terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

o caminho a seguir


 
- Podes dizer-me, por favor, que caminho devo seguir para sair daqui?
- Isso depende muito de para onde queres ir - respondeu o Gato.
- Não me importo muito para onde... - retrucou Alice.
- Nesse caso, pouco importa o caminho que sigas - replicou o Gato.
Lembrei-me desse diálogo de Alice no país das maravilhas (1865), de Lewis Carroll, saindo da cidade de Guaramiranga, Ceará, em fevereiro de 2015, depois do Festival de Jazz & Blues, ao ver dois gatos na janela de uma casa. Fotografei como Alice perguntasse. Ou perguntei como Alice os fotografasse.
No livro, a personagem ao fazer a pergunta ao Gato de Cheshire, o autor desconstrói qualquer intencionalidade de interpretação literal. As alusões são filosóficas em toda narrativa, e o felino sorridente é um dos poucos que tem um diálogo com a menina, de forma que ela perceba as reflexões necessárias.
Descendo a serra, caí morro abaixo em mim, dentro de reflexões sobre que caminhos realmente queremos, sabemos e seguimos, depois que estivemos na toca do coelho e nos encantamos com seres antropomórficos, em situações que, por algumas horas, largamos preocupações, saudades, amores idos, desejos, esperanças...
E lembrei daquele final de tarde que me lembrou o trecho do livro porque me lembrei que hoje é o Dia Mundial do Gato, esse ser aquariano.
A lembrança faz parte do caminho a seguir. Não resistência sem a memória.

aquariano


 

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

algibre entupido de silêncio


 

Desenho: Daniel Lesma

Tudo aquilo que nos leva a coisa nenhuma
o que você não pode vender no mercado
como, por exemplo, o coração verde
dos pássaros,
serve para a poesia.
Qualquer pessoa ou escada
tudo que explique
a lagartixa da esteira
e a laminação de sabiás
é muito importante para a poesia.
Pois é assim que um Chevrolet gosmento chega
ao poema, e as andorinhas de junho.


- Trechos do poema Matéria de poesia, do imenso Manoel de Barros, publicado em livro homônimo, 1974.
A beleza do título desta postagem é um dos versos que o poeta extraiu das coisas “desimportantes”.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

cada instante


Trecho do meu poema Postura, por Zaira Priscila (Sobral, CE), do livro Poesia provisória (2019)

sábado, 7 de fevereiro de 2026

o resto é silêncio


Foto: ©Focus Features/Courtesy Everett Collection

A roteirista e diretora Chloé Zhao inspirou-se em antigas tradições de contar de histórias para o final de Hamnet (2025).

“Chorar juntos remonta aos gregos”, disse Zhao ao portal estadunidense IndieWire. “Em todas as tradições indígenas, as pessoas se reúnem ao redor da fogueira e o xamã canaliza uma história”.
Zhao utilizou meditações diárias e sessões de sonhos com seus atores, além de organizar rituais de dança semanais para extravasar.
“Animais, sonhos, visões”, explicou. “E temos usado a arte, a narrativa e uma experiência coletiva e comunitária — para lamentar, sentir, lidar com isso — desde muito antes de qualquer uma dessas coisas que nos dizem que devemos estar separados sequer existir. Estamos nos lembrando, prontos para sobreviver”.
A sequência final de Hamnet tem um tom operístico, comovente, orgânico.
Decupar e filmar essa sequência marcou "quatro dos dias mais difíceis, mas também mais transformadores da minha vida", disse a cineasta.
"Quase não há diálogo. Às vezes, nossa verdade só pode ser sentida em silêncio e talvez, no caso, com a música de Max Richter tocando ao fundo. Tudo o que pedimos é ver uns aos outros e sermos vistos sem julgamento, incondicionalmente, e isso foi curativo e também difícil de vivenciar. Shakespeare trabalhou arduamente a vida toda para unir as pessoas todos os dias por algumas horas: a ilusão da separação se dissolve".

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

escrever é melhor que sonhar


Foto: Richard Dumas, 2019

“Eu não sonho. Ou não lembro dos sonhos, mas minha literatura está cheia deles; imagino. Um amigo psiquiatra me disse: ‘Escreve, não precisa sonhar'”

- Haruki Murakami, autor de irresistíveis longos sonhos acordados, como Norwegian Wood, Kafka à beira-mar, Crônica do pássaro de corda, Tokio blues, Dance, dance, dance, Após o anoitecer, O elefante desaparece, em entrevista ao portal El País, em 2019.

Murakami arremata em outro trecho:

“De alguma forma, escrevo todos os dias. Se não escrevo, não é um bom dia”. 

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

a linha que passeia


“O desenho é uma linha que sai para passear”

- Paul Klee, pintor, desenhista, professor suíço, de nacionalidade alemã. Um pensador, sobretudo.
Klee coloca o tempo na pintura, estende o movimento. Toda obra de arte é orgânica, ativa, a partir do olhar do autor e de quem vê, lê, escuta. Uma peça artística é uma jornada visual e sensorial, é um percurso, nunca algo estático.
Muitas dessas reflexões Paul Klee escreveu durante os dez anos (1921-1931) em que lecionou na Escola Bauhaus, influente instituição de arte, design e arquitetura na Alemanha.
São quase 4000 notas, lições e desenhos que ele produziu nesse período.
Caderno de esboços pedagógicos, de 1925, de onde extraí a frase acima, é a mais conhecida das publicações em que foi compilada sua produção, fundamental para a compreensão de seu pensamento. No livro estão reunidas mais de quarenta reflexões, como lições, que exploram e analisam a construção visual, a proposição da forma e a função vital da arte.
Klee, nesses escritos e desenhos, prazerosos de ler, ver e aprender, desenvolve sua profundidade teórica com a leveza dos traços.
E assim, saímos para passear.
Acima, reprodução de Angelus Novus, 1920.