segunda-feira, 29 de agosto de 2016

coração de cinema

Sensorial, onírico, impressionista.

Laurie Anderson vê cinema quando fecha os olhos e abre o coração. Música que se mescla à alma em uma só imagem. A vida como lado externo da morte. A morte como o lado de dentro da vida. Os cães como devem ser os homens. Os homens como podem ser os cães. A saudade como um encontro.


"O que vês quando fechas os olhos?"

O que vês quando apagam as luzes na sala? A alma humana na psicografia da tela do cinema.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Regina Dourado

A atriz Regina Dourado se orgulhava de sua foto que fiz para o cartaz do filme Tigipió, de Pedro Jorge de Castro, 1982.

Sempre repetia do momento exato que captei a sua emoção em uma das cenas mais importantes.

Fico honrado pela oportunidade. Você é que me dá cartaz, Regina. Hoje seria seu aniversário. Meu coração lhe abraça com saudade.

(São três fotos feitas para o cartaz: a da Regina esperando José Dumont que vem a cavalo, sob a árvore seca).

o assovio de Thielemans

foto Henryk Marian Malesa

O grande gaitista belga de jazz Toots Thielemans tinha uma forte proximidade com música brasileira, mais precisamente a Bossa Nova, gravando com Astrud Giberto, Oscar Castro Neves...

Aquarela do Brasil, seu disco com Elis Regina, de 1969, foi o começo de sua paixão, e de tanto ouvir e acompanhar cantores e compositores em shows, lançou nos anos 90 os discos temáticos The Brazil Project, em dois volumes, com canções de Tom Jobim, Dori Caymmi, Ivan Lins, Caetano Veloso, Sivuca, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Luis Bonfá, Djavan...

Compôs trilhas para o cinema que hoje estão na nossa memória afetiva: Perdidos na noite (Midnight cowboy), John Schlesinger, 1969, com Henri Mancini em Bonequinha de Luxo (Breakfast at Tiffany's), 1961, Jean de Florette, de Claude Berri, 1986... Misturava suas doces melodias com harmônica, guitarra e, uma de suas habilidades marcantes, assovio – de onde tirou o prenome Toots.

O talento de Thielemans seguia gerações e gêneros, gravando e em alguns participando da banda, de Charles Parker, Benny Goodman, Miles Davis, Ella Fitzgerald, Frank Sinatra, Ray Charles, Oscar Peterson, Johnny Mathis, Quincy Jones, Bill Evans a Paul Simon, Billy Joel, Nick Cave...


O músico faleceu hoje enquanto dormia, aos 94 anos. A música continua. Basta ouvir, por exemplo, Bluesette, seu clássico de 1962.

domingo, 21 de agosto de 2016

fogo medieval

O romance distópico de ficção científica de Ray Bradbury, Fahrenheit 451, publicado em 1953, e levado ao cinema por François Truffaut em 1966, trata de uma América hedonista e anti-intelectual que perdeu totalmente o controle, e todos os livros são queimados e o pensamento crítico suprimido.

O escritor, que hoje faria 96 anos, escreveu o romance no porão de uma biblioteca, em uma máquina alugada. Era o começo da Guerra Fria, e isso lhe inspirou para criticar uma sociedade americana disfuncional e assustadora em seus conceitos intelectuais.

Bradbury declarou em entrevista que a imagem da queima de livros significava a supressão de ideias, e de como a televisão, à época ainda uma curiosa novidade, destruía o interesse pela leitura.

Que diria ele hoje!

a vida de Polanski

"Eu sou o homem do espetáculo. Estou sempre atuando."
- Roman Polanski


Para entender bem a declaração do cineasta polonês é preciso ler a biografia Polanski, uma vida, escrita por Christopher Sandford, publicada em 2007.

As quase 500 páginas fazem uma autêntica, e possivelmente definitiva, dissecação da vida e obra de um dos maiores diretores do cinema contemporâneo.

As três páginas do prefácio de José Wilker é outra preciosidade á parte.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Maravilha do Brasil

Elke Georgievna Grunnupp, a moça que nasceu em Leningrado e se fez Maravilha no Brasil, capa de revista aos 18 anos.

O céu ficou hoje uma maravilha com sua chegada, Elke!

Elke, Mulher Maravilha!


fora, ditadura!

Em 1972, Elke Maravilha estava no Aeroporto Santos Dumont quando viu na parede um cartaz de procurados políticos pela ditadura militar.

O cartaz estampava a foto de Stuart Angel, filho de Zuzu. Elke retirou e rasgou em pedacinhos.


Esse simples ato de revolta lhe causou a prisão. Anexado ao processo estava o cartaz rasgado, acusada de prejudicar a localização do rapaz foragido. Cinismo dos militares, como se não soubessem que Stuart morrera torturado barbaramente nas dependências da Base Aérea do Galeão em 14 de junho de 1971, arrastado por um carro com a boca pendurada ao cano de descarga.

Elke passou seis dias presa e perdeu da cidadania brasileira. Só foi libertada por ajuda do advogado de sua amiga Zuzu. Por anos foi uma apátrida, até que requisitou a cidadania alemã, a única que tem até hoje, que lhe dá cidadania na nossa memória.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

subindo aos céus

De acordo com a crença Cristã, Maria mãe de Jesus teria morrido enquanto dormia em 15 de agosto de 43 d.C. “Acordou” quando estava sendo levada aos céus por anjos. Essa subidinha ao paraíso é chamada de “assunção” porque Maria só teve acesso à casa do Pai depois de morta e ressuscitada, ao contrário do Filho, que com seu próprio poder e sacrifício com essa humanidade ingrata teve acesso ao Paraíso ainda vivo.

Entre Mãe e Filho há essa diferença para o Catolicismo: Ascensão de Nosso Senhor e Assunção de Nossa Senhora.


Em Fortaleza, capital cearense, o Forte de Nossa Senhora de Assunção remonta à época da segunda invasão dos holandeses ao Brasil. A primitiva estrutura de longas e altas paredes brancas foi erguida por eles em meados do século 17, estrategicamente ao lado rio Pajeú que vai bater no meio mar.

A Coroa Portuguesa que já estava por aqui há mais tempo, tinha ultrapassado a fase de estágio probatório, digamos, ergueu suas armas e expulsou os holandeses, apossando-se do forte e denominando-o Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, possivelmente por ter em Portugal, mais precisamente na província de Trás-os-Montes e Alto Douro, uma grande devoção à Virgem Maria, onde hoje é feriado. Na capital cearense também.

Acima, pintura Assunção da Virgem, 1616, do alemão barroco Peter Paul Rubens. Atualmente a obra está no Museu Real de Belas-Artes, Bélgica.

uma banda de maçã, outra banda de reggae

Os jamaicanos The Jolly Boys, da cidade Port Antonio, é uma banda formada em 1945, quando o reggae ainda não era um gênero musical no país. Bem antes de Bob Marley, os alegres rapazes traziam a semente do que viria a ser desenvolvido no final dos anos 60.

Nas décadas de 80 e 90 a banda ganhou maior projeção internacional, com o que se denominou pelas gravadoras de “world music”.

Há seis anos voltaram com toda garra com o ótimo Great Expectation, disco que traz uma original versão em reggae de Rehab, de Amy Winehouse.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

vamos a la playa

“De Alto Cedro voy para Marcané
Llegó a Cueto voy para Mayarí

Assim começa Compay Segundo em Chan Chan, uma de suas últimas composições, de 1987, incluída no álbum Buena Vista Social Club, a partir do filme homônimo de Wim Wenders, 1999, oportuno documentário sobre antiga casa de shows dos anos 50 em Havana, e trouxe de volta artistas da vanguarda da música cubana.

O bem humorado Compay, que faleceu aos 96 anos, em 2003, faz menção a uma antiga lenda local, que autor ouvia quando criança de agricultores na região onde foi criado. Conta o passeio de um casal, Juanita e Chan Chan, em um jogo de brincadeiras e sensualidade, no demorado caminho em direção à praia, pegando a carretera em Alto Cedro ao norte de Santiago, passando por Marcané, fazendo a curva à direita em Barajagua, chegando a Cueto e logo diante do mar em Mayarí, a leste da ilha.

O estilo envolvente, chamado por lá de ‘son’, faz parte do cancioneiro de Cuba desde os anos 30, mesclando os ritmos espanhóis com traços da percussão africana. A guitarra do californiano Ry Cooder, com seus riffs e roots de rock e blues, mistura-se com as violas e merengues da velha guarda cubana nas areias escaldantes de Mayarí.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

nature boy

“There was a boy / a very strange enchanted boy… / a little shy and sad of eye…”

Trechos da belíssima canção Nature boy, composta em 1948 por Eden Ahbez, músico que nos anos 60 influenciou o movimento hippie com suas canções, angústias, rebeldia e esperança.

Já nos anos 40, Ahbez viajava de bicicleta pelas estradas da Califórnia... barbas longas, cabelos nos ombros, sandálias, dormia ao ar livre com a família, vegetariano, alimentava-se de legumes, frutas e nozes... vivia numa boa com três dólares por semana.

Admirador de Nat King Cole, uma noite Eden Ahbez foi ao Lincoln Theatre onde o cantor de voz aveludada se apresentava e tentou lhe entregar uma canção feita inspirada no amigo William Pester, o cara que na verdade já trazia os traços da filosofia paz & amor, um alemão naturalizado americano, conhecido como “eremita de Palm Spring”. Seu pensamento libertário hoje pode ser definido como uma ligação dos reformadores germânicos do século 19 com a garotada hippie contestadora dos anos 60.

Eden Ahbez compôs Nature boy e desejava Nat King Cole para interpretá-la, que naquela noite lhe ignorou. O autor deixou a canção com o manobrista do teatro, que repassou depois ao destinatário, e ao ouvi-la de imediato decidiu gravá-la no próximo disco.

A música é um divisou na carreira de Nat King Cole, tornando-se praticamente uma marca registrada em seu vasto repertório. Dezenas de versões foram gravadas nessas décadas, de Frank Sinatra e Sarah Vaughan, passando por Miles Davis, Ella Fitzgerald, Stan Getz, Cher, Massive Attack, David Bowie, até chegar Lady Gaga em seu mais recente, ótimo e surpreendente disco, “Cheek to cheek”, em dueto com Tony Bennet. Em 1979 Ney Matogrosso gravou a versão feita por Caetano Veloso, "Encantado", no disco "Seu tipo."

Mesmo com a boa repercussão financeira do sucesso de Nature boy e consequentemente outras composições nas vozes de famosos, Eden Ahbez manteve-se um rapaz da natureza em sua simplicidade e filosofia oriental, tocando com sua banda instrumental. Gravou um único disco, “Eden's Island”, em 1960, uma espécie de música exótica com poesia beatnik, algo como hoje se rotula "world music". Fiel ao seu estilo o dedo em V e cabelo ao vento, Ahbez promoveu o álbum através de um passeio a pé de costa a costa fazendo aparições pessoais.

O músico teve momentos marcantes de tristeza: as mortes da esposa em 1963, por leucemia, e de seu filho, afogado aos 22 anos, em 71. Ele mesmo teve um fim trágico aos 86, em 1995, ironicamente de acidente de carro, assim como James Dean, admirador confesso de Nature boy, que considerava a canção uma perfeita tradução da sua vida. Dean, Ahbez, Pester, são desses seres que viveram no tempo e à frente dos tempos.

Místico, Eden Ahbez dizia que seu nome e sobrenome traziam uma bênção, um destino: tem Paraíso no princípio, e ao concluir, inicia com A (alfa), termina com Z (ômega) > o começo e o fim.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

na parede da memória

foto Irving Penn, 1947
"À medida que o tempo passa, a tinta vermelha em uma tela muitas vezes se torna transparente. Quando isso acontece, é possível ver, em alguns quadros, as linhas originais. Isso se chama pentimento, porque o pintor se arrependeu, mudou de idéia."

Assim a escritora, dramaturga e roteirista Lillian Hellman apresenta Pentimento, um livro de retratos, da série autobiográfica precedida por Uma mulher inacabada e seguida por Scoundrel time e Talvez.

Escrito em 1973, a autora reúne várias reflexões sobre episódios que marcaram sua vida, a luta contra o nazismo, a perseguição implacável do McCarthismo, a convivência com seu grande amor por 30 anos, o escritor de dramas policiais Dashiell Hammett.

O cineasta Fred Zinneman adaptou um capítulo do livro, levando às telas, em 1977, o filme que tem como título o nome da grande amiga da escritora, Julia, vivida por Vanessa Redgrave, enquanto Jane Fonda interpretava Lillian.

Em Pentimento, aos poucos, a cada página, a cada fato relembrado, a cada pessoa que reencontra, a escritora reavalia-se, procura entender o que foi ontem no que está hoje e pode ser amanhã. O que parece arrependimento é assimilação. São respostas em descobertas ao puxar a pele que salta no afresco do passado. Descascar a pintura do tempo e passar outra demão.

As horas que fazem nossa vida e o que delas a imaginação traz, às vezes falseia as lembranças. O passado é a única certeza que temos, tanto quanto o hoje amanhã.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

sonho e pesadelo de Bertolucci

O último tango em Paris (Le dernier tango à Paris), de Bernardo Bertolucci, 1972, foi um dos filmes mais censurados na história do cinema.

Na Inglaterra, as autoridades, por orientação de políticos conservadores, cortaram várias cenas para que fosse exibido. Nos Estados Unidos, passeatas de comitês de moralidade na porta de cinemas protestavam com mulheres bem vestidas vomitando. No Chile sob a escuridão da ditadura Pinochet, passou três décadas para chegar às telas. No Brasil foi liberado sete anos depois do lançamento, no governo do último general do golpe de 64, Figueiredo. Mas foi na própria Itália do cineasta que o filme sofreu a mais implacável censura: apenas com uma semana de exibição, em 1975, todas as cópias foram confiscadas e destruídas pela polícia, o diretor preso, processado por obscenidade, condenado a quatro meses de prisão e os direitos civis e políticos cassados por cinco anos. O filme só foi liberado integralmente em 1987.

Bertolucci escreveu o roteiro, em parceria com Agnès Varda e Franco Arcalli, a partir de um sonho erótico que tivera: encontrava-se com uma bela e desconhecida mulher na rua, fazia sexo com ela, e sumia antes que acordasse e perguntasse qual seu nome.

Maria Scheneider, a atriz que interpretou a tal garota dos sonhos, ao terminar o filme não queria mais ver a cara de Marlon Brando, que por sua vez não desejava mais filmar com Bertolucci.

Entre sonhos e pesadelos, o cinema ganhou um clássico incontestável.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

poesia em Alphaville

“Todas as coisas se movem. Devemos avançar para viver. Ir direto para aquilo que você ama. Eu fui para você sem pausa para a luz. Se sorrir, é para invadir melhor. Os raios de seus braços perfuram o nevoeiro.”

As falas do filme Alphaville, que Jean-Luc Godard dirigiu em 1965 foram escritas pelo poeta Paul Éluard. Assim se explica um dos mais belos roteiros do cinema, com diálogos precisos narrados como versos pelos personagens.

Éluard, conhecido como o poeta da liberdade por escrever poemas contra o nazismo, foi um dos principais nomes do dadaísmo, e na sequência um dos que deram representatividade ao movimento literário surrealista.

Seu lirismo deu-se em intensidade e profundidade ao conhecer o grande de amor de sua vida, a jovem russa Helena Diakonova, professora, nascida no meio da intelectualidade do começo do século 20.

O enredo de Alphaville passa-se em uma cidade futurista, onde um computador aboliu os sentimentos de todos os habitantes. Um agente chega ao local para convencer o inventor a destruir a máquina.

Fazendo uma analogia entre duas escolhas, ou uma simetria entre ficção e realidade, Godard com sua genialidade e perspicácia, soube muito bem entregar ao poeta os diálogos que imaginava para o roteiro de seu filme. Paul Éluard é convocado à cidade para ir direto ao que se ama.


Os dispostos sempre se atraem.

oitavo

Caesar Octavianus Augustus, fundador do Império Romano, não curtia muito que o sexto mês fosse sexto no calendário de Rômulo (aquele que fazia duplinha nas tetas de Roma), e como todo mandatário que se acha, mexeu na sequência e cunhou o período de 31 anos dias como o oitavo no calendário Gregoriano: o que se chamava Sextilis virou Augustus>Agosto.

A crença popular sobrecarrega o coitado do mês como o dos infortúnios, provavelmente pelas coincidências ao longo da História. Na antiguidade, acontecia sempre o final dos invernos rígidos, muitos morriam ainda pelo resto de frio brabo, de doenças infectuosas sem vacina, crianças e velhos não resistiam. As cadelas no meio rural tinham seu sistema hormonal alterado pelos raios solares que voltavam fortes depois das chuvas, entravam em disparada no cio, os cães excitados brigavam pelas mais sedentas, babavam literalmente pelas fêmeas, a saliva transmitia doenças, e os camponeses os chamavam de loucos naquele mês.

Agosto é oito. Oito é o símbolo do infinito, os traços dos dias, do tempo em contínua ligação. Há uma teoria que o desenho do número ali deitadinho lembra a tal serpente que na mitologia grega devorava a própria cauda, e não se sabia mais o começo e o fim da dita cuja. Os caras lá das antigas em Atenas deram-lhe o nome de Ouroboros, que significa que sempre existem coisas sendo recriadas no universo, eternamente.

Crença por crença, imprima-se o oito. Seja bem-vindo, Agosto. Multiplique-se, ad eternum.