terça-feira, 3 de junho de 2008

o tempo do poeta

foto Evilázio Ferreira

Estou só no mundo
e não me chamo Raimundo:
como Drummond dizia
digo eu: um dia é outro dia e o mesmo dia.

E esses dias somados
a troco de vintém:
não servem para mim
nem para ti ninguém.

Não servem para nada
nem pra dar nem vender:
são dias emprestados
a troco de viver.

Mais um dia que passa
sem parar se deter:
nessa doida corrida
sem saber para quê.

E onde isso vai dá?
O saber que importa:
esteja aberta ou fechada
a porta é a mesma porta

por onde se entra e não sai
tal qual uma sepultura:
como se jogassem fora
a chave e a fechadura.

Este belíssimo poema chama-se "Da inutilidade do tempo", do escritor e poeta cearense José Alcides Pinto, e está no livro "O algodão dos teus seios morenos".

Recebi ontem a notícia da morte do poeta, atropelado por uma moto na manhã de sábado, 31, no centro de Fortaleza. José Alcides tinha 82 anos, gostava de andar sozinho pelas ruas, observando as pessoas, flagrando a vida. Não sei como foi o acidente, mas o poeta não deve ter percebido "a indesejada das gentes", como dizia Bandeira, aproximando-se em duas rodas.

Tenho boas lembranças de minha convivência com o poeta, mestre de todos nós que escrevíamos uns versos, outros contos, algumas crônicas.

Mais informações no jornal Diário do Nordeste.

4 comentários:

Dioneide disse...

Olá, Nirton!!!

Lindo poema do saudoso José Alcídes e quanto sensibilidade na alma ele tinha.Copiei daqui pra repassar nas listas.

Abração.

Nirton Venancio disse...

sempre que se vai um amigo, vai um pouco da gente... vamos nos esvaziando, mas vamos nos recuperando com o caminho pela frente.

Márcio Catunda disse...

Queridos amigos,
Envio-lhes uma expressão sincera de dor pelo ocorrido com o nosso
inolvidável José Alcides Pinto.
Um abraço sentido a todos.
Márcio.

JOSÉ ALCIDES PINTO

«Ele tinha casa, comida e roupa lavada no meu coração»
Vinícius de Moraes

Ninguém sabe o quanto eu gostava de você
e como me arrependo de não tê-lo visto
nas recentes vezes que fui a Fortaleza.
Foi você quem disse que eu não fosse à sua casa.
Mas você que era um gênio, sabia que eu sou humano.
Você que tinha o dom da palavra, e tudo o que dizia era poesia.
Meu querido amigo,
se eu estivesse perto, aquela moto não o teria atropelado.
Mas como estar sempre perto,
se vivo tão longe das Terras do Dragão?
(Longe só na distância física).
O André Seffrin e o Nirton Venâncio me deram o susto da notícia.
Você não imagina o que tenho sofrido por conta disso!
Quanto aprendi com você!
Seu senso de humor, sua irreverência,
sua facilidade de resumir tudo em poucas palavras.
Essa fatalidade terá sido a sua travessura final?
Uma peripécia para expressar a angústia existencial?
Quanta vez você me falou da sua abjeção pelo momento terrível!
No entanto, como esteve próximo dele em diversas ocasiões!
Que Deus o receba de braços abertos.
Você merece as dádivas divinas, José.
Ah, e onde quer que você esteja,
fique certo de que vou procurá-lo um dia.

Maria Maria disse...

Olá, eu era amiga de J. A. Pinto e trocávamos poemas sem mesmo nos conhecermos. É uma longa história!!!
Mas, curiosamente, ele publicou um poema meu chamado PARTILHA no seu livro O algodão dos teus seios morenos. Eu gostava de sua prosa e ele era apaixonado pela minha poesia. Senti muito a sua perda, mas poetas não morrem, se encanatam.

Se puder, viista meu blog:
www.espartilhodeeme.blogspot.com

Um abraço,

Maria Maria