quinta-feira, 21 de setembro de 2006

câmera invisível

Foto REC Produtores

"A câmera nunca pode aparecer, ela tem que ser o anjo da guarda dos personagens."


Marcelo Gomes, diretor de "Cinema, aspirinas e urubus", lançado ano passado. O filme foi escolhido pelo MinC para representar o Brasil na disputa de uma vaga pelo Oscar 2006, na categoria de produção estrangeira.

Na foto acima, João Miguel e Peter Ketnath

terça-feira, 19 de setembro de 2006

Pokemon de Jesus


“Piaba de silicone”, “manicure de lacraia”, “Iemanjá de açude”, “Exu de galinheiro”, “omelete de cupim”, “tapioca de Exu”, “desinteria de tinta”, “um dilúvio bovino”, “clonado de miolo de pão”, “Pokemon de Jesus”... Estas são algumas das expressões cunhadas pelo ator José Dumont ao personagem Antonio Biá no ótimo “Narradores de Javé”, filme dirigido por Eliana Caffé, em 2003, que não teve lançamento e distribuição à altura. Dumont, com seu talento e criatividade, improvisou muita coisa durante as filmagens, e esses termos renderam ótimas gargalhadas na equipe e elenco. E também na platéia. É através de Biá que somos conduzidos à história de uma cidade no interior nordestino. Na iminência de ter o vilarejo inundado pelas águas de uma represa, a população incumbe o escrivão – ele mesmo, o Biá – de escrever um grande livro narrando os feitos do passado, a partir da história de cada habitante. Dessa forma, acreditam que não serão condenados ao esquecimento quando a cidade estiver sob as águas.
O grande achado do roteiro é o personagem controvertido, “macunaímico”, do escrivão, que tem desavenças com os moradores, mas por eles é aceito como o único capacitado para a tarefa. Ele ouve de cada um uma história diferente sobre um mesmo fato e sobre as lendas guardadas na memória de todos. O trabalho de José Dumont é magnífico e mereceu o prêmio de melhor ator no Festival de Cinema do Rio.
Com roteiro escrito em parceria com o dramaturgo Luiz Alberto de Abreu, a partir de pesquisa nas tradições populares e na cultura oral, Eliana Caffé fez um filme audacioso pela inquietação da narrativa e de vários personagens que se entrelaçam e não param de falar. A câmera de Hugo Kovensky acompanha a multidão na tela em registro quase documental, correndo contra o tempo, ameaçados que estão pelas águas que se aproximam. No elenco, destacam-se ainda Nelson Dantas (falecido recentemente), Gero Camilo, Matheus Nachtergaele, Nelson Xavier, Rui Resende, o ótimo Orlando Vieira (que fez o motorista em “Sargento Getúlio”, de Hermano Penna), e a novata Luci Pereira, atriz da Bahia, onde o filme foi rodado, mais exatamente em Gameleira da Lapa.
Dumont foi ator principal do primeiro longa de Eliana, “Kenoma” (1998), que assim como “Narradores” está disponível em dvd.

quinta-feira, 14 de setembro de 2006

regras do documentário

foto Maristela Estúdios

01. Não generalize: faça um filme sobre uma carta, não sobre os correios.
02. Não fuja dos três elementos: o social, o poético, o técnico.
03. Não negligencie o argumento. Quando estiver pronto, o filme está feito.
04. Não confie no comentário: irrita. Comentário engraçado irrita mais. São imagens e sons que contam a história.
05. Não se esqueça de que cada tomada é parte de um todo. A mais bela seqüência, fora de lugar, torna-se banal.
06. Não invente ângulos gratuitos de câmera: eles destroem a emoção.
07. Não abuse da montagem rápida: pode ser tão monótona quanto a arrastada.
08. Não abuse da música ou a platéia deixa de ouvi-la.
09. Não abuse de efeitos sonoros: som complementar é a melhor banda.
10. Não abuse de efeitos óticos. Fusões, fade-ins e outs são só a pontuação do filme.
11. Não abuse dos close-ups: guarde-os para o clímax.
12. Não tema as relações: seres humanos são belos como outros animais.
13. Não seja confuso, conte a história clara e simplesmente.
14. Não perca a oportunidade de experimentar. Sem experiência, o documentário não existe.

O cineasta Alberto Cavalcanti (1897 - 1982) deu estas dicas em 1948, após um longa carreira iniciada em 1927, com o filme "Yvette", produzido na França. Aliás, foi no exterior que o brasileiro teve e tem o seu maior prestígio.

segunda-feira, 11 de setembro de 2006

aquela manhã de setembro

cartaz de original de "United 93". Universal Studios/Divulgação

O Tribeca Film Festival, fundado por Robert De Niro, em seu quinto ano em abril passado, apresentou pela primeira vez "Vôo 93", (United 93), uma dramática história sobre o avião seqüestrado que caiu na Pensilvânia depois que os passageiros lutaram com os seqüestradores, no histórico 11 de setembro de 2001. O filme estreiou semana passada no Brasil.

Dirigido por Paul Greengrass, "Vôo 93" é o primeiro e maior filme de Hollywood que retrata os atentados de setembro. O filme seguinte, "Word Trade Center", de Oliver Stone, fala sobre dois oficiais da polícia que ficaram presos embaixo dos escombros do prédio.
Vários outros filmes em Tribeca compartilharam o mesmo tema, inclusive os documentários "Saint of 9/11", de Glenn Holsten, sobre um capelão do departamento de bombeiros morto no WTC, e "The heart of steel", de Angelo J. Guglielmo Jr., que mostra os voluntários que ajudaram depois dos ataques. Há também o ficcional "Civic duty", de Jeff Renfroe, que narra a história de um contador que perde o seu emprego e fica obcecado com as conspirações terroristas, em particular quando um estudante islâmico se instala próximo a sua casa.

Em contraste com anos anteriores quando o festival abriu com comédias ou suspenses, o clima estabelecido, pelo que a revista "Variety" descreveu, foi "tenso, visceral e de revirar as tripas".

segunda-feira, 4 de setembro de 2006

pintura animada

foto Archer Street Productions

Quem perdeu nos cinemas, pode pegar uma cópia em dvd de um dos filmes mais bonitos que já vi: "Moça com brinco de pérola" (Girl with a pearl earring), produção inglesa de 2003, dirigida por Peter Webber. Uma pintura animada! É essa a forte e bela impressão que o filme passa. A interação luz, cor, direção de arte, figurinos, locações, elenco, tudo é tão grande e perfeito que nos coloca diante não somente da personagem retratada, uma espécie de Monalisa holandesa, mas de toda obra do pintor Johannes Vermeer, na tela, em movimento, trazendo através da magia do cinema a beleza plástica do século XVII.
A moça com o tal brinco de pérola é interpretada por Scarlett Johansson (foto), atriz americana que apesar dos seus 22 anos de idade, tem uma filmografia com dezenove títulos, entre eles, o ótimo e aparentemente frio "Encontros e desencontros" (Lost in translation), 2003, de Sofia Coppola. Nas prateleiras também com Scarlett "A ilha" (The island), ficção científica norte-americana dirigida pelo artesão Michael Bay. Mas, antes, vale a pena vê-la de brinco de pérola.