quarta-feira, 29 de outubro de 2008

criador e criatura


"O cinema só trata daquilo que existe, não daquilo que poderia existir. Mesmo quando mostra fantasia, o cinema agarra-se a coisas concretas. O realizador não é criador, é criatura."

Manoel Oliveira, cineasta português, um século de idade no próximo dia 12 de dezembro. Seu trabalho mais recente exibido no Brasil foi "Um filme falado", de 2003. Em 2004 dirigiu para a televisão "O quinto império - ontem como hoje".

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

fôlego novo

foto Cineclick Asia

Entediada e cansada das traições do marido, mulher resolve ir à prisão conhecer um condenado para consolá-lo. Uma tórrida paixão nasce entre os dois e as visitas se tornam freqüentes.

Com uma narrativa minimalista, "Fôlego" (Soom), é uma preciosidade cinematográfica em seus silêncios definidos e diálogos concisos. A produção, de 2007, é dirigida por Kim Ki-duk, da nova geração de cineastas sul coreanos. E tem o talento e a beleza da atriz Ji-a Park.

domingo, 19 de outubro de 2008

vida paralela

foto Reuters/Corbis

"A ficção gera vida, uma espécie de vida paralela que antes não existia. Hoje não podemos imaginar o mundo sem Dom Quixote ou sem Hamlet, mas houve um tempo em que eles não estavam. Tornaram-se parte indissolúvel da realidade porque foram imaginados. Essa é a forma da literatura."

Não por acaso - que o acaso não existe - folheava hoje um livro que li há algum tempo e gosto muito, "Aura", do mexicano Carlos Fuentes, e no Correio Braziliense deste primeiro domingo de horário de verão, deparo-me com uma estrevista com o escritor, de onde retirei o trecho acima.

Fuentes, que na verdade nasceu no Panamá, recebeu semana passada, na Espanha, o prêmio Dom Quixote de la Mancha. No próximo mês completará 80 anos. Escreveu mais de 50 romances, ensaios e peças teatrais. Seu novo livro, "La voluntad y la fortuna" (arrisco aqui uma tradução, algo como "A vontade e a sorte"), ainda não chegou nas livrarias brasileiras.

Outro livro que gosto é "Gringo viejo", que foi adaptado para o cinema numa produção americana dirigida pelo argentino Luiz Puenzo, no final dos anos 80. No elenco o grande Gregory Peck, contracenando com Jane Fonda, que vive uma solteirona que sai dos Estados Unidos, por volta de 1913, para ser professora de crianças de uma rica família mexicana. O encontro dela com um jornalista (Peck), cheio de ideais revolucionários, faz com que descubra novos valores, outras culturas, e o amor - não por acaso.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

idade mídia

foto PrimaPagina

Gravidez do ano: Cláudia Leite. Gêmeos do ano: barrigão de Fernanda Lima. Casamento do ano: Sandy. Separação do ano: Madonna e Guy Ritchie. Agora Ivete Sangalo grávida, capa inteira de segundos cadernos de muitos jornais.

Celebridade se tornou referência pra tudo.

Haja paciência!

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

você tem fome de quê?

foto GeoMundo

Hoje é o Dia Mundial da Alimentação. E daí? O que isso significa? O que e como vamos comermorar?

Essas datas comemorativas são uma grande bobagem. Dia disso, dia daquilo. Já bastam as datas que a gente não consegue se livrar, como o Natal, que já perdeu todo o real significado.

A celebração de hoje existe há 27 anos, e mais de 900 milhões de famintos aumentando ao redor do mundo.

Na foto, criança comendo restos de alimentos em rua de São Paulo, capital.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Amy

foto Island Records

Amy Winehouse. Voz surpreendente, inigualável, uma mistura belíssima de jazz, de blues, de soul. Uma compositora talentosa, com letras sinceras, criativas, ousadas.

Os abutres de plantão estão ansiosos por uma manchete dizendo que ela sucumbiu de vez ao turbilhão em que vive pelas doses a mais, pelo excesso em algum veneno anti-monotonia...

Amy, com seus 25 anos, é muito mais encantadora e controversa do que se supõe. O jornalista inglês Chas Newkey-Burden lançou um oportuno livro sobre a cantora, "Amy Winehouse - Biografia". Leitura imperdível para os fãs e àqueles que querem compreender um pouco sobre uma personalidade que causa curiosidade, comoção e admiração.

Como Amy não se cansa de surpreender, desejo que ela surpreenda os tais abutres e venha com o terceiro disco.

Veja e ouça a ótima "You know I'm no good", do cd "Back to black".

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

toda nudez será castigada?


Causando muita polêmica o manifesto que o ator Pedro Cardoso leu na quarta-feira passada, no Festival de Cinema do Rio de Janeiro. Um manifesto contra a nudez no cinema e na TV. Eu não estava no festival, não tenho conhecimento do texto. Em princípio, é esquisito esse tipo de manifestação vindo de um artista.

Pedro Cardoso fez sua declaração antes da exibição do filme de Domingos de Oliveira, "Todo mundo tem problemas sexuais", no qual é ator principal. Juntando tudo isso, parece piada, mas o manifesto é pra valer e o ator está a fim de provocar mesmo uma discussão sobre o assunto. Para ele, a nudez impede a comédia, o próprio ato de representar e vem sendo usada como recurso para atrair público. Pode até ser que esteja havendo uma espécie de vulgarização da nudez em alguns filmes, mas vamos devagar com o andor que moça nua pode ser de barro...

O cineasta Carlos Reichenbach foi um dos primeiros a se manifestar contra o manifesto: "Representar é se colocar nu. Essa postura de ator que renega o corpo me assusta. Achei tão moralista, tão absurda. É uma coisa retrógrada que, num certo sentido, avaliza a censura".

Carlão não dispensa uma nudez em seus filmes, com muito bom gosto e sentido, ressalte-se. Em seu recente trabalho, "Falsa loura", a brasiliense Rosane Mulholland é poeticamente despida em várias cenas. E é perfeita a abertura de "Garotas do ABC", seu filme anterior, em que a bela Michelle Valle faz um strip-tease ao contrário.

Há quem disse pelos corredores do Cine Odeon, onde ocorreu o festival, que a queixa de Cardoso é direcionada a Selton Mello, que estreou na direção de longa com "Feliz Natal", filme que tem a atriz Graziella Moretto em cenas de nudez. Graziella é namorada de Pedro, que chateou-se com o ator-cineasta por mostrar as seqüências a amigos em sessões privadas durante a montagem. Fofocas da Candinha à parte, não era motivo exatamente para um manifesto.

O diretor do Teatro Oficina, Zé Celso, com sua lucidez histriônica, definiu a controvérsia dizendo que Pedro Cardoso é um bom ator de comédia de costumes e tem todo o direito de ter pudor e não querer ficar nu, mas "fazer manifesto é coisa de velha, de tia".

domingo, 12 de outubro de 2008

a última esperança da Terra

foto barakobama.net

Barak Obama está com 87, 1% nas pesquisas. O velhote extremista da gang do Bush, John McCain, com 12,9%.

Acompanhe aqui como anda o velho mundo.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

e ela, por onde anda?

foto AFP

Poucos dias depois de ser libertada das selvas colombianas, Ingrid Betancourt foi mencionada entre os prováveis ganhadores do Nobel da Paz deste ano. O prêmio saiu hoje para o ex-presidente finlandês Martti Ahtisaari, de 71 anos, que passou outros favoritos, como Mandela e Dalai-Lama.
Os assessores da ex-senadora até marcaram uma entrevista em Paris, caso ela ganhasse. Foram obrigados a engavetar o discurso oficial, enviados para tvs e rádios.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

cara metade

foto Nathan Graig


"você é a pessoa
mais parecida comigo que eu conheço
só que do lado do avesso"


trecho do poema "Avesso", de Alice Ruiz
musicado pela cantora Ceumar,
gravado em seu disco "Sempre viva", de 2003

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

o inquilino polonês

foto Arquivo NV

"O inquilino" (Le locataire), de 1976, é um ótimo suspense dirigido e interpretado por Roman Polanski, que vive um polonês morando na França e aluga apartamento de uma garota que acabara de se suicidar.

Personagem e diretor parecem se confundir nesse filme. Polanski nasceu em Paris, seus pais eram poloneses, e aos três anos de idade foi morar na Polônia, um pouco antes de o país instalar um regime totalitário no molde stalinista.
O cineasta, hoje com 75 anos, tinha oito quando viu seus pais levados para um campo de concentração nazista, onde sua mãe morreu. Começou no cinema como ator, nos filmes do conterrâneo Andrzej Wajda.

Sou um admirador de Polanski, dele e de seus filmes. Há sempre um toque de talento até em trabalhos mais fracos, como "O último portal" (The ninth gate), filmado no final dos anos 90. "A faca na água" (Noz W Wodzie) e "Armadilhas do destino" (Cul de Sac), rodados no início da carreira, lá pela década de 60, são dois dos meus favoritos. Obras-primas. Verdadeiras aulas de cinema.

Em "O inquilino" Polanski cria um suspense regado a toques de humor negro e sarcasmo. É o último da chamada Trilogia do Apartamento, iniciada por "Repulsa ao sexo" (1964), seguido por "O bebê de Rosemary".

terça-feira, 7 de outubro de 2008

uns desertos

foto Jean-Sebastien Monzani


"Você me deixa a rua deserta

quando atravessa

e não olha pra trás"

Um verso de "Você é linda", Caetano Veloso, disco "Uns", 1983

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

paixão de um homem

foto Welligton Macedo / Divulgação

"Às vezes a gente finge que é feliz. Isso dói, mas a gente se acostuma a mentir para nós mesmos."

Esta é uma das afirmações do cantor Waldick Soriano no documentário "Waldick - Sempre no meu coração", dirigido, muito bem dirigido, pela atriz e agora cineasta Patrícia Pillar.

Lançado ano passado no festival Cine Ceará, o filme percorreu vários outros festivais e mostras pelo país, entre eles o É Tudo Verdade deste ano. Por onde passou, conquistou o público, o que foi uma vitória compensadora. Desde o início o trabalho já sofria um duplo preconceito: o tema, por tratar de um dos principais cantores da chamada música "brega", e por estar à frente do projeto uma atriz de televisão, sem nenhuma biografia atrás das câmeras, e ainda por cima casada com Ciro Gomes. Patrícia Pillar não deu a mínima atenção a tudo que vinha em sentido contrário e tocou seu filme pra frente.

Em quase uma hora de duração o documentário faz um retrato simples, sincero, tocante, embora melancólico, sobre um ícone da música popular brasileira, que passou seus últimos anos na solidão em Fortaleza, e faleceu há um mês, aos 75 anos, vitimado por um câncer, amargurado com a vida. Apesar desse sabor amargo de um bolero, Waldick não perdeu sua postura de homem forte e polêmico. Se foi machão, se foi mulherengo, se foi um beberrão, o filme de Patrícia Pillar se exime de qualquer tipo de julgamento. E isso com muita elegância. Uma elegância feminina de olhar com a câmera um personagem importante da nossa música, e um ser humano digno em sua autenticidade.

O documentário acompanha o cantor até sua cidade natal, Caetité, no interior baiano, vai a capital paulista nos lugares onde começou a cantar, revisita algumas das 14 ex-mulheres, abraça antigos amigos, reencontra o filho com quem não tinha boa relação. Com todo esse relato seco e franco, o que se nota em Waldick Soriano é que a vida, a vida apesar de tudo e de todas, foi a grande paixão de um homem, como diz o título de uma de suas canções.

"Waldick - Sempre no meu coração" foi exibido nesta semana no Canal Brasil.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

amor e sexo

foto Benny Hooper

Amor é um livro - Sexo é esporte
Sexo é escolha - Amor é sorte
Amor é pensamento, teorema
Amor é novela - Sexo é cinema
Sexo é imaginação, fantasia
Amor é prosa - Sexo é poesia
O amor nos torna patéticos
Sexo é uma selva de epiléticos

Amor é cristão - Sexo é pagão
Amor é latifúndio - Sexo é invasão
Amor é divino - Sexo é animal
Amor é bossa nova - Sexo é carnaval
Amor é para sempre - Sexo também
Sexo é do bom - Amor é do bem
Amor sem sexo é amizade
Sexo sem amor é vontade

Amor é um - Sexo é dois
Sexo antes - Amor depois
Sexo vem dos outros e vai embora
Amor vem de nós e demora

Rita Lee, Roberto de Carvalho, Arnaldo Jabor
Cd Rita Lee, Balacobaco, 2003

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Chico César forró y frevo

foto Cris Pereira

Ontem Chico César esteve na FNAC Brasília fazendo um pocket-show, divulgando o seu novo disco, "Franscisco Forró y Frevo", que, para sua surpresa, teve quase todas as músicas cantaroladas pelo público que lotou a pequena sala da livraria.

O disco do cantor e compositor paraibano mergulha no espírito de duas principais festas nordestinas: o carnaval e os festejos juninos, centrando o foco na força dos gêneros que animam essas datas. Depois do camerístico cd "De uns tempos pra cá", lançado em 2006, com participação muito especial do Quinteto da Paraíba, Chico César deu uma guinada na forma musical, levantando a poeira quente e seca dos ritmos do Nordeste. O disco é ótimo.

Claro que o público pediu os clássicos "Mama África", "Mand'ela", "À primeira vista", "Pedra de responsa", que estavam escaladas nos "improvisos". Teve até um inusitado "toca Raul!", e ele reverente ao eterno roqueiro, cantou "Sessão das 10". O baixinho simpático e carismático, contou histórias, conversou com a platéia. O auge no pequeno-grande show foi a música que ele fez em parceria com Rita Lee, "Odeio rodeio", faixa do cd "Compacto e simples", de 2003. Transcrevo a letra abaixo. Assino embaixo.

Odeio rodeio e sinto um certo nojo
Quando um sertanejo começa a tocar

Eu sei que é preconceito, mas ninguém é perfeito
Me deixem desabafar

A calça apertada, a loura suada, aquele poeirão
A dupla cantando e um louco gritando “segura peão”

Me tira a calma, me fere a alma, me corta o coração
Se é luxo ou é lixo, quem sabe é bicho que sofre o esporão

É bom pro mercado de disco e de gado, laranja e trator
Mas quem corta a cana não pega na grana, não vê nem a cor

Respeito Barretos, Franca, Rio Preto e todo o interior
Mas não sou texano, a ninguém engano, não me engane, amor.