quarta-feira, 19 de outubro de 2005

Santos é o seu nome

Roberto Santos durante as filmagens de "As três mortes de Solano", 1975. Foto de Fernando Scavone

“Quando vim fazer cinema, mais de sessenta anos de experiências estavam inscritas na história do cinema. Eu não inventei nada. Usei formas de experiências que os precedentes usaram – o que não é absolutamente errado.”
O trecho é de uma entrevista com o cineasta Roberto Santos (1928-1987) na extinta Revista de Cineclubes, editada em Belo Horizonte, nos anos 60. Um trecho maior está reproduzido no ótimo livro de Inimá Simões, “Roberto Santos – A hora e a vez do cineasta”, publicado em 1997, pela Estação Liberdade. É, sem dúvida, a única biografia do diretor do clássico “O grande momento”, de 1957, sua estréia em longa-metragem.
E é justamente sobre esse filme que se estende a citada entrevista. O então repórter Elísio Valverde questionava o cineasta sobre as influências que o filme apresentava do neo-realismo italiano.

Perguntava: “Como você sabe, houve quem encontrasse em seu filme ancenúbios*, à maneira de René Clair e, principalmente do neo-realismo de Cesare Zavattini, De Sica, etc. Como se defende?”
E o cineasta responde: “Não foi só desses diretores. Houve quem dissesse que eu estava impregnado de, além dos que você citou, De Santis, Sennets, Kubrick, Aldrich, Rosselini... (...) Devo relatar que em nenhum momento sequer do planejamento lembrei-me da passagem ‘a’, ‘b’ ou ‘c’ de qualquer filme. Se há influência, está no gênero que escolhi, de expor as coisas simplesmente como elas acontecem, nos seus próprios cenários, muito á maneira neo-realista. Para mim foi uma brilhante escola. E um dos seus melhores produtos sem dúvida ‘Ladrão de bicicleta’, de De Sica. Em ‘O grande momento’ o procurei foi tão somente expressar-me através do cinema – um cinema construído normalmente, sem pretender renovar.”

Ele pode não ter renovado, mas definitivamente marcou a história do cinema brasileiro naquele final da década de 50. Até porque “só é moderno aquele que soube ser antigo”, como dizia o poeta Murilo Mendes. O filme de Santos e o de um outro jovem estreante, Nelson Pereira dos Santos, “Rio 40 graus” (1954), que se apresentava com propostas do cinema italiano da época, estabeleceram uma marca de ruptura na cinematografia brasileira. “O grande momento”, na minha opinião, é o mais genuíno filme brasileiro moldado na estética, no conteúdo e no coração do neo-realismo, ao mesmo tempo em que se mostra como uma produção autêntica do nosso cinema, com seus personagens profundamente humanos, carismáticos e engraçados. E também com suas dificuldades de realização. Conta-se, não a lenda, mas a realidade, que os atores iam para as filmagens de ônibus, e muitas vezes a alimentação nas madrugadas limitava-se a uma sopa de chocolate. Era o oposto do luxo que os estúdios Vera Cruz exibia. O elenco é formado por Gianfrancesco Guarnieri, Miriam Pérsia, Paulo Goulart e tantos outros que se destacaram no cinema e na televisão nos anos seguintes. O roteiro é sobre uma pequena família no bairro paulistano do Brás, quando todos se unem para diminuir as dificuldades financeiras e realizar o casamento do filho mais velho. É comovente cada cena, cada fotograma, cada olhar do diretor sobre as situações conflitantes. Um filme como as coisas simplesmente acontecem.

* Pode parecer pedantismo, mas usava-se naturalmente expressões como esta, “ancenúbio”, um neologismo proposto pelo latinista Castro Lopes para substituir o francês “nuance”, que por sua vez vem do grego, e a gente entende por “nuança” mesmo.

Um comentário:

Rodrigo Capella disse...

Amigo, ótimos textos. Tenho acessado seu blog com grande frequencia. Ele está cada vez melhor. Abraços, Rodrigo Capella.