terça-feira, 29 de abril de 2008

por trás da máscara

foto The Cinema Source / Divulgação

Meu filho já me pediu para assistir ao "Homem de ferro", que estréia neste fim de semana no Brasil. Não é exatamente o filme que me deixa na expectativa de correr aos cinemas. Mas estarei lá, somando-me ao fascínio do meu pequeno com as aventuras do novo "iron man".

A minha expectativa mesmo é ver Robert Downey Jr., um dos melhores atores da geração de 80 para cá, vestido na armadura do super-herói lançado pela editora e produtora Marvel. O ator conseguiu se livrar de uma barra pesadíssima com drogas e prisões, e por pouco sua carreira (sem trocadilhos...) não foi abaixo. Há uns cinco anos a única chance de se ler alguma coisa sobre Downey Jr. era que estava metido em confusões. Mesmo assim foi escolhido para uma produção caríssima, dessas que Hollywood não quer perder um centavo de dólar.

Com mais de 50 filmes, sua melhor interpretação é, sem dúvida, em "Chaplin", cinebiografia do criador de Carlitos, dirigida em 1992 pelo também ator Richard Attenborough, o mesmo que dez anos antes levou ao cinema a vida de Gandhi. É impressionante a atuação de Robert Downey Jr. como Charles Chaplin, até fisicamente se parece com o grande gênio do cinema quando jovem. Venceu outros pretendentes ao papel, como Al Pacino, Robert De Niro, Dustin Hoffman, e até Billy Cristal. Ainda bem. Imaginem o carismático vagabundo Carlitos com os cacoetes strasbergnianos de De Niro...

O melhor que acho nesse trabalho de Downey Jr. é que ele se destacou pela interpretação perfeita e envolvente, mas não ficou "marcado" pelo personagem, como aconteceu com o próprio Ben Kingsley ao viver o líder pacifista que ajudou na indepedência da Índia. Eu sempre que assisto a um filme com esse ótimo ator inglês lembro-me de imediato de Mahatma Gandhi, embora um papel não invalide o outro.

A SET deste mês traz matéria de capa sobre o filme dirigido por Jon Favreau, e, como é característico da revista, muitas informações sobre os bastidores da produção de "Homem de ferro", uma entrevista com o ator, e um levantamento das publicações em quadrinhos sobre o personagem.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

a cumplicidade dos filmes

foto Arquivo NV

"Os filmes não existem só ali, na tela, no instante de sua projeção. Eles se mesclam às nossas vidas, influem na nossa maneira de ver o mundo, consolidam afetos, estreitam laços, tecem cumplicidades."

Jean-Claude Carrière, roteirista, em seu livro "A linguagem secreta do cinema".

terça-feira, 15 de abril de 2008

o silêncio do gelo

foto RBS/Divulgação

Para quem gosta de lugares frios como eu, estréia hoje no Canal Brasil a série "Antártida", dirigida pelo jornalista André Costantin. Dividido em quatro curtas-metragens o programa mostra o distante continente gelado sob a perspectiva dos brasileiros que vivem e trabalham lá.

No meio de um local totalmente dominado pelo silêncio e emoldurado por uma paisagem deslumbrante, o cineasta encontrou personagens interessantes, como a biológa Emanuele Kuhn, que estuda bactérias e considera a Antártida a sua casa, e o marinheiro Anderson Medina, que nas horas vagas dá uma de DJ, "quebrando o gelo" com seu funk cheio de palavras do jargão militar.

sábado, 5 de abril de 2008

a voz de Billie

foto Arquivo NV

Logo na abertura do ótimo filme "Sophie Scholl - Uma mulher contra Hitler" (Sophie Scholl - Die letzten tage), de Marc Rothemund, ouvimos a bela voz da cantora americana Billie Holiday, cantando uma de suas mais bonitas canções, "Sugar". A atriz Julia Jentsch, na personagem título, acompanha a música com o ouvido colado no rádio, cantarola, e a cena é interrompida, partindo para outra seqüência.

Durante o desenrolar de quase duas horas de filme, aquela música lá do final dos anos 30, ficou na minha cabeça, suavemente ecoando. Esperei o final e peguei o cd duplo "The best of Billie Holiday": disco 2, faixa 5. Que maravilha de música, voz, interpretação!

Minha cantora preferida de jazz é Dinah Washington, mas é impossível não se encantar com tantas outras, como Ella Fitzgerald, Bessie Smith, Ethel Waters, Betty Carter, Carmen McRae, Alberta Hunter, Nina Simone... só para ficar lá pelas décadas de 20 a 50. Uma das mais perfeitas vozes do jazz contemporâneo é Diana Krall.

O que particulariza o estilo de Billie Holiday é a essência de sua interpretação. Sua conturbada vida parece desfolhar-se em cada canção, não somente pelas letras das músicas, mas pela maneira como essas canções saem da sua alma, são extraídas lá do mais íntimo do coração.

Quando nasceu, seu pai, um tocador de banjo, tinha apenas quinze anos de idade e sua mãe não mais do que treze . O pai abandonou a família e a mãe deixava a filha bebê com familiares. Negra, pobre, desamparada, Billie amargou infortúnios logo cedo. Foi violentada aos dez anos de idade por um vizinho. Internou-se em casa de correção, lavou chão de prostíbulo, e virou prostituta aos catorze anos, em Nova Iorque. Isso nos anos 20. Na década seguinte começou como cantora, quando foi descoberta por um pianista em um bar do Harlem. Sua voz conquistou nomes como Benny Goodman, Count Basie, Artie Shaw, Duke Ellington e Louis Armstrong. Fez concertos com todos eles.

Nos anos 40, Billie entrou numa de ruim pra pior. Passando por vários momentos de depressão, afundou-se no álcool e drogas pesadas. Um caminho sem volta. Morreu com apenas 44 anos de idade.

Muitas revelações corajosas estão na autobiografia "Lady sings the blues", publicada pouco antes de sua morte. Do livro foi feito o filme, no Brasil intitulado "O ocaso de uma estrela", dirigido por Sidney J. Furie, em 1972. Na época não gostei muito da adaptação, muito centralizada na figura de Diana Ross, que interpreta Billie. Não revi mais o filme. Continuei ouvindo a voz etérea e levemente rouca da diva que os fãs chamavam de Lady Day.

Em tempo: a trilha sonora de "Sophie Scholl" é recheada de canções jazzísticas, em que pese a ambientação opressiva da época nazista em que se passa o filme.