segunda-feira, 31 de outubro de 2016

o sonho do gênio

Federico Fellini dirigindo os espíritos em Satyricon, 1969.
A adaptação da atmosfera onírica, o sonho descontínuo do clássico livro de Petrônio, do distante século I.
Em 1993, o cineasta recebeu o Oscar de Honra pelo conjunto de sua obra, no dia 30 de outubro festejou 50 anos com Giuletta Masina, no dia seguinte dormiu para sempre.
O cinema tornou-se um sonho descontínuo.

cometa Drummond



“No ar frio, o céu dourado baixou ao vale, tornando irreais os contornos dos sobrados, da igreja, das montanhas. Saímos para a rua banhados de ouro, magníficos e esquecidos da morte que não houve. Nunca mais houve cometa igual, assim terrível, desdenhoso e belo.”
Assim registrou em seu diário o pequeno Carlos aos 7 anos de idade, quando e como viu deslumbrado o cometa Halley passar nos céus de Itabira, em 18 de maio de 1910.
Hoje Drummond de Andrade faria 114 anos.
Naquela noite do último dia de outubro de 1902, um anjo desses que vivem nas montanhas de Minas, disse: vai, Carlos! ser engenhoso e belo na poesia.

partiu!


o olhar é como um rio

foto Franck Burckhalter
Méline Carmona, modelo belga.

No rosto um desgosto, é um pouco sozinho...


que vergonha...


domingo, 30 de outubro de 2016

boca de urna

charge Hassan Omidi, Irã

apenas Dalí

foto Francesco Scavullo, 1973.
"Quando eu tinha quatro anos eu queria ser cozinheiro, aos seis, Napoleão e desde então a minha ambição só tem aumentado; Agora quero ser apenas Dalí, e estou conseguindo".
Salvador Dalí 

o olhar completa o espelho

foto Jorge Bispo, Brasil

o olhar encurta a distância

foto Fan Ho, Xangai

o olhar mergulha o olhar

foto Danny Eastwood, Austrália

o olhar abre a cortina

foto Jane Burton, Austrália

o olhar recorta o afeto

foto Elliot Erwitt, New York City, 1950

sábado, 29 de outubro de 2016

o olhar aguarda o próximo passo

foto Christian Coigny, Suíça

o olhar desembaça o vidro

foto Ibai Acevedo, Espanha

o olhar beija o beijo

foto Ed van der Elsken, Paris, 1950

o homem que amava os livros

"Sempre imaginei que o Paraíso fosse uma espécie de livraria."

A frase é do escritor argentino Jorge Luis Borges, mas cabe muito bem a outro grande homem, o bibliófilo José Mindlin, criador da mais importante biblioteca privada do país.

Quatro anos antes de ir embora para a grande Livraria, em 2010, ele doou sua coleção para a Universidade de São Paulo, com 60 mil volumes.

Hoje, Dia do Livro no Brasil: dia de todos josés mindlins.

Del Rey na terra do sol

Geraldo Del Rey foi um dos mais completos e carismáticos atores do cinema brasileiro.

Entre quase trinta filmes em que atuou é memorável seu papel em Deus e o diabo na terra do sol, de Glauber Rocha, 1964, onde faz o humilde sertanejo Manoel que mata o patrão tirânico que lhe rouba umas cabeças de gado.

Toda narrativa do filme gira em torno do personagem de Del Rey. Ele foge com a mulher Rosa, interpretada por Ioná Magalhães (foto), e se refugiam no campo santo de Sebastião, líder religioso em luta contra os latifundiários.

Um detalhe marcante na vida do ator foi na década de 70: por seu engajamento político contra o governo, foi banido da TV Globo, ficando sem trabalho, em atuações secundárias noutras emissoras. Ironicamente voltou à tela global em 1992, um ano antes de falecer, na minissérie Anjos rebeldes, ambientada no período da ditadura militar.

Del Rey faria hoje 86 anos.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

em Brasília, 19h e um pouco mais

foto Luara Baggi
A noite chega molhada e muito mais. 

Lou Reed

Ao contrário do que diz o título do seu primeiro disco, Perfect day, há três anos aquele domingo não foi um dia tão perfeito assim, meu caro Lou Reed. Você se foi, cara!
Ouvi seus discos, desde The Velvet Underground, com Sterling Morrison, John Cale, Doug Yule, Nico, Angus MacAlise, Maureen Tucker, aquela turma que mandava uma banana amarela de Andy Warhol pra mediocridade institucionalizada. E sua música me viciou viciou viciou em rock and roll, não pirei por quase de Mary, mas fiquei pra lá de Lou Reed...

em Brasília, tempo fechado

 
foto Bárbara Cabral

a palavra precisa

Graciliano Ramos dizia que "a palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso, a palavra foi feita para dizer". E a precisão da obra do grande escritor alagoano é definição desse pensamento.
Graciliano está para a prosa assim como João Cabral de Melo Neto está para a poesia. A síntese da palavra, a palavra certa na síntese, é o ouro verdadeiro que brilha em seus livros. A secura de sua literatura não é aridez, é concisão, é métrica em diálogos, é a dissecação dos sentimentos dos personagens e desenho definido dos conflitos, sem rodeios, a fundo. Graciliano é um minimalista do sertão, se destitui de excessos para fixar no âmago. Por isso sua palavra diz.
Hoje ele faria 124 anos. Precisamente.

beat acelerado

O poeta galês Dylan Thomas faria hoje 102 anos de vida. Era um anjo torto. Bebia pra caramba, e sucumbiu aos 39. Homem de gestos largos, teatral na recitação dos seus poemas, quando foi para os Estados Unidos, no começo dos inquietos anos 50, tornou-se uma espécie de inspiração para aquela turma da geração beat que aprontava todas.
Tanto foi que um moço batizado Robert Allen Zimmerman, que veio a ser um profeta da música folk-rock americana, e muito tempo depois Prêmio Nobel de Literatura, passou a se chamar Bob Dylan em sua homenagem.
O poeta fotografado por Man Ray, 1946.

o disco, a cantora

10 anos hoje do lançamento de Back to black, de Amy Winehouse.

a hora de Marcelia



— Eu gosto tanto de parafuso e prego, e o senhor?
Essa é uma declaração/pergunta de um dos diálogos mais surpreendentes, insólitos e ternos da literatura brasileira, dita por Macabéa, a personagem principal de A hora da estrela, de Clarice Lispector, escrito em 1977, levado ao cinema por Suzana Amaral, em 1985.
Marcelia Cartaxo vive a ingênua datilógrafa que namora o esperto Olímpio de Jesus, interpretado por José Dumont. Nunca o cinema brasileiro teve uma química tão precisa entre dois grandes atores.
Macabea é um personagem tão emblemático da nossa rica literatura quanto Macunaíma. Assim como Grande Otelo deu corpo e alma ao anti-herói de Mário de Andrade, no filme de Joaquim Pedro, Marcelia Cartaxo deu definitivamente cara, perfil e essência à criação de Clarice.
A atriz paraibana ganhou merecidamente o Urso de Prata no Festival de Berlim e o Candango no Festival de Brasília.
Hoje é aniversário dessa nordestina arretada de Cajazeiras, que se revelou igualmente uma cineasta talentosa.
Nós gostamos muito de você, Marcelia. E também de parafuso e prego.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

felicidade

Belchior pelos muros do país.
Belo Horizonte, MG, 2011
Belchior, 70 anos hoje.

juventude


"O que é que eu posso fazer / com a minha juventude hoje / quando a máxima saúde hoje / é pretender usar a voz..."

- Belchior, trecho de Conheço o meu lugar, disco Era uma vez um homem e seu tempo, 1979.

Foto do começo dos anos 70. E 70 anos de Belchior hoje.

(Pesquisa para o projeto do documentário "Música do Ceará - Lado A Lado B", de Nirton Venancio)

a palo seco


Belchior aos 28 anos na capa de seu primeiro LP, Mote e glosa, 1974.
Um disco rasgado, como um a palo seco. Belíssimo!
70 anos hoje de sonho e de sangue e de América do Sul.
(Pesquisa para o projeto do documentário Música do Ceará - Lado A Lado B, de Nirton Venancio)

terça-feira, 25 de outubro de 2016

uma pétala no azul do cerrado...

Torre Digital, Brasília. Foto Angela Raymundo

tigresa

"Ela me conta que era atriz e trabalhou no 'Hair'"...
- Caetano Veloso, 1977


Sonia Braga fotografada por Greg Gorman, Los Angeles, 1990

palavra de amor

Julio Cortázar, em Papeles inesperados.

Esse belíssimo livro póstumo são manuscritos inéditos, escritos entre 1930 e 1980 e descobertos no final de 2006.

em Brasília, 19h


foto Antônio Cunha

O dia se encerra no cerrado.


o céu cerrado de flamboyant...

foto Minervino Junior, Brasília

terça-feira chegando no céu do cerrado

foto André Violatti

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

fonte da juventude

foto Andre de Dienes
Em 1945, aos 20 anos de idade, a então modelo pinup Norma Jeane, desfez o casamento com o jovem escritor e policial James Dougherty, quatro anos a mais, e partiu para o México, em companhia do namorado Andre de Dienes, fotógrafo húngaro de 32 anos, pioneiro em imagens de nus artísticos na então aparente conservadora América.

Enquanto o mundo ainda fumaçava nos escombros da Segunda Guerra, a futura e mítica atriz Marilyn Monroe fez um dos seus melhores ensaios fotográficos. Muitas dessas fotos não são tão conhecidas. Captam muito bem o que Dienes viu na beleza e fonte de juventude daquela garota cheia de vida.

Os ensaios do namorado fotógrafo despertaram a atenção dos estúdios hollywoodianos. Marilyn recebeu convites para pequenos papéis, mas que se destacaram pelo encanto e carisma, como a garçonete Evie de Idade perigosa (Dangerous years), de Arthur Pierson, 1947, um singelo e sintomático drama sobre um restaurante à beira de estrada, que deixa os moradores da cidadezinha preocupados com a má influência para seus filhos.

Mesmo conhecida por interpretar sex symbols, mulheres fatais etc e tal, a atriz seguiu carreira escolhendo muito bem seus filmes. Billy Wilder, que a dirigiu nos ótimos O pecado mora ao lado (The seven year itch), 1955, Quanto mais quente melhor (Some like it hot), 1959, diz em Marilyn Monroe – A biografia, de Donald Spoto, 2001, que “é preciso ser um verdadeiro artista para vir ao set sem lembrar nada e ainda ter o desempenho que ela teve".

Da doce e sensual garçonete de seu primeiro filme à lânguida interpretação da canção de parabéns à Kennedy, Marilyn já desenhava o que seria um ícone popular da cultura como atriz, graça e formosura.

solzão

foto Ed Alves, Brasília.
Um solzão de primeira nesta segunda-feira no cerrado.

corazón espinado

“O que não me mata, me alimenta”
- Frida Khalo

Na foto acima, Salma Hayek em Frida, de Julie Taymor, 2002. A cena reconstitui o período em que a pintora cria a sua mais pessoal e significante obra: o quadro A coluna partida, em 1944.

À época do autorretrato, aos 37 anos, Frida estava com a saúde fragilizada, mas nutria a alma das forças que o corpo não tinha mais.

Como em um raio X preciso, conotativo e tridimensional, vê-se a coluna cervical quebrada substituída pelo ferro do carro que lhe acidentou... as lágrimas caem no rosto, os pregos perfuram a pele, as vastas sobrancelhas como uma asa emoldura o rosto firme e triste, como firmes são os seios que sensualizam sua tristeza, desnudos pelas tiras de um espartilho que lhe sustenta o dorso.

A firmeza maior nessa obra-prima vem do olhar que não se quebrou. Vem de dentro, de um coração machucado, desafia a si mesma, desafia a quem olha.

Mostra ao mundo o quanto você foi intensa, Frida!

terça-feira, 18 de outubro de 2016

em Brasília, 19h

foto Helio Montferre
Desenho vespertino no céu do cerrado...

consulta


roll over, Chuck!

"Se você quer tocar rock and roll, vai tocar tocando como Chuck Berry, ou baseado em algo que aprendeu com ele, porque não existe outra escolha. Chuck realmente pavimentou o caminho."
- Eric Clapton


O rock and roll faz hoje 90 anos de idade.

eu vou tirar você desse lugar

A belíssima Melina Mercouri vive uma prostituta no filme do então marido Jules Dassin (1911-2008), o ótimo Nunca aos domingos (Never on Sunday), coprodução dos Estados Unidos e Grécia, de 1960.

Sua personagem não chega a ser como a ingênua Cabiria, do clássico das noites de Federico Fellini, mas Ilya é uma prostituta de bom coração, diferente das colegas de vida difícil no porto de uma cidadezinha perto de Atenas.

O conflito do filme se dá no momento em que um desses turistas americanos, metido a filósofo e salvador do mundo, chega à Grécia para entender a decadência da grande civilização que foi. O forasteiro, interpretado pelo próprio diretor do filme, vê na prostituta um símbolo da transformação que o país milenar precisa urgentemente. E o moço se empenha em tirar Ilya daquele pedaço, cheio de garotas indecentes e cafetões asquerosos.

A analogia interessante que se pode fazer entre o filme e a realidade, é que a atriz abandonou o cinema em 1978, e entrou com tudo na vida política do seu país, Mesmo exilada na França, lutou contra ditadura, empenhando-se com o seu prestigio, em reerguer a civilização ameaçada. Com a redemocratização ainda frágil, Melina voltou à Grécia e vinculou-se ao Parlamento progressista, tornando-se a primeira Ministra da Cultura, cargo que exerceu por dois mandatos na década de 90.

A atriz, que hoje completaria 91 anos de idade, tinha 75 quando faleceu em Nova Iorque. Mais uma vez retornou ao seu porto grego, para ser enterrada com merecidas honras de chefe de Estado.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

ele tinha um sonho

Em 14 de outubro de 1964, quatro anos antes de ser assassinado, Martin Luther King recebeu o Nobel da Paz.

Sua luta contra a desigualdade racial através da não violência, os corajosos e históricos discursos como I have a dream, em frente ao Memorial Lincoln em Washington, em 1963, e contra a guerra do Vietnã, em 1967, outorgaram a Luther King o reconhecimento de liderança na resistência pelo fim do preconceito racial.

Aos 35 anos, foi o mais jovem a receber um prêmio Nobel.

porto


"O mundo não está interessado nas tempestades que você encontrou. Ele quer saber se trouxe o navio."
- William McFee, escritor inglês

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

o carteiro Zimmerman

"Não sou eu. São as músicas. Eu sou só o carteiro. Eu entrego as músicas."
- Bob Dylan

O "carteiro" Mr. Robert Allen Zimmerman ganhou merecidamente o Prêmio Nobel de Literatura de 2016, para surpresa de muitos.

Dylan não é "apenas" um letrista em suas músicas: é um poeta que desenvolveu em vasta discografia reflexões sobre temas pertinentes à condição humana, no amor, na política, na religião, e paralelo às canções em álbuns antológicos, publicou livros de poesia, como o ótimo Tarântula, de 1971, lançado no Brasil quase 20 anos depois. A autobiografia Chronicles: Volume One, de 2004, é de uma preciosidade e sinceridade na escrita como pouco se vê no gênero.

Fortemente inspirado pelos intelectuais modernos norte-americanos e ingleses, Mr. Zimmerman adotou o nome do genial poeta Dylan Thomas, o dândi enviesado que logo no começo dos inquietos anos 50 pós-guerra, foi a inspiração para aquela turma da geração beat que aprontava todas, que por sua vez influenciou o cantor tornando-se um dos principais representantes do movimento na música.

Aos 75 anos, o Prêmio de certa forma responde em reconhecimento às perguntas que Bob Dylan fez ao longo de suas canções.

“The answer, my friend, is blowin' in the wind”

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

pega-amor


às nossas crianças

Perdoem a cara amarrada
Perdoem a falta de abraço
Perdoem a falta de espaço
Os dias eram assim

Perdoem por tantos perigos
Perdoem a falta de abrigo
Perdoem a falta de amigos
Os dias eram assim

Perdoem a falta de folhas
Perdoem a falta de ar
Perdoem a falta de escolha
Os dias eram assim

E quando passarem a limpo
E quando cortarem os laços
E quando soltarem os cintos
Façam a festa por mim

Quando lavarem a mágoa
Quando lavarem a alma
Quando lavarem a água
Lavem os olhos por mim

Quando brotarem as flores
Quando crescerem as matas
Quando colherem os frutos
Digam o gosto pra mim


Aos nossos filhos, letra de Victor Martins, musicada por Ivan Lins, gravada no disco Nos dias de hoje, 1978.

barco


regar

Pablo Neruda em O livro das perguntas, 1974