domingo, 8 de março de 2026

confesso que vivi


Em Um romance do outro mundo (Truly, madly, deeply) , de Anthony Minghella, 1990, Nina (Juliet Stevenson) é uma mulher devastada pela morte de seu grande amor, Jamie (Alan Rickman), ambos músicos.
Inconsolável, passa os dias imersa na saudade, na dor da perda, mesmo tendo conhecido outra pessoa.
De repente, Jamie reaparece, mas não como um ser vivo, e sim como um espírito. Nina, feliz, acredita que poderá reviver, continuar a história de amor.
O filme passa à estrutura narrativa de fábula romântica com elementos fantásticos; mistura drama realista com o improvável; torna sem nenhum espanto o convívio entre quem ficou com quem se foi. O real e o imaginário na mesma dimensão. A holografia de um no coração do outro ser.
Em uma das cenas desses encontros, o personagem do além pede que a amada traduza versos de um poema. O texto com essência poética perfeitamente delineado na substância do roteiro.
O trecho é do poema La muerta, de Pablo Neruda, do livro Los versos del capitán, de 1952. Naquele ano o poeta chileno estava em exílio político na Ilha de Capri, Itália. Praticamente todo o livro, publicado anonimamente, teve inspiração em sua relação amorosa e secreta com a fisioterapeuta Matilde Urrutia, que conheceu em 1946. Neruda estava casado com Delia del Carril, artista plástica argentina. Somente em 1961, já separado, a obra foi lançada com seu nome. Neruda e Matilde casaram-se em 1966 e ficaram juntos até a morte dele, em 1973.
Os versos contextualizados no filme expressam e reforçam a ligação entre amor, perda e memória. E o eu lírico, na extensão do poema, alcança uma reflexão ampla, universal, sobre a condição humana diante da finitude.
Grato a minha amiga Zélia Sales, grande contista, que me lembrou da cena no filme e motivou esta postagem.

oitos de marços


 

segunda-feira, 2 de março de 2026

o capricho das palavras




"As palavras são caprichosas... A gente leva 30 anos esperando que elas se firmem e aí põe no dicionário. As palavras como que protestando contra a sua inclusão tardia, vão embora, desaparecem"

- Aurélio Buarque de Holanda em entrevista ao Jornal do Brasil, maio de 1980.
O mestre refletia sobre a natureza viva e mutável da língua. Via o dicionário não como um repositório fixo, mas como um retrato em movimento da palavra.
Foto: O lexicógrafo em seu escritório, Rio de Janeiro, 1978. Acervo Casa Aurélio Buarque de Holanda, Alagoas.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

lonjuras


 “Por esses longes todos eu passei, com pessoa minha no meu lado, a gente se querendo bem. O senhor sabe? Já tenteou sofrido o ar que é saudade? Diz-se que tem saudade de ideia e saudade de coração...”

- A imensidão de um fragmento da extensa narrativa de Riobaldo em Grande Sertão: Veredas, Guimarães Rosa, 1956.
Foto de Rubens Venâncio: Estação Ferroviária de Gordisburgo, MG, 2016.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

as barbas de perto

Foto: Bruno Haddad

Em 1988 eu estava no Rio de Janeiro montando (ainda não dizíamos “editando”) o meu primeiro curta-metragem 35mm, Um cotidiano perdido no tempo, na produtora L. C. Barreto, no bairro Botafogo.
No começo da noite de uma sexta-feira, depois de dois horários puxados, saímos eu e a montadora Virginia Flores, para tomar umas cervejas e um encontrar um amigo dela. “Vou te apresentar a uma pessoa maravilhosa”, disse-me, fazendo um pouco de mistério.
Caminhamos uns quarteirões e chegamos a um simpático bar com mesas na calçada. Botafogo é um dos polos importantes da vida cultural e cinematográfica carioca. De cara reconheci uns famosos. Virginia já de longe acenou para um deles, de cabelos compridos e longas barbas. Olhei e não acreditei: Nelson Rodrigues Filho, o Nelsinho! O Prancha, apelido carinhoso entre amigos de futebol amador, pela sua postura corporal esticada.
Mas o Nelsinho que apertei a mão naquela noite era o Nelsinho da militância política com a qual me identificava, da luta contra a ditadura. O Nelsinho jornalista e dramaturgo, como o pai. Eu só olhava para ele, impressionado com a vasta barba de profeta.
Ele perguntou sobre o filme que Virginia estava montando, que queria assistir quando estivesse em algum festival. Mas o que eu queria mesmo era conversar sobre a relação com o pai, marcada por fortes contrastes, tanto políticos quanto pessoais.
Nelsinho participou de movimentos estudantis nos anos 60 e 70, foi militante do MR-8 e preso por cerca de sete anos. Dizia em entrevistas que só não foi torturado porque os militares gostavam do pai. Mas não puxei esse assunto. Muita coisa sobre essa convivência eu soube ao ler O anjo pornográfico, biografia de Nelson Rodrigues escrita por Ruy Castro, em 1992.
A nossa conversa ali foi sobre música, teatro e cinema, Glauber Rocha e Cinema Novo particularmente; um pouco sobre futebol e seu time Fluminense; e risadas sobre o bloco carnavalesco Barbas, que ele criou e virou um dos mais tradicionais da Zona Sul.
Já era tarde quando Virginia sugeriu irmos embora. No dia seguinte teríamos muito trabalho na moviola. Despedimo-nos. Nelsinho me abraçou demoradamente e senti as barbas mais de perto.
Quando saímos e olhei para trás para acenar um tchau, vi o nome do local: restaurante Barbas. Reduto cultural e político, era “o” bar do Nelsinho. Ali ele criou o bloco de carnaval. Aliás e muito mais: o restaurante, fundado em 1980, recebeu esse nome justamente por causa de seu ilustre frequentador.
Barbas, o restaurante, não existe mais. E Nelsinho e suas barbas partiram hoje, aos 79 anos, vitimado por sequelas de um AVC que sofreu em 2015.
Só estive com ele essa vez. Mas ter na memória o local onde o conheci e a conversa que tivemos, faz do encontro uma amizade não perdida no tempo.  

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

a casa sempre foi poema



“Se nos perguntassem qual o benefício mais precioso da casa, diríamos: a casa abriga o devaneio, a casa protege o sonhador, a casa nos permite sonhar em paz. Somente os pensamentos e as experiências sancionam os valores humanos. Ao devaneio pertencem os valores que marcam o homem em sua profundidade. O devaneio tem mesmo um privilégio de autovalorização. Ele desfruta diretamente seu ser. Então, os lugares onde se viveu o devaneio se reconstituem por si mesmos num novo devaneio. É justamente porque as lembranças das antigas moradias são revividas como devaneios que as moradias do passado são em nós imperecíveis.
- Gaston Bachelard em A poética do espaço, 1957 (Martins Fontes, edição de 1993).
Foto: Casa das irmãs Marques Lima, Crateús, CE, 1979. Acervo Família Lima Venancio

 

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

quarta-feira


Quando o conselheiro Aires dizia não ser seguro “julgar por uma festa de algumas horas a situação moral de duas pessoas”¹, ele certamente pensava no grande e intricado jogo de aparências que comanda cada um desses eventos. Os salões são palco e plateia das maiores encenações humanas. Exibir emoções ou a falta delas, dissimular ressentimentos, esconder mágoas, alardear amizades ou inimizades, ostentar riquezas e encantos – toda festa é uma ficção. E vez ou outra se transforma em boa literatura. Reunir umas quantas personagens num salão e deixar que exponham suas máscaras pode ser um truque inteligente para se chegar a seu completo desvendamento.

- Regina Dalcastagnè em seu livro O espaço da dor – O regime de 64 no romance brasileiro (Editora UnB, 1996), primeiro parágrafo do capítulo Os salões.
¹ Memorial de Aires, Machado de Assis
Acima, reprodução de Ash wednesday (Quarta-feira de cinzas), 1860, do pintor alemão Carl Spitzweg. O quadro encontra-se na Staatsgalerie Stuttgart.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

o caminho a seguir


 
- Podes dizer-me, por favor, que caminho devo seguir para sair daqui?
- Isso depende muito de para onde queres ir - respondeu o Gato.
- Não me importo muito para onde... - retrucou Alice.
- Nesse caso, pouco importa o caminho que sigas - replicou o Gato.
Lembrei-me desse diálogo de Alice no país das maravilhas (1865), de Lewis Carroll, saindo da cidade de Guaramiranga, Ceará, em fevereiro de 2015, depois do Festival de Jazz & Blues, ao ver dois gatos na janela de uma casa. Fotografei como Alice perguntasse. Ou perguntei como Alice os fotografasse.
No livro, a personagem ao fazer a pergunta ao Gato de Cheshire, o autor desconstrói qualquer intencionalidade de interpretação literal. As alusões são filosóficas em toda narrativa, e o felino sorridente é um dos poucos que tem um diálogo com a menina, de forma que ela perceba as reflexões necessárias.
Descendo a serra, caí morro abaixo em mim, dentro de reflexões sobre que caminhos realmente queremos, sabemos e seguimos, depois que estivemos na toca do coelho e nos encantamos com seres antropomórficos, em situações que, por algumas horas, largamos preocupações, saudades, amores idos, desejos, esperanças...
E lembrei daquele final de tarde que me lembrou o trecho do livro porque me lembrei que hoje é o Dia Mundial do Gato, esse ser aquariano.
A lembrança faz parte do caminho a seguir. Não resistência sem a memória.

aquariano


 

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

algibre entupido de silêncio


 

Desenho: Daniel Lesma

Tudo aquilo que nos leva a coisa nenhuma
o que você não pode vender no mercado
como, por exemplo, o coração verde
dos pássaros,
serve para a poesia.
Qualquer pessoa ou escada
tudo que explique
a lagartixa da esteira
e a laminação de sabiás
é muito importante para a poesia.
Pois é assim que um Chevrolet gosmento chega
ao poema, e as andorinhas de junho.


- Trechos do poema Matéria de poesia, do imenso Manoel de Barros, publicado em livro homônimo, 1974.
A beleza do título desta postagem é um dos versos que o poeta extraiu das coisas “desimportantes”.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

cada instante


Trecho do meu poema Postura, por Zaira Priscila (Sobral, CE), do livro Poesia provisória (2019)

sábado, 7 de fevereiro de 2026

o resto é silêncio


Foto: ©Focus Features/Courtesy Everett Collection

A roteirista e diretora Chloé Zhao inspirou-se em antigas tradições de contar de histórias para o final de Hamnet (2025).

“Chorar juntos remonta aos gregos”, disse Zhao ao portal estadunidense IndieWire. “Em todas as tradições indígenas, as pessoas se reúnem ao redor da fogueira e o xamã canaliza uma história”.
Zhao utilizou meditações diárias e sessões de sonhos com seus atores, além de organizar rituais de dança semanais para extravasar.
“Animais, sonhos, visões”, explicou. “E temos usado a arte, a narrativa e uma experiência coletiva e comunitária — para lamentar, sentir, lidar com isso — desde muito antes de qualquer uma dessas coisas que nos dizem que devemos estar separados sequer existir. Estamos nos lembrando, prontos para sobreviver”.
A sequência final de Hamnet tem um tom operístico, comovente, orgânico.
Decupar e filmar essa sequência marcou "quatro dos dias mais difíceis, mas também mais transformadores da minha vida", disse a cineasta.
"Quase não há diálogo. Às vezes, nossa verdade só pode ser sentida em silêncio e talvez, no caso, com a música de Max Richter tocando ao fundo. Tudo o que pedimos é ver uns aos outros e sermos vistos sem julgamento, incondicionalmente, e isso foi curativo e também difícil de vivenciar. Shakespeare trabalhou arduamente a vida toda para unir as pessoas todos os dias por algumas horas: a ilusão da separação se dissolve".

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

escrever é melhor que sonhar


Foto: Richard Dumas, 2019

“Eu não sonho. Ou não lembro dos sonhos, mas minha literatura está cheia deles; imagino. Um amigo psiquiatra me disse: ‘Escreve, não precisa sonhar'”

- Haruki Murakami, autor de irresistíveis longos sonhos acordados, como Norwegian Wood, Kafka à beira-mar, Crônica do pássaro de corda, Tokio blues, Dance, dance, dance, Após o anoitecer, O elefante desaparece, em entrevista ao portal El País, em 2019.

Murakami arremata em outro trecho:

“De alguma forma, escrevo todos os dias. Se não escrevo, não é um bom dia”. 

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

a linha que passeia


“O desenho é uma linha que sai para passear”

- Paul Klee, pintor, desenhista, professor suíço, de nacionalidade alemã. Um pensador, sobretudo.
Klee coloca o tempo na pintura, estende o movimento. Toda obra de arte é orgânica, ativa, a partir do olhar do autor e de quem vê, lê, escuta. Uma peça artística é uma jornada visual e sensorial, é um percurso, nunca algo estático.
Muitas dessas reflexões Paul Klee escreveu durante os dez anos (1921-1931) em que lecionou na Escola Bauhaus, influente instituição de arte, design e arquitetura na Alemanha.
São quase 4000 notas, lições e desenhos que ele produziu nesse período.
Caderno de esboços pedagógicos, de 1925, de onde extraí a frase acima, é a mais conhecida das publicações em que foi compilada sua produção, fundamental para a compreensão de seu pensamento. No livro estão reunidas mais de quarenta reflexões, como lições, que exploram e analisam a construção visual, a proposição da forma e a função vital da arte.
Klee, nesses escritos e desenhos, prazerosos de ler, ver e aprender, desenvolve sua profundidade teórica com a leveza dos traços.
E assim, saímos para passear.
Acima, reprodução de Angelus Novus, 1920.


 

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

a simultaneidade do tempo

João Canijo, o mais expressivo cineasta do cinema português contemporâneo, faleceu no final da noite de quarta-feira, 28, em Vila Viçosa, histórica vila alentejana no distrito de Évora.
Estava sozinho em sua casa quando sofreu um ataque cardíaco fulminante. Tinha 68 anos. Foi encontrado pela empregada doméstica na tarde de ontem.
Quando li a notícia hoje cedo, entre o impacto, a tristeza e a chegada da saudade de quem nunca conheci de perto, vieram-me imagens de todos os seus filmes a que assisti de perto, com admiração e devoção.
Canijo tinha uma gramática muito própria de narrar suas histórias. Decupava as cenas onde a câmera estava literalmente no olho do espectador. Nunca o cinema foi tão fiel ao termo “voyeur”, quando a experiência de ver compartilha características e sentimentos fundamentais do que é mostrado. A estrutura cinematográfica cria situação cênica e dramática de ser necessariamente observada para organicamente ser participada.
O cineasta português fazia isso com perfeição, genialidade e discrição.
O realismo do drama social e familiar que define e qualifica sua filmografia, é captado por sua câmera com contemplação crítica e solidariedade conveniente, cabível.
A narrativa de uma sequência onde acontecem diálogos simultâneos, em contextos distintos num mesmo plano, é o que mais me encanta e aplaudo no cinema de João Canijo. Porque é assim a vida: muita coisa acontece ao mesmo tempo, com múltiplas referências entre si.
De todos os seus filmes, o que mais me fascina e revejo é Sangue do meu sangue (2011). O enredo é simples e complexo em sua essência: na periferia de Lisboa, uma mãe, cozinheira de profissão, vive com a irmã e seus dois filhos. Uma estuda enfermagem, outra é caixa em supermercado, o rapaz já esteve preso por tráfico; a filha se envolve com um homem mais velho e casado, o que faz a mãe se confrontar com seu passado.
Todo o filme é conduzido por esse olhar, da câmera e nosso, distante e ambientado no fôlego de cada frame.
Na sequência abaixo que recortei, duas situações acontecem em um único espaço, e não conseguimos dispensar uma para compreendermos a outra. João Canijo nos faz, mais que entendermos, sentirmos tudo ao mesmo tempo agora.
O cinema em sua grandiosidade material e anímica. 

Canijo


 

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

"A beleza salvará o mundo"


A frase do título da postagem está em O idiota (1869), de Dostoievski, atribuída ao príncipe Príncipe Myshkin. No entanto, é dita pelo personagem Ippolit Terentyev, jovem niilista e doente, que a cita de forma provocativa: "É verdade, príncipe, que o senhor disse uma vez que a beleza salvará o mundo?".

A canção Mais simples, de Zé Miguel Wisnik, traz-me à lembrança a beleza transcendental que Dostoievski quis dizer ao dar um sentido à existência.
Gravada em seu disco de 1993, a composição, no vídeo abaixo, cantada pelo autor e Ná Ozzetti no programa Sr. Brasil, TV Cultura, 2015.
A vida leva e traz
A vida faz e refaz
Será que quer achar
Sua expressão mais simples?

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

cotidiano


 

habitar o presente


Eles estão caminhando. Não estão marchando. Não correndo. Muito menos disputando espaço. Os monges estão apenas caminhando.

Num país onde tudo grita — anúncios, opiniões, urgências, sirenes —, aqueles monges avançam em silêncio, passo após passo, como se cada metro percorrido fosse um gesto de reconciliação com o tempo. Não carregam cartazes. Não exigem respostas. Não explicam demais. O corpo deles é a mensagem.
Enquanto o mundo se acostumou a ir sem estar, eles estão indo.
Cada passo toca o chão como quem pede licença. Cada respiração parece lembrar algo esquecido: que a vida não acontece no destino, mas no intervalo entre um passo e outro. Pessoas passam de carro, diminuem a velocidade, olham intrigadas. Algumas sentem desconforto. Outras, inexplicável paz. Porque aquele caminhar expõe uma ferida coletiva: desaprendemos a habitar o presente.
Eles caminham como quem ora com os pés.
Não porque acreditam que o mundo vai mudar de repente, mas porque sabem que ninguém muda o mundo sem antes mudar o próprio ritmo. O gesto deles é simples demais para ser ignorado, e profundo demais para ser reduzido a protesto. É um lembrete vivo de que ainda é possível atravessar o caos sem se tornar caótico.
O mais desconcertante é isso: eles não parecem com pressa de salvar nada. E, justamente por isso, salvam algo essencial — a possibilidade de presença.
- Chandramukha Swami, monge e líder espiritual brasileiro.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

assim falou Dalí


Em sua biografia As Confissões Inconfessáveis de Salvador Dalí (Editora José Olympio, 1976), o genial pintor catalão discorre em uma narrativa vulcânica, histórias hilariantes, fatos inimagináveis, opiniões desavergonhadas sobre amigos, parentes, amores, arte, religião...
São 20 densos e inquietos capítulos ironicamente intitulados como se fossem prescrições de aprimoramento pessoal a partir de como viveu, e não é nada disso ao mesmo tempo que é tudo e muito mais. A impressão que se tem na leitura é a de rápidas e ininterruptas pinceladas numa tela.
Lançado originalmente em 1973, quando ele tinha 69 anos, o “receituário” dos capítulos vai desde Como conviver com a morte, que abre o livro, passa por Como se livrar do próprio pai, Como descobrir a própria genialidade, Como orar a Deus sem acreditar Nele, e entre outras inconfissões nada surreais, finaliza com a propriedade do eu na terceira pessoa, Como Dalí pensa na imortalidade.
Se Nietzsche o tivesse conhecido, teria se perturbado com a sensação de encontrar seu Zaratustra no paroxismo do delírio lúcido de Salvador Dalí.
Um livro para ter sido filmado por Buñuel, depois de muitos tratamentos de um roteiro feito por Jean-Claude Carrière.
37 anos hoje que o pintor iniciou sua imortalidade. 

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

se todos fossem iguais a vocês


Acervo Instituto Moreira Salles
 

Drummond, Vinicius, Bandeira, Quintana e Paulo Mendes Campos, fotografados por Moacir Gomes, na casa de Rubem Braga, Rio de Janeiro, 1966. Figuras centrais do Modernismo brasileiro e da literatura do século 20.
Eles foram à casa do cronista para um almoço e muita conversa com um hóspede igualmente ilustre, Pablo Neruda.
Quando viu aquela turma ali sentada, Braga ficou atrás do fotógrafo, como “dirigindo” o registro. “Time fortíssimo, imbatível”, escreveu em uma crônica sobre os 80 anos de Mário Quintana, em 1986.
Olho imantado essa foto como se olha uma imagem sacra.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

eu me lembro


 Foto: Giuseppe Rotunno

Fantástico, onírico, nostálgico e memorialístico, Federico Fellini concebeu em Amarcord, 1973, um dos mais fortes libelos cinematográficos contra o fascismo. Autobiográfico, o cineasta ambienta seu delírio e expurgação nos anos 30 da Itália devastada pela figura pústula de Mussolini, pela moral repressora e destrutiva.
Na história, o personagem Titta é o alter ego do diretor. Mas todos os personagens que o rodeiam e habitam o passado nessa depuração de revogação nostálgica, são Fellinis. Mesmo não tendo tragédias sérias na família, o cineasta tomou posição e dizia que o fascismo aprisionou os italianos em uma adolescência perpétua de pesadelos, pelos tempos opressivos que viveram. O cinema o acolheu para espantar os fantasmas.
‘Amarcord’ é uma referência à tradução fonética das palavras "mi recordo" usada em Rimini, província da região de Emilia-Romagna, onde Fellini nasceu na noite de 20 de janeiro de 1920.
Foto: Giuseppe Rotunno

Fellini

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

eu me lembro



“Nós só percebemos, praticamente, o passado, o presente puro sendo o inapreensível avanço do passado a roer o futuro. Toda percepção já é memória”
- Henri Bergson, filósofo francês, em Matéria e memóriaEnsaio sobre a relação do corpo com o espírito (1896).
Sempre bom de reler, mesmo abrindo aleatoriamente as páginas.
O autor é chamado de “espiritualista evolucionista” na história da filosofia.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

responsabilidades

"Nos sonhos começam as responsabilidades"

- W. B. Yeats, em epígrafe de seu belo e importante poema Responsibilities (1914).
O poeta foi fundamental para o renascimento da literatura irlandesa

 

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

felicidade

Logo nas primeiras linhas de Anna Karenina (1877), Leon Tolstói constata que “Todas as famílias felizes são parecidas entre si. As infelizes são infelizes a sua maneira”.
Tal observação, na firmeza de uma sentença, é espelhada no relato do parágrafo seguinte: Darya Alexandrovna, esposa do Príncipe Oblonski, descobrira as relações extraconjugais do marido com a preceptora francesa. Não havia mais motivos para continuarem juntos. As crianças de um lado para outro, perdidas; uma das funcionárias se indispusera com a governanta, que passou a procurar outra casa para trabalhar; o cozinheiro larga as atividades na hora de preparar o jantar; o cocheiro e a copeira pedem as contas... O caos se instalara no palácio.
Haruki Murakami, escritor japonês, faz uma curiosa paráfrase da máxima no clássico romance russo em seu ótimo Kafka à beira-mar (2002). Lá pelo adiantado capítulo 17, Oshima, rapaz erudito e bibliotecário, diz para o jovem Tamura, a quem ajuda com conselhos e refúgio, que “A felicidade é uma alegoria, a infelicidade é uma história”. Enquanto a primeira é invariável, a outra demonstra inúmeras facetas. É assim que, implacavelmente, se constroem os grandes enredos humanos, acrescenta Oshima.
Por um algum motivo no meio da noite, vieram-me essas definições do que sejam felicidade e infelicidade e suas variações conceituais, seus desdobramentos de procura de entendimento, já que a vida é misteriosa e perplexa por definição.
No meio de tantas distinções de metáfrases, lembrei-me também de um verso da canção Fanzine kitsch, de Felipe Cordeiro, compositor e cantor paraense, do disco Kitsch Pop Cult (2013):
“A felicidade é uma maneira bem sofisticada de ser distraído”