terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

a linha que passeia


“O desenho é uma linha que sai para passear”

- Paul Klee, pintor, desenhista, professor suíço, de nacionalidade alemã. Um pensador, sobretudo.
Klee coloca o tempo na pintura, estende o movimento. Toda obra de arte é orgânica, ativa, a partir do olhar do autor e de quem vê, lê, escuta. Uma peça artística é uma jornada visual e sensorial, é um percurso, nunca algo estático.
Muitas dessas reflexões Paul Klee escreveu durante os dez anos (1921-1931) em que lecionou na Escola Bauhaus, influente instituição de arte, design e arquitetura na Alemanha.
São quase 4000 notas, lições e desenhos que ele produziu nesse período.
Caderno de esboços pedagógicos, de 1925, de onde extraí a frase acima, é a mais conhecida das publicações em que foi compilada sua produção, fundamental para a compreensão de seu pensamento. No livro estão reunidas mais de quarenta reflexões, como lições, que exploram e analisam a construção visual, a proposição da forma e a função vital da arte.
Klee, nesses escritos e desenhos, prazerosos de ler, ver e aprender, desenvolve sua profundidade teórica com a leveza dos traços.
E assim, saímos para passear.
Acima, reprodução de Angelus Novus, 1920.


 

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

a simultaneidade do tempo

João Canijo, o mais expressivo cineasta do cinema português contemporâneo, faleceu no final da noite de quarta-feira, 28, em Vila Viçosa, histórica vila alentejana no distrito de Évora.
Estava sozinho em sua casa quando sofreu um ataque cardíaco fulminante. Tinha 68 anos. Foi encontrado pela empregada doméstica na tarde de ontem.
Quando li a notícia hoje cedo, entre o impacto, a tristeza e a chegada da saudade de quem nunca conheci de perto, vieram-me imagens de todos os seus filmes a que assisti de perto, com admiração e devoção.
Canijo tinha uma gramática muito própria de narrar suas histórias. Decupava as cenas onde a câmera estava literalmente no olho do espectador. Nunca o cinema foi tão fiel ao termo “voyeur”, quando a experiência de ver compartilha características e sentimentos fundamentais do que é mostrado. A estrutura cinematográfica cria situação cênica e dramática de ser necessariamente observada para organicamente ser participada.
O cineasta português fazia isso com perfeição, genialidade e discrição.
O realismo do drama social e familiar que define e qualifica sua filmografia, é captado por sua câmera com contemplação crítica e solidariedade conveniente, cabível.
A narrativa de uma sequência onde acontecem diálogos simultâneos, em contextos distintos num mesmo plano, é o que mais me encanta e aplaudo no cinema de João Canijo. Porque é assim a vida: muita coisa acontece ao mesmo tempo, com múltiplas referências entre si.
De todos os seus filmes, o que mais me fascina e revejo é Sangue do meu sangue (2011). O enredo é simples e complexo em sua essência: na periferia de Lisboa, uma mãe, cozinheira de profissão, vive com a irmã e seus dois filhos. Uma estuda enfermagem, outra é caixa em supermercado, o rapaz já esteve preso por tráfico; a filha se envolve com um homem mais velho e casado, o que faz a mãe se confrontar com seu passado.
Todo o filme é conduzido por esse olhar, da câmera e nosso, distante e ambientado no fôlego de cada frame.
Na sequência abaixo que recortei, duas situações acontecem em um único espaço, e não conseguimos dispensar uma para compreendermos a outra. João Canijo nos faz, mais que entendermos, sentirmos tudo ao mesmo tempo agora.
O cinema em sua grandiosidade material e anímica. 

Canijo


 

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

"A beleza salvará o mundo"


A frase do título da postagem está em O idiota (1869), de Dostoievski, atribuída ao príncipe Príncipe Myshkin. No entanto, é dita pelo personagem Ippolit Terentyev, jovem niilista e doente, que a cita de forma provocativa: "É verdade, príncipe, que o senhor disse uma vez que a beleza salvará o mundo?".

A canção Mais simples, de Zé Miguel Wisnik, traz-me à lembrança a beleza transcendental que Dostoievski quis dizer ao dar um sentido à existência.
Gravada em seu disco de 1993, a composição, no vídeo abaixo, cantada pelo autor e Ná Ozzetti no programa Sr. Brasil, TV Cultura, 2015.
A vida leva e traz
A vida faz e refaz
Será que quer achar
Sua expressão mais simples?

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

cotidiano


 

habitar o presente


Eles estão caminhando. Não estão marchando. Não correndo. Muito menos disputando espaço. Os monges estão apenas caminhando.

Num país onde tudo grita — anúncios, opiniões, urgências, sirenes —, aqueles monges avançam em silêncio, passo após passo, como se cada metro percorrido fosse um gesto de reconciliação com o tempo. Não carregam cartazes. Não exigem respostas. Não explicam demais. O corpo deles é a mensagem.
Enquanto o mundo se acostumou a ir sem estar, eles estão indo.
Cada passo toca o chão como quem pede licença. Cada respiração parece lembrar algo esquecido: que a vida não acontece no destino, mas no intervalo entre um passo e outro. Pessoas passam de carro, diminuem a velocidade, olham intrigadas. Algumas sentem desconforto. Outras, inexplicável paz. Porque aquele caminhar expõe uma ferida coletiva: desaprendemos a habitar o presente.
Eles caminham como quem ora com os pés.
Não porque acreditam que o mundo vai mudar de repente, mas porque sabem que ninguém muda o mundo sem antes mudar o próprio ritmo. O gesto deles é simples demais para ser ignorado, e profundo demais para ser reduzido a protesto. É um lembrete vivo de que ainda é possível atravessar o caos sem se tornar caótico.
O mais desconcertante é isso: eles não parecem com pressa de salvar nada. E, justamente por isso, salvam algo essencial — a possibilidade de presença.
- Chandramukha Swami, monge e líder espiritual brasileiro.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

assim falou Dalí


Em sua biografia As Confissões Inconfessáveis de Salvador Dalí (Editora José Olympio, 1976), o genial pintor catalão discorre em uma narrativa vulcânica, histórias hilariantes, fatos inimagináveis, opiniões desavergonhadas sobre amigos, parentes, amores, arte, religião...
São 20 densos e inquietos capítulos ironicamente intitulados como se fossem prescrições de aprimoramento pessoal a partir de como viveu, e não é nada disso ao mesmo tempo que é tudo e muito mais. A impressão que se tem na leitura é a de rápidas e ininterruptas pinceladas numa tela.
Lançado originalmente em 1973, quando ele tinha 69 anos, o “receituário” dos capítulos vai desde Como conviver com a morte, que abre o livro, passa por Como se livrar do próprio pai, Como descobrir a própria genialidade, Como orar a Deus sem acreditar Nele, e entre outras inconfissões nada surreais, finaliza com a propriedade do eu na terceira pessoa, Como Dalí pensa na imortalidade.
Se Nietzsche o tivesse conhecido, teria se perturbado com a sensação de encontrar seu Zaratustra no paroxismo do delírio lúcido de Salvador Dalí.
Um livro para ter sido filmado por Buñuel, depois de muitos tratamentos de um roteiro feito por Jean-Claude Carrière.
37 anos hoje que o pintor iniciou sua imortalidade. 

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

se todos fossem iguais a vocês


Acervo Instituto Moreira Salles
 

Drummond, Vinicius, Bandeira, Quintana e Paulo Mendes Campos, fotografados por Moacir Gomes, na casa de Rubem Braga, Rio de Janeiro, 1966. Figuras centrais do Modernismo brasileiro e da literatura do século 20.
Eles foram à casa do cronista para um almoço e muita conversa com um hóspede igualmente ilustre, Pablo Neruda.
Quando viu aquela turma ali sentada, Braga ficou atrás do fotógrafo, como “dirigindo” o registro. “Time fortíssimo, imbatível”, escreveu em uma crônica sobre os 80 anos de Mário Quintana, em 1986.
Olho imantado essa foto como se olha uma imagem sacra.