sábado, 28 de março de 2026

fundamento

Corpo, Espaço, Sonhos, África.
Esses quatro belos e impactantes módulos compõem a exposição Ancestral – Afro-América, no CCBB Brasília. São mais de 130 obras de artistas afrodescendentes do Brasil e Estados Unidos.
Uma expografia orgânica que exprime em cada peça reflexões sobre a afirmação do corpo, a dimensão dos sonhos, a reivindicação de espaço, e valoriza de forma contundente, oportuna e necessária, o conceito de identidade afro-americana.
Na vastidão silenciosa e minimalista de duas galerias, a exposição celebra as relações da arte nas Américas, suas origens, seu potencial transformador, seu questionamento e compromisso.
De tudo que nos deixa com o olhar imantado, o quadro Fundamento, de 2020, fotografia do artista cubano Carlos Martiel, é o mais arrebatador, estonteante. Impressiona pela relevância. Uma obra que explora os limites da representação. Martiel amplia a compreensão de originalidade e cultura ao abordar o tema de imigração e identidade.

sábado, 21 de março de 2026

fica muito

 

Juca de Oliveira fala um fragmento do poema Resíduo, de Carlos Drummond de Andrade.
Suplemento compacto em vinil da Revista MAIS, Editora Três, Gravadora RCA, 1973.
Violão: Toquinho
Direção: Fernando Faro
Fica muito do poeta. Fica muito do ator.

terça-feira, 17 de março de 2026

prazo


Fotomontagem: Nirton Venancio

Impossível
terminar o poema nos próximos dias:
falta uma vírgula aqui
aguarda um sentimento ali,
avista-se uma cidade acolá.
E essas correções,
dores
e risos
costumam demorar
uma vida inteira...

- Do meu livro Poesia provisória, Editora Radiadora, 2019 

Elis


 

domingo, 8 de março de 2026

confesso que vivi


Em Um romance do outro mundo (Truly, madly, deeply) , de Anthony Minghella, 1990, Nina (Juliet Stevenson) é uma mulher devastada pela morte de seu grande amor, Jamie (Alan Rickman), ambos músicos.
Inconsolável, passa os dias imersa na saudade, na dor da perda, mesmo tendo conhecido outra pessoa.
De repente, Jamie reaparece, mas não como um ser vivo, e sim como um espírito. Nina, feliz, acredita que poderá reviver, continuar a história de amor.
O filme passa à estrutura narrativa de fábula romântica com elementos fantásticos; mistura drama realista com o improvável; torna sem nenhum espanto o convívio entre quem ficou com quem se foi. O real e o imaginário na mesma dimensão. A holografia de um no coração do outro ser.
Em uma das cenas desses encontros, o personagem do além pede que a amada traduza versos de um poema. O texto com essência poética perfeitamente delineado na substância do roteiro.
O trecho é do poema La muerta, de Pablo Neruda, do livro Los versos del capitán, de 1952. Naquele ano o poeta chileno estava em exílio político na Ilha de Capri, Itália. Praticamente todo o livro, publicado anonimamente, teve inspiração em sua relação amorosa e secreta com a fisioterapeuta Matilde Urrutia, que conheceu em 1946. Neruda estava casado com Delia del Carril, artista plástica argentina. Somente em 1961, já separado, a obra foi lançada com seu nome. Neruda e Matilde casaram-se em 1966 e ficaram juntos até a morte dele, em 1973.
Os versos contextualizados no filme expressam e reforçam a ligação entre amor, perda e memória. E o eu lírico, na extensão do poema, alcança uma reflexão ampla, universal, sobre a condição humana diante da finitude.
Grato a minha amiga Zélia Sales, grande contista, que me lembrou da cena no filme e motivou esta postagem.

oitos de marços