terça-feira, 29 de setembro de 2009

devolva o Neruda que você não leu


foto Vic di Santis

Publicar um livro no Brasil e lançar no mercado editorial é uma tarefa mais ingrata do que se imagina. Uma ótima matéria sobre o assunto está no caderno Diversão & Arte do jornal Correio Braziliense de hoje.

Impressionantes os dados: apenas 20 milhões de brasileiros, do total de 190 milhões de habitantes, têm  costume de comprar livros com frequência. Seria  "apenas" mesmo em um país refém de telenovelas, big brothers e anasmariasbragas?...

Segundo a Unesco, temos 14 milhões de analfabetos. E não foram contabilizados os analfabetos políticos, aqueles de quem Bertolt Brecht lamentava, "que não ouve, não fala, não participa dos acontecimentos". 

Enquanto em países como os Estados Unidos 500 mil livros é o mínimo para se tornar um best-seller, por aqui nos contentamos 10 mil exemplares vendidos para ficar no topo da lista. 

Resta saber  a qualidade da quantidade dos 10 mil daqui e os 500 mil de lá.

domingo, 27 de setembro de 2009

otros tangos


foto Divulgação

O Otros Aires é um projeto audiovisual, criado em 2003, pelo músico e arquiteto argentino Miguel Di Genova, o do meio na foto acima.  O espetáculo que o grupo apresenta une a estética portenha do começo do século passado, como o tango, el barrio,a imigração, a música de Carlos Gardel, a milonga e as orquestras típicas, tudo numa mixagem criativa com as várias vertentes da música eletrônica e o vídeo.

Assisti ao show do Otros Aires na sexta-feira, 25, no projeto Eletrotango que o CCBB de Brasília está apresentando até 10 de outubro, quando fecha a programação com o San Telmo Lounge, e antes, no próximo fim de semana, o Narcotango.
A apresentação dos tangueiros do Otros Aires é contagiante. Não somente o bandoneon do ótimo Omar Eduardo, como o piano e a programação eletrônica que o maestro Diego Pablo joga no palco dão uma atmosfera que nos leva aos becos de bairros portenhos como o La Boca, na época dos cabarés ao som da voz no vinil de Gardel, e ao mesmo tempo às grandes orquestras que enchiam os salões chiques da capital portenha, com o volume das cordas, dos bandoneons e da coreografia dos  impecáveis dançarinos. No fundo palco imagens em vídeo de um passado do tango que não passa, que se renova, que renasce nessa mistura engenhosa com a música eletrônica.



fotos celulares de Cris Pereira

A guitarra, a voz afinadíssima e o carisma de Miguel Di Genova é o que incorpora toda a essência do Otros Aires. Canta-se com ele as músicas, e pelo menos sobe-se virtualmente no palco para uma contradança desses otros tangos.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

gaiola das loucas


foto Warner Bros

Um dia após ter sido chamado de "veado" e "fumador de maconha" pelo governador do Mato Grosso do Sul, André Puccinelli, o ministro da Meio Ambiente, Carlos Minc, reagiu com insinuações.
"Ele que saia do armário tranquilo, pois nós defendemos todos os homossexuais, assumidos ou enrustidos", respondeu. O ministro disse que não vai abrir processo contra Puccinelli pelas agressões, mas não abriu mão de prolongar a polêmica.

Puccinelli chegou a fazer uma ameaça insólita, caso o ministro viesse participar da minimaratona ecológica a se realizar no estado. "Eu corro atrás dele e o estupro em praça pública".

E o ministro: "Ele perdeu o controle e mostrou o seu verdadeiro eu de forma desassombrada, manifestando preconceito. É típico de pessoas que não admitem seu próprio homossexualismo. Na verdade, essas pessoas agridem algo que existe dentro deles próprios e que não aceitam."
 
É preciso jogar uma água benta de boas maneiras em vossas excelências. A baixaria não tem mais limites.

Na foto acima, Ugo Tognazzi e Michel Serrault, no filme de boas maneiras e com todo o respeito, "Gage aux folles", que Edouard Molinaro digiriu em 1978.

Emília, Emília, Emília


fotos Agência Globo

O jeito sapeca da boneca Emília, criada por Monteiro Lobato, tinha tudo a ver com a atriz Dirce Migliaccio, que consagrou a personagem na segunda versão de "O Sítio do Pica-pau Amarelo", exibido na Globo nos anos 70. Dirce, que faleceu ontem, aos 76 anos, era ativa, cheia de energia, brincalhona. Não haverá outra Emília. E Dirce Migliaccio, só uma.

Sempre achei que a atriz lembrava muito outra grande atriz, Giuletta Masina, principalmente em "Noites de Cabíria". Se por uma ousadia quisessem fazer uma versão brasileira do clássico filme de Fellini, ela seria a atriz certa para o papel. Apesar de ter sua carreira consolidada na televisão, em novelas e séries, no cinema teve atuações importantes, como em "O assalto ao trem pagador", de Roberto Farias, em 1962, "Baixo Gávea", de Haroldo Marinho Barbosa, 1986, e mais recentemente participações em "Bufo & Spallanzani, de Flávio R. Tambellini, 2001, e  "Sem controle", de Cris D'Amato, 2007.

Não tive a  oportunidade de vê-la nos palcos. Imagino como foi brilhante na  peça do dramaturgo russo Anton Tchekhov, "O jardim das cerejeiras", que Élcio Seixas dirigiu em 2000, e em outras montagens clássicas em que atuou, como "Eles não usam black-tie", "Vestido de noiva", e "As tias".

Outra forte lembrança de Dirce é sua  Judicéia Cajazeiras em "O Bem-amado", em 1973, uma das duas novelas que consegui assistir (a outra foi "Roque Santeiro"). Dirce interpretava uma das correligionárias do prefeito Odorico Paraguaçu (Paulo Gracindo), e tinha uma química perfeita com Dorinha Durval e Ida Gomes, que viviam as outras irmãs, Dulcinéia e Dorotéia.



"Não desfazendo das outras / Emília é mulher / Papai do céu é quem sabe / Só existe uma e sem ela eu não vivo em paz / Emília, Emília, Emília, eu não posso mais."

Este trecho do samba de Haroldo Lobo e Wilson Batista, "Emília", que Roberto Silva gravou nos anos 40, não tem nenhuma relação com a simpática boneca de Monteiro Lobato. Mas fica a homenagem e o desejo que Dirce esteja no Sítio divertindo Papai do Céu com sua Emília.

sábado, 19 de setembro de 2009

o gueto do tango


 foto Enrique Borst

O eletrotango é uma ótima fusão de instrumentos tradicionais, como o bandoneon, com computadores e samplers, seja em temas remixados, em composições originais ou utilizando fragmentos de canções clássicas.
Eu adoro tango e ouço com prazer música eletrônica. Música eletrônica inteligente, não aquele bate-estaca pra moçada dançar com os miolos turbinados com exctase. A música eletrônica do Fluke, do Air, do St.Germain, do Erik Truffaz, do Nitin Sawhney, e outros que sabem dominar as picapes, os múltiplos recursos que as admiráveis engenhocas eletrônicas proporcionam em termos musicais. Vejam, aliás, ouçam o que os caras do BossaCucaNova fazem com a bossa nova e a cuca deles. Uma maravilha!
Com o tango, a novidade é na mesma proporção. Desde a aparição dos franco-argentinos do Gotan Project que o eletrotango é uma das melhores inovações surgidas no cenário musical do ano 2000 pra cá na chamada "word music", ou seja qual nome queiram rotular. Eu, como resisto à rótulos e bitolas, vou ouvindo o que faz meu coração dançar e o meu corpo ficar odara.

Fui assistir ontem a abertura do projeto "Ponte Aérea Portenha Eletrotango", no Centro Cultural Banco do Brasil, aqui em Brasília. O grupo que abriu a programação foi o Tanghetto, que conheci há uns três anos em Buenos Aires. Liderado por Max Masri, que fica ali no meio do palco nos comandos eletrônicos, o Tanghetto foi formado em 2001 e o nome junta as palavras tango e ghetto inspirado nas pequeñas argentinas, que são comunidades de emigrantes argentinos no exterior.  No caso deles, a inspiração partiu de uma viagem de Max a Alemanha. Afinal, o bandoneon é invenção de um músico alemão, Henrich Band, que pegou o sobrenome para batizar o instrumento.

O estímulo à atividade criadora não fica apenas no nome do grupo, está nas músicas, nos arranjos que eles fazem desconstruindo e reconstruindo a mais famosa expressão musical da Argentina. Como bem disse Carlos Libedinsky, do Narcotango, "o tango deixou de ser apenas uma lembrança do passado para ser uma linguagem atual, onde a música e a dança emergem com novas expressões."

Nos quatro discos do Tanghetto é forte essa idéia revivida do tango a partir das experiências entre os emigrados argentinos em outros países. É como se os portenhos refizessem o tango na melancolia da distância mixado com a alegria do retorno. Não por acaso, o primeiro cd chama-se "Emigrante", de 2003, que me lembro ter sido indicado para Grammy latino na categoria Melhor Álbum Instrumental. A faixa mais significativa desse disco, como se nela convergisse toda a proposta musical tanghetta, é a inspiradíssima e dançante "Alexanderplatz tango". O mesmo sentido está na recriação de "Englishman in New York", belíssima canção de Sting, de 1987, que no show os hermanos chamaram de "Bandoneon en New York".

Outra coisa que me marcou na apresentação foi o violoncelo do chinês Chao Xu. Os arranjos do moço deu uma surpreendente fusão de música asiática com as palhetas livres do fole do bandoneon. Os olhinhos puxados não estão ali à toa, contribuem muito bem para a proposta deles.

Os próximos três shows prometem noites ainda melhores: Otros Aires, Narcotango e San Telmo Lounge. Claro, ficaria mais completo se viessem o Gotan Project e o Bajofondo.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

do outro lado da vida

foto Paramount Pictures

Ele tinha talento para muito mais. Mas será sempre lembrado por esse filme e por essa cena.

Patrick Swayze, 1952 - 2009

sábado, 12 de setembro de 2009

teu coração tá batendo

foto Arquivo NV

"O Oswaldo Massaini lutou até o último instante para colocar o Mazzaropi no lugar do Leonardo Vilar. Ele estava interessado na bilheteria. A idéia era tão fixa que ligou para o Alípio Ramos, no Rio de Janeiro, para vir me convencer da mudança. Ele veio. Era pressão de dois produtores. Bati o pé. Hoje fico a imaginar o filme brasileiro mais premiado de todos os tempos com Mazzaropi no papel principal, fazendo um tipo esbodegado. Risível."


Anselmo Duarte, 89 anos, em sua autobiografia "Adeus, cinema", lançada em 1993 pela Massao Ohno Editor, ao falar sobre tudo que envolveu a produção de "O pagador de promessas", o primeiro e até agora o único filme brasileiro a ser premiado com a Palma de Ouro no Festival de Cannes, em 1962.
O livro é de uma sinceridade que em alguns momentos causa uma sensação de amargura. Anselmo não usa meios-termos, não poupa pessoas nem esconde fatos, não disfarça os defeitos nem minimiza a importância de seu trabalho como cineasta, e, antes que lhe esqueçam, diz que ao publicar o livro correu "o risco consciente e involuntário de fazer história do cinema brasileiro". A elegância, no entanto, está em todas suas palavras, em um depoimento que comove pelo coração aberto.

E o cineasta passou por um risco inconsciente e involuntário recentemente: após 23 dias internado, Anselmo recebeu alta do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas, em São Paulo. No mês passado ele sofreu um infarto agudo do miocárdio, e os médicos identificaram outras complicações urológicas. Estabilizado o quadro cardíaco, o diretor seguirá dirigindo esse filme de sua vida em casa, intercalado com acompanhando médico.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

the end

"Em busca do ouro" (Gold rush), de Charles Chaplin, 1925. Foto Roland Totheroth

"A coisa mais injusta sobre a vida é a maneira como ela termina. Eu acho que o verdadeiro ciclo da vida está todo de trás pra frente. Nós deveríamos morrer primeiro, nos livrar logo disso. Daí viver num asilo, até ser chutado pra fora de lá por estar muito novo. Ganhar um relógio de ouro e ir trabalhar. Então você trabalha 40 anos até ficar novo o bastante pra poder aproveitar sua aposentadoria. Aí você curte tudo, bebe bastante álcool, faz festas e se prepara pra faculdade. Você vai pro colégio, tem várias namoradas, vira criança, não tem nenhuma responsabilidade, se torna um bebezinho de colo, volta pro útero da mãe, passa seus últimos nove meses de vida flutuando... E termina tudo com um ótimo orgasmo!!! Não seria perfeito?"
Charles Chaplin

domingo, 6 de setembro de 2009

se acaso me quiseres

 
 foto Miramax Films
A linda Mira Sorvino é uma prostituta que atende pelo pleonasmo Linda, e de repente aparece na sua frente um pai com o filho adotivo dizendo que ela é a mãe biológica do menino, que queria conhecer etc e tal. Só mesmo Woody Allen pra armar uma confusão dessa pra garota, em "Poderosa Afrodite", filme que ele dirigiu em 1995, e ainda faz o pai!