quarta-feira, 25 de junho de 2008

lavando as palavras


"Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar.
Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer."

Graciliano Ramos, em entrevista concedida em 1948

domingo, 22 de junho de 2008

o esquema novo de Meirelles



Nos primeiros discos do ainda Jorge Ben há algo de especial no que se ouvia naquele suingue diferente: os arranjos do saxofonista João Theodoro Meirelles, depois conhecido como J. T. Meirelles, e mais na frente como o cabeça do conjunto Meirelles os Copas 5, que teve na sua formação inicial o pianista Luiz Carlos Vinhas e o baterista Dom Um Romão.

Meirelles foi o criador do chamado samba-jazz, uma mistura atraente de sonoridades aparentemente distintas. No primeiro disco do grupo, "O som", de 1964, encontramos a matéria prima dessa mesclagem. O vinilzão é uma obra-prima. Uma referência da música instrumental brasileira. Da primeira à última faixa, de um lado e do outro, uma maravilha extraída do ritmo de samba e improviso do jazz, com a beleza da pulsação sincopada e andamento moderado.

Esse e outros discos do Meirelles e os Copa 5 foram relançados pelo selo Dubas Music, assim como os lançamentos mais novos. "Esquema Novo", de 2005, é ótimo. E, se não me engano, é o último disco de Meirelles: o músico faleceu no começo deste mês, aos 67 anos. Quase nenhuma divulgação na imprensa. Uma notinha de rodapé num jornal aqui, outra ali. Neste país de "cultura" musical horizontalizada, massificada, mercadológica, quem é, afinal, J. T. Meirelles?

sábado, 14 de junho de 2008

George Diablo Bucha

charge Kácio/CB

A poucos meses de deixar o poder e os tanques de guerra, o maluco George W. Bush amarga um considerável índice de desaprovação. Coisa de 70%. É a pior marca de toda a história dos presidentes dos Estados Unidos. O legado do little Bush será recessão, inflação e problemas de defesa.

Que venha Barak Obama mudar para melhor a face da América.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

namorada

foto Ashley Keynes

Hoje, como em todos os dias, eu faço um filme de amor para você. Eu escrevo um poema com as mais belas palavras que eu possa extrair do meu coração. Eu componho uma música com os melhores arranjos de flores.

Hoje, como em todos os dias, eu digo que lhe amo.

terça-feira, 3 de junho de 2008

o tempo do poeta

foto Evilázio Ferreira

Estou só no mundo
e não me chamo Raimundo:
como Drummond dizia
digo eu: um dia é outro dia e o mesmo dia.

E esses dias somados
a troco de vintém:
não servem para mim
nem para ti ninguém.

Não servem para nada
nem pra dar nem vender:
são dias emprestados
a troco de viver.

Mais um dia que passa
sem parar se deter:
nessa doida corrida
sem saber para quê.

E onde isso vai dá?
O saber que importa:
esteja aberta ou fechada
a porta é a mesma porta

por onde se entra e não sai
tal qual uma sepultura:
como se jogassem fora
a chave e a fechadura.

Este belíssimo poema chama-se "Da inutilidade do tempo", do escritor e poeta cearense José Alcides Pinto, e está no livro "O algodão dos teus seios morenos".

Recebi ontem a notícia da morte do poeta, atropelado por uma moto na manhã de sábado, 31, no centro de Fortaleza. José Alcides tinha 82 anos, gostava de andar sozinho pelas ruas, observando as pessoas, flagrando a vida. Não sei como foi o acidente, mas o poeta não deve ter percebido "a indesejada das gentes", como dizia Bandeira, aproximando-se em duas rodas.

Tenho boas lembranças de minha convivência com o poeta, mestre de todos nós que escrevíamos uns versos, outros contos, algumas crônicas.

Mais informações no jornal Diário do Nordeste.