terça-feira, 27 de dezembro de 2016

paz nas estrelas

Carrie Fisher, a Princesa Leia Organa de Guerra nas estrelas, partiu há pouco para outras galáxias.

Na última sexta-feira, a atriz de 60 anos sofrera um ataque cardíaco a bordo de avião durante um voo de Londres a Los Angeles.

Este ano insiste em nos dar notícias ruim. Como lamentou meu amigo Marcus Mello, 2016 está levando todos os nossos sonhos.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

não deve ser reproduzido

"Seja você mesmo. Todas as outras personalidades já têm dono."
- Oscar Wilde

La réproduction interdite, enigmática pintura de René Magritte, 1937.
Por muito tempo achava-se que o retratado seria Edgar Alan Poe, pelo seu livro A Narração de Arthur Gordon Pym, à direita do quadro.
Estudiosos da obra do pintor francês descobriram tratar-se do banqueiro Edward James, que olhava uma pintura de Magritte numa exposição.

And all its sad good-byes...

David Bowie, cantor e fundador da banda The Eagles Glen Frey, cantor Black, cantor e fundador da banda The Eagles Paul Gordon, maestro Eri Klas, guitarrista da banda polonesa Riverside Piotr Grudzinski, cantor Chico Rey da dupla com Paraná, ex-produtor dos Beatles George Martin, Naná Vasconcelos, cantor e compositor de Os Cariocas Severino Filho, pianista do Keith Emerson do Lake & Palmer, Frank Sinatra Jr., rapper Phife Dawg, cantor de jazz alemão Roger Cicero, saxofonista tenor de jazz Gato Barbieri, cantora sérvia Lola Novaković, Prince, compositor e cordelista Mestre Azulão, compositor da Tropicália Rogério Duarte, contratenor Brian Asawa, produtor musical Fernando Faro, Billy Paul, cantor finlandês Riki Sorsa, baterista João Palma, Cauby Peixoto, pianista Tânia Cançado, ex-baterista do Megadeth Nick Menza, cantor e percursionista Papete, compositor e produtor musical Chips Moman, compositor e ex-tecladista do Talking Heads Bernie Worrell, ex-guitarrista de Elvis Presley Scotty Moore, vocalista do duo Suicide Alan Vega, ex-Frenética Lidoka Matuscelli, Vander Lee, músico de jazz Bobby Hutcherson, tecladista do Nine Inch Nails James Woolley, Toots Thielemans, percussionista do Barão Vermelho Peninha, cantora Carmen Silva, violinista e maestro Neville Marriner, cantora Waleska, Leonard Cohen, cantora de rhythm and blues Sharon Jones, pianista, maestro e compositor Zoltán Kocsis, cantor e compositor country Leon Russell, maestro e compositor de música folclórica portuguesa Arlindo de Carvalho, cantor ex-integrante do grupo Golden Boys Roberto Corrêa, cantor e guitarrista Greg Lake do Emerson & Palmer, guitarrista do Status Quo Rick Parfitt, George Michael...

2016, a nota Dó na música...

Temer 8%


"O desgoverno do presigárgula, esse gambá de Troia (cavalos são animais nobres)"
- Aldir Blanc

plim-plim

“A única coisa que os militares conseguiram modernizar durante 20 anos de ditadura foi a imagem televisiva que o Brasil apresentava para o próprio Brasil, que é o que o Brasil acreditou (...) O papel da Rede Globo e das novelas da Globo em domesticar o Brasil durante a ditadura militar”
- Maria Rita Kehl, psicanalista e jornalista em entrevista à revista Caros Amigos, maio de 2009

domingo, 25 de dezembro de 2016

o aniversariante do dia


as últimas luzes de Carlitos

Em Luzes da ribalta (Timelight), o ator e diretor Charles Chaplin atinge o ponto alto da essência em sua rica cinematografia. O personagem Carlitos é o espelho e efígie do ser humano, com sua alegria, dores e esperança. O riso de Carlitos é a gargalhada da alma. A tristeza de Carlitos é a lágrima da alma. O abraço de Carlitos é o aconchego da alma.
O crítico francês Jean Mitry disse uma vez que com o mito Carlitos, o ator criou um estilo de mímica que se refere mais ao conteúdo do que ao comportamento.
Rodado em 1952, o filme sedimenta essa definição. É o mais puro, original e, sobretudo, o mais profundamente pessoal filme de Chaplin.
Depois de Luzes..., ele dirigiu apenas dois filmes na Inglaterra, o irônico Um rei em Nova Iorque e o crepuscular A condessa de Hong Kong, onde faz apenas uma aparição, como mordomo, deixando o papel principal para Marlon Brando.
Charles Chaplin apagou as luzes da ribalta, definitivamente, enquanto dormia, na madrugada de Natal de 1977, aos 88 anos.

santa amada da purificação

Há quatro anos, sob as luzes natalinas, Dona Canô dormiu seu sono centenário poucos meses depois de completar 105 anos.
Dona Canô, a senhora foi canonizada pelo bem querer do povo brasileiro.
Padroeira de todos os seres de boa vontade.

muita chama sem chaminé...


muita chama sem chaminé...


a história de Jesus

“E não sei bem se por ironia ou se por amor / resolveu me chamar com o nome do Nosso Senhor...
Os ladrões e as amantes, meus colegas de copo e de cruz / me conhecem só pelo meu nome de menino Jesus...”

Chico Buarque em “Minha história”, gravada no disco “Construção”, 1971, versão de “Gesù bambino”, de Lucio Dalla, classificada em 3° lugar no Festival de San Remo daquele ano.
Mesmo assim o autor foi censurado, acusado de desrespeitoso por tratar de um tema que fala de uma mãe solteira e tem um filhinho a quem se chamava Jesus. Foi obrigado a mudar o título. Dalla colocou a data de seu nascimento, “4/3/1943”. Mais direto, impossível.

No Brasil, a versão de literal de Chico passou despercebida dos censores de plantão da ditadura Garrastazu Médici. Os idiotas desconheciam o que aconteceu com a canção italiana.

a história de Maria

A atriz Myriem Roussel no cartaz de Je vous salue, Marie, de Jean-Luc Godard, 1985.
Maria grávida de José. Bendito é o fruto em Vosso ventre, Jesus.
O filme foi proibido no Brasil durante o governo Sarney. Diz a lenda midiática que a proibição foi pelo pedido de Roberto Carlos diretamente à então primeira dama.
O ‘rei’ deve ter dito depois: “je vous salue, Marly Sarney”.

a história de José

“Olhe o que foi, meu bom José / se apaixonar pela donzela / dentre todas a mais bela / de toda a sua Galileia...”
Trecho de José, versão de Nara Leão da música do egípcio-francês Georges Moustaki, disco Le Métèque, 1969.
A letra faz uma espécie de clamor pela sina do bom carpinteiro ter a responsa de ser pai do Salvador, o rebento sagrado que “andou com estranhas ideias / que fizeram chorar Maria...” A letra ainda questiona o vacilo de José, pois ele poderia “casar com Débora ou com Sara / nada disso acontecia / mas você foi amar Maria...”. Há uma leitura no subtexto que o filho não era dele, e sim do Espírito Santo. José foi o primeiro “pai de aluguel”.
No Brasil a música ficou conhecida no pouco conhecido primeiro álbum solo de Rita Lee, quando ainda estava nos Mutantes, Build up, 1970, produzido por Arnaldo Baptista e Rogério Duprat.
A interpretação da futura ovelha negra da família da música pra-pular-brasileira é singela, de uma candura que remete hoje à voz minimalista da amapaense Fernanda Takai. A música entrou no disco por insistência de Rita Lee, contrariando os produtores que consideravam que “pegava mal roqueristicamente falando.”
Build up, disputado como raridade no mercado cult dos vinis, é aquele em que a cantora está com franja e fazendo um leve biquinho de menina aborrecida.
Acima, pintura São José, o Carpinteiro, de Georges de La Tour, 1640, atualmente no Museu do Louvre.

last Christmas

"Last Christmas I gave you my heart", cantava George Michael em sua música no final dos anos 80.
Um dos melhores cantores do pop dance celebrou hoje seu último Natal, aos 53 anos.
2016, o ano que não acaba de tantas notícias ruins.

sábado, 24 de dezembro de 2016

e o que você fez?

Um jovem casal com o casamento em crise, um pai cheio de ressentimentos vivendo com uma mulher em perturbado estado alcoólico, garotos saídos da adolescência em permanente conflito e cobranças, carentes de afeto... E um homem de meia idade, sobrevivido de um passado complicado, empregado de um ferro-velho, tentando refazer sua vida. Ele chega a esse seu núcleo familiar em plena noite de Natal, e o que seria uma confraternização, mostra-se um desfilar de escamações. Troca de mágoas, queixas, dissabores em vez de troca de presentes. À mesa, um cardápio de pesares, compunções e desconsolos dá lugar à tradicional ceia de boas festas. Não há o ritual de amigos secretos, e sim, de inimigos íntimos.
Com esses personagens, situações e ambientações, desenvolve-se o roteiro de um filme denso, sombrio e verdadeiro: Feliz Natal, longa-metragem de estreia como diretor do ator Selton Mello, em 2008.
A construção narrativa é claramente influenciada por cineastas “contraventores” dos bons costumes de filmes que não fazem concessão à mesmice, não compactuam com o lugar-comum de um cinema dopante, como a argentina Lucrecia Martel e os norte-americanos Paul Thomas Anderson e John Cassavetes. Selton Mello segura firme na direção, demonstra o mesmo talento que tem à frente das câmeras, anuncia-se como um cineasta que não vai usar o seu nome, talento e reputação com filmecos de dramaturgia televisiva, o que se confirmou com o ótimo “O palhaço”, segundo longa, 2011.
“Feliz Natal”, com destaque para as atuações de Darlene Glória e Lúcio Mauro, ganhou apenas um prêmio em festivais, o de fotografia para Lula Carvalho, em Paulínia, e não teve grandes números em bilheteria. Apesar do reconhecimento de parte da chamada “crítica especializada”, é um filme lamentavelmente subestimado, errônea e apressadamente visto como uma exposição da condição humana sem saída, através da célula familiar, quando é exatamente a sinceridade do discurso que se propõe à reflexão, e que estejamos sempre atentos. Essa é a função sagrada da arte: espelharmo-nos para nos repararmos. A arte não condena, esmiúça nossas vísceras para que continuemos juntos, talhando e aprimorando nossa convivência neste mistério chamado vida.
Selton Mello ambienta seu filme justamente no contexto de uma noite onde a hipocrisia tem seu formato mais acabado, descrevendo uma conjuntura do cerne familiar como personificação de todas as relações humanas. Afinal, as grandes guerras começam entre quatro paredes, entre marido e mulher, entre irmãos, entre amigos. O amor também.

para!!!


anoiteceu


"Já faz tempo que eu pedi / mas o meu Papai Noel não vem..."
- Assis Valente em Boas festas, 1932

esqueceram de mim


o mais das mesmas emoções


segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

menino passarinho

"Não preciso do fim para chegar. Do lugar onde estou já fui embora."
- Manoel de Barros em "O livro sobre o nada", 1996


Hoje o poeta faria um século de vida pescando passarinhos sem chegar ao fim...

je ne regrette rien

foto Jean Philippe Carbonier, 1957
Edith Piaf interpretava e vivia cada palavra que cantava. Derramava seu coração em cada nota.
Non, je ne regrette rien”, letra belíssima de Michel Vaucaire, musicada por Charles Dumont, é a gravação ícone da cantora, 1960, e, sem dúvida, a canção que melhor exprime seu jeito de amar, viver e de ir embora.
Hoje ela faria 101 anos sem arrependimentos, mesmo ao contrário do que dizia em outra canção, “je vois la vie en rose”, mesmo e apesar dos poucos e intensos 47 anos idos.

compasso de espera

Certa vez, alguém parabenizou Marcello Mastroianni pelos seus 40 anos de cinema.
- 40?! Não. De cinema mesmo, só foram uns 5. Os outros 35 eu passei esperando para filmar... - esclareceu o grande ator, que hoje faz 20 anos que se foi para outros sets.
Acima, Mastroianni no intervalo de Oito e meio (Otto e mezzo), de Federico Fellini, 1963

domingo, 18 de dezembro de 2016

os seres daqui debaixo

“Estou convencido que a memória tem a força da gravidade. Ela sempre nos atrai. Os que têm memória são capazes de viver no frágil tempo presente. Os que não a tem, não vivem em nenhuma parte.”
- Patricio Guzman, cineasta chileno, em seu filme Nostalgia da luz (Nostalgia de la luz), de 2010, documentário sobre os assassinados pelo regime de Pinochet.
No alto do deserto de San Pedro de Atacama, ao lado do imenso observatório onde astrônomos pesquisam pontinhos nas galáxias em busca de vida extraterrestre, mulheres catam pedacinhos de ossos de seus parentes enterrados pela ditadura.

arte e poder

"Os interesses do Estado e das artes raramente coincidem"
Francofonia, de Alexander Sukorov, 2015, é um exemplar de considerações sobre arte e poder em uma fluente narrativa de documentário e ficção.
Os temas que se entrelaçam nas relações humanas e artísticas, da política e da história, da bestialidade das guerras e da eternidade da arte, têm o Museu de Louvre como guarda e detentor simbólico da civilização.
Uma oportuna reflexão para hoje quando se comemora o Dia do Museólogo.
Acima, os atores Louis-Do de Lencquesaing e Benjamin Utzerath, respectivamente o diretor do Louvre Jacques Jaujard, e Conde Wolf-Metternich, general da ocupação nazista em Paris.

domingo molhado

Domingo amanhece molhado de beleza.

manhã de domingo

Manhã de domingo sob chuva em Fortaleza.
"Ouço o meu nome. Volto-me. Chamaram-me? me chamei? Ou o tempo me chamou?"
Chamou-me este verso de Jorge de Lima, onde o tempo chama o presente.
Chamou-me esta foto de Maria Novais, onde a beleza é presente.

Keith rock and roll

A figura emblemática do estilo musical surgido nos EUA no final dos anos 40, de uma lista bastante seletiva, é o guitarrista Keith Richards, pela musicalidade, comportamento e todos os etc e tais...
Hoje ele completa 73 anos de pedras rolando.
Acima, guitarra "La Pirata", projetada especialmente para o aniversariante pela Teye Master Guitars.

sábado, 17 de dezembro de 2016

cinema em transe

foto Danilo Verpa
Em Bang bang, de Andrea Tonacci, 1970, um cineasta durante a realização de um filme enfrenta diversas e bizarras situações. A realidade dentro de uma ficção e a ficção em conflito com a realidade.
Essa é a síntese do cinema de Tonacci, desde seu primeiro curta-metragem, Olho por olho, de 1966, seguido do média Blá-blá-blá, até o belíssimo Já visto jamais visto, 2014, seu último e sintomático trabalho no qual o cineasta revisita suas memórias com registros inéditos de imagens de família, viagens, projetos inacabados...
Italiano radicado no Brasil, o cineasta é o mais importante nome do que se denominou Cinema Marginal Brasileiro, movimento que se desenvolveu nos anos 70, que seguia uma linha em contraponto ao Cinema Novo pulsante da década de 60, mas que apontava em comum aspectos, fragmentos e passagens relevantes, como um cinema feito com baixo orçamento, a estrutura autoral e personagens exasperados à beira do extremo. Um cinema que se juntava às vertentes pensantes e entrava em transe na terra do sol contra a mesmice.
Aos 72 anos, Andrea Tonacci faleceu ontem depois de uma luta contra um câncer.
2016, o ano que vivemos em perigo, parece não acabar de tanta noticia ruim. Um ano visto jamais visto.

sodade...

Seis anos sem o canto perfumado da cabo-verdiana Cesária Évora.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

o brasileiro Dom Evaristo

Durante os anos de chumbo da ditadura militar, Cardeal Paulo Evaristo Arns, Arcebispo Emérito de São Paulo, lutou contra o fim das torturas, o restabelecimento da democracia, a estabilidade da liberdade para os cidadãos.
Sua participação no movimento Tortura nunca mais e como um dos escritores do livro Brasil: nunca mais, ao lado do Rabino Henry Sobel e do Pastor presbiteriano Jaime Wright, gerado clandestinamente entre o final na década de 70 e meados de 80, colocam o religioso como um dos mais importantes nomes de reflexão e luta na história do Brasil naquele período turbulento.
Como bem observou o ator Adeilton Lima, a morte do Cardeal nesta quarta-feira, após um dia da triste lembrança de 48 anos do famigerado AI-5, e a aprovação da PEC 241 do fim do mundo, é bastante simbólica.
O Arcebispo estava internado desde o final do mês passado, e faleceu em decorrência de uma broncopneumonia, aos 95 anos. Mas os estilhaços da onda conservadora, retrógrada e canalha que invade o país, golpeia a democracia e escurece o futuro, atingem mortalmente um brasileiro como Dom Evaristo.

cabelo de milho

Sivuca, o maestro, compositor, cantor, multi-instrumentista... o sanfoneiro.
No seu fole os acordes do choro e música clássica ao frevo e xote, do forró e baião ao blues e jazz...
Hoje 10 anos sem o "cabelo de milho", apelido que ele adorava tanto que colocou como título de uma cancão que compôs com Paulinho Tapajós, gravada no disco homônimo em 1980.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

à altura dos corações

Yasujiro Ozu, o cineasta do cotidiano, dos laços e desenlaces familiares.
Criador dos planos com tripé baixo, sua câmera-tatame está sempre à altura dos corações dos que partem e dos que voltam.
Minimalista, com serenidade e sutileza, seu cinema disseca sentimentos que mexem com todos, como deve ser para o entendimento e reflexão de todos nós, seres imperfeitos metidos a sabidos.
Em seus filmes, Ozu estabelece uma estrutura neorrealista, confrontando o velho e o novo Japão, muito bem definido no envelhecimento e na modernidade, nos filhos e nos pais, nas cidades e nos costumes, no efêmero que somos, no eterno que pretendemos.
Como em conceito taoísta, o cineasta veio e se foi no mesmo dia, 12 de dezembro. Os 60 anos que se ligam entre o seu Yin em 1903 e o seu Yang em 1963, reúnem as forças da transformação contínua, da vida que surge à vida que se destina.

seu Luiz é pop

Hoje Luiz Gonzaga faria 104 anos. Livros, filme, shows, exposições, reverenciam o rei do baião desde quando fez 100. Os cadernos "cês" dos jornais tecem homenagens, chamando-o de “pop”. Pop de popular, ou seja lá o que isso signifique.
Essas homenagens soam como uma galanteria tardia por alguns setores da idade mídia. Mas "antes arte do que tarde", como diz o artista plástico, cantor e escritor Bené Fonteles, autor do ótimo livro O Rei e o Baião, a mais completa pesquisa sobre a vida e a obra de Gonzagão, analisadas a partir de várias abordagens, com centenas de fotografias inéditas e belas xilogravuras. O trabalho de quase 400 páginas foi lançado em 2010.
Em homenagem ao mestre é celebrado hoje o Dia Nacional do Forró, Lei sancionada pelo presidente Lula, em 2005, e que teve origem no Projeto de autoria da deputada federal Luiza Erundina.

o quinto ato

foto Evandro Teixeira

Há 48 anos hoje, durante o governo do general de plantão, Costa e Silva, foi decretado o Ato Institucional nº 5, o famigerado AI-5, colocando em recesso o Congresso Nacional, intervindo ostensivamente nos estados e municípios, cassando mandatos de parlamentares, suspendendo por dez anos os direitos políticos de qualquer cidadão, retirando garantia do habeas-corpus... Configurou-se a expressão mais acabada e absoluta da ditadura militar instituída com o golpe de 1964. O AI-5 foi o golpe dentro do golpe.
"Revogadas as disposições em contrário", vivemos a intensificação dos tempos dantescos de arbitrariedades, de prisões, de torturas, de mortes, de “suicídios”, de corpos em valas comuns, sumidos, jogados ao mar.
Há mais de quarenta anos que pais não têm seus filhos de volta, que filhos não conhecem seus pais, que brasileiros perderam o passado em cárceres e ainda ecoam em seus ouvidos a ira de seus carrascos. A tortura como instrumento do Estado, e da lei, foi uma marca registrada do governo militar.
Atualizando o aplicativo, o Senado Federal, sob comando do poderoso chefão "renangado", pretende concluir votação da PEC 241 do fim do mundo neste dia 13.
O Presidente placebo Temeroso segura-se no trono, e na liturgia asséptica do cargo, como parte do roteiro do golpe dentro golpe para a virada do ano e indiretas já.
A idade mídia golpista, entre chesters e aquele mesmo show do Roberto descongelado do formol, entoa com seu elenco bem remunerado o dopante refrão natalino "hoje a festa é nossa, é de quem vier".
O país vive a mais surreal página infeliz de nossa história. Uma peça que mistura no mesmo palco das indignações uma ópera bufa pinçada de Eugène Ionesco e Shakespeare.

amanhecer

Parabéns, Adélia Prado, pelos seus 81 anos hoje amanhecendo poesia...

o brincante


A última vez que nos vimos foi em Brasília. Conversamos, cantamos e brincamos, em seu show numa manhã de domingo no Parque da Cidade.

Seu domingo continua brincando em meu peito, querido Potengy Babi Guedes. 

Um beijo, um abraço, uma saudade de dois anos...

a luz dos olhos teus

Interior cearense. Noites quentes de sempre verão.
13 de dezembro, dia de Santa Luzia. Minha tia era devota, e colocou na parede do quarto onde minha infância dormia um quadro da santa.
Era a primeira imagem que eu via ao acordar: o enquadramento do facho de luz que batia vindo de uma telha quebrada. A jovem santa siciliana protetora dos olhos, da visão, focava sua luz neorrealista no sertão em mim. Cada manhã abençoada com a oferenda do par de olhos na bandeja.
Casa desfeita, parentes idos, na parede da memória essa lembrança é o quadro que brilha mais no meu cinema paradiso: na cenografia dos meus dois primeiros curtas-metragens está lá Santa Luzia.
O cinema precisa de luz.

domingo, 11 de dezembro de 2016

de los cambalaches se ha mezclao la vida

"O tango é um pensamento triste que se pode dançar".
- Enrique Santos Discépolo, poeta, compositor, dramaturgo, ator e cineasta argentino, autor do clássico Cambalache tango para o filme El alma del bandoneón, de Mario Soffici, em 1935.
A composição teve dezenas versões do ritmo tradicional ao rock.
No Brasil gravaram Caetano Veloso, Gilberto Gil, Angela Roro, Raul Seixas, sendo esta uma interpretação mais próxima do deboche crítico que a letra pretende.

Gravada no vinil de 1987, Uah-Bap-Lu-Bap-Lah-Béin-Bum! o maluco beleza com seu "tango in roll", passa com um português sarcástico a leitura das indignidades perpetradas pelos regimes de podres poderes ao longo do Século XX, e bem antes dos horrores da Segunda Guerra. Censurada pelos governos da época, a letra original é de uma atualidade impressionante, bastante aplicável para estes tempos direitistas de almas sebosas.
Hoje se comemora na Argentina o Dia Internacional do Tango, não lamentavelmente em homenagem ao ferrenho e lúcido Enrique Discépolo, mas pela data de nascimento de quem teve mais projeção, o cantor Carlos Gardel e o compositor Julio de Caro.
No centro de Buenos Aires na esquina de Avenida Corrientes com Calle Enrique Santos Discépolo há uma placa em sua deferência. E ali próximo tem uma simpática rua passagem para pedestres em forma de S que leva seu nome, onde tem o Teatro del Picadero, um imóvel de 1926 onde o autor frequentava.
Enrique Discépolo é uma lembrança que se pode dançar.

transversal do tempo

Henri Cartier-Bresson, Hyères, França, 1932
Fotografar é só o começo. O congelamento do clique é o início do da memória.
A fotografia tem esse poder de eternidade: ela atravessa a rua e o tempo.


sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Trumbo não vai à guerra

foto John Swope, 1947
Em 1947 o escritor e roteirista Dalton Trumbo foi convocado a comparecer perante o famigerado Comitê de Atividades Não-Americanas da Câmara no Congresso dos EUA. Quando lhe perguntaram se era comunista, respondeu com firmeza ao inquisidor: "Você deve ter alguma razão. Pode perguntar”. E recusou-se a dizer quem em Hollywood era de esquerda.
Era época medieval de “caça às bruxas”, o Marcartismo, comandado pelo senador republicano Joseph McCarthy, que se prolongou até 1957, perseguindo numa paranoia desvairada, com atuação da patrulha ostensiva de J. Edgar Hoover, do FBI, todos aqueles considerados “ameaça às instituições estadunidenses” pela suposta associação de qualquer individuo simpatizante de esquerda.
O principal alvo das suspeitas foram funcionários públicos, educadores, sindicalistas, e trabalhadores da indústria do entretenimento, os atores, cineastas e roteiristas. As invasões bárbaras do poderio norte-americano sempre foram bélicas e culturais. O cinema como indústria é uma arma quente na logística deles, dominador de efeito dopante, com o gás paralisante dos happy ends. Monitorar os roteiristas, criadores de histórias, etc e tal, fazia – e faz – parte de uma política conservadora e nacionalista.
Dalton Trumbo é um dos maiores exemplos de resistência às perseguições aos artistas. Foi colocado na lista negra dos “dez hostis à Holywood”. Lista essa que se ampliou para mais de 250 nomes, que incluíam famosos como Zero Mostel, Charles Chaplin, Orson Welles, Edward Dmytryk, Lillian Hellman, Lee J. Cobb, Sam Jaffe, Allen Ginsberg...
O ótimo filme Trumbo: Lista Negra (Trumbo), de Jay Roach, 2015, disseca o drama do biografado em uma atuação marcante de Bryan Cranston, que concorreu ao Oscar de Melhor Ator este ano e perdeu para o regressado Leonardo DiCaprio.
Trumbo, que hoje faria 111 anos, escreveu um dos mais densos, angustiantes e importantes livros antibelicistas da literatura mundial, John vai à guerra, em 1939, adaptado para o cinema em 1971, dirigido pelo próprio autor. Foi sua única incursão por trás câmeras. Tão valiosa quanto a escrita.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Palmer sem Emerson e agora sem Lake

foto Lee Millward, 2014
Depois de seis meses da morte do pianista Keith Emerson, o rock progressivo perdeu esta semana o guitarrista e vocalista Greg Lake, aos 69 anos.
Juntos com o baterista Carl Palmer formaram uma das bandas mais importantes dos anos 70. Mais do que um trio, Emerson, Lake & Palmer contaram com outros músicos em alguns períodos de formação em 40 anos de atividade, e deixaram vinte importantes discos de um rock experimental e sinfônico, assim como seus contemporâneos, Genesis, Yes, Pink Floyd e Gentle Giant.
2016 está sendo implacável... Chega! Já tá demais.

murmúrios dolentes

Filha de caso extraconjugal, registrada ilegítima de pai incógnito, casamentos desfeitos, traumas de um aborto involuntário, sérios sinais de neurose, a morte de um irmão querido em acidente aéreo, duas tentativas de suicídio... na terceira, "os dias são outonos, choram... choram... / há crisântemos que descoram... / há murmúrios dolentes de segredos..."
Florbela Espanca tinha apenas 36 anos quando a vida se desfez em "fumo leve que foge entre meus dedos!...", em 8 de dezembro de 1930.
Seus dias inquietos, sua solidão, seus sofrimentos íntimos, se refletem em uma poesia tão flor, tão bela, "no mist'rioso livro do teu ser..."

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

adestramento


na vertigem do dia

"A poesia é um momento em que sou obrigado a pensar. Por mim eu não pensaria em nada. É como um poema em que escrevi. 'Ah, ser somente o presente: esta manhã, esta sala.'"
- Ferreira Gullar em entrevista à revista Piauí, janeiro de 2007.
O verso que ele cita é do poema "Extravio", publicado no livro "Muitas vozes", 1999.
O título da postagem é uma menção ao livro publicado em 1980.
A poesia na transversal do tempo, no emaranhado de pensamentos.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

o último poema

"Luciana, tudo isso é inútil. Me leva para Ipanema. Quero entrar no mar e ir embora."
- Um dos últimos apelos de Ferreira Gullar à filha.

Consciente da gravidade de seu estado de saúde, o poeta recusou a opção que lhe ofereceram de prolongar a vida artificialmente por meio de aparelhos.

por exemplo

"O homem, por exemplo, já não está na cidade / nem como uma árvore / está em uma de suas folhas..."

Glauber morto

foto Luiz Garrido

O morto
não está de sobrecasaca
não está de casaca
não está de gravata.

O morto está morto
não está barbeado
não está penteado
não tem na lapela
uma flor
não calça
sapatos de verniz

não finge de vivo
não vai tomar posse
na Academia.

O morto está morto
em cima da cama
no quarto vazio.

Como já não come
como já não morre
enfermeiras e médicos
não se ocupam mais dele.

Cruzaram-lhe as mãos
ataram-lhe os pés.

Só falta embrulhá-lo
e jogá-lo fora.

Quando Glauber Rocha morreu, em 1981, Ferreira Gullar escreveu este poema e publicou em uma página inteira do Pasquim, e posteriormente no livro "Barulhos", de 1987.

o escritor Niemeyer

"Mamãe, estou muito triste... porque morreu o escritor Oscar Niemeyer... ele escrevia muito bonito casas, prédios, praças..."
Gabriela, uma garotinha de cinco anos. Ela conheceu a obra de Niemeyer na escola. E como acertou ao confundir a profissão do nosso arquiteto maior: seu traço era mesmo literatura.
Quatro anos hoje sem o traço do arquiteto.

Mandela

Há 22 anos, após mais de quatro décadas de regime segregacionista do apartheid, a África do Sul elegeu pela primeira um governante negro, Nelson Mandela.
Libertado em 1989, após 28 anos de prisão, tornou-se o Pai da Pátria, como foi ovacionado por uma multidão.
Três anos hoje sem Mandela.

domingo, 4 de dezembro de 2016

acontecimento


"corpo que se para de funcionar provoca / um grave acontecimento na família: / sem ele não há José Ribamar Ferreira / não há Ferreira Gullar / e muitas pequenas coisas acontecidas no planeta / estarão esquecidas para sempre".
- trecho do "Poema sujo", 1976