quarta-feira, 28 de outubro de 2009

La vita è bella



A deusa Anita Ekberg resolve tomar banho com roupa na Fonte de Trevi enquanto Marcello Mastroianni tenta achar leite para um gatinho, que ela tinha visto nas ruas. Ao retornar, Marcello vê Anita se banhando e se deslumbra, principalmente quando ela o convida.

A cena é do filme "A doce vida" (La dolce vita), de Federico Fellini, rodado em 1960. Mastroianni é o jornalista Marcello Rubini, e Anita vive uma fictícia atriz hollywoodiana chamada Sylvia Rank. Escândalo mundial, premiado em Cannes e Oscar de melhor figurino, o longa é um retrato da Roma em seu esplendor, e antecipou as mudanças que fizeram dos anos 60 a década da transformação, mostrando o tempo da velocidade, da americanização dos hábitos, dos carros e das mulheres formidáveis.

"A doce vida" é todo cheio de cenas emblemáticas, como a abertura, com a sequência da estátua do Cristo sobrevoando Roma, não por milagre, mas transportado por um helicóptero, dentro do qual estão os repórteres sensacionalistas e um fotógrafo paparazzi - termo que acabou sendo incluído no vocabulário mundial.
Começo dos anos 60 e a Itália mergulhava num otimismo desvairado. Acabara a guerra e ninguém queria mais saber do cinema neo-realista - do qual o próprio Fellini havia emergido, simplesmente porque ninguém desejava se recordar da violência, da miséria, da humilhação.
A vida era bela.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

bicho solto


foto Sandro Fielting 

"Que bicho feroz são seus cabelos / que à noite você solta?"

Versos de "Você, você - uma canção edipiana", composta por Chico Buarque, musicada por Guinga, no disco "As cidades", de 1998.

Mas o sentido da letra completa é outro, bem diferente da minha brincadeira com a foto acima, de minha atrevida "licença poética". A inspiração de Chico Buarque está muito bem analisada pelo psicanalista e compositor David Calderoni, no trabalho "A pedra e a perda - feminino e temporalidade", publicado na página da Uol.


Chico também comenta e canta:



domingo, 25 de outubro de 2009

os destinos do país num ambiente assim

 
 foto Luiz Alves / Agência Câmara

"A nossa Câmara dos Deputados, em Brasília, é a única no planeta cujos integrantes não se sentam no plenário a debater ou discutir, analisar ou ponderar, expor e replicar. Ao contrário, os poucos deputados presentes parecem estar a passeio ou de passagem rápida, sempre de pé pelo corredor, num tumulto permanente que leva a perguntar: é possível legislar ou pensar sobre os destinos do país num ambiente assim? Não se parlamenta: se conversa ou se grita. Não há 'parlamento', mas simples aglomeração. Nenhum outro parlamento do mundo é assim. De onde vem essa prática insólita e absurda? Será outro legado dos tempos da ditadura implantada em 1964, dessa sui generis ditadura com deputados e senadores, em que o Congresso era apenas uma formalidade no jogo de faz-de-conta para simular democracia?"

Comentário à parte do jornalista Flávio Tavares em seu livro "O dia em que Getúlio matou Allende", publicado em 2004 e imprescindível para compreender um pouco mais, aliás, muito mais da história da vergonhosa política brasileira.

O deputado Clodovil Hernandes,  era um estranho naquele ninho,  e  se entrou na política como um aventureiro, sem nenhuma vocação para o parlamento, foi, no mínimo, extremamente sincero em suas convicções, muito mais do que a cambada de nobres senhores envolvidos em mensalão, castelos e outras práticas indignas do Legislativo federal.

Uma das frases de Clodovil que marcou o seu primeiro discurso em 2007, ilustra bem aquilo lá:


"Fala-se muito em decoro parlamentar. Eu não sei o que é decoro com um barulho desses enquanto a gente fala. Aqui parece um mercado. Isso aqui representa um país. Nem na televisão, que é popular, se faz isso."

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

eu nem ligo, nem esquento a cabeça...


foto Divulgação

"Sou uma pessoa que gera anticorpos em muita gente, mas não ligo. Continuo fazendo meu trabalho."

(José Saramago)

terça-feira, 13 de outubro de 2009

tijolo com tijolo num desenho lógico



A edição brasileira da revista Rolling Stone fez uma enquete com 90 críticos especializados e mais alguns jornalistas da área musical, para saber quais as 100 maiores canções brasileiras. A lista faz parte da edição que chegará às bancas nesta semana, comemorando três anos de publicação nacional.

"Construção", de Chico Buarque, ficou em primeiro lugar, e eu votaria nela para essa colocação se fosse consultado. Composta em 1971, em pleno regime truculento do general Médici, é uma das letras mais bem elaboradas em toda história da música brasileira. Não consigo achar outra que tenha tamanha preciosidade poética. Adriano Senkevics, do blog Letras Despidas, fez uma excelente análise de "Construção", verso por verso, interpretando seu "aspecto narrativo, além de um caráter cíclico e comparativo."

Eu era adolescente quando ouvi pela primeira vez a música, numa tarde quente em Fortaleza, através do rádio. O apresentador do programa, Paulo Lima Verde, anunciou o "grande lançamento" do elepê do cantor Chico Buarque de Holanda, já destacando a magnífica letra da faixa-título "Construção", a última do lado A. Como diria a rapaziada, fiquei "chapado". E depois vi o vinilzão de capa ocre, com a foto pequena do Chico de camisa estampada, mão esquerda na cintura, cabelos repartidos de lado, bigode em circunflexo.

Um aspecto que muito impressionou foi a narrativa que remetia à imagens. Vi  um filme enquanto ouvia música. Como eu quis fazer um roteiro cinematográfico daquela canção!... E como aquela letra muito me orientou nos rabiscos dos meus poeminhas, na busca precisa e certeira das rimas, na armação das palavras proparoxítonas.

Quanto às demais escolhidas na pesquisa da Rolling Stones, seguem as que ocupam os 10 primeiros lugares: "Águas de março", de Tom Jobim, "Carinhoso", de Pixinguinha, "Asa branca", de Luiz Gonzaga, "Mas que nada", de Jorge Ben, "Chega de saudade", de Vinicius de Moaraes e Tom Jobim, "Panis et circenses", de Caetano e Gil, "Detalhes", de Roberto e Erasmo Carlos, "Canto de Ossanha", Vinicius e Baden Powell e "Alegria, alegria", de Caetano.

sábado, 10 de outubro de 2009

jazz em San Telmo


foto Divulgação

O tango com sua forma de melodia binária, a música eletrônica com sua multiplicidade sonora, o jazz com sua  variedade harmônica e improvisos. Estes três elementos convergem e definem a proposta do grupo San Telmo Lounge, que se apresentou ontem no CCBB de Brasília, encerrando o projeto Eletrotango iniciado há três semanas.

Assisti a todos os shows da programação e esse me pareceu o menos contagiante, não exatamente pela sonoridade que caracteriza bem o estilo lounge music, mas pela distante integração dos músicos com a platéia. Os quatro componentes, competentes em seus instrumentos, interagem entre si como estivessem em um ensaio. As poucas vezes que o criador e líder do grupo, o guitarrista Martín Delgado (na foto, o primeiro à direita), se dirigiu ao público, foi apenas para informar que tal música é de tal disco, não de forma antipática, mas burocrática, sem a empatia e descontração que marcaram as apresentações dos tangueiros de outras noites, de otros aires.

San Telmo Lounge é um quarteto que toca jazz. O tango passa longe, muito além do bairro que inspirou o nome da banda, onde curiosamente se encontram tantos bares, pubs e os melhores clubes de tango da capital argentina. Só se percebe esse ritmo tão identificatório da alma portenha quando soa o bandoneon do esquisito Pablo Gaitán. Até mesmo os recursos eletrônicos que caracterizam o experimento dessa fusão musical, são moderados, frugais, quase nada.

Gosto muito de jazz, de lounge music, mas saí na sexta-feira para um tango ao compasso das picapes.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Prêmio Nobel da Paz!


foto AFP

Primeiro negro eleito presidente dos Estados Unidos, o senador democrata Barack Obama, 47 anos, foi nomeado nesta sexta-feira Prêmio Nobel da Paz. Merecidíssimo!

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

e ela, por onde anda?


 foto France Press
 
Ingrid Bettencourt, sequestrada pelas FARC em 2002, libertada em em 2008, junto com 14 reféns.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

tango narcótico


 foto Divulgação
  
"Narcotango é um abraço profundo entre o tango e a atmosfera musical eletrônica de nosso tempo. Pensei nisso vendo alguns poucos pares dançando na pista, se negando a terminar a noite; e foi nessa hora que nasceu o Narcotango. Imaginei a música que queria dançar e ver dançar. É nessa hora que o poder narcótico do tango seduz, uma vez que entramos nesse universo e não queremos mais sair. Porque o tango é como uma droga: proporciona uma incrível sensualidade e uma poderosa energia."

As palavras inebriantes são do músico Carlos Libedinsky (o primeiro à esquerda, na foto), criador e líder do grupo Narcotango, que faz uma suave mistura do tango de Osvaldo Pugliese com Massive Attack. Um cruzamento aparentemente difícil de se imaginar, mas que é possível. Aliás, o tango com os sons de origem eletrônica está proporcionando resultados extraordinários na música contemporânea.

Não somente o tango "proporciona uma incrível sensualidade e uma poderosa energia", como afirma o músico argentino: a música em si, pela sua  natureza,  transita direto nesses efeitos, em todos os gêneros desde que a qualidade exista para conduzí-la nessa viagem de sensualidade e energia.  E imagino sensualidade e energia como todos os tipos de sentimentos que possam despertar nos ouvidos mais sensíveis, nos corações mais abertos.

O tango, claro, tem uma característica, algo em sua definição que se entrega a uma coreografia que denota a sensualidade, ou pegando e explorando a comparação de Libedinsky, um efeito lúbrico, voluptuoso, lascivo. O show do Narcotango, que assisti nesse fim de semana, no CCBB de Brasília, até provoca essas sensações, mas de eficácia mais letárgica do que excitante, ao contrário dos dois grupos anteriores, Tanghetto e Otros Aires, que se apresentaram no projeto Eletrotango. Como já conhecia o Narcotango de disco, não me surpreendi muito.
Mas assistir ao vivo o efeito é outro. A dosagem é maior.

domingo, 4 de outubro de 2009

Gracias a la vida!



 foto France Press
 
Gracias a la vida, que me ha dado tanto, Mercedes, me deu dois olhos que quando os abro distingo bem o bem do que não é bem, Mercedes, e do alto do céu estrelado, nas multidões a mulher que eu amo, Mercedes. Gracias a la vida, que me ha dado tanto, me deu ouvido para te ouvir, Mercedes, com toda tua extensão, noites e dias, grilos e canários, martírios, turbinas, ladridos, chubascos. E tua voz tão terna, minha bem amada Mercedes. Gracias a la vida, que me ha dado tanto, Mercedes, me deu o som e o abecedário, com ele as palavras que penso e declaro mãe, amigo, irmão e luz alumbrando a rota da alma do que estou amando, Mercedes. Gracias a la vida, que me ha dado tanto, me deu a marcha de meus pés cansados, com eles andei cidades e charcos, praias e desertos, montanhas e planos, e tua casa, tua rua e teu pátio, Mercedes. Gracias a la vida, que me ha dado tanto, Mercedes, me deu o coração que agita seu marco, quando olho o fruto do cérebro humano, quando olho o bom tão longe do mau, quando olho o fundo de teus olhos claros, Mercedes. Gracias a la vida, que me ha dado tanto,  me deu o riso e me deu o pranto, assim eu distingo dita de quebranto,os dois materiais que formam teu canto, Mercedes, e o teu canto que é o mesmo canto, e o canto de todos que é teu próprio canto. Gracias a la vida, que me ha dado tanto, Mercedes, eu que tanto te ouvi, que tanto resisti trabajando duramente contra os anos de chumbo, ouvindo-te, ouvindo-te, ouvindo-te, Mercedes Sosa. Gracias también, Violeta Parra.

Duerme, duerme, negrita.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

no velho oeste ele nasceu


 foto Produzioni Europee Associati

Em meio à Guerra Civil Americana, três homens fazem de tudo para colocar as mãos em 200 mil dólares roubados, que devem estar escondidos em um cemitério. Cada um deles conhece apenas uma parte da sua localização, o que faz com que eles tenham que se unir. O problema é que nenhum está disposto a dividir o que encontrarem. Aparentemente simples, o roteiro de  "Três homens em conflito" (Il buono, il brutto, il cattivo), resulta em um dos melhores westerns que o cinema já produziu. Para mim, um clássico. Dirigido pelo italiano Sergio Leone, em 1966, é um dos filmes que projetou Clint Eastwood, ao lado de outros faroestes igualmente bons, como "Por um punhado de dólares" (Per un pugno di dollari), de 1964, e "Por uns dólares a mais" (Per qualche dollaro in più), de 1965.

Sergio Leone praticamente consagrou o que se denominou de westerns spaghetti, um gênero lançado nos anos 60 por vários cineastas italianos. Na verdade, os filmes eram rodados na Espanha, numa região desértica que lembrava o velho oeste americano. O elenco desses filmes tinha atores de várias nacionalidades, do brasileiro Anthony Steffen ao alemão Klaus Kinski, passando, obviamente, por italianos como Giuliano Gemma, Franco Nero, Gian Maria Volonté. E americanos, claro, como o citado Clint Eastwood, que praticamente deu uma cara ao cowboy de Sergio Leone, autor de um western mais cuidado, sensorial, com uma preciosa direção de cena e de ator, como se vê no excelente "Era uma vez no Oeste" (Once Upon a Time in the West), 1968, com atuação primorosa de Henry Fonda.

Li uma vez numa revista especializada que foram realizados mais 600 filmes werstern spaghetti, do início dos anos 60 até final dos 70. Não sei se assisti a todos, talvez não, mas vi muitos, muitos desses filmes. "Três homens em conflito" é um que revejo sempre.

A trilha sonora de Ennio Morricone é um clássico à parte, e totalmente integrado à memória do filme. Alguém pode não ter visto "Três homens em conflito", mas certamente já ouviu essa música, aqui numa ótima e divertida execução da Ukulele Orchestra of Great Britain. Assovie junto.