João Canijo, o mais expressivo cineasta do cinema português contemporâneo, faleceu no final da noite de quarta-feira, 28, em Vila Viçosa, histórica vila alentejana no distrito de Évora.
Estava sozinho em sua casa quando sofreu um ataque cardíaco fulminante. Tinha 68 anos. Foi encontrado pela empregada doméstica na tarde de ontem.
Quando li a notícia hoje cedo, entre o impacto, a tristeza e a chegada da saudade de quem nunca conheci de perto, vieram-me imagens de todos os seus filmes a que assisti de perto, com admiração e devoção.
Canijo tinha uma gramática muito própria de narrar suas histórias. Decupava as cenas onde a câmera estava literalmente no olho do espectador. Nunca o cinema foi tão fiel ao termo “voyeur”, quando a experiência de ver compartilha características e sentimentos fundamentais do que é mostrado. A estrutura cinematográfica cria situação cênica e dramática de ser necessariamente observada para organicamente ser participada.
O cineasta português fazia isso com perfeição, genialidade e discrição.
O realismo do drama social e familiar que define e qualifica sua filmografia, é captado por sua câmera com contemplação crítica e solidariedade conveniente, cabível.
A narrativa de uma sequência onde acontecem diálogos simultâneos, em contextos distintos num mesmo plano, é o que mais me encanta e aplaudo no cinema de João Canijo. Porque é assim a vida: muita coisa acontece ao mesmo tempo, com múltiplas referências entre si.
De todos os seus filmes, o que mais me fascina e revejo é Sangue do meu sangue (2011). O enredo é simples e complexo em sua essência: na periferia de Lisboa, uma mãe, cozinheira de profissão, vive com a irmã e seus dois filhos. Uma estuda enfermagem, outra é caixa em supermercado, o rapaz já esteve preso por tráfico; a filha se envolve com um homem mais velho e casado, o que faz a mãe se confrontar com seu passado.
Todo o filme é conduzido por esse olhar, da câmera e nosso, distante e ambientado no fôlego de cada frame.
Na sequência abaixo que recortei, duas situações acontecem em um único espaço, e não conseguimos dispensar uma para compreendermos a outra. João Canijo nos faz, mais que entendermos, sentirmos tudo ao mesmo tempo agora.
O cinema em sua grandiosidade material e anímica.