quarta-feira, 26 de junho de 2013

a rotina tem seu encanto?

                                                                    foto Mauricio Albano

“Não há a menor dúvida: o parâmetro para 'Um cotidiano perdido no tempo' é o cineasta japonês Yasujiro Ozu. 'Cotidiano' é um filme cíclico, portanto, Zen, como as obras de Ozu. Sobre o diretor, o crítico Tadao Sadao escreveu: ‘a câmera de Ozu conduz-se face aos personagens como o dono da casa face aos convidados. Reciprocamente, os personagens dos filmes de Ozu conduzem-se como se fossem convidados numa casa’. Esta análise cabe perfeitamente ao filme de Nirton Venancio.”

Essa análise do crítico de cinema Ricardo Cota, publicada na revista Cinemin, em 1988, foi uma das que mais me comoveram sobre o meu primeiro curta-metragem. Até então eu conhecia muito pouco do cineasta japonês, não tinha uma influência direta como tinha do neo-realismo italiano. E Ozu, sabe-se, é uma espécie de "neo-realista zen". Ainda sem internet naquele final dos anos 80, para que se procurasse filmes disponíveis para download, fui atrás de Ozu em livros, publicações, no que desse. Dois anos depois, 1990, encontrei numa livraria no aeroporto em Brasília, numa viagem a São Paulo, justamente para apresentar o filme numa mostra, o livro "Ozu, o Extraordinário Cineasta do Cotidiano", que reune excelentes textos de cineastas e críticos, organizado por Lúcia Nagib e André Parente. Fiquei fascinado com o que li. Logo em seguida, por artimanha do universo, foi apresentada na Cultura Hispânica em Brasília, uma retrospectiva da filmografia de Yasujiro Ozu. Pronto! Estava eu apresentado ao cinema do mestre. De toda sua belíssima obra, o que ainda mais me toca profundamente é "Viagem à Tóquio" (Tokyo monogatari), de 1953.

Apesar da sincera e grata observação de Ricardo Cota acima, não tenho nenhuma pretensão de me igualar ao trabalho de um dos maiores cineastas de toda história do cinema. Estou tão distante dele quanto a imensidão oceânica que me separa do Japão. "Um cotidiano perdido no tempo" é apenas o meu olhar sobre a solidão da velhice, e tem a força e a dor da memória, filmado em locações que são extensões da minha vida: a casa onde eu nasci, cresci, no interior cearense, as paredes e os parentes que são meus, eu que sou afluente nas veias desses rios. Só cheguei lá com a câmera e me flagrei no passado na pele enrugada de minha avó. O cinema me guiou e nem notei que Ozu me ajudava em cada enquadramento. 

O filme será apresentado hoje, nesta quarta-feira de manifestações, às 20h, na Mostra de Curta-metragens brasilienses do Espaço Cultural Brasília Shopping, curadoria do grande Maurício Witczak com o auxilio luxuoso de Wol Nunes.

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