terça-feira, 30 de dezembro de 2008

manuais secretos


Para facilitar a repressão a seus adversários, manuais secretos da ditatura militar no Brasil foram editados, durante a década de 70, até mesmo por orgãos que, por sua finalidade, não deveriam cuidar desse tipo de assunto. Foi o caso do então Ministério da Educação e Cultura, hoje desmembrado em duas pastas distintas, mas a da Educação continua chamada pela sigla MEC.

O ministério na tenebrosa época da repressão publicou, em 1970, um Manual de Segurança e Informações. O documento inédito, com quase 80 páginas, classificado como "reservado", está guardado no Arquivo Nacional em Brasília. O material parece uma cartilha do Serviço Nacional de Informações, o famigerado SNI, principal órgão de inteligência da ditadura, e acaba servindo como testemunho formal da existência de técnicas violentas de interrogatório.

Fonte: Correio Braziliense

domingo, 28 de dezembro de 2008

Duffy

foto Divulgação/A&M

A mídia equivocada dos tablóides de música está chamando a cantora galesa Duffy como "a nova Amy Winehouse". Não acho. Amy é única e incomparável, pelo seu talento como compositora e cantora, pelo seu comportamento na contramão da mesmice pop e retrô. É como se Amy, depois de sua explosão com ótimo álbum "Back to black" e escândalos regados a muitas doses e pitadas de veneno anti-monotonia, não vislumbrasse breves ousadias e um próximo terceiro disco pra arrebentar. Amy ainda vai aprontar muito, antes de ficar se banhando mais vezes numa praia do Caribe.

Aimee Anne Duffy, 24 anos, até evita comparações com Amy e decidiu usar apenas o sobrenome como nome artístico. Tem igualmente uma voz soul, mas com outro timbre e um estilo indie. Suas letras não refletem um tom autobiográfico como as canções de Amy. O disco de estréia, "Rockferry", lançado no Brasil no começo deste ano, é ótimo de se ouvir e dançar, puxado pelo single "Mercy". Duffy é talentosa, tem voz e luz próprias, não precisa de comparações, nem de substituir ninguém. Com seus modelitos sessentistas e sensualidade de boa menina, tem o seu espaço nos ipods da vida.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

então é Natal


Em 1995 a cantora Simone gravou um cd com doze faixas só com temas natalinos. É um disco cheio de versões de clássicos como o de Irving Berlin, "White Christmas" e "Silent Nights" de F. Gruber, respectivamente "Natal branco" e "Noite feliz", além do "Jesus Cristo" de Roberto Carlos e "Boas Festas", do grande Assis Valente.

Mas o que ficaria mesmo marcado, como um chiclete nos ouvidos, é a terrível versão de "Happy xamas/Was is over", de John Lennon e sua Yoko Ono, feita por Cláudio Rabello, por aqui intitulado "Então é Natal". Quem não conhece? Trilha sonora de shopping e principalmente de supermercados nesta época de Menino Jesus. Essa música não pára de tocar. É um saco!
O disco vendeu mais de um milhão de cópias, e garanto que não contribuí pra essa cifra.


Acho a música difícil de agüentar até com John Lennon. Ou talvez porque a sonoridade dessa versão já contaminou a original.
Um amigo de Fortaleza, o músico Ricardo Augusto, um dos caras que mais entende de rock que conheço, especialmente de Beatles, me lembra que a música do Lennon é sobre a guerra do Vietnã, e usa o Natal como uma representação de final de ano, quando todos se mostram alegres e cordatos (o " espírito natalino"!), mas, na verdade, fica a pergunta que não quer calar: "And what have you done?". Pensa-se no aspecto comercial, no religioso, mas não na essência da mensagem de resistência pacífica daquele Cristianismo com o qual John, mesmo sendo ateu, se identificava. Ricardo considera que versões como essa "Então é Natal", pela falta de conhecimento da língua inglesa e até mesmo por falta de talento, um verdadeiro esquartejamento poético das obras. Concordo com ele.


E essa versão "simonética" já roda há tantos natais que eu achava que fosse bem antes de 1995.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

a luz da música

foto Arquivo NV

"O amor é cego
Ray Charles é cego
Stevie Wonder é cego
E o albino Hermeto não enxerga mesmo muito bem"

(Trecho de "O estrangeiro", de Caetano Veloso, faixa 1 do disco homônimo, 1989)

Cego às avessas, como nos sonhos, eles vêem o que desejam: música!

domingo, 21 de dezembro de 2008

já vai tarde


Charge: Latuff, no site Brasil de Fato

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

verdade inconveniente

foto Elpais

Em 1975, uma tranqüila praia italiana se chocou com o aparecimento do corpo, desfigurado, de um dos maiores cineastas e poetas que o mundo já viu: Pier Paolo Pasolini. Tão controversa quanto sua vida, sua morte tem até hoje mistérios difíceis de decifrar.

Com base em conversas com seus discípulos, tais como Bernardo Bertolucci, o documentário inédito "Quem fala a verdade deve morrer" (Wie de waarheid zegt moet dood), produção holandeza de 1981, tenta descobrir a verdade por trás do terrível assassinato desse mito da sétima arte.

O documentário, que será exibido hoje às 22h no Eurochannel, analisa as teorias em torno do crime. Segundo a versão oficial, o cineasta, comunista declarado e homossexual assumido, teria sido torturado e atropelado por garoto de programa. Há quem acredite, porém, que se tratou de uma conspiração do governo italiano.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

sapatrix

charge Kássio/Correio Braziliense


No blog do meu conterrâneo Lira Neto, diz ele que se fosse a cantora Maysa que tivesse atirado aquele sapato no cretino do Bush, ele não teria escapado. Voltaria para a Casa Branca com a cara-de-pau roxa.
Lira é autor da biografia "Maysa - só numa multidão de amores", e passou muito tempo pesquisando a vida da cantora. Ela não pensava duas vezes em atirar sapatos contra a platéia que conversava enquanto cantava. E não errava nunca.

Na cultura muçulmana, atirar um sapato contra alguém é considerado um grande insulto, pois significa que o alvo é inferior, sempre em contato com o chão e a sujeira. Bush foi muito bem escolhido pra essa sapatada histórica. Pena que deu uma de Keanu Reeves no filme "Matrix" e desviou-se com precisão.

O incidente mobilizou o Iraque, levando manifestantes às ruas com sapatos nas mãos para defender o jornalista Muntadar al-Zaidi, considerado herói pelo povo.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Bond, negro Bond


Depois de Barak Obama eleito presidente dos Estados Unidos, a produtora dos filmes de 007, Barbara Broccoli, não descarta a possibilidade de um James Bond negro. Acho ótimo! Tem que ter também um Papa negro, ver se muda aquela coisa lá pelo Vaticano. Que Deus, Cristo sejam negros, não somente São Benedito. É a obamamania, sim!

E quem seria o agente secreto negro? Recentemente o mega-empresário do hip-hop Sean Combs, também conhecido por P. Diddy, se candidatou ao cargo quando Daniel Graig cansar das correrias. Pra impressionar, o cara gastou uma grana alta na gravação de um teste de representação para o papel de James Bond, em ação num helicóptero, naquele smoking impercável, e cercado de bond-girls gostosas, claro.

Outros artistas negros também manifestaram desejo de assumir o personagem criado por Ian Fleming, como o cantor americano de origem senegalesa, Akon, e o ator Jamie Foxx, que ganhou um Oscar pelo papel de Ray Charles no cinema.

Mas quem esteve perto de assumir o cargo, bem antes de Barak Obama ser uma realidade, foi o ator Colin Salmon, que fez uma dessas bobagens "Alien x Predador" e teve uma pequena participação num dos filmes do agente inglês.

Na época em que os produtores estavam querendo revitalizar a franquia, e o escolhido foi Daniel Graig, Salmon só não se tornou o primeiro James Bond afro porque tinha 41 anos e queriam um ator "mais jovem". Eu não acredito nesse argumento. Era mesmo o freio de mão do racismo acionado.

Voltando a Barbara Broccoli, a produtora acha possível um 007 negro, mas descarta taxativamente um James Bond homossexual. Para ela isso seria "contraditório com seu caráter original". Ou seja, nada do valentão arrodeado de "bond-boys"...

Se isso for possível, talvez o ator Daniel Graig não tenha problemas em fazer um personagem gay. Antes de se tornar agente secreto, ele teve uns amassos com Toby Jones, que interpretou Truman Capote no filme "Infamous".

domingo, 14 de dezembro de 2008

o estilo coreano

foto Cineclick Asia

A indústria cinematográfica mais bem-sucedida do Sudeste Asiático, a da Coréia do Sul, está em agitação desde que o governo do país decidiu negociar um acordo de livre comércio com os EUA. Os americanos querem condicionar o início das negociações ao fim das cotas para filmes nacionais que existem na Coréia há 40 anos.

Os filmes coreanos detêm 59% da receita com cinema no país; são exportados para as lojas de dvds japonesas e para a Tailândia, a Indonésia e a Malásia. Na China, maior mercado da região, os filmes coreanos são fartamente pirateados e vendem mais que os chineses. A reação à decisão do governo é ao estilo coreano. Nas últimas semanas, produtores de filmes fizeram greve de fome, atores rasparam a cabeça e vestiram preto em protesto, e trabalhadores do setor já começaram a enterrar simbolicamente o cinema do país em manifestações de rua.

Enquanto isso, se você encontrar numa locadora que se preze o filme "Fôlego" (Soom), de Kim Ki-Duk, alugue. É o bom cinema de tirar o fôlego.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

a excêntrica família Mann


Quem nunca leu Thomas Mann, vai querer depois de ler "Na rede dos magos - uma outra biografia da família Mann", da escritora e socióloga Marianne Krüll, alemã como os famosos retratados em seu livro, um volume de 500 deleitáveis páginas. Não poderia ser diferente. Para abordar a saga, aliás, a rede em que se enreda a família de escritores seria necessário mesmo uma pesquisa de grande fôlego.

O livro é primoroso. Escrito a partir da leitura de cartas, documentos, diários, relatos, fatos, a autora durante nove anos construiu uma obra de análise psicológica e sociológica sobre os membros de uma família cheia de estranheza, e que fazem parte do que há de mais interessante na literatura mundial do século XX. O suicídio de Klaus Mann em 1949, em plena Cannes, na Côte d'Azur, é o tema do capítulo que abre o livro. Klaus era filho de Thomas, que estava em uma conferência em Estocolmo quando soube da notícia.

Li pouca coisa de Heinrich Mann, irmão de Thomas, mas deste tenho na estante e na memória pelo menos cinco bons livros, "Os Buddenbrook", "Doutor Fausto", "Felix Krull", "Cabeças trocadas" e o clássico "A montanha mágica", um dos dez livros que eu levaria se tivesse que me exilar em Marte.

Nas minhas garimpagens por sebos e promoções, encontrei o livro de Marianne Krüll numa dessas Lojas Americanas, por R$ 9,90! Ali, perdido entre livros de culinárias e auto-ajuda. A obra teve sua primeira edição em 1991, na Alemanha. No Brasil creio que sete anos depois é que foi lançada pela Nova Fronteira, e já algum tempo eu não achava nas livrarias invadidas pelo Harry Porter.

Acima, os irmãos Heinrich (D) e Thomas, em foto tirada por volta de 1900.

sábado, 6 de dezembro de 2008

hoje é sábado

foto Arquivo NV

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.


Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.


Trecho do poema "Dia da criação", de Vinicius de Moraes, para quem todos dias eram sábados.

Está com tempo de ler o poema todo? Aqui.
Saravá, Vinicius! Sua benção.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

o terror, o terror

Li agora no jornal Correio Braziliense uma matéria que me deixou estarrecido. Surpreso não pelas revelações, pois se sabe que barbáries desse tipo eram praticadas pela ditadura no Brasil de maneira corriqueira.

O que me deixou estarrecido foi o cinismo na confissão fria do militar reformado.

Militar acusado de ser torturador
Luiz Carlos Azedo, da equipe do Correio

O presidente da Comissão Especial da Lei de Anistia, deputado Daniel Almeida (PCdoB-BA), vai pedir ao Ministério Público federal que processe por prática de tortura e assassinato o tenente da reserva José Vargas Jiménez, que admitiu ter cortado cabeças e mãos de três guerrilheiros do Araguaia durante as operações de combate do Exército na área. A confissão do militar reformado foi feita durante depoimento na comissão, na última quarta-feira, na Câmara dos Deputados. “Eu estive na guerrilha e uma guerra é assim”, justificou Jimenez, que era segundo-sargento do Exército por ocasião dos combates com os guerrilheiros ligados ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB).

Ao se justificar perante os deputados, Jiménez disse que não considerava a tortura como um crime hediondo quando estava no Araguaia. “Hoje em dia, que eu tenho estudo, sou bacharel em direito, sou politizado, eu vejo que realmente nós fizemos muito mais, mas é hipocrisia dizer que não tem que ser feito, porque senão ninguém conta”, observou. O ex-militar lançou um livro recentemente sobre a guerrilha do Araguaia e considera “revanchismo” as críticas à Lei de Anistia e às Forças Armadas.

O depoimento chocou os participantes da reunião. Jiménez, ex-chefe de grupo do Exército no confronto contra os comunistas, confirmou que tem em seu poder documentos secretos sobre as operações militares realizadas à época. Disse que recebeu ordens para matar todos os guerrilheiros. Jimenez assumiu a prática de torturas. Revelou que os corpos dos guerrilheiros mortos foram largados na selva “para os bichos comerem” e que as cabeças e mãos de três guerrilheiros foram cortadas e levadas a Marabá (PA), onde seriam identificadas. “Não dava para carregar os corpos no meio da selva”, justificou.

“Ali ficou configurada uma confissão”, avalia Almeida, que resolveu antecipar o envio do depoimento ao Ministério Público e não esperar a conclusão do relatório final da comissão. Os três guerrilheiros decapitados seriam os militantes do PCdoB André Grabois, João Gualberto Calatroni e Antônio Alfredo de Lima, mortos por uma patrulha do Exército no sítio de Oneide. O episódio teria sido horripilante. Um dos soldados utilizou os ossos descarnados dos dedos de um dos guerrilheiros como amuleto, num colar pendurado no pescoço. Considerava-o um troféu de guerra.

Segundo Jiménez, o Centro de Informações do Exército (Ciex) deu ordens, em 1975, para que documentos sobre a Guerrilha do Araguaia fossem destruídos, mas ele os conservou. O relator da comissão, deputado Arnaldo Faria de Sá (PTB-SP), avalia que Jiménez não levou em consideração que “o crime de tortura é imprescritível”. A comissão pretende encaminhar a gravação do depoimento na íntegra para o Ministério Público Federal. “Assim ele não poderá alegar que houve manipulação. O tenente é um fanfarrão. Ele assume crimes, e, se assume crimes, tem que responder por eles”, afirmou o parlamentar. “Ele pensa que os crimes são prescritos. Só que tortura não se prescreve”, afirma Faria de Sá.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Godard


"Não há resistência sem a memória"
Jean-Luc Godard