quarta-feira, 26 de outubro de 2005

o bom rapaz


O moço acima sentado de costas aos assistentes de câmeras, é James Stewart (1908-1997) em um intervalo de “Mr Smith goes to Washington”, filme dirigido por Frank Capra, em 1939, e que no Brasil foi intitulado “A mulher faz o homem”. 
Explicando o título original, Mr. Jefferson Smith, vivido por Stewart, é um jovem aparentemente ingênuo, líder estudantil, que, a convite de um senador cheio de más intenções, vai para Washington cumprir um mandato-tampão de um outro político. Empossado, aos poucos descobre-se em um mar de lama que ameaça tudo o que ele imaginava em relação à bondade e ao caráter dos dirigentes de seu país. A sua honestidade, então, torna-se uma ameaça.

Capra (1897-1991) era um cineasta de filmes otimistas. Acreditava na democracia americana, principalmente nos anos difíceis da depressão econômica decorrente da crise de 1929. Seus principais trabalhos refletem bem a política “New Deal” do presidente Franklin D. Roosevelt.


Nascido na Itália, chegou aos Estados Unidos aos seis anos de idade. E pode-se dizer que desde sua estréia no cinema, como roteirista para pequenas histórias de O Gordo e o Magro até os últimos trabalhos na década de 60, consolidou uma filmografia tipicamente de comédia social, cheia de esperanças e confiante na honestidade. Essa é a característica de seus personagens centrais. 

E James Stewart configurou perfeitamente esse perfil. Foi com Capra que o ator tornou-se conhecido e conquistou a fama, fazendo sucesso logo nos primeiros filmes, “Do mundo nada se leva” (You can’t take it with you), 1938, “A felicidade não se compra” ( It’s a wonderful life), 1946. Só mesmo Hitchcock teve a ousadia de coloca-lo em papéis um pouco diferentes, como em “Janela indiscreta” (Rear window), 1954, “Um corpo que cai” (Vertigo), 1958, “Festim diabólico” (Rope), 1948, “O homem que sabia demais” (The man who knew to much), 1956, “Intriga internacional” (North by Northwest), 1959. Mas nada o desfigurou do ator que melhor personificava os chamados valores da sociedade americana, o retrato do bom-moço, com estilo natural e charmoso. A própria vida de James Stewart era um exemplo que se confundia com seus personagens: casou-se somente uma vez, nunca cedeu às paixões da atriz Jean Harlow, e vivia para a mulher e suas filhas gêmeas. Isso era raro naquela Hollywood onde os escândalos já corriam soltos, sim.

quarta-feira, 19 de outubro de 2005

Santos é o seu nome

Roberto Santos durante as filmagens de "As três mortes de Solano", 1975. Foto de Fernando Scavone

“Quando vim fazer cinema, mais de sessenta anos de experiências estavam inscritas na história do cinema. Eu não inventei nada. Usei formas de experiências que os precedentes usaram – o que não é absolutamente errado.”
O trecho é de uma entrevista com o cineasta Roberto Santos (1928-1987) na extinta Revista de Cineclubes, editada em Belo Horizonte, nos anos 60. Um trecho maior está reproduzido no ótimo livro de Inimá Simões, “Roberto Santos – A hora e a vez do cineasta”, publicado em 1997, pela Estação Liberdade. É, sem dúvida, a única biografia do diretor do clássico “O grande momento”, de 1957, sua estréia em longa-metragem.
E é justamente sobre esse filme que se estende a citada entrevista. O então repórter Elísio Valverde questionava o cineasta sobre as influências que o filme apresentava do neo-realismo italiano.

Perguntava: “Como você sabe, houve quem encontrasse em seu filme ancenúbios*, à maneira de René Clair e, principalmente do neo-realismo de Cesare Zavattini, De Sica, etc. Como se defende?”
E o cineasta responde: “Não foi só desses diretores. Houve quem dissesse que eu estava impregnado de, além dos que você citou, De Santis, Sennets, Kubrick, Aldrich, Rosselini... (...) Devo relatar que em nenhum momento sequer do planejamento lembrei-me da passagem ‘a’, ‘b’ ou ‘c’ de qualquer filme. Se há influência, está no gênero que escolhi, de expor as coisas simplesmente como elas acontecem, nos seus próprios cenários, muito á maneira neo-realista. Para mim foi uma brilhante escola. E um dos seus melhores produtos sem dúvida ‘Ladrão de bicicleta’, de De Sica. Em ‘O grande momento’ o procurei foi tão somente expressar-me através do cinema – um cinema construído normalmente, sem pretender renovar.”

Ele pode não ter renovado, mas definitivamente marcou a história do cinema brasileiro naquele final da década de 50. Até porque “só é moderno aquele que soube ser antigo”, como dizia o poeta Murilo Mendes. O filme de Santos e o de um outro jovem estreante, Nelson Pereira dos Santos, “Rio 40 graus” (1954), que se apresentava com propostas do cinema italiano da época, estabeleceram uma marca de ruptura na cinematografia brasileira. “O grande momento”, na minha opinião, é o mais genuíno filme brasileiro moldado na estética, no conteúdo e no coração do neo-realismo, ao mesmo tempo em que se mostra como uma produção autêntica do nosso cinema, com seus personagens profundamente humanos, carismáticos e engraçados. E também com suas dificuldades de realização. Conta-se, não a lenda, mas a realidade, que os atores iam para as filmagens de ônibus, e muitas vezes a alimentação nas madrugadas limitava-se a uma sopa de chocolate. Era o oposto do luxo que os estúdios Vera Cruz exibia. O elenco é formado por Gianfrancesco Guarnieri, Miriam Pérsia, Paulo Goulart e tantos outros que se destacaram no cinema e na televisão nos anos seguintes. O roteiro é sobre uma pequena família no bairro paulistano do Brás, quando todos se unem para diminuir as dificuldades financeiras e realizar o casamento do filho mais velho. É comovente cada cena, cada fotograma, cada olhar do diretor sobre as situações conflitantes. Um filme como as coisas simplesmente acontecem.

* Pode parecer pedantismo, mas usava-se naturalmente expressões como esta, “ancenúbio”, um neologismo proposto pelo latinista Castro Lopes para substituir o francês “nuance”, que por sua vez vem do grego, e a gente entende por “nuança” mesmo.

segunda-feira, 17 de outubro de 2005

mais Carlão


"Brincando de radicalizar, afirmo que daqui para frente só irei respeitar e admirar os criadores que tenham tido enfarte ou alguma doença séria, que tenham penhorado um dia a própria casa, que tenham colecionado títulos protestados, que tenham sido sustentados pela mulher em alguma ocasião da vida conjugal, que tenham sido abandonados pelas amantes e/ou tenham amado duas mulheres ou mais mulheres ao mesmo tempo, que tenham alçado o topo da montanha e descido ao fundo do poço e, sobretudo, que tenham conhecido de perto e na própria pele: a fome, a gula, a sede, o porre, a miséria, o desterro, a glória, a falência, a fartura, o desprezo, a paixão, o sucesso, o fracasso, a intolerância, o ciúme etc. etc. etc. A vida experimentada em sua plenitude é o maior manancial da criação."

Afirmação do cineasta Carlos Reichenbach no sítio Trópico, "por conta das três pontes de safena que carrego no meu "Graal'."

terça-feira, 4 de outubro de 2005

Abel, o visionário


“Não são as imagens que fazem um filme, mas a alma das imagens”


A frase é de Abel Gance (1889-1981), cineasta francês. Mais do que um pioneiro, foi um verdadeiro visionário na história do cinema. Criou a Polyvision, sistema embrionário de projeção de filmes que viria a se chamar Cinerama, que consiste em tela tríplice. Graças a esse recurso ele exibiu seu clássico “Napoleón”, rodado durante quatro anos, com três câmeras simultâneas, principalmente as seqüências abertas de batalhas. Na exibição foram usados três projetores separados que jogavam em cada tela cenas que se interligavam, dando a sensação volumosa de realidade. Isso foi em 1926! Três anos depois Abel lançou o som estereofônico.
Considerado um lírico do cinema, Abel Gance atravessou duas guerras com o olho na câmera. Utilizou a tecnologia a favor da temática histórica e de uma dramaturgia impressionista, características que se pode comprovar numa filmografia de mais de vinte títulos. O citado “Napoleón”, sua obra-prima, foi remontado e revisto na década de 30 e 70. Em 1979, o cineasta Francis Coppola relançou o filme com uma nova cópia e trilha sonora criada por seu pai, Carmine Coppola.
Abel sabia o que dizia, pois captava a alma das imagens
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domingo, 2 de outubro de 2005

os olhos livres de Carlão

"Gosto de enxergar o cinema como minha manifestação de vida. Busco em todos os filmes que assisto entender a pessoa que o fez. Continuo um ardente e radical defensor do cinema autoral. Desprezo todo e qualquer filme que esconda a alma do seu realizador. Não acredito em indústria cinematográfica; pelo menos, em países subdesenvolvidos como o Brasil. Aqui, que me perdoem os conformistas, cinema é - e tem de ser sempre - cultura de ponta. O país precisa do cinema para não perder a memória e os valores culturais mais preciosos. No mais, danem-se todos os responsáveis pelo audiovisual descartável."

Trecho da entrevista com o cineasta Carlos Reichenbach, o Carlão, no sítio Trópico, do também cineasta Carlos Adriano, reproduzida na íntegra no http://www.olhoslivres.com, onde podemos encontrar outras entrevistas, artigos, filmografia e fotos de filmes desse que é um dos mais criativos diretores do cinema brasileiro. Carlão tem a raridade de juntar numa só pessoa talento e conhecimento profundo do que faz com simpatia e humildade, sem deixar de manifestar seu olhar livre, crítico e lúcido, como se vê no recorte da entrevista.
“Bens confiscados”, seu mais recente longa, recebeu os prêmios de Melhor Direção, Melhor Atriz (Bete Faria), Melhor Ator (Werner Schüneman) e Troféu Samburá de Melhor Filme da Fundação Demócrito Rocha/Jornal O Povo, no CineCeará deste ano.
Entre filmagens, cursos, palestras e viagens, Reichenbach encontra tempo para manter além do site Olhos Livres o blog
http://www.redutodocomodoro.zip.net, um deleite de informações e imagens para os que gostam de cinema.