terça-feira, 17 de março de 2026

prazo


Fotomontagem: Nirton Venancio

Impossível
terminar o poema nos próximos dias:
falta uma vírgula aqui
aguarda um sentimento ali,
avista-se uma cidade acolá.
E essas correções,
dores
e risos
costumam demorar
uma vida inteira...

- Do meu livro Poesia provisória, Editora Radiadora, 2019 

Elis


 

domingo, 8 de março de 2026

confesso que vivi


Em Um romance do outro mundo (Truly, madly, deeply) , de Anthony Minghella, 1990, Nina (Juliet Stevenson) é uma mulher devastada pela morte de seu grande amor, Jamie (Alan Rickman), ambos músicos.
Inconsolável, passa os dias imersa na saudade, na dor da perda, mesmo tendo conhecido outra pessoa.
De repente, Jamie reaparece, mas não como um ser vivo, e sim como um espírito. Nina, feliz, acredita que poderá reviver, continuar a história de amor.
O filme passa à estrutura narrativa de fábula romântica com elementos fantásticos; mistura drama realista com o improvável; torna sem nenhum espanto o convívio entre quem ficou com quem se foi. O real e o imaginário na mesma dimensão. A holografia de um no coração do outro ser.
Em uma das cenas desses encontros, o personagem do além pede que a amada traduza versos de um poema. O texto com essência poética perfeitamente delineado na substância do roteiro.
O trecho é do poema La muerta, de Pablo Neruda, do livro Los versos del capitán, de 1952. Naquele ano o poeta chileno estava em exílio político na Ilha de Capri, Itália. Praticamente todo o livro, publicado anonimamente, teve inspiração em sua relação amorosa e secreta com a fisioterapeuta Matilde Urrutia, que conheceu em 1946. Neruda estava casado com Delia del Carril, artista plástica argentina. Somente em 1961, já separado, a obra foi lançada com seu nome. Neruda e Matilde casaram-se em 1966 e ficaram juntos até a morte dele, em 1973.
Os versos contextualizados no filme expressam e reforçam a ligação entre amor, perda e memória. E o eu lírico, na extensão do poema, alcança uma reflexão ampla, universal, sobre a condição humana diante da finitude.
Grato a minha amiga Zélia Sales, grande contista, que me lembrou da cena no filme e motivou esta postagem.

oitos de marços


 

segunda-feira, 2 de março de 2026

o capricho das palavras




"As palavras são caprichosas... A gente leva 30 anos esperando que elas se firmem e aí põe no dicionário. As palavras como que protestando contra a sua inclusão tardia, vão embora, desaparecem"

- Aurélio Buarque de Holanda em entrevista ao Jornal do Brasil, maio de 1980.
O mestre refletia sobre a natureza viva e mutável da língua. Via o dicionário não como um repositório fixo, mas como um retrato em movimento da palavra.
Foto: O lexicógrafo em seu escritório, Rio de Janeiro, 1978. Acervo Casa Aurélio Buarque de Holanda, Alagoas.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

lonjuras


 “Por esses longes todos eu passei, com pessoa minha no meu lado, a gente se querendo bem. O senhor sabe? Já tenteou sofrido o ar que é saudade? Diz-se que tem saudade de ideia e saudade de coração...”

- A imensidão de um fragmento da extensa narrativa de Riobaldo em Grande Sertão: Veredas, Guimarães Rosa, 1956.
Foto de Rubens Venâncio: Estação Ferroviária de Gordisburgo, MG, 2016.