domingo, 9 de dezembro de 2007

visões do paraíso


Se Borges imaginava o paraíso como uma livraria (e tomara que seja mesmo!), o nosso grande poeta Murilo Mendes desejava que fosse um museu (tomara que seja também!). Em sua antologia de prosa "Transístor", que reúne textos de 1931 a 1974, o poeta mineiro manifesta sua aspiração de éden e até cita o colega argentino:

"Jorge Luis Borges figura o paraíso sob a forma de uma biblioteca, imagem que eu subscreveria desde início da minha adolescência. Também posso antever qualquer paraíso sob as espécies de um museu; hoje cito a National Gallery que forma com os outros museus e coleções de arte londrinos um espaço de universalidade, uma sucessão serial de paraísos."

Mendes estava em Londres quando escreveu este texto, e faz parte do então inédito "Carta geográfica", em que registra de forma bastante original seus olhares por cidades por onde passava. Estão lá impressões curiosas e únicas sobre Grécia, Salzburgo, Bruxelas, Paris, New York, e outras viagens. Escrito entre 1965 e 1967, "Carta" é uma das grandes obras dentro da antologia "Transístor", que foi editado pela Nova Fronteira em 1980. Não sei se houve uma reedição desse livro indispensável em que mostra a prosa poética de um dos maiores nomes da literatura brasileira.

Voltando ao passeio pelo museu, Mendes fundamenta seus anseios de paraíso:

"Claro que numa cidade interessam-me de perto a rua, a circulação e a parolagem do povo, os costumes, mil aspectos da vida miúda cotidiana. Mas o museu não é para mim coisa de menor interesse, observação e prazer. Sou o passeante moderno dos museus: percorro quilômetros de quadros, estátuas, desenhos, documentos etnográficos, folclóricos; proponho-me ora acavalar, ora distinguir os diversos ciclos de cultura, consultar uma outra versão da história indicada pela diversidade de ambientes, classes, tipos, indumentária, a variedade dos estilos da obra de arte, instintiva, ritual, gratuita, inserida num contexto religioso, econômico, político; totalizando uma informação que nos ilumina os caminhos do tempo, desde as incerteza do começo até a plenitude do dia atual e o pressentimento do futuro."

É muito prazeroso ler um relato que esmiuça tão bem uma maneira de observância do mundo, da vida. E quando Mendes chega diante do que aceitaria de bom grado a imagem do seu lugar de delícias, é primoroso o texto, a leitura, e a nossa condição interativa:

"Mas hoje na National Gallery, deixando de lado tantos inumeráveis prodígios, quero aludir a um só quadro, 'O casamento dos Arnolfini', de Van Eyck, que me transmite em grau máximo a idéia da coisa perfeita, situada no plano de convergência da realidade e do sonho. Admiro não só a grandeza isolada do artista mas ainda o contexto político-econômico-cultural que permitiu a criação desta obra, situada entre um quarto e o cosmo; marcando, com o retábulo do 'Agneau Mystique', um período novo na história da pintura."

Essa famosa obra, um óleo sobre tela do belga Jan Van Eyck, é de 1434. E o que desperta curiosidade, espanto, admiração, tudo de maravilhoso, é o reflexo do espelho ao fundo, entre o casal. Vejam:



Ao longo desse tempo, várias teorias foram apontadas para esse detalhe no quadro. Uma delas - e é a que prefiro - diz que o pintor se retratou na cerimônia. Geovanni Arnolfini, um rico comerciante de uma região da Bélgica, teria casado em segredo com Geovanna, e que poucos testemunharam o acontecimento. Van Eyck seria um dos presentes. Por isso está escrito no quadro, em latim, "van Eyck esteve aqui".

Independente das hipóteses sobre o registro, o interessante nessa obra é o conceito de pespectiva da imagem: o espelho em segundo plano que reflete um outro plano, uma forma de mostrar o que aparentemente está invisível. Obra-prima! Dá para ver o reflexo de olhares profundos como o de Murilo Mendes.

Dedico esta postagem ao amigo Carlos Reichenbach, um admirador do poeta.

6 comentários:

Guito disse...

Excelente! Que grande surpresa este espaço! Borges, Mendes e Van Eyck conjugados.

Nirton Venancio disse...

excelente também sua visita, caro Guito: seu olhar conjugado a esses mestres. Um abraço!

Dioneide disse...

Maravilha de textos e fotografias Nirton!
Vou passar sempre aqui..

Bj

Dioneide disse...

Não consegui deixar o endereço do meu blog quando postei e vou deiuxar aqui:
www.raizeeasas.blogspot.com

Nirton Venancio disse...

obrigado pela passagem por aqui, Dioneide!

Reichenbach disse...

Grande Nirton,
obrigado pela homenagem. Murilo Mender é a minha bússola íntima.

Abração,
REICHENBACH