorre que o livro não fala em drogas ou homicídios na casa de Imperial e muito menos associa Roberto Carlos a isso. Narra, sim, um escândalo que abalou a jovem guarda em 1966, com Imperial e outros artistas acusados de se envolver com garotas menores. No texto, enfatizo que aquilo não atingiu Roberto Carlos. Qualquer um pode confirmar isso no livro, do fim da página 306 até a página 311. Basta ler!

É lamentável que Roberto Carlos tenha entrado na Justiça sem ao menos ter lido a sua biografia. "Fizemos um resumo para ele", confessa Campos. Se o resumo que o advogado fez ao cantor foi o mesmo que está na queixa-crime e propaga em entrevistas, está finalmente explicado por que Roberto Carlos ficou tão furioso com um livro que engrandece a sua vida e a sua arte. E agora também finalmente sabemos a que ele estava se referindo quando, na primeira manifestação contra o livro, disse em entrevista coletiva que nele haveria "coisas não verdadeiras". Ou seja, diante de toda a imprensa brasileira, um dos maiores artistas do país desqualifica o trabalho de um profissional apenas baseado num resumo adulterado que lhe foi fornecido por colaboradores.

Campos fala agora em "erro de digitação". Roberto Carlos, assim como o presidente Lula, provavelmente vai dizer que nada sabia. E, aí, estamos conversados? Não, não estamos. Como bem afirmou Paulo Coelho meses atrás em artigo aqui mesmo na Folha, o que está em jogo nessa polêmica não é apenas o meu livro, não é apenas o meu caso. É a liberdade de expressão no Brasil, direito adquirido depois de longa luta contra a ditadura. Porque, se valer para outras figuras públicas o que está valendo para Roberto Carlos, ninguém mais poderá escrever a história deste país.

Várias personalidades que já leram "Roberto Carlos em Detalhes", como Caetano Veloso, Nelson Motta e Ruy Castro, declararam que se trata de um livro carinhoso e positivo para o cantor. Em recente entrevista à "Veja", o renomado jurista Saulo Ramos afirmou que o livro "é uma biografia perfeita. Não tem um ataque moral contra o Roberto. Ele me consultou e eu o aconselhei a não tomar nenhuma providência. Recusei a causa, e ele procurou outros advogados".

Será que todas essas pessoas estão erradas e apenas os advogados que o cantor procurou estão certos? É óbvio que esses advogados estão fazendo o papel deles, mas daí a tergiversar no processo, adulterar o conteúdo da obra para induzir a Justiça a erro vai uma grande diferença. E, diante disso, não posso e não devo me calar.

Pois foi baseado no conteúdo dessa queixa-crime que o juiz Tércio Pires, do Fórum Criminal da Barra Funda (SP), julgou que o livro cometia grande ofensa à honra de Roberto Carlos. Acreditando nisso, por duas vezes esse juiz ameaçou mandar fechar a editora Planeta durante aquela fatídica audiência, em 27 de abril. Sentindo-se coagida, a editora decidiu aceitar o acordo, me deixando abandonado. Resultado: o livro foi proibido, 10.700 exemplares do estoque foram apreendidos, e outros tantos, recolhidos das livrarias e entregues a Roberto Carlos para serem destruídos. É uma violência cultural sem precedentes em países sob vigência do Estado democrático de Direito.

Para o cantor, esse imbróglio trouxe desgaste de imagem e nenhum sentido prático, pois o conteúdo do livro está na internet. Além disso, o tempo ficou cada vez menor e até agora ele não conseguiu aprontar um novo álbum ou lançar uma ou duas novas músicas - fato que não acontecia desde que gravou seu primeiro disco, há 48 anos! Portanto, 2007 ficará marcado na história de Roberto Carlos como o ano em que ele não lançou nenhum novo CD, mas, ao contrário, tirou de circulação a sua biografia.

sábado, 15 de dezembro de 2007

o escultor de monumentos

Palácios das Artes, São Paulo. Obra de Oscar Niemeyer. Foto Nelson Kon


"A vida é mais importante que a arquitetura"


"Continuarei trabalhando enquanto viver, porque esse é o meu compromisso com a vida"


"A curva me atraía. A curva livre e sensual que a nova técnica sugeria e as velhas igrejas barrocas lembravam"


"Não acredito em arquitetura social em país capitalista. Nela existe a intenção perversa de amortecer reivindicações"


"Sou pessoa simples, aberta para a vida, apta a aceitar todas as mudanças que os tempos estabelecem"


"Os governantes que me convocaram sabiam da minha posição, pensavam que era equivocada e eu deles pensava o mesmo"


"Como é fácil para nós brasileiros invadir o mundo da imaginação. Nosso passado é modesto e tudo nos permite realizar"


"Não sei por que a minha arquitetura esteve na área dos grandes edifícios públicos. E, como eles nem sempre correspondem a razões sociais justas, tento fazê-los belos. Com isso os mais pobres param ao vê-los. É o que, como arquiteto, lhes posso oferecer"


"A arquitetura é um problema de sensibilidade"


"Tento utilizar minha notoriedade para fazer avançar as idéias"


"Eu faço a arquitetura que me agrada, ligada às minhas raízes e o meu país"


"Fazer arquitetura é criar beleza"


"Na arquitetura, a intuição tem um papel tão fundamental quanto o conhecimento"


"Quando sabemos demais, quando suportamos o peso do passado, somos prisioneiros de uma série de princípios, de apriorismos"


"A imaginação e espontaneidade são para mim a fonte da arquitetura"

"Sou aberto às emoções que vêm de fora, ao espetáculo da beleza: o pôr-do-sol no mar, a floresta tropical úmida e generosa, a luminosidade do céu, as mulheres"

"Hoje, como ontem, preciso trabalhar"

Parabéns, Oscar Niemeyer, pelos seus 100 anos de vida!

domingo, 9 de dezembro de 2007

visões do paraíso


Se Borges imaginava o paraíso como uma livraria (e tomara que seja mesmo!), o nosso grande poeta Murilo Mendes desejava que fosse um museu (tomara que seja também!). Em sua antologia de prosa "Transístor", que reúne textos de 1931 a 1974, o poeta mineiro manifesta sua aspiração de éden e até cita o colega argentino:

"Jorge Luis Borges figura o paraíso sob a forma de uma biblioteca, imagem que eu subscreveria desde início da minha adolescência. Também posso antever qualquer paraíso sob as espécies de um museu; hoje cito a National Gallery que forma com os outros museus e coleções de arte londrinos um espaço de universalidade, uma sucessão serial de paraísos."

Mendes estava em Londres quando escreveu este texto, e faz parte do então inédito "Carta geográfica", em que registra de forma bastante original seus olhares por cidades por onde passava. Estão lá impressões curiosas e únicas sobre Grécia, Salzburgo, Bruxelas, Paris, New York, e outras viagens. Escrito entre 1965 e 1967, "Carta" é uma das grandes obras dentro da antologia "Transístor", que foi editado pela Nova Fronteira em 1980. Não sei se houve uma reedição desse livro indispensável em que mostra a prosa poética de um dos maiores nomes da literatura brasileira.

Voltando ao passeio pelo museu, Mendes fundamenta seus anseios de paraíso:

"Claro que numa cidade interessam-me de perto a rua, a circulação e a parolagem do povo, os costumes, mil aspectos da vida miúda cotidiana. Mas o museu não é para mim coisa de menor interesse, observação e prazer. Sou o passeante moderno dos museus: percorro quilômetros de quadros, estátuas, desenhos, documentos etnográficos, folclóricos; proponho-me ora acavalar, ora distinguir os diversos ciclos de cultura, consultar uma outra versão da história indicada pela diversidade de ambientes, classes, tipos, indumentária, a variedade dos estilos da obra de arte, instintiva, ritual, gratuita, inserida num contexto religioso, econômico, político; totalizando uma informação que nos ilumina os caminhos do tempo, desde as incerteza do começo até a plenitude do dia atual e o pressentimento do futuro."

É muito prazeroso ler um relato que esmiuça tão bem uma maneira de observância do mundo, da vida. E quando Mendes chega diante do que aceitaria de bom grado a imagem do seu lugar de delícias, é primoroso o texto, a leitura, e a nossa condição interativa:

"Mas hoje na National Gallery, deixando de lado tantos inumeráveis prodígios, quero aludir a um só quadro, 'O casamento dos Arnolfini', de Van Eyck, que me transmite em grau máximo a idéia da coisa perfeita, situada no plano de convergência da realidade e do sonho. Admiro não só a grandeza isolada do artista mas ainda o contexto político-econômico-cultural que permitiu a criação desta obra, situada entre um quarto e o cosmo; marcando, com o retábulo do 'Agneau Mystique', um período novo na história da pintura."

Essa famosa obra, um óleo sobre tela do belga Jan Van Eyck, é de 1434. E o que desperta curiosidade, espanto, admiração, tudo de maravilhoso, é o reflexo do espelho ao fundo, entre o casal. Vejam:



Ao longo desse tempo, várias teorias foram apontadas para esse detalhe no quadro. Uma delas - e é a que prefiro - diz que o pintor se retratou na cerimônia. Geovanni Arnolfini, um rico comerciante de uma região da Bélgica, teria casado em segredo com Geovanna, e que poucos testemunharam o acontecimento. Van Eyck seria um dos presentes. Por isso está escrito no quadro, em latim, "van Eyck esteve aqui".

Independente das hipóteses sobre o registro, o interessante nessa obra é o conceito de pespectiva da imagem: o espelho em segundo plano que reflete um outro plano, uma forma de mostrar o que aparentemente está invisível. Obra-prima! Dá para ver o reflexo de olhares profundos como o de Murilo Mendes.

Dedico esta postagem ao amigo Carlos Reichenbach, um admirador do poeta.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

sábado, 1 de dezembro de 2007

detalhes de uma biografia

foto Divulgação

Um amigo de Curitiba me lembra por e-mail que hoje, 1º de dezembro, completa exatamente um ano do lançamento do livro "Roberto Carlos em detalhes" , de Paulo Cesar de Araújo (foto). E, por coincidência, exatamente hoje o cantor grava seu especial de televisão – numa inconsciente comemoração.

Ao longo desses doze meses muito se falou sobre esse livro que se transformou em um dos mais polêmicos da história do Brasil. Alguns artistas e colunistas comentaram a obra, como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Paulo Coelho, Zuenir Ventura, Carlos Heitor Cony, Elio Gaspari e Nelson Motta, todos defendendo o livro, indignados com a proibição imposta pelo biografado, o que dá a dimensão do absurdo do caso. Até mesmo o jurista Saulo Ramos, que foi advogado do Rei, definiu o trabalho de Paulo César, em recente entrevista, como uma "biografia perfeita".

Sempre fui admirador de Roberto Carlos, e creio que não existe na música popular brasileira um nome mais significativo, que tenha atravessado quarenta anos fiel a si e a seu público.

O livro de Paulo César de Araújo é uma obra-prima. Sou um leitor compulsivo de biografias. E de todas que li essa foi a mais completa, comovente e de incontestável qualidade literária. Apesar de ser uma biografia não autorizada, não há uma linha sequer que vulgarize fatos, calunie ou atinja a honra do personagem. Foram 15 anos de pesquisa, trabalho e paixão. Divididos em essenciais capítulos, o livro faz entender toda a complexidade do homem simples que se tornou o maior ídolo do país. E exatamente pelo valor da abordagem, "Roberto Carlos em detalhes" é um livro que passa pela história da música brasileira: o rádio, a bossa-nova, o rock, a televisão, e todos os nomes importantes que se entrelaçam nesses gêneros e ciclos.

Mas o Rei emburrou, literalmente. Embruteceu, empacou, amuou-se. Decaiu, retrocedeu, recrudesceu. Equivocado e mal assessorado, moveu ação judicial contra o escritor. Ganhou a causa, e em abril passado a justiça mandou tirar o livro de circulação. Foi estampada nos jornais uma foto de um caminhão recolhendo as caixas com os exemplares que estavam no estoque na Editora Planeta. A cena é repulsiva. O caminhão seguiu para um depósito na cidade de Santo André, São Paulo. Dizem que o Rei mandou queimar os 11 mil exemplares. Ou numa solução mais "leve", reciclados em toneladas de papel. Uma coisa ou outra, procuro agora um adjetivo maior que "repulsivo", que escrevi acima. É uma contradição para quem ao longo da carreira cantou o amor, a paz e a tolerância. Apesar de toda a repercussão negativa do episódio, o livro é um best-seller, e virou raridade. Graças à internet, está disponível em download em alguns blogues indignados. Isso o Rei não conseguiu impedir com sua atitude inquisitória.

Paulo César Araújo disse que apesar do ocorrido não nutre ressentimentos pelo cantor, e crê que a questão passa pela legislação brasileira. Tudo bem, é muito nobre de sua parte, caro Paulo César, mas desde a sentença que não consigo escutar Roberto Carlos. Fico com o livro.