sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

o menino que nós amamos


Há 78 anos o cantor, compositor, ator e físico Rodger Rogério continua um menino no chão sagrado do seu coração.
Parabéns pelo seu dia todos os dias, caro amigo!

quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

impulsos incontidos

 foto Acervo Grupo Bloch

"Se os maus poetas soubessem que quando morrem, morrem para sempre, é possível que fossem mais cautelosos em suas exteriorizações e mais contidos em seus impulsos. Nada mais aterrador do que um mau poeta inspirado."

- Joel Silveira, escritor e jornalista (1918-2007), em Guerilha noturna, lançado pela Editora Record em 1994. O livro é uma preciosidade de aforismos, citações, reflexões sobre política, crítica social e literária, sempre com os petardos que marcaram sua escrita em mais de 20 títulos e centenas de reportagens. Manuel Bandeira dizia que "o texto do Joel é maciamente perfurante, como uma punhalada que só dói quando esfria”.
Imagino Joel diante os impulsos incontidos de poetas inspirados nestes tempos de redes sociais.

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

dentro de mais um minuto estaremos no Galeão...

foto Ana Lontra Jobim, 1987

Em 1999, uma lei federal alterou a denominação do aeroporto do Rio de Janeiro em homenagem ao compositor Tom Jobim, falecido em 1994.

A ideia foi do pesquisador e crítico musical Ricardo Cravo Albin, que junto ao Congresso Nacional, coordenou uma comissão de notáveis formada por Chico Buarque, Oscar Niemeyer, João Ubaldo Ribeiro, Antônio Cândido, Antônio Houaiss e Edu Lobo.
A emblemática canção Samba do avião, que cita o aeroporto, foi composta por Tom Jobim para o filme Copacabana Palace, coprodução franco-ítalo-brasileira, 1962, dirigido por Steno.
Naquele ano do lançamento do filme, ao lado de Vinicius de Moraes e João Gilberto, Tom cantou pela primeira vez a composição em um show no famoso restaurante Au Bon Gourmet, em Copacabana. O grupo Os Cariocas, que acompanhava a apresentação, fez a primeira gravação em disco.
O jornalista e biógrafo Ruy Castro em A onda que se ergueu no mar, 2001, diz que naquela noite foi “o show de bossa nova para acabar com todos os shows de bossa nova", tamanha a importância e singularidade do encontro. Além de Samba do avião, pérolas do nosso cancioneiro magnetizaram a plateia, como as parcerias com Vinicius, Só danço samba e Garota de Ipanema.
E que ironia ter um aeroporto com seu nome: Tom tinha pavor de viajar de avião! A letra é uma criativa forma de relatar os momentos de fobia que o maestro sentia dentro de uma aeronave. Disfarçando o temor e ansiedade de chegar logo em terra firme, Tom narra e exalta as belezas da cidade maravilhosa, “estou morrendo de saudades / Rio, seu mar / praia sem fim”, e aliviava-se ao ver de longe o “Cristo Redentor / braços abertos sobre a Guanabara”, enquanto o avião balançava as asas para a aterrissagem, imaginava a morena lá em baixo “com seu corpo todo a balançar”. Dá pra imaginar o sorriso de conforto de Tom Jobim quando ouve a aeromoça anunciar “aperte o cinto, vamos chegar”...
A canção termina como a chegada de um pássaro feliz, “água brilhando, olha a pista chegando / e vamos nós / pousar...”
Hoje 95 anos de nascimento do nosso maestro soberano.

sábado, 22 de janeiro de 2022

dentro do samba-canção


No final de tarde de 22 de janeiro 1977, ao voltar do casamento do filho, Jayme Monjardim, a cantora Maysa, dirigindo a toda velocidade sobre a ponte Rio-Niterói, faleceu ao bater o carro em uma mureta quando tentava desviar de outro veículo. Tinha 40 anos.

No começo da década de 70 Maysa foi morar em Maricá, município na região metropolitana do Rio de Janeiro, a uns 60 quilômetros da capital. O clima rural de chácaras, fazendas, a brisa da praia de Ponta Negra, os resquícios históricos marcados nos trilhos da estrada de ferro, um túnel por onde o trem aparecia e sumia, tudo emoldurava o autoexílio da cantora em sua casa, livrando-se das encucações em que mergulhou nas noites em que cantava, pois, como diz Ruy Castro num capítulo de seu livro A noite do meu bem, 2015, "ninguém parecia viver dentro de um samba-canção como Maysa".
Na foto, a cantora em um show na boate Number One, RJ, 1972.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

a saudade chegou


Em Chega de saudade, segundo longa de Laís Bodanzky, 2007, a história se passa em uma noite de baile, num clube de dança na Lapa, São Paulo. Do final da tarde até o começo da madrugada, os frequentadores conversam, bebem, dançam em volta de seus dramas, no ritmo de suas alegrias, no compasso do tempo passado.

Abordando o amor, a solidão e outros precipícios do coração, entre a diversão necessária e o drama que se assume, a trama gira em torno de cinco núcleos de personagens, entre eles os idosos interpretados por Tonia Carrero, a preocupada Alice, e Leonardo Villar, o rabugento Álvaro em conflito com culpas pretéritas.
Uma cena se destaca no filme. Quando Alice se afasta para falar com amigos, o enquadramento fecha em Álvaro. Ele olha em volta, deslocando-se na memória. Lembra de sua falecida esposa. A música diminui. A imagem da mulher, interpretada por Selma Egrei, aparece. Ambos ficam em primeiríssimo plano, na intimidade de outra dimensão, no recorte de um tempo dentro de outro. No curto e preciso diálogo, delineado pelo abstrato da visão e a solidez da contrição, o que se acusa e o que se rebate é realçado pela letra da clássica canção “Lama”, na voz presente de Elza Soares, quando a música volta e o vulto da mulher desaparece.
Cada verso enfatiza o desconsolo (“quem foste tu / quem és tu / não és nada / se na vida fui errada / tu foste errado também”), e a compunção (“se eu errei, se pequei / não importa / se a esta hora estou morta / pra mim morreste também”) dos personagens que se reencontram e se desencontram de novo.
Essa cena não teria o mesmo impacto se não fosse a rápida e marcante presença de Elza Soares e sua visceral interpretação. A entonação de cada verso é um diálogo dentro do filme - na personificação da esposa falecida - e com a própria história da cantora, tanto na postura diante da vida que ela teve no amor, na solidão e em outros precipícios do coração, quanto na importância que tem essa canção em sua carreira, composição de Paulo Marques e Ailce Chaves, de 1952.
Em 1953 a jovem Elza de 16 anos fez seu primeiro teste como cantora no programa de Ary Barroso, Calouros em Desfile, na Rádio Tupi, Rio de Janeiro, impressionando, comovendo e recebendo aplausos de todos. A voz daquela menina, magrinha, simples e humilde, revelava uma força que vinha do fundo de sua alma, de suas origens, de um Brasil brasileiro que ela levaria e defenderia por toda sua vida artística, em seu canto de dores, doçura e esperança. Elza Soares ganhou o primeiro lugar naquela tarde de calouros.
E nesta tarde de quinta-feira, dia 20, Elza Soares faleceu aos 91 anos. Tarde de janeiro de um Brasil ainda marcado por uma pandemia no ar e pandemônio no planalto – males que ela enfrentava defendendo vacina para todos e a união de corações contra o ogro.
Elza Soares partiu no mesmo dia, quarenta anos depois, que Garrincha, seu grande amor. “Eu sonho muito com o Mané”, disse ela em uma entrevista no programa de Pedro Bial, em 2018. Agora, chega de saudade dele, Elza. Fica aqui o Brasil com a sua saudade.

eu me lembro

 

Fantástico, onírico, nostálgico e memorialístico, Federico Fellini concebeu em Amarcord, 1973, um dos mais fortes libelos cinematográficos contra o fascismo. Autobiográfico, o cineasta ambienta seu delírio e expurgação nos anos 30 da Itália devastada pela figura pústula de Mussolini, pela moral repressora e destrutiva.
Na história, o personagem Titta é o alter ego do diretor. Mas todos os personagens que o rodeiam e habitam o passado nessa depuração de revogação nostálgica, são Fellinis. Mesmo não tendo tragédias sérias na família, o cineasta tomou posição e dizia que o fascismo aprisionou os italianos em uma adolescência perpétua de pesadelos, pelos tempos opressivos que viveram. O cinema o acolheu para espantar os fantasmas.
‘Amarcord’ é uma referência à tradução fonética das palavras "mi recordo" usada em Rimini, província da região de Emilia-Romagna, onde Fellini nasceu há um século e dois anos hoje.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

saudades do Brasil


Em 5 de janeiro de 1982 Elis Regina foi a convidada do programa Jogo da Verdade, apresentado pelo jornalista Salomão Ésper, na TV Cultura, São Paulo, com as participações do produtor musical Zuza Homem de Mello e do jornalista Maurício Kubrusly como entrevistadores.

Foi um show de raciocínio lúcido, pensamento astuto, reflexões brilhantes e verdadeiras, pertinentes àquele momento da música brasileira e à situação política e social do país.
Em um trecho ela fala que "aquele do 666 do apocalipse" estava solto entre nós. Era governo do “cavaleiro” Figueiredo, o último dos generais da ditadura militar.
14 dias depois dessa entrevista, no final da manhã do dia 19, o namorado da cantora, o advogado Samuel MacDowell, sai às pressas de seu escritório na avenida Ipiranga, São Paulo, para o apartamento da cantora, no bairro Jardim Paulista. Preocupou-se com um telefonema dela, "mais balbuciava que falava", disse depois numa entrevista.
Sem ser atendido com a campainha, MacDowell arrombou a porta e encontrou Elis inerte no quarto. Acionou o médico e com a demora da ambulância, colocou a cantora em um táxi em direção ao Hospital das Clínicas, onde chegou sem vida, vitimada por um ataque cardíaco.
Elis morreu com apenas 36 anos de tanto Brasil.

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

versos em alto mar


Em 1938, o jovem de 24 anos Marcus Vinicius da Cruz de Melo Moraes, o futuro 'poetinha', ganhou uma bolsa do Conselho Britânico para estudar língua e literatura inglesas na Universidade de Oxford.

Em setembro daquele ano, a bordo do navio Highland Patriot, escreveu o belamente dolorido Soneto da separação, motivado pela saudade da namorada Tati, que se tornaria sua primeira esposa.
Os versos partem de uma ausência, e não de uma ausência que nos parte quando tudo, “de repente, não mais que de repente”, se faz “triste o que se fez amante”.
Mas por licença poética, e desespero de causa mesmo, se conjuga nas duas ausências... quando se faz “da vida uma aventura errante”.