terça-feira, 30 de dezembro de 2025

de poeta para poeta


 Minha Poesia Provisória no afeto permanente da poeta Argentina Castro.

"Último dia 30 do ano, última terça do ano, acompanhada pela poesia de @nirton_venancio e da minha irmã @crisaquariana06 pós almoço fazendo um café com poesia. Respirando. Desacelerando"

Patti


 

domingo, 28 de dezembro de 2025

Mayfield


 

sem desprezar o cinema


Em O desprezo (Le mépris), de Jean-Luc Godard, 1963, Brigitte Bardot interpreta uma atriz que vai à Itália protagonizar uma ousada adaptação de Odisseia, de Homero, dirigida ficticiamente por Fritz Lang, este fazendo o próprio papel naquela “viagem” do cineasta francês.

Assim como a personagem de Bardot foi utilizada pelo marido roteirista, interpretado por Michel Piccoli, para atrair o produtor americano, papel do estadunidense Jack Palance, Godard de certa forma foi pressionado pelos produtores franco-italianos a escalar a bela atriz de 28 anos e incluir uma cena de nudez. Tudo estrategicamente ambientado na paradisíaca ilha de Capri.
Astucioso, o cineasta não fez concessão parecendo que fez; e não fugiu ao seu jeito autêntico de fazer cinema, fingindo que aceitara.
As filmagens foram tensas, na relação com o diretor e parte do elenco.
Primeiro, Brigitte Bardot se surpreendeu com o convite de Godard. “Era o oposto de todo o meu mundo, de todas as minhas ideias”, conta a atriz em sua biografia Iniciais BB – Memórias (Editora Scipione, 1996). Quando os dois foram apresentados, não trocaram mais do que três palavras. “Ele me deixava petrificada. Eu deveria deixá-lo aterrorizado”, assinala sobre o encontro com “Jean-Luc Godard e seu chapéu”, como sempre se refere.
Bardot hesitou muito em aceitar o convite. Ela lera Il desprezo, romance existencialista de Alberto Moravia, que serviu de base para o roteiro de Godard, e acreditava que seria deformado pela direção do papa da Nouvelle Vague e pelos diálogos discordantes do tom original. Mas terminou por aceitar, fazendo uma aposta com ela mesma, sabendo que tinha muito a perder e mais ainda a ganhar. “Estava embarcando numa aventura das mais loucas da minha vida”, sentencia.
Lançado com expectativa, não houve para o filme desprezo nem do público nem da crítica. Foi uma das maiores bilheterias daquele ano e a conceituada revista Sight & Sound considerou "A maior obra de arte produzida na Europa do pós-guerra”.
Brigitte Bardot faleceu hoje aos 91 anos.

Bardot


 

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

brinquedo de um Natal distante

“Sem dúvida, não podemos compartir plenamente a ilusão, mas o que justifica nossos esforços é que, alimentada em outrem, ela nos oferece pelo menos uma oportunidade de nos aquecer à chama acesa nessas jovens almas. A crença que inculcamos em nossos filhos de que os brinquedos vêm do além oferece um álibi ao movimento secreto que nos leva a ofertá-los ao além, sob o pretexto de dá-los às crianças. Dessa maneira, os presentes de Natal continuam a ser um verdadeiro sacrifício à doçura de viver, que consiste, em primeiro lugar, em não morrer”.

Trecho do ensaio O suplício do Papai Noel, de Claude Lévi-Strauss, 1952 (Edição Cosac Naify, 2008).


 

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

migrante


Um dia cheguei aqui
de mãos dadas com um amor
que foi a minha terra tomar banho de mar
e me encontrar num dia branco.¹
O céu tão baixo na Esplanada
desenhava o rosto de Iracema na praia
e banhava-me marés de saudade.
Metade de minha vida
é sertão
outra parte do tempo
é cerrado.
Um lado do peito
é carnaúba
outra parte do colo
é buriti.
Um braço de serra
é Ibiapaba
outra mão que acena
é Asa Norte.

- Página do meu livro em preparação A distância e a paisagem – Escritos sobre Brasília.
¹ Menção à composição Dia branco, de Geraldo Azevedo e Renato Rocha, 1981.
Foto meramente ilustrativa: cena do filme Faroeste caboclo, de René Sampaio, 2013.

aurora


 

agora


 

capa de poesia


 

dois livros


 

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

arqueologia do sonho


No começo deste ano, David Felício, técnico em preservação e digitalização do Museu da Imagem e do Som, Ceará, ao abrir a lata com a cópia 35mm do meu primeiro filme, Um cotidiano perdido no tempo (1988), para o processo de restauração, deu um sorriso, disse-me, ao ler uma frase que escrevi à época da realização na parte interna:

"Faço cinema para dar força a quem sonha".
Uma mensagem como numa garrafa jogada ao mar em direção ao futuro, à civilização de jovens como David, Gabriela Dantas, Mariano e Gabriel Dantas para que tenham forças para continuar a sonhar.
Parabéns Fábio Rodrigues Filho, coordenador do Cinema Dragão do Mar, pelo afeto da projeção do sonho.

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

a esfinge


Foto: Acervo Paulo Gurgel Valente

"O que sinto não é traduzível. Eu me expresso melhor pelo silêncio."

- Clarice Lispector em seu último livro, Um sopro de vida, publicado postumamente em 1978 pela Editora Nova Fronteira.
A escritora faleceu um dia antes de seu aniversário, 10 de dezembro, quando faria 57 anos. Pelo ritual judaico não pôde ser enterrada no dia seguinte, um sábado. Seguiu para o Cemitério Comunal Israelita, bairro do Caju, Rio de Janeiro, dia 11.
48 anos que partiu para outros silêncios.   

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

traços do arquiteto

Foto: Acervo Fundação Oscar Niemeyer

Na manhã de 6 de dezembro de 2012, a antropóloga carioca Yvonne Maggie seguia em um táxi para o Instituto de Arquitetos do Brasil, no Rio de Janeiro. No rádio, o noticiário repercutia a morte de Oscar Niemeyer no dia anterior.

Entre muitos depoimentos de personalidades sobre a importância do arquiteto, Yvonne se emocionou com o relato de um repórter. Ele estava na fila de uma padaria e ouviu a conversa de uma menina, de sete ou oito anos, com a mãe. A garota disse que se sentia muito triste porque Oscar Niemeyer morreu. E arrematou: “Ele foi um grande escritor que escrevia casas e edifícios”. A mãe, curiosa, perguntou onde ela aprendeu aquilo. “Na escola”, afirmou.
Assim como Yvonne, imaginei que essa menina poderia ser aluna de um Centro Integrado de Educação Pública (Ciep), criação de Darcy Ribeiro quando foi secretário de Educação no governo Brizola, e desenhado por Niemeyer. E lembrei do livro de memórias do arquiteto, As curvas do tempo, lançado em 1998.
Niemeyer começou os textos no final dos anos 70. Mas tinha dúvidas da qualidade literária. Foi seu grande amigo Rodrigo Melo Franco de Andrade, historiador, que o incentivou: “Vai escrevendo, Oscar, vai escrevendo. Corrige depois”.
Publicado pela Editora Revan, o livro cativa pela simplicidade narrativa, como estivéssemos numa sala ouvindo o autor contar onde nasceu; sua infância no bairro Laranjeiras; as idiossincrasias dos parentes; a quantidade de escritores que leu; as farras com os amigos; o medo de viajar de avião; o despertar pela arquitetura e a relação afetiva com Le Corbusier; sua militância no partido comunista e amizade com Prestes; seu primeiro projeto individual, o Conjunto Arquitetônico da Pampulha; os bastidores da construção de Brasília e as longas conversas com Juscelino; a resistência de não se entregar à velhice e o incômodo com a implacável certeza da morte.
O escritor italiano Alberto Moraria dizia que a literatura se engrandece quando se aproxima da linguagem oral, máxima que se aplica ao despojamento da autobiografia de Niemeyer. Sem ter necessariamente uma sequência cronológica nos capítulos, a imagem que faço são folhas de croquis literários espalhadas sobre uma enorme prancheta e o autor pegando uma para ler, depois outra para reler, abaixando-se para pegar uma que caiu com o vento que entrou pelo janelão de seu escritório em Copacabana, onde trabalhou até cinco dias antes de falecer, aos 104 anos.
Para a edição do livro, o autor criou desenhos, colocados no final das páginas, como rodapés na sala ilustrando trechos de uma casa.
Niemeyer, o arquiteto que teve seus traços lidos pela menina da fila da padaria.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

aquele filme do Godard


Foto: Raoul Coutard

“A realidade é muito complexa para ser transmitida pela tradição oral”. Esta é a frase que abre o filme “Alphaville, de Jean-Luc Godard.
Numa cidade futurista, um computador aboliu os sentimentos de todos os habitantes. Um agente chega ao local para convencer o inventor a destruir a máquina.
Com esse enredo, Godard (1930-2022) realizou em 1965 um filme que poderia ser feito nestes esperançosos e ao mesmo tempo distópicos e algorítmicos anos 2000. Há dias em que temos menos manhãs, em que somos engolidos pelo que inventamos.
Alphaville é uma premonição a 24 quadros por segundo. Como a realidade é muito complexa, o cinema inventa a memória do futuro.
Abaixo, a atriz Anna Karina e o diretor num intervalo das filmagens. Um olhar vê o cinema em movimento.
Hoje, 95 anos de nascimento do visionário Godard.