domingo, 26 de julho de 2009

cadernos de viagem - uma tarde com brinquedim

foto Rubens Venancio


"O mais sério da vida pra mim é o brincar, levar a vida a sério é considerar seriamente que o objetivo maior da vida é a felicidade."


A primeira impressão que se tem ao entrar no sítio-casa-paraíso do artista plástico Dim é de encontro com a pureza. A pureza no sentido lato. Tudo ali é amplo, largo em sua sinceridade, simplicidade e beleza. O artista com sua família integrados ao espaço das árvores, do chão, do ar. E seus quadros e peças espalhados para onde os nossos olhos mirarem. Dim e as cores em só contexto: a natureza.

Ontem, meu sábado foi pintado por essas cores. Em Pindoretama, a uns 40 quilômetros de Fortaleza, Dim se recolhe em sua paz, produz sua arte, recebe seus amigos. Só sai dali quando é preciso, por necessidade de seu trabalho.

Há dois anos realizei um documentário em curta-metragem sobre o Dim. Mas a cada visita que lhe faço fico com a sensação de que poderia ter feito mais, de tão-mais que ele é como artista e pessoa. Diante das dificuldades de sobreviver de sua arte neste país de equivocados heróis big-brothers, Dim rebate o mal-estar e qualquer indisposição que possa vir em sua direção. "Envergo mas não quebro", como ele lapida na essência de um joão-teimoso sertanejo e universal. Cabra da peste do bem vindo das praias e dos prados do Camocim. Eterno menino que se confunde no tamanho do filho que brinca ao seu redor. Dim conta histórias, "causos", ri, gargalha, envolve todos em sua autenticidade. Assim ele resiste às intempéries, assim ele vive as coisas boas que a vida lhe dá, e compartilha com os que se achegam.

É ele quem diz, como num mantra: "brinquedim, brinquetu, brincamos nós!"

quinta-feira, 16 de julho de 2009

cadernos de viagem - um homem bom

foto Galba Sandras


"Ele era um homem simples, calado, um tanto reservado mas um homem bom. Nunca o vi reclamar da vida, cumpridor dos deveres. Aprendi com ele o valor do trabalho e a gostar de plantar. Minha mãe o considerava um amigo.
Se foi hoje bem cedo meu pai com 82 anos que estava sofrendo de complicações de um câncer. Ele viveu uma vida toda."


Este texto é do meu amigo Galba Sandras, fotógrafo, sobre a morte do seu pai. Galba faz aniversário hoje, iria me encontrar com ele para um abraço, conversar, e comemorar a data. O encontro continua marcado, mas o abraço terá outro aperto, compartilhando as dores que "a indesejada das gentes", como diria Manuel Bandeira, sempre traz.

E como diz o final do poema, Galba, pelo homem bom que foi seu pai, "a noite com seus sortilégios" com certeza hoje cedo encontrou "lavrado o campo, a casa limpa / a mesa posta / com cada coisa em seu lugar."

quarta-feira, 15 de julho de 2009

cadernos de viagem - sereia


foto Nirton Venancio

"Quem acredita em sereias / sabe o segredo do mar."

(Clodo-Petrúcio Maia)

O mar que adentra meus olhos, o pé esquerdo de minha amada que adentra a imagem... minha sereia, na areia do porto das dunas... eu que tantas vezes navego ao sul do teu corpo, é no sal de tua pele que conservo meus segredos e espalho meus beijos... nesta viagem do corpo ancorado em teu porto, em tuas dunas.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

cadernos de viagem - olhares

foto Rubens Venancio

"O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
olhando para a direita e para a esquerda,
e de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
é aquilo que nunca antes eu tinha visto,
e eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
que tem uma criança se, ao nascer,
reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
para a eterna novidade do Mundo..."

Alberto Caeiro, "Guardador de rebanhos", 1914.

domingo, 5 de julho de 2009

as estações de Max

foto Nikolai Zhelyazkov

O filme "Monsieur Max", sobre o poeta, pintor e escritor Max Jacob, exibido hoje no Eurochanel é dirigido por Gabriel Aghion, produzido para TV há uns três anos, e o último trabalho do ótimo ator argelino Jean-Claude Brialy, que faleceu em 2007, aos 74. Se não me engano, a Eurochanel está fazendo uma homenagem a ele, exibindo alguns de seus mais importantes filmes. Brialy foi um dos nomes mais presentes na Nouvelle Vague francesa, dirigido por cineastas como Claude Chabrol, Eric Rohmer, Godard, Louis Malle, Agnès Varda, Truffaut. Embora tenha atuado também na direção, foi como ator que ficou mais conhecido e premiado.

Sobre Max Jacob, é um artista que tem uma obra fascinante e uma vida dramática. Judeu convertido ao catolicismo, amigo de Pablo Picasso, Jean Cocteau, Jean Marais, foi preso pelos nazistas em 1944, morrendo nesse mesmo ano num campo de concentração. Deixou uma obra literária magnífica. E ele mesmo dizia ter inventado o gênero prosa poética, ou poemas em prosa, como afirmava.

Teoria controversa ou não, o texto abaixo, "Noturno das vacilações familiares", é prosa, é poético, é belíssimo:


"Há noites que terminam numa estação! Há estações que terminam na noite! Quantos carris não atravessamos de noite! Tenho o corpo dorido dos ângulos salientes do vagão, à noite; dói-me ainda o deltóide. Quando esperávamos a irmã mais velha ou o papá, aquilo acabava sempre de maneira que seria melhor não contar: com o par de sapatos regado pela farinha do pão. Mas tenho, numa estação, um irmão antipático: chega sempre no último momento (tem lá as suas ideias); e então é preciso abrir uma mala que o criado não trouxe ainda; e, quando chega à bilheteira, não sabe ainda para que estação deve dirigir os vagões: hesita entre Nogent-sur-Marne e Ponts-de-Cé e outras localidades. A mala está aqui, aberta. Não comprou ainda o bilhete e as lanternas a gás debalde procuram transformar a noite em dia e o dia em noite. Há noites que terminam numa estação e estações que terminam na noite. Ah, maldita hesitação, foste tu que me perdeste e bem longe das vossas salas de espera, ó estações!"