segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

saudade que chega

"Quando se parte de um lugar / sem querer / parte-se um pouco de tudo / fica-se um pouco por lá..."
- Clodo, Climério e Clésio, verso do cancão "Conterrâneos", gravada no disco de 1991.
Muito apropriada para hoje, Dia da Saudade. A vida toda é saudade.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

com sangue nas veias

“Na Porto Alegre dos anos 30, um rapaz era noivo da mulata Inah e, apesar de apaixonado por ela, hesitava em trocar a boemia pelo casamento. Inah esperou três anos. Quando se convenceu que o rapaz não tomaria uma atitude, foi à luta. Dias depois, ele a viu na rua da Praia, pendurada no braço de um homem – com quem se casaria. O rapaz desesperou-se, teve ganas de matar ou morrer. Mas acalmou-se e fez do sofrimento um samba-canção.”
- Ruy Castro em A noite do meu bem, publicado em 2015

O rapaz de menos de vinte anos era Lupicínio Rodrigues, e Nervos de aço o samba-canção que narrava a sua primeira grande desilusão, o seu desejo de morte ou de dor.
Gravado somente em 1947, na voz de Francisco Alves, se tornou um clássico no repertório não somente do autor, como na história do cancioneiro brasileiro.
Construiu sua obra, com mais de 150 canções, sempre relatando paixões e abandonos da mulher amada, casos e desapontamentos seus na maioria, e também dos amigos da boemia, como um cronista musical dos desencantos amorosos.
Lupicínio criou o termo “dor-de-cotovelo”, para definir o tipo música que define os amantes bebendo suas dores com os braços apoiados em um balcão de bar.
Há outras ótimas interpretações da emblemática Nervos de aço, como a de Jamelão, gravada no disco Jamelão interpreta Lupicínio Rodrigues, em 1972.
A canção ficou mais conhecida para as novas gerações com a versão de Paulinho da Viola, com a faixa-título do vinilzão lançado em 1973.
Acima, o mestre Lupicínio pelo traço de outro mestre: o cartunista e jornalista paraense J.Bosco.

domingo, 22 de janeiro de 2017

dentro do samba-canção

“Ninguém cantava um samba-canção como Maysa – e ninguém parecia viver dentro de um samba-canção como Maysa.”
- Ruy Castro em A noite do bem do bem, publicado em 2015.
Na foto abaixo, Maysa em um show na boate Number One, RJ, 1972, ano que, deprimida, começou um autoexílio em sua casa em Maricá.
Cinco anos depois, no final de tarde do dia 22 de janeiro, ao voltar do casamento do filho, dirigindo a toda velocidade sobre a ponte Rio-Niterói, a cantora faleceu ao bater o carro em uma mureta, quando tentava desviar de outro veículo.

cinema do eu de todos

 
"Um rio profundo com uma superfície plácida, dissimulando nas suas profundezas as correntes furiosas".
O cineasta Akira Kurosawa assim definiu o cinema de sua colega Naomi Kawase.
Passado e futuro, dentro e fora, céu e terra, vida e morte.
Assim também somos.
Acima, cena do documentário Ni Tsutsumarete, 1992

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

lixo pelo tubo

"Meu Deus, como fui fazer novela por tantos anos? Para ganhar dinheiro! E me sentia meio prostituído. Acho que um dos grandes males que a humanidade teve, aqui no Brasil, foi a invenção da televisão. A televisão deseducou, fez uma lavagem cerebral em todo mundo... Os valores morais ficaram sendo o da televisão."
Em 2011, já aos 80 anos de idade e 46 de televisão, recluso em seu sítio em Guaratinguetá, SP, é que 'caiu a ficha' do ator Walmor Chagas.
Dois anos depois, deu um ponto final à sua vida de maneira extrema e lamentável, não exatamente pelos motivos que discorreu no texto acima, mas em conflito com a doença e a velhice.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

luz de Carlito

 
Sábado passado, 14, primeiro dia de filmagem do documentário Luminância de Carlito, estreia da cineasta cearense Camile Queiroz.
O filme é uma oportuna e merecida homenagem a um dos mais antigos e competentes chefes eletricistas do cinema brasileiro, Carlito Almeida, hoje com 77 anos.
Carlito tem 94 filmes em seu currículo. Passou por vários períodos da história do nosso cinema, dos estúdios da Vera Cruz com suas produções luxuosas às ruas da Boca do Lixo com seus filmes feitos em uma semana, e, principalmente, todas as realizações do cinema cearense quando retornou à sua terra no final da década de 80.
Camile começa no cinema abençoada pela luz de Carlito.

o fiel operário

No dia 17 de janeiro de 1976, durante o governo Geisel, o operário metalúrgico Manoel Fiel Filho foi “suicidado” nos porões do DOI-Codi, três meses depois de encenarem o mesmo com o jornalista Vladimir Herzog, na onda de repressão violenta e desaparecimentos sumários do período obscurantista da ditadura militar no Brasil.
Apesar da “preocupação” do general de plantão na presidência da República, que afastou o comandante do II Exército, Ednardo D'Ávila Mello, a linha dura não perdeu o fôlego e logo estaria o general Erasmo Dias espalhando terror.

Muitas dessas informações e questionamentos estão no livro Manoel Fiel Filho: quem vai pagar por este crime?, do jornalista Carlos Alberto Luppi, corajosamente lançado em 1980, e uma das publicações que serviu de base na pesquisa para o documentário Perdão, Mister Fiel, de Jorge Oliveira, 2009, premiado no Festival de Brasília.
Na foto, dona Theresa de Lourdes Fiel, viúva.

que segura o porta-estandarte tem a arte...

foto Daryan Dornelles, 2016
Hoje o maracatu atômico Jorge Mautner completa com raça 76 anos. Toda fauna-flora grita de amor!
Escrevo seu nome só pra mostrar o meu apego: anamauê, auêia, aê!

saudade


uma noite de Oscarito

Elenco do filme Duas histórias (Cacareco vem aí), de Carlos Manga, no Cine Teatro Rex, na abertura do 1º Festival de Cinema Nacional de Porto Alegre, que aconteceu nos dias 1 a 3 de julho de 1960.
Na deliciosa e ingênua comédia, Oscarito faz um desastrado funcionário de uma tinturaria e vive dando prejuízos ao patrão. Basta esse storyline para se imaginar o enredo que se desenvolve em toda a história.
O comediante foi a atração principal no evento. Antes de chegar ao Cine Teatro, desfilou junto com o elenco em jipes conversíveis pelas ruas da capital gaúcha.
Enquanto naquele ano o filme Ben Hur, de William Wyler, ganhava onze Oscars em Los Angeles, nós ganhávamos o talento e a graça de Oscarito.
Na fila detrás, Helio Souto, Sonia Mamede, Eva Vilma e John Herbert. À frente, Grande Otelo, Ruth de Souza, Oscarito...

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

o encantador

Na madrugada de 15 de janeiro de 2012, um domingo, um mestre da cultura popular, Seu Teodoro Freire, partiu aos 91 anos com seu boi para outras festanças.
O maranhense chegou à recém-inaugurada Brasília em 1962 para trabalhar como contínuo na UnB. No ano seguinte criou o Centro de Tradições Populares na cidade-satélite Sobradinho, onde passou a morar. As apresentações do bumba-meu-boi tornaram-se sinônimo de Seu Teodoro por todo país.
Recorro a outro mestre, Manuel Bandeira, para parafrasear e celebrar a sua lembrança, sua ausência de cinco anos, sua presença por toda vida, e traduzir a minha ternura mais funda, mais cotidiana. Inventei, agora, por exemplo, o verbo “teadorar”, que no seu caso, é transitivo por sua beleza: teadoro, Teodoro.
foto Paulo Santos, publicada no ótimo livro O encantador, Seu Teodoro do Boi, de Eraldo Peres, 2007

pessoal intransferível

Instigado por uma postagem do amigo Rubens Guilherme Pesenti, no Facebook, sobre Torquato Neto, um trecho de outro despoema imagem, escrito em 1971, um ano antes de ele apagar:

“E fique sabendo: quem não se arrisca não pode berrar. Citação: leve um homem e um boi ao matadouro. O que berrar mais na hora do perigo é o homem, nem que seja o boi. Adeusão.”

Acima, a desfoto-poema de Torquato na exposição “A pureza é um mito”, de Hélio Oiticica em Londres, na Whitechapel Gallery, 1969.

domingo, 15 de janeiro de 2017

a Disney de cada um

Em 2002 um vulcão entrou em erupção na cidade de Goma, República do Congo. As lavas avançaram pelo principal lago, chegando ao Aeroporto Internacional, tornando-o irrecuperável.
Meses depois as autoridades retiraram as peças aproveitáveis das aeronaves e o local com o tempo virou um cemitério de aviões.
As crianças das aldeias próximas transformaram o antigo aeroporto em um enorme playground, onde a imaginação voa em brincadeiras.

sábado, 14 de janeiro de 2017

o que falta

"Falta cultura pra cuspir na estrutura"
- Raul Seixas, verso de Não fosse o Cabral, 1983.

O maluco beleza fotografado pelo cineasta Ivan Cardoso, no Parque da Chacrinha, Copacabana, 1977.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

aquele toque beatle

Antes dos Beatles gravarem seu segundo álbum de estúdio, lançaram, em janeiro de 1963, um compacto simples com os singles She loves you e I want to Hold Your Hand.
Credita-se às duas músicas o início da beatlemania nos Estados Unidos, quando os rapazes de Liverpool se apresentaram no programa de televisão The Ed Sullivan Show.

a deusa da fonte

A bela Anita Ekberg resolve tomar banho com roupa na Fonte de Trevi enquanto Marcello Mastroianni tenta achar leite para um gatinho, que ela tinha visto nas ruas. Ao retornar, Marcello vê Anita se banhando e se deslumbra.
A cena é do clássico A doce vida (La dolce vita), de Federico Fellini, 1960. Atores e personagens se mesclam na memória afetiva que o cinema perpetua na simetria do tempo.
Ex-modelo, ex-miss de sua terra natal, Suécia, a atriz faleceu aos 83 anos, em janeiro de 2015. Afastou-se do cinema após uma complicada relação com o dono da Fiat, Gianni Agnelli. Solitária e doente, morava em uma casa de idosos. Teve um fim de vida melancólico, não tão doce.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

um homem e seus tempos

Quando o século mudou para 1900, Oswald de Andrade tinha dez anos de idade. A passagem de um tempo para outro mexeu muito com a cabeça daquele menino curioso, filho único de uma abastada família paulistana.
A mudança de um ano sempre impressiona, é como se dobrássemos uma esquina e o tempo seria outro totalmente diferente, muito além do que destacar uma folhinha no calendário. Imagine, então, a mudança de um século!
Oswald de Andrade cresceu com esse espanto. E cresceu em um tempo cheio de mudanças. O adolescente Oswald viu a chegada do bonde elétrico, do rádio, da propaganda, do cinema. O mundo em ebulição. E em ebulição a cabeça daquele jovem que viria mudar muita coisa na literatura brasileira.
A Semana de Arte Moderna de 1922, o Manifesto da Poesia Pau-Brasil, o Manifesto Antropófago, o Modernismo no Brasil: tudo é sinônimo de Oswald de Andrade.
Hoje ele faria inimagináveis 127 anos de idade.
Acima, foto da exposição “Oswald: culpado de tudo!”, no Museu da Lingua Portuguesa, em SP, 2011.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

o fascínio de Bowie

foto Quentin De Briey, 2016

"Só uma pessoa levou o glam rock a novas alturas rarefeitas e inventou personagens no pop, casando teatro e música popular num todo poderoso."

- David Buckley em Strange fascination: David Bowie, the definitive story, biografia, 2005

No último dia 8 ele faria 70 anos. Hoje, um ano que continua seu fascínio.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

o diferente


a dor e a dor

“Por detrás da alegria e do riso, pode haver uma natureza vulgar, dura e insensível. Mas por detrás do sofrimento, há sempre sofrimento. Ao contrário do prazer, a dor não usa máscara”.
- Oscar Wilde em De Profundis, epistolar publicação de 1897, escrita na prisão na Inglaterra Vitoriana, enquanto o autor cumpria pena por comportamento indecente e homossexualismo.

o santo guerreiro

Há 47 anos hoje, O dragão da maldade contra o santo guerreiro, de Glauber Rocha, é escolhido para concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro.
O cineasta baiano, com muita bravura temperada com dendê, declarou com sua vulcânica segurança que não tinha interesse em participar da seleção.
Em plena ditadura Médici, o dragão da maldade escalava outra seleção.

admirável Simone

foto Elliot Erwitt, Paris, 1949
“Parecia-me que a Terra não seria habitável se não houvesse alguém que eu pudesse admirar.”

O mundo fica sempre mais habitável com pessoas admiráveis como Simone de Beauvoir, autora da frase.

Hoje ela faria 108 anos admiráveis.

vida cabralina

"O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte."
Esta maravilha de texto é a fala final do personagem Joaquim, do poema Os três mal-amados, livro Obras completas, do grande João Cabral de Melo Neto, o mais milimétrico de nossos poetas, que hoje faria 97 anos com medo da morte.

a solidez do pensamento

“Poucas coisas se parecem tanto com a morte quanto o amor realizado. Cada chegada de um dos dois é sempre única, mas também definitiva: não suporta repetição, não permite recurso nem promete prorrogação.”

- Zygmunt Bauman, em Amor Líquido: Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos, 2003.

Um dos mais importantes filósofos e sociólogos contemporâneos se foi nesta manhã da segunda segunda-feira do ano, sem recurso, sem prorrogação, aos 92 anos.


Recentemente os conceitos formulados em seus livros sobre as relações amorosas deram-lhe uma visibilidade midiática um pouco tardia. O nonagenário polonês tornou-se uma simpática e reflexiva figura quase “pop” aos esmiuçar frases como “as relações escorrem pelo vão dos dedos”.

Bauman cutucava com serenidade o âmago do homem moderno em seus sentimentos efêmeros, nos envolvimentos descartáveis, neste fast-food dos afetos.

O seu pensamento, a sua história, a sua lucidez não escorreram em vão pelos dedos.

domingo, 8 de janeiro de 2017

the pelvis


82 anos hoje que ele nasceu. 
E há 40 que não morreu.

a alma do tempo

Segundo consta nos alfarrábios pré-Wikipedia, no dia 8 de janeiro de 1840 o abade Louis Compte, capelão de um navio-escola francês, aportou de passagem pelo Rio de Janeiro, e apresentou ao jovem Imperador Dom Pedro II, a invenção do Daguerreótipo, primeiro aparelho a fixar a imagem fotográfica. A data foi escolhida para celebrar o Dia Nacional do Fotógrafo.
Há controvérsias quanto a esse dia, e na imprecisão de outros cartapácios históricos, registra-se esse encontro em 16 de janeiro.
Uma data ou outra, se reverberou ao longo desses quase dois séculos que o Imperador solicitou ao francês uma demonstração do invento, digamos uma espécie de “test drive” da curiosa geringonça que ousava registrar a alma do tempo.
A comitiva monárquica acompanhou o abade prestativo com a parafernália por alguns pontos da Capital. No dia seguinte, no salão do lendário Hotel Pharoux, no local onde hoje é a Praça XV, foram apresentadas as imagens da fachada do Paço Imperial, chafariz do Largo, a Praça do Peixe, o Mosteiro de São Bento, e mais algumas fotos de objetos que estavam por ali naquela manhã ensolarada de “happening” histórico, sem direito nem conhecimento de “selfies”.
Abaixo, a agora digitalizada vista do Paço, considerada a primeira foto oficial brasileira.
Essa é a magia da fotografia: a simetria do tempo. Seja no dia 8, 16, hoje e sempre.

flores para o comandante

Major Jack Celliers é um prisioneiro inglês em um campo de concentração na ilha de Java, durante a Segunda Guerra. Sua desobediência às rígidas regras do capitão japonês é guiada por flores, o que enfurece cada vez mais o comandante.
David Bowie, tão bom ator quanto cantor e compositor, brilha no papel em Furyo, em nome da honra (Merry Christmas, Mr Lawrence), de Nagisa Oshima, 1983.
Hoje, o camaleônico Bowie faria 70 anos. No próximo dia 10, um ano que não morreu.

em busca do rosto perdido

Durante cinco anos, de 1995 a 2000, o artista plástico inglês William Utermohlen, abatido pelo Alzheimer, passou a pintar autorretratos do seu rosto.
À proporção que sua mente escapava pouco a pouco, corroendo a memória pela terrível doença, William buscava sofridamente lembranças de como era seu rosto.
O conflito entre o mal degenerativo e o poder da arte como resistência apegando-se a vida, se expressa em cores e traços que demonstram raiva, tristeza e resignação.
Quadros selecionados por sua esposa foram expostos em uma galeria, após sua morte em 2007, aos 74 anos. No último autorretrato, Utermohlen estava totalmente distante e distorcido do primeiro, revelando-se esquecido de como era.
É uma rara narrativa visual, em mudanças graduais, de um artista que luta com fiascos de memória tentando resgatar o que foi no que não é mais.

sábado, 7 de janeiro de 2017

o lado B do cinema

"No cinema você não fala sobre as coisas. Você as mostra."
Samuel Fuller, o cineasta mestre do chamado filme B, adorado pela crítica francesa do Cahiers du Cinéma na década de 60, esquecido por todos nos anos 70, ressuscitado por si mesmo depois do ótimo Agonia e glória (The big red one), em 1980, esquecido novamente nos anos seguintes, até ser redescoberto por Wim Wenders, Martin Scorcese, Jim Jarmusch... e virado cult um pouco antes de falecer, em 1997.
Fuller foi, antes de tudo e de todos, um cineasta autoral. Filmando sobre seu país, encontra-se em seus filmes uma América sem o glamour hollywoodiano. Filmes de gangsteres, de guerra, noir, todos os gêneros, todas as desilusões e caos americanos mostrados com um olhar único, particular, crítico. Sem desprezar o que seria um cinema tipicamente industrial, Fuller soube conduzir muito bem em sua filmografia o choque, ou a fusão, entre o cinema marginal e o conservador.
Subversivo ao pregar uma transformação e desconstrução da ordem estabelecida, ele não fala, mostrava.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

alguns magos do Oriente

"Eles chegam tocando sanfona e violão, os pandeiros de fita carregam sempre na mão... / Hoje é o dia de Santo Reis, anda meio esquecido, mas é o dia da festa de Santo Reis."
-Trecho de A festa de Santo Reis, de Márcio Leonardo, gravada por Tim Maia, em seu segundo LP, 1971.

remember when you were young?

Esse "era" Syd Barrett, o cara que em 1965 fundou com Roger Waters a banda Pink Floyd. Foi autor das ideias estilísticas e musicais que definiram o rock progressivo e marcaram toda discografia.
Barrett foi também o autor do nome da banda, inicialmente The Pink Floyd Sound, inspirado nos cantores de blues dos anos 20, Pink Anderson e Floyd Council. “The” e “Sound” foram retirados logo na década de 60.
Em 1968 Syd abusou das viagens, recolheu-se, e se retirou definitivamente para o lado escuro da lua há 11 anos. Hoje faria 71.
Shine on you crazy diamond, composição dividida em nove partes, do álbum Wish you were here, de 1975, é dedicada a ele.

o sopro do jazz



foto Jan Scheffner, 1980
As bochechas infladas do grande trompetista de jazz Dizzy Gillespie eram sua marca registrada, aliada a sua música virtuosa, claro.
Gillespie, falecido há 24 anos hoje, criou um jazz moderno a partir do bebop, um mestre do improviso com seu trompete curvo, sua espontaneidade, sua alegria.
A autobiografia, To be or not to bop, publicada em 1979, tem umas revelações bem interessantes. Em 1964, quando Barak Obama era menino em Honolulu, Gillespie lançou-se candidato à presidência dos Estados Unidos. O país vivia fortes conflitos raciais, e tinha a guerra do Vietnã. Sua plataforma política anunciava somente negros no governo: Miles Davis seria o diretor da CIA, Louis Armstrong à frente do Ministério da Agricultura, Duke Ellington seria Secretário de Estado, o Procurador Geral ninguém menos que Malcolm X... e o melhor, a Casa Branca passaria a se chamar Blues House. O apoio dos ativistas e músicos foi total.
Mas ganhou Lyndon Johnson, que era vice-presidente de John Kennedy, e já cumpria mandato no lugar do chefe assassinado.
Ganhou o jazz com Gillespie continuando com seu trompete e suas bochechas inchadas.

santos reis reloated

Zuleta, cartunista colombiano

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

entre o céu e o mar

- Don'Ana*, a senhora já viajou de avião?
- Não, meu filho. Não é da minha natureza.
- Mas avião é seguro, Don'Ana.
- Avião com pouco já tá aqui no chão, com pouco já sobe, quando a gente 'oia' já tá nesse mundo de Deus. Viajar de avião tá difícil... no chão viajo de qualquer coisa!
- E o mar, Don'Ana?
- Quando você entrar no mar, você vai andando, andando, maré seca... que quando você 'oiá' pra trás onde você foi daqui pra lá, e ver a água espumando, espumando... pode sair! Pode sair que na mesma hora vai tudo embora!

*nonagenária moradora de Santa Cruz Cabrália, Bahia.

©Nirton Venancio em Pequenas anotações de viagens, 2011

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Henfil

Há 29 anos o bom humor perdia seu melhor traço: Henfil. O humor que foi tão inteligentemente usado como resistência e denúncia contra a famigerada ditadura militar no Brasil.
O cartunista, quadrinista, jornalista e escritor Henfil lançou em 1972, em pleno governo obscurantista Médici, a revista Fradim, onde nasciam seus personagens mais conhecidos e combatentes, Graúna, Comprido, Baixim, Bode Orelana, Zeferino, Ubaldo...

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

em Brasília, 19 horas

Criado em 1935, o noticiário radiofônico Programa Nacional, tinha a finalidade de divulgar o governo de Getúlio Vargas. Foi criado por um amigo de infância do presidente, Armando Campos.
Três anos depois, exatamente há 81 anos hoje, Getúlio oficializa o programa, passando a se chamar A Hora do Brasil, com transmissão diária e obrigatória em todas as emissoras de rádio aberto. No governo de João Goulart mudou para o nome que hoje conhecemos, A Voz do Brasil, e já foi para o Guiness Book como o programa de rádio mais antigo do país.

No começo dos anos 2000 foi feita uma versão "moderna" do tema musical de abertura, o clássico O Guarani, de Carlos Gomes, com uns arranjos suingados de samba, choro, capoeira. Mesmo assim, e em que pese a importância e o alcance do rádio às regiões mais remotas, a alma do programa tem um bolor enfastiante.
Além do absurdo do Estado tutelar o que devemos ouvir, não faz sentido um programa para divulgar notícias dos Três Poderes, quando cada um deles tem estações de rádio e TV, além de páginas na internet.

era uma vez



O cineasta Sergio Leone consagrou o que se denominou de “western spaghetti”, um gênero lançado nos anos 60 por vários diretores italianos. Os filmes eram rodados na Espanha, numa região desértica que lembrava o velho oeste americano.
De sua filmografia de 13 títulos, duas grandes obras cristalizaram sua genialidade e estilo, Era uma vez no Oeste (C'era una volta il West/Once upon a time in the West), 1969, e Era uma vez na América, (Once upon a time in America), 1984, onde reconstitui o estilo emblemático norte-americano em um épico ganguerista como nunca Hollywood ousou, em uma construção de roteiro e edição perfeitas em módulos narrativos de flashback.
Com esses dois filmes, Leone encerrou o que ele chamava de Trilogia da América, iniciada em 1966, com o ótimo Três homens em conflito (Il buono, il brutto, il cattivo/The good, the bad and the ugly).
Com seus heróis empoeirados, o italiano reinventa o Oeste em um gênero de relato sensorial, ao contrário do cinema operístico de John Ford e seus cowboys emoldurados no Monument Valley.
E mais: soube muito bem utilizar três grandes atores ícones de um mega cinema industrial, do star-system: Clint Eastwood, Henry Fonda e Robert De Niro.
Falecido em 1989, Leone faria hoje 88 anos. O cineasta não teve tempo para realizar o que seria mais uma grande obra, Era uma vez na Rússia, sobre a Revolução Bolchevique.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

o som da caverna



Nick Cave - 20.000 dias na Terra (20,000 days on Earth), produção inglesa dirigida por Iain Forsyth e Jane Pollard, é um híbrido de documentário e ficção, um perfil do cantor, escritor e compositor australiano Nick Cave, em uma abordagem que contempla visões surpreendentes, bem a cara desse artista, um dos mais autênticos e ousados do que podemos chamar de rock alternativo pós-punk.
Arriscando uma analogia, desde seu primeiro disco, From her to eternity,1984, Nick Cave é uma espécie de Tom Waits desalinhadamente cool. Aquele californiano desajeitado e esse canguru enviesado, com suas vozes roucas e intrigantes, têm em comum em suas letras, não somente os amores idos e vindos, e sim temas controversos como religião, morte, violência e um corte seco de navalha pra valer na carne de uma América do Norte hipócrita e arrogante.
Waits vai de doses de Bourbon, Cave vem de repetidos goles de cabernet Penfolds Grange, e assim seguem com o canto de anjos tortos, passos de dândis pelo avesso, na contramão da mesmice, sem concessão à idade mídia dopante louvando musiquinhas candidatas ao Oscar.
20.000 dias na Terra viaja através da música, dos amigos e da banda Nick Cave and The Bad Seeds, em situações cotidianas e imagens deslumbrantes, sem linha narrativa previsível. É um filme labiríntico. Estamos falando de Nick Cave.

bate, coração

Pierre Teilhard de Chardin disse uma vez que “os males de que estamos sofrendo tiveram sua base na própria criação do pensamento humano”.
As palavras do teólogo e filósofo francês juntam-se e refletem simetricamente às do escritor e semiólogo italiano Umberto Eco que escreveu “certas coisas se sentem com o coração. Deixa falar o teu coração, interroga os rostos, não escutes as línguas.”

olhar oblíquo

Emily Blunt fotografada por Peter Lindbergh, 2014

o olhar ambíguo de Lucy

                                 foto Timothy White, 2011                                                        
A atriz Lucy Liu e seus olhos amendoados, estranha sensação de doçura e ambiguidade.
Filha de imigrantes chineses, a bela nova-iorquina teve maior visibilidade de seu talento no papel de O-Ren Ishii, a personagem codinome "Boca de Algodão", chefe do crime organizado de Tóquio em Kill Bill - Volume 1, de Quentin Tarantino.

o olhar de James

James Dean fotografado por Dennis Stock, 1954

o olhar vilão de Mikkelsen

O ótimo ator dinamaquês Mads Mikkelsen, o mais carismático e amedrontador vilão do cinema moderno, fotografado por Kenneth Willardt, 2013.

o olhar Malkovich de John

O ator fotografado por Victor Skrebneski, 2012

o olhar do bruxo

Alan Rickman, o legendário bruxo Severo Snape de Harry Porter, fotografado por Gavin Bond, 2014

o olhar de Cate

A bela atriz Cate Blanchett fotografada por Annie Leibovitz, 2015.

o olhar de Cassel

O ator Vicent Cassel fotografado por Peter Lindberg, 2014

o olho da câmera

Dziga Vertov: Cinema: Um homem com sua câmera (Chelovek s kino-apparatom), produção russa, 1929.
Era apenas o homem com uma câmera. Mas era O homem. 

Um marco na história do cinema, um filme seminal não somente como documentário, mas como cartilha da linguagem cinematográfica. Como diz o título, é o olho humano vendo o mundo através da lente da câmera. No enquadramento tudo converge em um único ponto de visão, e exatamente por isso, a partir dessa obra-prima, criou-se o termo “olho-câmera”, ou “cinema-olho”, ou “câmera-olho”.


De nada adiantam os celulares multifuncionais, as digitais míninas em tamanho e múltiplas em possibilidades, se o dedo de quem clica nunca ouviu falar de Dziga Vertov.
Hoje o cineasta faria 119 anos.

o som da caverna

Nick Cave - 20.000 dias na Terra (20,000 days on Earth), produção inglesa dirigida por Iain Forsyth e Jane Pollard, é um híbrido de documentário e ficção, um perfil do cantor, escritor e compositor australiano Nick Cave, em uma abordagem que contempla visões surpreendentes, bem a cara desse artista, um dos mais autênticos e ousados do que podemos chamar de rock alternativo pós-punk.
Arriscando uma analogia, desde seu primeiro disco, From her to eternity,1984, Nick Cave é uma espécie de Tom Waits desalinhadamente cool. Aquele californiano desajeitado e esse canguru enviesado, com suas vozes roucas e intrigantes, têm em comum em suas letras, não somente os amores idos e vindos, e sim temas controversos como religião, morte, violência e um corte seco de navalha pra valer na carne de uma América do Norte hipócrita e arrogante.
Waits vai de doses de Bourbon, Cave vem de repetidos goles de cabernet Penfolds Grange, e assim seguem com o canto de anjos tortos, passos de dândis pelo avesso, na contramão da mesmice, sem concessão à idade mídia dopante louvando musiquinhas candidatas ao Oscar.
20.000 dias na Terra viaja através da música, dos amigos e da banda Nick Cave and The Bad Seeds, em situações cotidianas e imagens deslumbrantes, sem linha narrativa previsível. É um filme labiríntico. Estamos falando de Nick Cave.