terça-feira, 6 de abril de 2021

a atriz que emendou a gramática

foto Arquivo Dedoc/VEJA

"Tem som no microfone? Vocês são iguais sabem a quem? Àqueles que foram na 'Roda Viva' e espancaram os atores! Vocês não diferem em nada deles, vocês não diferem em nada! E por falar nisso, viva Cacilda Becker! Viva Cacilda Becker!"

Assim esbravejou Caetano Veloso, no III Festival Internacional da Canção, em 1968, quando sua música É proibido proibir foi recebida com vaia pelo público no Teatro da Universidade Católica de São Paulo (TUCA).
A explosiva interrupção do cantor durante a apresentação refletia claramente uma crítica ao governo naqueles tumultuados anos a caminho da decretação do AI-5, o golpe dentro do golpe que aconteceu em dezembro daquele o ano que não terminou, como diz o título do livro de Zuenir Ventura.
A primeira-dama dos palcos brasileiros é citada no trecho do discurso por ter, corajosamente, participado e tomado a frente da comissão de artistas que foi à residência do então governador Abreu Sodré, exigir providências sobre o ataque ao Teatro Galpão.
Os desdobramentos repressivos da ditadura militar atingiram todos os setores culturais do país. No teatro, Cacilda Becker colocou o rosto além dos palcos e não aceitava tapas como militante assumida das causas de sua classe. Sob acusação de que seus papeis nas peças que escolhia e a forma como interpretava tinham conotações subversivas, foi sumariamente demitida dos trabalhos na TV Bandeirantes.
No mesmo assustador 1968, Augusto Boal dirige o espetáculo Primeira Feira Paulista de Opinião, com textos de vários dramaturgos, como Plínio Marcos, Bráulio Pedroso, Gianfrancesco Guarnieri, Jorge Andrade, Lauro César Muniz e o próprio Boal. Com trilhas compostas por Edu Lobo, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Sérgio Ricardo e Ary Toledo, a montagem, discutindo o tema urgente como “O que pensa o Brasil de hoje?”, uniu o meio teatral de São Paulo com a classe carioca na luta contra as ações autoritárias da Censura. Logo no dia da estreia, em julho, a peça sofreu 71 cortes.
Integrante do elenco, Cacilda Becker, resoluta e belamente impávida, caminha até o proscênio e se responsabiliza pela apresentação do texto na íntegra. Aquela atitude corajosa de desobediência civil, de rebeldia cívica, petrificaram os agentes federais censores ali sentados na primeira fila. A força na voz inabalável daquela mulher atriz fizeram aqueles “machos brancos sempre no comando” acatarem a decisão e assistirem ao espetáculo sem darem um pio e recolherem as lâminas cretinas em suas pastas. Não à toa o título de sua biografia é "Cacilda Becker – fúria santa", 650 páginas com uma preciosa pesquisa feita por Luís André do Prado, lançada em 2002 pela Geração Editorial.
No primeiro semestre de 1969 Cacilda Becker atuava em Esperando Godot, no TBC, com direção de Flávio Rangel. O clássico do irlandês Samuel Beckett, um exemplar do teatro do absurdo, retrata sintomaticamente nas entrelinhas o absurdo do recrudescimento em que o país mergulhava – tema tão atual neste Brasil desgovernado por um despresidente alma sebosa. A atriz interpretava o personagem principal, Estragon (foto). Ela substantivo feminino retira o pronome masculino e veste com alma o corpo do personagem, aquela que personifica a esperança, aquela que espera God(ot), aquela que aguarda Deus, aquela que é o caminho em seu nome, como na rubrica que divide a peça em três atos-mulheres: Estrada, Árvore, À Noite.
Numa apresentação em maio, justo no intervalo entre o primeiro e o segundo ato, Cacilda Becker sente-se mal, sofre um derrame cerebral. Às pressas, é levada ao hospital e é internada ainda com as roupas do personagem. Leva Estragon, mas o deixa na história do teatro brasileiro. Foi a primeira montagem profissional da peça no Brasil, depois de duas amadoras, uma da Escola de Arte Dramática de SP, com direção de Alfredo Mesquita, e outra de Luiz Carlos Maciel, em Porto Alegre, ambas na década de 50.
Depois de 38 dias, na manhã de 14 de junho, falece, aos 48 anos. Aliás, faleceram, pois como disse Carlos Drummond de Andrade num trecho do poema Atriz, a ela dedicado, “A morte emendou a gramática. / Morreram Cacilda Becker. / Não era uma só. Era tantas.”
Cacilda não retornou ao palco naquela noite. Como num parentesco longínquo nos sobrenomes do dramaturgo e da atriz, o diálogo final da peça, entre os personagens Estragon e Vladimir, parece fazer uma conexão entre sentido e despedida:
- Vladimir: Então, devemos partir?
- Estragon: Sim, vamos.
Eles não se movem. Apagam-se as luzes. Fecham-se as cortinas.
Abrem-se as cortinas: 100 anos hoje de seu nascimento. Acendem-se as luzes em sua homenagem. Parafraseando Drummond, em 1921 nasceram Calcida Bercker.
foto Acervo Dedoc/VEJA
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Com acréscimos para esta postagem, texto do meu livro em preparação ©Crônicas do Olhar, a ser lançado pela
Editora Radiadora
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domingo, 4 de abril de 2021

a ressurreição de uma obra


Na fé cristã, a Páscoa é a comemoração do fundamento e da crença que Jesus morreu e ressuscitou no terceiro dia.

A Igreja Católica, lá nos primórdios, preocupada em tornar o Cristianismo mais atraente para os ditos não-cristãos, misturou a ressurreição de Jesus com rituais de fertilidade que ocorriam na primavera, e ovos e coelhos simbolizam a fecundidade, multiplicação, abundância.
A reprodução abaixo é da belíssima obra do pintor renascentista Rafael Sanzio, Ressurreição de Cristo, criada na passagem de um século para outro, entre 1499 e 1502, no nascimento de um novo tempo.
É curioso como na grandiosidade de uma peça estejam marcados em suas cores, o símbolo, a história e significados de transformação, de mudança, de renascimento.
Um terremoto na cidade Tolentino, Itália, por volta do final do século 18, atingiu a Basílica de São Nicolau, onde estava o quadro, por detrás do altar. Foi recuperado, renascido, elevado aos céus para a humanidade. A obra ressuscitada.
Em 1947, o historiador e colecionador Pietro Maria Bardi criou, junto com o jornalista Assis Chateaubriand, o Museu de Arte Moderna de São Paulo. Bardi, que nasceu na mudança de um século, 1900, e faleceu na passagem de outro, 1999 – mais uma vez, o renascimento - foi diretor da instituição por dedicados 45 anos. Em 1954 adquiriu, através de leilão, o quadro de Rafael Sanzio para o Museu.
O belo e magnetizante óleo sobre madeira, de pouco mais de 50 cm de dimensão, exposto em cavalete de cristal, é a única obra do pintor italiano não somente no Brasil, mas em todo o hemisfério sul. Outra vez renascida em nova casa.
Rafael Sanzio nasceu em um 6 de abril, e na simetria e renascimento do tempo, faleceu também em um 6 de abril, de 1520, aos 37 anos. Cinco séculos e um ano este mês de sua passagem.
Neste domingo de Páscoa são 2.844.807 mortes por Covid-19 ao redor do planeta. No Brasil, na página infeliz de nossa história, desgovernado por uma alma sebosa negacionista e genocida, 330.193 famílias enlutadas, chorando seus parentes, amigos e vizinhos que não voltam mais.
Ressurreição de Cristo de Rafael reflete mudança, renascimento, transcurso no tempo e no espaço. O quadro está ali na parede do Museu na capital paulista, aguardando a mudança do tempo para visitas e contemplação da beleza. E continuemos em casa, cuidando de si e dos outros. Que a fertilidade da fé ilumine multiplique a sabedoria da ciência na cabeça dos homens. Renasceremos desse caos.

sexta-feira, 2 de abril de 2021

Cidadão do Cinema


Luiz Geraldo de Miranda Leão foi um dos seletos e genuinamente críticos de cinema deste país. E crítico entenda-se como um verdadeiro estudioso da sétima arte. Jornalista, professor e escritor, Miranda é autor de importantes livros sobre o tema que dominou tão bem por mais de 60 anos. Entre eles, destaco Ensaios de Cinema, lançado em 2010 pelo Programa Cultura da Gente, do Banco do Nordeste.

Em quase 300 páginas ele disserta de forma preciosíssima análises sobre a Nouvelle Vague, destacando a importância de Os incompreendidos, 1959, obra-prima de François Truffaut, à reflexões sobre o cinema hollywoodiano contemporâneo. Faz considerações surpreendentes em quatro filmes de Martin Scorsese (Quem está batendo à minha porta, 1968, Caminhos perigosos, 1973, Alice não mora mais aqui, 1974, Depois de horas, 1985), passando antes pelo período marcante do macarthismo, pelo cinema subestimado de Edward Dmytryk nos anos 40 e 50, elabora observações acertadas e rigorosas sobre a estética da violência na narrativa inovadora dos filmes de Sam Peckinpah, releva a América sentida na pulsação da magnitude de Stanley Kubrick, vai ao cinema europeu e como desbravador do código da mente humana, disseca a alma da cinematografia de Ingmar Bergman, e evidencia o expoente de um novo cinema no trabalho do húngaro István Szabó.
E entre tantos outros gêneros, períodos e diretores estudados no livro, dedica um especial olhar as suas duas grandes paixões: Orson Welles e o cineasta brasileiro Walter Hugo Khouri, de quem se tornou amigo. Viu de perto o diretor de Cidadão Kane. Tinha 10 anos de idade em 1942 quando acompanhou na praia do Mucuripe, em Fortaleza, as filmagens de It’s all true, levado pela mão de seu pai, o cinéfilo e pediatra João Valente de Miranda Leão.
Miranda teve e tem uma importância fundamental na minha vida no cinema. Muito cedo comecei a ler seus artigos nos jornais. Posso dizer, sem erro, com orgulho e saudade desses tempos, que muito de teoria cinematográfica aprendi através dessas leituras, e adolescente fascinado ouvindo suas palestras no Clube de Cinema Fortaleza nos anos 70, em conversas antes e depois das sessões do Cinema de Arte do Cine Diogo, quando fui editor dos folhetos informativos que se distribuía na entrada de cada apresentação nas noites de sextas-feiras. Sua análise lúcida, criteriosa e apaixonada, serviu-me de estímulo para mergulhar cada vez mais no mundo das telas de cinema, como crítico no jornal O Povo, e depois como cineasta.
A última vez que estive com Miranda já faz tempo. Ele em Fortaleza, eu em Brasília, contatos por e-mail. Enviou-me um exemplar citado livro de ensaios. Em 2014, em um encontro com sua filha, jornalista
Aurora Miranda Leão
, na capital cearense, soube que ele estava adoentado. Hoje recebo a notícia de seu falecimento, aos 89 anos. Miranda partiu bem cedo, no começo da manhã desta atípica sexta-feira santa. Não acordou, continuou no sono de outra luz, por atrás da tela de cinema, onde deve existir uma dimensão que não alcançamos do lado de cá, de quem fica nesta sessão diante o filme da vida. Miranda foi ao encontro de sua esposa Marlene, falecida há uma semana, como Giulietta Masina foi logo atrás de Fellini.
Ele me dizia que desde quando assistiu às filmagens de It’s all true, o cinema não saiu mais dele. Ver Orson Welles dando ação ao movimento das imagens sob sol o cearense, deve mesmo ter marcado aquele menino. Sempre que eu ouvia seu relato dessas lembranças, conseguia ver também o cineasta através de seus olhos. E me sentia igualmente no set à beira-mar, como se então fosse ele meu pai levando-me pela mão ao cinema. Era tudo verdade. Passei a chamar meu mestre Miranda Leão de “Cidadão do Cinema”.

Sexta-feira Santa, 2021

 

o ano em que vivemos em perigo.

quinta-feira, 1 de abril de 2021

nada a comemorar


Hoje, quando se relembra na página infeliz da nossa história os 57 anos do golpe civil-militar de 1964, as décadas de arbitrariedades, de prisões, de “suicídios”, de corpos em valas comuns, sumidos, jogados ao mar, com pais que não tiveram seus filhos de volta e filhos que não conheceram seus pais, com centenas de brasileiros que perderam o passado em cárceres e ainda ecoam em seus ouvidos a ira de seus carrascos, com a tortura como instrumento do Estado, o novo ministro da Defesa deste desgoverno genocida em seu primeiro ato administrativo ao assumir a pasta, publica Ordem do Dia Alusiva à fatídica data.

Não há nada a comemorar, general, sobre o passado e suas manhãs cinzentas, muito menos celebrar em meio à barbárie cotidiana da pandemia, pisando sobre mais de 317 mil cadáveres e 3.688 mortes no intervalo das últimas 24 horas.

terça-feira, 30 de março de 2021

fotografia alucinada


Em 1975
Januario Garcia era cinegrafista e começou a estagiar como assistente no estúdio de Georges Racz, renomado fotógrafo de origem húngara, naturalizado brasileiro nos anos 50, quando a família veio para cá fugida da Segunda Guerra.

Atuando como freelancer no fotojornalismo, Januário desde os anos 70 participa do movimento negro, e mantém o Documenta Brasileira de Matrizes Africanas, importante arquivo sobre a presença da população negra no país.
Além dessa significativa dedicação, Januário é autor de várias fotos de discos clássicos da nossa música, Chico Buarque, Caetano, Raul Seixas, Lecy Brandão, Edu Lobo, os irmãos
Clodo
,
Climério
e Clésio, Fagner...
É dele a belíssima foto da capa de Urubu, que Tom Jobim lançou em 1976. E com a repercussão desse trabalho Januário foi convidado, naquele mesmo ano, para fotografar um rapaz latino americano, Belchior, que estava gravando o seu segundo LP, Alucinação.
No encontro dos dois na Polygram, saíram para conversar sobre a ideia da capa, que tipo foto o cantor imaginava etc. E foi logo ali pelos corredores e numa sala, ao ver e ouvir Belchior cantar a música-título do disco, que Januário entrou no clima da letra e começou a fotografar.
A foto escolhida na folha de contato foi depois trabalhada na saturação colorida por Aldo Luiz e Nilo de Paula, da direção de arte e layout.
É um álbum antológico em tudo.
Hoje três anos e onze meses que Belchior ficou interessado em outra alucinação.

domingo, 28 de março de 2021

nas ondas do rio Ouse


Em toda obra da inglesa Virginia Woolf, Orlando: uma biografia, de 1928, se destaca por ser considerado um dos livros mais acessíveis em estilo, narrativa e temática semi-biográfica, baseado em parte na vida da amante da escritora, a romancista e paisagista Vita Sackville-West.

Sobre a relação, a jovem cineasta britânica Chanya Button dirigiu em 2018 o drama Vita & Virginia (no Brasil, Um romance nas entrelinhas), onde mostra mais diretamente as conflagrações do relacionamento entre as duas escritoras e como gerou um dos mais emblemáticos livros na literatura modernista.
Em Orlando, Virginia Woolf, com uma impressionante beleza de escrita, discute as ambiguidades da similitude feminina e masculina e seus conflitos com a condição humana. Com um humor elegante, a história discorre o significado da imortalidade da personagem, uma espécie de “Hightlander vitoriana”, que atravessa 350 anos no tempo da história britânica. Em 1992 a cineasta inglesa Sally Porter fez uma adaptação à altura, Orlando, com a ótima atriz Tilda Swinton, papel que lhe deu projeção mundial no cinema.
Em 1989, Bia Lessa dirigiu uma extraordinária adaptação de Orlando para o teatro, com Fernanda Torres no papel. Remontou a peça em 2004, com Betty Goffman substituindo.
A literatura de Virginia Woolf é um desafio para a linguagem cinematográfica, mesmo assim as adaptações feitas demonstram propriedade e uma leitura implícita das imagens que a autora coloca em suas páginas. Mrs. Dalloway, romance histórico de 1925, foi filmado em 1997 por Marleen Gorris, com Vanessa Redgrave no papel da fictícia socialite pós-Primeira Guerra. O livro em si é um dos pontos principais, quase como um personagem, na cinebiografia que o cineasta Stephen Daldry dirigiu em 2002, As horas, baseado no original de Michael Cunningham, onde mostra a existência de três mulheres de gerações diferentes, a editora Clarissa Vaughan (Melry Streep), a dona de casa Laura Brown (Julianne Moore) e ela, Virginia Woolf (Nicole Kidman), cujas vidas são entrelaçadas pelo romance que esta tenta escrever, Mrs. Dalloway.
Ao farol, drama introspectivo em paisagem insular, que Woolf descrevia como “facilmente o melhor dos meus livros”, de 1927, teve uma adaptação pouco conhecida, feita por Colin Gregg para a televisão britânica, em 1983.
Entre romances, ensaios e contos que Virginia Woolf escreveu, considero As ondas, de 1931, que não foi filmado, um dos mais inventivos enredos enquanto narrativa. É sua obra mais experimental. Uma maravilha! Os solilóquios de seis personagens (ou seriam vozes?), se alternam em conceitos individuais e de comunidade, do ser e de todos, do eu e do outro. Um caleidoscópio de índoles, traços psicológicos que vão de encontro à consciência de quem narra, de quem é narrado e de quem lê.
No começo dos anos 20 Virginia Woolf frequentava a Garsington Manor House, um extenso edifício em Oxfordshire, sudeste da Inglaterra, que a aristocrata e proprietária Lady Ottoline Morrell transformou em ponto de encontro de intelectuais famosos, como Aldous Huxley, T. S. Eliot, D. H. Lawrence, principalmente durante a Primeira Guerra, servindo o lugar como refúgio, além de outros imóveis da anfitriã das artes. Amante de alguns, como o filósofo Betrand Russell, Lady Morrell foi patrona influente de muitos escritores. Imagino as formidáveis e surpreendentes conversas nesses encontros!
Seus diários, cadernos, cartas e fotografias desse período de convivência com seus protegidos, estão hoje guardados na Biblioteca Britânica. Relatos e fotos de Virginia Woolf fazem parte desse precioso acervo. A foto abaixo, em frente ao prédio, feita por Lady Morrel, é de 1923. Virginia Woolf tinha 41 anos e acabara de lançar o romance O quarto de Jacob.
O começo da Segunda Guerra Mundial, a destruição da sua casa em Londres durante uma busca, a fria recepção da crítica a sua biografia escrita pelo amigo Roger Fry, tudo veio em ondas para Virginia Woolf depois desse tempo em Garsington.
Na manhã de 28 de março de 1941, dois meses depois de completar 59 anos, a escritora encheu de pedras os bolsos de seu casaco e foi ao encontro das águas profundas do Rio Ouse, perto de sua casa, em North Yorkshire. Foi encontrada três semanas depois, por um grupo de crianças.
"O que quero dizer é que te devo toda a felicidade da minha vida. Fostes inteiramente paciente comigo e incrivelmente bom."
Trecho da breve e comovente carta que deixou para ao marido, Leonard Woolf.
Como Orlando, Virginia Woolf atravessa o tempo na história da literatura e em ondas na nossa memória.
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Texto retirado do meu livro em preparação ©Crônicas do Olhar, a ser lançado pela Editora Radiadora.

sábado, 27 de março de 2021


foto ©Renato Mangolim

No final de 2018 estreou no Rio de Janeiro, a peça A peste, baseada no romance homônimo de Albert Camus, dirigida por Vera Holtz e Guilherme Leme, seguindo depois para outras capitais.

Escrito durante a Segunda Guerra Mundial e publicado em 1947, a magnum opus do escritor franco-argelino, uma espécie de “versão romanceada da filosofia existencialista”, como bem definiu recentemente o professor Arnaldo Godoy, livre-docente pela Faculdade de Direito da USP, descreve a história que se passa em Oran, cidade no litoral mediterrâneo da Argélia, assolada por uma epidemia, devastando os habitantes progressivamente.
A excelente montagem teatral centraliza a narrativa no personagem principal, o médico Bernard Rieux, que, em um dia qualquer, ao sair de casa depara-se com um rato morto, e pede ao porteiro do prédio para retirá-lo. Outros aparecem, e ninguém se importa, até o mal chegar às pessoas.
Estruturado em um monólogo, com atuação perfeita de Pedro Osório, a peça desenvolve contornos contemporâneos para apontar e refletir o desmoronamento moral da sociedade e os avanços dos governos de ultradireita, pontuações que estão no original de Camus, na analogia que faz à ocupação nazista na Europa.
Assim como no livro, a montagem de Holtz e Leme espelha também a reavaliação de pequenos gestos que nos mantém juntos no cotidiano, a urgente solidariedade que precisamos ter como resistência diante os flagelos e o autoritarismo. Reflexão que cabe neste momento no mundo inteiro, e especialmente no Brasil, quando temos a infelicidade “no tocante a isso daí” dessa figura abjeta, cara de cão, alma sebosa na presidência da República, desdenhando a gravidade de uma pandemia, encarnando a brutalidade da peste ao tomar atitudes genocidas contra a população. Nos dados de hoje, 27 de março, 21.489 novos casos de Covid-19, muitos desesperados em macas, afogando-se no seco, nos corredores à espera de leitos. São mais de 3.650 mortos no intervalo das últimas 24 horas, já ultrapassando mais 300.000 famílias enlutadas, chorando seus parentes, amigos e vizinhos que não voltam mais.
A lembrança da peça baseada no livro de Camus é oportuna para a data de hoje, Dia Mundial do Teatro, em referência a inauguração do Teatro das Nações, em Paris, 1961. Também se comemora no Brasil o Dia do Circo, reverência ao dia de nascimento, em 1897, do paulista Abelardo Pinto, conhecido como palhaço Piolin.
Ao Teatro e ao Circo, àqueles que nos palcos entregam-se de corpo e alma aos seus trabalhos, e que de forma remota continuam nos colocando no peito insumos de beleza para viver, a todos a nossa mais terna gratidão.
Cuidem de si e dos outros. A vacina ainda é uma esperança em conta-gotas.