quinta-feira, 27 de agosto de 2009

set de filmagem

foto United Artists

“Há um mito John Ford, que foi comparado, como criador de epopéias, a Homero. Ford seria o Homero das pradarias, identificado como tal por sua preferência pelo western como território de criação de lendas. O próprio Ford admitia-o. No começo dos anos 1950, em pleno macarthismo, realizou-se uma reunião de diretores, convocadas por Cecil B. de Mille, que queria tirar de seus pares uma posição conjunta de apoio à caça às bruxas desencadeada pelo senador McCarthy. De Mille estava quase convencendo os colegas quando um sessentão, usando tapa-olho, levantou-se e pediu a palavra. O que disse faz parte da lenda. Começou dizendo: ‘Meu nome é John Ford e eu faço westerns’. Prosseguiu demolindo a proposta de delação de De Mille."

Luiz Carlos Merten, em seu livro "Cinema - entre a realidade e o artifício", editora Artes e Ofícios, 2003


A foto acima é das filmagens de “No tempo das diligências” (Stagecoach), rodado em 1939, um dos principais filmes fordianos, ao lado de “Paixão de fortes” (Um darling Clementine), 1946, “Rastros de ódio” (The searchers), 1956 e, o meu preferido, “Vinhas da ira” (Grapes of wrath), 1940, baseado no romance de John Steinbeck.
Na cena, a carruagem para numa hospedaria. Ao centro, John Wayne desce e anda um pouco em direção à esquerda para observar o local. Passa ao lado do rebatedor de luz, a câmera gira um pouco corrigindo o enquadramento até ouvir o "corta" do diretor.

“Stagecoach” em si é um filme emblemático sobre o velho oeste americano, apesar (e talvez por isso) da predileção de Hollywood em massacrar os índios. A diligência atravessa a fascinante paisagem desértica do Monument Valley, ao som envolvente da música de Louis Gruemberg. Dentro embarcam um médico alcoólatra, uma prostituta, um banqueiro, um jogador, uma mulher grávida e um pistoleiro, Ringo Kid, interpretado por Wayne, ator presente na maioria dos filmes de Ford. Esses passageiros simbolizam um retrato da sociedade americana da época e até mesmo dos dias de hoje.
Durante a viagem, ameaçados pelo perigo dos Apaches, cada um dos viajantes revela aos poucos suas peculiaridades, seus desejos, mesquinharias, medos e contradições. E é justamente no bandido que eles depositam a segurança no percurso pelo deserto.

Orson Welles dizia ter assistido "Stagecoach" mais de 40 vezes, antes de produzir sua obra-prima, "Cidadão Kane", em 1940. Do outro lado da América, o mestre japonês Akira Kurosawa afirmou que era um de seus filmes favoritos e o influenciou quando fez "Os sete samurais", em 1954. E conversando certa vez com o cineasta Vladimir Carvalho, aqui em Brasília, ele me revelou sua admiração pelo cinema de John Ford, desde os tempos de menino no sertão paraibano.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

o inventor do futuro

foto Time Inc.

"Estou interessado no futuro, pois é lá que vou passar o resto da minha vida."

(Charles Kettering)

Taí um cara de quem sou admirador! Kettering foi um americano nascido em uma fazenda em Ohio, e tornou-se um dos inventores mais importantes do século passado. Muitos consideravam, no início de seus trabalhos como cientista, de "invencionices", criações malucas, bizarras, sem sentido. Depois viram que aquele fazendeiro sabia das coisas. Graças a ele, por volta de 1911, os motoristas não precisariam mais ligar o motor de seus Cadillac girando uma manivela. Kettering inventou a ignição elétrica!

Na foto acima, de 1913, Charles Kettering testa a parte elétrica do automóvel Buick, que hoje é uma das quatro marcas sobreviventes da GM. À propósito, ele criou a Companhia de Laboratórios de Engenharia Dayton, conhecida pela sigla Delco, que se transformou na divisão de produtos da General Motors. No começo dos anos 10, o gerador Delco era uma fonte crucial de eletricidade para milhares de fazendas.

Kettering, que não era bobo, patenteou mais de 140 invenções, entre elas, a máquina registradora. Era considerado também um filósofo, um frasista certeiro, como "um inventor é um engenheiro que não leva sua educação muito a sério", "oportunista é aquele que consegue o sucesso que você queria mas não soube obter", "pessoas são muito abertas para coisas novas, desde que elas sejam exatamente como as coisas antigas."

Charles Kettering viveu o seu futuro até 1958, quando faleceu ao 82 anos. Mas com certeza o resto da humanidade continua vivendo o resto de vida no futuro que ele nos deixou.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

belos versos indelicados

foto Francesca Wood


"Devolva o Neruda que você me tomou
e nunca leu."


"Trocando em miúdos", letra de Chico Buarque, música dele e Francis Hime, disco "Chico Buarque", 1978


"Um dia você vai voltar
como numa canção do passado
dizendo que fui muito burra
em não atender o chamado."


"Vida real", de Caetano Veloso, na voz de Maria Bethânica, disco "Talismã", 1980


"Sua incompreensão já é demais
nunca vi alguém tão incapaz
de compreender
que meu amor é bem maior que tudo
que existe
mas sua estupidez não lhe deixa ver
que eu te amo."


"Sua estupidez", de Roberto e Erasmo Carlos, primeira gravação com Roberto Carlos, em disco de 1969

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

pastora Nina

foto Prominentenfotos/VIP's

Não é só no Brasil que artistas resolvem se tornar evangélicos depois que deixam de ser foco da mídia, como foi o caso da cantora Baby Consuelo, ou Baby do Brasil, que se converteu a um tal de Ministério do Espírito Santo de Deus em Nome de Jesus, onde faz suas pregações.

Aos 54 anos, a cantora alemã Nina Hagen se batizou em uma igreja evangélica de Schüttorf, sul da Alemanha. Na década de 80, punk e desbocada, Nina defendia a emancipação da mulher por meio da masturbação feminina, e também erguia a bandeira de outras causas, como o protesto contra as armas nucleares.

Atualmente as apresentações da pastora Nina Hagen não passam os limites da Alemanha.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Ora (direis) ouvir estrelas!



ilustração Glaudius


Lembrei-me do verso inicial de "Via-Láctea - Soneto XIII", de Olavo Bilac, para o título desta postagem, ao ler nos jornais que hoje é dia de admirar o espaço. Todos os dias o espaço, nos campos ou através das frestas dos edifícios, merece nossa admiração. O detalhe é que hoje será possível, a olho nu, identificar o brilho misterioso do planeta Júpiter, o maior do Sistema Solar, que se encontra em seu ponto máximo de aproximação com a Terra. Por volta das 19h ele já começa a dar o ar de sua luz. E são somente 588 milhões de quilômetros de nós...

Essa aproximação com o nosso planeta começou no mês passado, e não por coincidência, julho na mitologia romana é consagrado a Júpiter, Deus dos céus, dos raios, das chuvas e da justiça, fazendo seu nome ser apropriado para o rei dos planetas. Sua arma é o relâmpago com o qual ele fere aqueles que o desagradam, por isso conhecido por punir os que mentem e traem. Aqui em Brasília, a Praça dos Três Poderes, pelo céu aberto que se dispõe, é um observatório privilegiado para olhar o majestoso planeta. As Vossas Excelências que loteiam e envergonham as duas cúpulas do Congresso Nacional que se cuidem com a ira de Júpiter...

domingo, 9 de agosto de 2009

dia dos pais

foto Hugo Carvalho

Aos Nossos Filhos

Perdoem a cara amarrada
Perdoem a falta de abraço
Perdoem a falta de espaço
Os dias eram assim

Perdoem por tantos perigos
Perdoem a falta de abrigo
Perdoem a falta de amigos
Os dias eram assim

Perdoem a falta de folhas
Perdoem a falta de ar
Perdoem a falta de escolha
Os dias eram assim

E quando passarem a limpo
E quando cortarem os laços
E quando soltarem os cintos
Façam a festa por mim

Quando lavarem a mágoa
Quando lavarem a alma
Quando lavarem a água
Lavem os olhos por mim

Quando brotarem as flores
Quando crescerem as matas

Quando colherem os frutos

Digam o gosto pra mim


Ivan Lins / Vitor Martins

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

cadernos de viagem - CineCeará

foto Nirton Venancio

O 19º Festival Ibero-americano de Cinema, o CineCeará, em Fortaleza, que começou no dia 28 de agosto, terminou terça-feira, 4, com a exibição do longa "Siri-Ará", de Rosemberg Cariry, logo após a solenidade de premiação. Mais do que acompanhar a maratona de filmes durante uma semana, participei no júri da mostra competitiva de curta-metragem, ao lado de Esdras Rubin, Jose Acevedo, Lis Kogan e Sílvio Toledo. E resultado de juri é sempre complicado, por mais que as opiniões cheguem a consenso, conformidade e concordância sobre os filmes apresentados.

Prefiro comentar aqui, rapidamente, um evento paralelo do festival, a Mostra Che: Olhares no Tempo, que exibiu dez filmes, entre longas, médias e curtas, sobre o guerrilheiro Ernesto Guevara. Com todas as sessões lotadas, impossível não se emocionar com a completa radiografia reflexiva sobre o homem, o político e o mito.

Abordagens das mais diversas nos fazem adentrar na história, compreender, indignar-se, revoltar-se. "Kordavision", de Hector Cruz Sandoval, filme sobre o brilhante fotógrafo cubano Alberto D. Korda, autor da famosa foto de Che; "El dia que me quieras", de Leandro Katz, uma espécie de sensível meditação sobre a última foto do guerrilheiro, já morto, deitado sobre uma mesa; "Meu filho Che", de Fernando Birri, testemunhos e recordações do pai, Dom Ernesto Guevara; "Carabina M2 - Uma arma americana", de Carlos Pronzato, registro do pensamento político e das ações guerrilheiras, tendo como mote a arma que matou Che; "Donde nunca jamás se lo imaginam", de Manuel Pérez, imagens inéditas sobre a trajetória de Guevara; "Hasta la victoria siempre", de Santiago Alvarez, diversos aspectos da vida do personagem, com fotos da Bolívia rural; "Personal Che", dirigido pelo brasileiro Douglas Duarte, um inteligente exame da exploração em torno da lenda; "Pesquisa de um mito" (dividido em três partes, "Nascimento de um guerrilheiro", "Morte de um guerrilheiro" e "As causas do fracasso"), do italiano Roberto Savio, documentário com depoimento dos que conheceram Che, e foram seus amigos ou inimigos.
Ainda foram exibidos "Che, o argentino - Parte 1", de Steven Soderbergh, e "Diários de motocicleta", de Walter Salles. E mais: o festival exibiu na abertura a segunda parte do filme de Soderbergh, "Che - a guerrilha", que será lançado no Brasil no final deste ano.

O destino de Che Guevara fez à história um ardil inesperado, no mesmo momento em que é assassinado lhe dão uma nova vida, como observou o cineasta argentino Settimio Presutto, curador da mostra juntamente com Margarita Hernandez, cineasta cubana radicada no Brasil.
Uma pena que esses documentários fiquem restritos à programação em festivais.

O senhor na foto acima é Luiz Garcia Gutierrez, comunista e dentista cubano, como gosta de ser chamado, que mascarou o rosto de Che Guevara para entrar na Bolívia, no final dos anos 60. Gutierrez, conhecido como Fisín, conviveu muito tempo com Che, e contou várias histórias. Aos 92 anos de idade, de uma lucidez e saúde impressionantes, foi a figura mais simpática do Festival, cativando a todos, recordando-se de tudo.