domingo, 31 de julho de 2016

o futuro antigamente

“A realidade é muito complexa para ser transmitida pela tradição oral”. Essa é a frase que abre o filme Alphaville, de Jean-Luc Godard.

Numa cidade futurista, um computador aboliu os sentimentos de todos os habitantes. Um agente chega ao local para convencer o inventor a destruir a máquina.

Com esse enredo, Godard com sua perspicácia e genialidade realizou em 1965 um filme que poderia ser feito nestes distópicos anos 2000. Há dias em que temos menos manhãs, em que somos engolidos pelo que inventamos.

Alphaville é como uma projeção visionária, uma premonição a 24 quadros por segundo. Como a realidade é muito complexa, o cinema inventa a memória do futuro.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

escrever

"Ao escritor resta, como ponto de partida, a perplexidade. Não existe outra maneira de escrever. Ele deve prosseguir, mesmo sem saber o que deseja encontrar."

- José Castello, jornalista e escritor, em A literatura na poltrona – Jornalismo literário em tempos instáveis, 2007.

Hoje, 25 de julho, comemora-se o Dia Nacional do Escritor.

A data surgiu em 1960, quando Jorge Amado e João Peregrino Júnior realizaram o 1º Festival do Escritor Brasileiro, organizado pela União Brasileira de Escritores.


Um dia comemorativo é bom para lembrar que todos os dias são comemorativos, pelo trabalho, pelo ofício, pelo sacrifício, pelo desejo, pelo prazer, pelo apego, pela ausência, pela esperança, pela saudade.

só às paredes converso


"Hoje contei pras paredes / coisas do meu coração / passeie no tempo / caminhei nas horas / mais do que passo a paixão..." 

- Marisa Monte

o primo de todos os tempos

Publicado em 1878, o romance O primo Basílio, de Eça de Queirós, é uma cruel e necessária análise da família burguesa cretina urbana que habitava o século XIX, focando os ridículos de uma classe média alta.

O personagem-título é uma espécie de dândi babaca, conquistador e irresponsável, pedante, cínico, mantendo o estilo de vida aristocrático, decadente.

A precisão cirúrgica com que o escritor disseca os costumes, absurdos e contradições dos personagens de uma sociedade lisboeta, revela que o universo mesquinho e protótipo de futilidade, reverbera-se muito além da geografia e do tempo.

Nunca um romance teve seus aplicativos tão atualizados ao olharmos em volta o mundo em que vivemos, ladeira abaixo de hipocrisias.

25 de julho, Dia do Escritor. Dia de reler Eça de Queirós.

desaguar

foto Benoit Fournier, livro Memória da água, 2015

“a casa da saudade é o vazio / o acaso da saudade, o fogo frio / quem foge da saudade preso por um fio / se afoga em outras águas, mas no mesmo rio...”

Paulinho Moska em versos dolentes, um desaguar lusitano na canção Saudade, disco Muito pouco, 2013.


lavando as palavras

"Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar.
Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer."
- Graciliano Ramos, em entrevista concedida ao jornalista Joel Silveira, na Livraria José Olympio, 1948.

25 de julho, Dia do Escritor. Dia também das lavadeiras, que ensinam tão bem a escrever.

sábado, 23 de julho de 2016

Amy Kahlo

"Rock&Pop 25 años, después de nosotros el mundo tiene más rock”

Anúncio publicitário da Rock & Pop Net Rosario, Argentina, 2011.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

a excêntrica família Mann

Na rede dos magos - uma outra biografia da família Mann, da escritora e socióloga Marianne Krüll, alemã como os famosos retratados em seu livro, um volume de 500 deleitáveis páginas, é uma obra instigante para ler ou reler Thomas Mann e seus parentes. Não poderia ser diferente. Para abordar a saga, aliás, a rede em que se enreda a família de escritores seria necessária mesmo uma pesquisa de grande fôlego.

Lançado em 1991, o livro é primoroso. Escrito a partir da leitura de cartas, documentos, diários, relatos, fatos, a autora durante nove anos construiu uma obra de análise psicológica e sociológica sobre os membros de uma família cheia de estranheza, e que fazem parte do que há de mais interessante na literatura mundial do século XX.

O suicídio de Klaus Mann em 1949, em plena Cannes, na Côte d'Azur, é o tema do capítulo que abre o livro. Klaus era filho de Thomas, que estava em uma conferência em Estocolmo quando soube da notícia.

Dos principais títulos de Thomas Mann, Os Buddenbrook, Doutor Fausto, Felix Krull, Cabeças trocadas, o clássico A montanha mágica, é um dos dez livros que eu levaria se tivesse que me exilar em Marte.

Abaixo, os irmãos Heinrich (D) e Thomas, em foto tirada por volta de 1900.

o jovem marinheiro


Com pose de James Dean, o ator inglês Terence Stamp em uma imagem pouco conhecida, do começo dos anos 60. Provavelmente fez parte de algum portfólio, justamente na época em que ele interpretou o jovem marinheiro de um navio mercante no filme O vingador dos mares (Billy Bud), um dos seis filmes dirigidos pelo ator Peter Ustinov, em 1962.

Geralmente a imagem mais remota que temos de Terence Stamp é do carteiro Angelo que passa o dia lendo Rimbaud em Teorema, de Pasolini, clássico de 1968, sempre bom de rever.

Stamp nunca parou de filmar. Fez alguns filmes sem muita repercussão, mas sempre se destacando pelo carisma. Em 1980, assumiu o vilão General Zod em Super-homem II, de Richard Lester, depois de um tempo na Índia, em exílio voluntário para "estudo e meditação", como ele dizia.

Foi com a estupenda interpretação do transexual Bernadette em Priscilla, a rainha do deserto, (The adventures of Priscilla, queen of the desert), de Stephan Elliott, 1994, que o ator ficou novamente em evidência, ou melhor, passaram mais a prestar atenção no seu talento.

Completando hoje 78 anos, Terence Stamp continua fazendo jus ao título conferido pela Empire Magazine na década de 90, como um dos atores mais charmosos da história do cinema. O que é apenas um detalhe para o grande ator que ele é.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

o amigo de Babenco

Na foto acima, Willem Dafoe em uma cena de Meu amigo hindu, de Hector Babenco, 2015.

O ator americano interpreta um cineasta diagnosticado com câncer em estado avançado e, consciente de seu estado, deseja realizar seu último filme.

Babenco, argentino naturalizado brasileiro, se foi no final da noite de ontem, aos 70 anos.

Na abertura do filme o diretor abre um texto sobre as imagens dizendo "o que você vai assistir é uma história que aconteceu comigo e a conto da melhor forma que eu sei".

Raramente no cinema um cineasta foi tão preciso em criar uma obra entre a linha tênue que separa, ou une, a ficção da realidade. O personagem de Dafoe vai aos Estados Unidos para se submeter a um tratamento experimental. Babenco teve câncer linfático nos anos 90 e fez o mesmo, passando por um transplante de medula óssea. No hospital conheceu um garoto hindu de oito anos, e ambos dividiam histórias que alimentavam a alma de esperança.

Duas crianças, em uma curiosa mescla de verdade e fábula, estiveram muito presentes na vida do cineasta Hector Babenco: Fernando Ramos da Silva, que viveu o personagem título em Pixote, a lei do mais fraco, de 1980, um dos maiores filmes do cinema brasileiro, que deu grande projeção ao diretor, e o pequeno ator hindu Rio Adlakha, que revive o amigo do diretor nos tempos difíceis da doença.

Babenco faz de seu último trabalho, em que pese alguns tropeços no roteiro, o mais pessoal de sua filmografia, até mesmo cruelmente sincero consigo. O cineasta se disseca em tela aberta, com seus medos, defeitos, e também doçura, em um drama cheio que referências ao cinema, aos amores, à família.

Um filme como uma crônica anunciada.

a sereia de Rive Gauche

Vange Leonel, cantora e compositora que se foi tão precocemente, há dois anos hoje, aos 51.

Ela foi muito mais do que o sucesso que lhe projetou no começo dos anos 90, a música Noite preta, tema de abertura da novela Vamp.


Na década de 80, formou a banda pós-punk Nau, uma das mais expressivas e autênticas da cena musical paulistana, com um ótimo disco homônimo lançado em 87. Um ano antes, Vange participou do álbum Cadê as armas?, de As Mercenárias”, banda com fortes influências do rock inglês de Siouxsie and the Banshees.

E além da música, o grande legado de Vange Leonel é sua postura admirável na luta pelos direitos de cidadã, como ativista LGBT. Seu pensamento, suas ideias, e, sobretudo, sua poesia em prosa, se manifestou em quatro ótimos livros de temática GLS, assim como em duas peças teatrais e, mais nos últimos anos de vida, como colunista em jornais e revistas.

O impressionante talento de Vange Leonel vem de muito tempo. Bem antes mesmo de mostrar sua criatividade no grupo e disco Nau, formou com seu primo, o então desconhecido Nando Reis, a banda Os Camarões.

A escritora Cilmara Bedaque, companheira de Vange por quase 30 anos, até o último momento, é referência e reverência em sua vida.

*Menção à peça As sereias da Rive Gauche, que Vange escreveu em 2002, levada aos palcos pela diretora Regina Galdino, e faz uma interessante pesquisa e reconstituição sobre o lesbianismo no começo do século passado, mais precisamente em 1928, através de duas escritoras da época que publicaram livros temáticos, a inglesa Radclyffe Hall, e a americana Djuna Barnes.

a morte joga xadrez

A foto acima é uma das imagens mais fortes, impactantes e belas da história do Cinema. É a clássica cena da personificação da Morte no filme O sétimo selo (Det sjunde inseglet), de Ingmar Bergman, rodado em 1957, ainda sob os escombros e os traumas da Segunda Guerra.

Ambientado em uma época remota da Idade Média, o filme trata do temor de que o mundo possa acabar de repente ou de que ele seja dizimado gradualmente por uma peste. A Morte, na interpretação marcante e assustadora do ator Bengt Ekerot, concretiza os aspectos da religiosidade questionada.

O ótimo Max Von Sydow vive um cavaleiro que, voltando da Cruzada da Fé, convida a Morte para uma partida de jogo de xadrez com o intuito de distraí-la para que os flagelados escapem e, com o tempo, vencê-la. É uma sacada inteligente de Bergman como alegoria da racionalidade para entender a vida. O cineasta não se apega propriamente a uma determinada religião, até mesmo apresenta a Igreja como uma instituição decadente, incapaz de impedir o mal e solidificar a fé.

Bergman faria hoje 98 anos se não tivesse perdido a partida de xadrez aos 89.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

a última esperança

O teórico do socialismo científico Friedrich Engels dizia que o homem só deixou de ser um animal meramente intuitivo, desenvolver-se, modificar-se e chegar a uma conjuntura moderna em benefício próprio, através do trabalho. Seu parceiro de materialismo dialético, Karl Marx, estendendo-se em viés sociológico, compreendia o homem por meio do entendimento do trabalho e sua relação com o capital.

Há uma hipótese pelos estudos linguísticos que a palavra “trabalho” veio do latim “tripalium”, instrumento feito de três paus aguçados, que na antiguidade os trabalhadores usavam para bater as espigas de milho, rasgá-las e esfiapá-las. A mesma origem etimológica nomina uma ferramenta triangular fincada no chão onde os romanos martirizavam os escravos. Juntando as espigas com os romanos imperialistas (ou capitalistas, para citar o parágrafo anterior), o homem é um escravo do trabalho, supliciado diariamente, e não um ser em atividade deleitável, como queria o filósofo contemporâneo português Agostinho da Silva, com sua doutrina calvinista.

O curta-metragem O homem que virou armário, do carioca-cearense Marcelo Ikeda, 2015, desperta, no mínimo, essas reflexões, considerações pertinentes em seus 22 minutos de projeção, que magnetizam o espectador como estivesse diante do espelho do seu cotidiano, descontemplando a rotina que não tem seu encanto, desdizendo aqui o título do filme de Yasujiro Ozu.

Com roteiro próprio, Ikeda dirige seu filme de forma minimalista, adequando-se a uma lógica de grafismo e funcionalidade do tema: personagens que trabalham mecanicamente carimbando e arquivando papeis, mudos entre os tic-tacs do relógio na parede, gavetas que se abrem e fecham, portas também, funcionários que chegam, saem, não se cumprimentam, que não existem entre si. Seres humanos que mais do que se confundem, se transmutem em biosmose para objetos. Todos passam a orbitar na mesma dimensão tátil e inanimada de folhas, carimbos, mesas, cadeiras, armários...

Ikeda cita em sua narrativa de coreografia cartesiana o universo claustrofóbico de Kafka, remetendo à angústia existencial distópica de O processo. Na mesma linha de alusão, Tempos modernos, de Charles Chaplin, em cada cena decupada, em uma referência diametralmente oposta, não as máquinas tomando o lugar dos homens, mas estes se transfigurando em objetos, pela recorrência da desesperança, pela repetição na repartição.

Atemporal, com alguns desenhos intencionais vintage, digamos, da direção de arte de Lana Benigno, uma acertada fotografia de Petrus Cariry, oxidada pelas horas que passam, uma edição rítmica de Tiago Therrien, o filme magnificamente pulsa em silêncios, em enquadramentos sem trilha sonora, em um ou dois movimentos de câmera. E assim como os personagens saem ao final do expediente, a câmera vai às ruas para respirar. Lá fora, o ambiente é o mesmo, ampliado em horários crepusculares, de pessoas que sequem para lá, que cruzam com outras que passam para cá, que continuam sozinhas na metrópole de um Fritz Lang futurista como antigamente. O diretor observa fixamente a todos os personagens, que pouco se notam, como não se veem os armários e suas gavetas.

Mas através do olhar de Ikeda, olhamo-nos. Essa é a intenção maior do cinema, adentrarmos ao cosmo de uma realidade reconstruída em pedaços para nos encontrarmos por inteiro. Ou mesmo fragmentados em nossas dúvidas, mistérios e dilemas.

Como uma janela que se abre no cenário, o cineasta concluiu seu filme e entrega a última esperança. Resiliência. A arte inala, aspira, inspira um fiapo de alma ainda que seja. Nos minutos finais, a personagem de Andreia Pires diante o homem que virou armário, Rômulo Braga, revela o seu sentimento guardado com a expressão mais revolucionária entre os seres humanos: “Eu te amo”. É única fala do filme. E dos melhores happy ends” que já vi na história do cinema. Parabéns, Ikeda!

domingo, 10 de julho de 2016

já que sou brasileiro

A música não é dele, foi composta por sua esposa Almira Castilho e seu amigo Gordurinha, mas Chiclete com banana ficou como uma espécie de marca registrada de Jackson de Pandeiro.
O simpático e franzino paraibano já fazia sucesso no rádio e em shows, nas décadas de 40 e 50, com SebastianaA mulher do AníbalO canto da ema, e outros forrós aloprados, mas foi quando começou a mascar chiclete com banana que estourou definitivamente, e, pode-se dizer, criando de uma forma tosca e brincalhona o primeiro samba-rock (viu, Seu Jorge?!).
Gravada em 1959, Chiclete com banana expressa em letra bem humorada e irônica a necessidade de manter a pureza da nossa música, sem influência de ritmos estrangeiros, mais exatamente da terra do Tio Sam, que só vai botar o bebop em nosso samba "quando ele tocar o tamborim / quando ele pegar no pandeiro e no zabumba / quando ele aprender que o samba não é rumba". Eles têm chiclete, e nós, yes! temos banana, que engorda e faz crescer. Então, cante lá, que eu canto cá.
Essa música é muito interessante, bastante sintomática, uma crítica direta à facilidade que temos de absorver ritmos musicais de outras culturas, o que não é condenável, desde que não seja em detrimento de nossa originalidade. À época da composição, o rock'n'roll reverberava pela América latina e Ocidente, refletindo não somente um gênero, também como comportamento de uma geração pós-Segunda Guerra, que veio explodir como um caleidoscópio cultural na década 60. As influências eram inevitáveis. Tanto é que o próprio Jackson do Pandeiro, batizado José Gomes Filho, logo no início da carreira adotou o "Jack" em homenagem a um ator de faroeste que ele adorava, Jack Perry. O acréscimo do "son" foi ideia de um produtor, o Pandeiro, por ser o instrumento que ele começou a tocar, presente de sua mãe.
Alceu Valença costuma dizer que Luiz Gonzaga é o Pelé da nossa música, e Jackson, o Garrincha. E faz sentido essa analogia: os dribles e o domínio que o paraibano tem com os ritmos, ao longo de mais de trinta discos, é impressionante. Ele vai do forró ao samba, passando com a mesma verve de interpretação e personalidade, pelo baião, xote, xaxado, coco, arrastapé, quadrilha, marcha, frevo... Não à toa, ficou conhecido como "O Rei do Ritmo".
Em 1982, após um show em Brasília, Jackson sentiu-se mal no momento do embarque no aeroporto. Era diabético. Passou uma semana internado, faleceu em decorrência de embolia cerebral, no dia 10 de julho, em um hospital na W3 Sul.
E nosso samba ficou assim: "tururururururi bop-bebop-bebop / tururururururi bop-bebop-bebop /tururururururi bop-bebop-bebop..."

sexta-feira, 8 de julho de 2016

o velho e as armas

Adeus às armas, de Ernest Hemingway, publicado em 1928, é um romance tipicamente autobiográfico, baseado nas experiências do autor, dez anos antes, quando esteve como motorista de ambulância na Primeira Guerra Mundial. Exatamente no dia 8 de julho de 1918, foi noticiado que o então jornalista Hemingway, com apenas 20 anos, fora ferido na frente austro-húngaro.

A Guerra estava no fim, e de volta aos Estados Unidos, Hemingway mergulhou decididamente na literatura. Mas o livro só saiu depois dos dois primeiros romances, As torrentes da primavera e O sol também se levanta.

Em Adeus às armas, que foi adaptado para o cinema em 1957 por Charles Vidor, Hemingway reconstitui suas memórias no front através dos personagens um tenente condutor de ambulâncias, um médico cirurgião, e uma enfermeira inglesa. Agnes Von Kurowsky, no livro Catherine Barkley, foi sua grande paixão nos campos de batalhas, e, de certa forma, quem o inspirou para escrever a história, tornando-a praticamente uma heroína.

Hemingway gostava de enfrentar trincheiras. Durante a Guerra Civil Espanhola, década de 30, foi para Madrid trabalhar como correspondente, experiência que resultou na obra-prima Por quem os sinos dobram, também levada ao cinema por Sam Wood, em 1943. Logo após a Segunda Guerra Mundial, mudou-se para Cuba.

A literatura de Ernest Hemingway é toda baseada em vivências pessoais, amores, família, amigos. O suicídio é um tema recorrente em algumas publicações, em cartas. E, infelizmente, com uma arma deu seu adeus.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

I cry all the time

"Never, never, never, never, never, never hear me when I cry at night / baby, I cry all the time!"
- Bert Berns


Janis Joplin em seu apartamento em Lyon Street, San Francisco, California, 1968.

te trago mil rosas

"Você está vivo. Esse é o seu espetáculo. Só quem se mostra se encontra. Por mais que se perca no caminho."
- Cazuza


26 anos hoje que o nosso exagerado se foi. Ele continua em seu show daqui até a eternidade.

nossos destinos foram traçados

Exatamente dia 7 de julho de 2010, 20 anos depois que o cantor Cazuza se foi, morreu Ezequiel Neves, aos 74 anos.

O jornalista e produtor musical foi o grande amigo do exagerado, responsável pelo começo da carreira, na época do Barão Vermelho.

remember when you were young?

Esse "era" Syd Barret, o cara que em 1965 fundou com Roger Waters a "minha" maior banda de rock, Pink Floyd.

Logo em 1968, Syd abusou das viagens, e hoje faz nove anos que não voltou mais.

Shine on you crazy diamond, composição dividida em nove partes, do álbum Wish You Were Here, de 1975, é dedicada a ele.

James Dean

James Dean fotografado por Dennis Stock, New York, 1955

"Por que levo o amor tão sério assim?..." 
- Mona Gadelha

a bela e o fera

A diáfana Audrey Hepburn tinha 25 anos e viveu dias conturbados com o cara de mármore Humphrey Bogart nas filmagens de Sabrina, de Billy Wilder, 1954.

O ator, que entrou no elenco substituindo Gary Grant, já esnobava o sucesso de Casablanca, era um dos mais bem pagos de Hollywood e tinha fama de grosso. Hepburn realizara quase dez filmes, mas só ganhou maior projeção na década de 60, com Bonequinha de luxo (Breakfast at Tiffany’s).


Os dois não se batiam. Ou se batiam: a esguia Audrey não aceitava a estupidez do ator no set. Para piorar a relação, no filme Humphrey interpretava um playboy que disputava com o irmão, vivido por William Holden, o amor da personagem de Hepburn, Sabrina, filha do motorista da família. Holden e Audrey tiveram de fato um romance durante a produção do filme.

Esses curiosos fios enovelados, fora das filmagens, podem parecer meras situações prosaicas, sem nenhuma relevância, mas que têm outro viés nas observações dos biógrafos. E até mesmo dos cineastas: François Truffaut soube muito bem, no clássico A noite americana (La nuit américaine), 1973, abordar e dissecar as complexidades que envolvem a técnica e as relações humanas nos bastidores de um filme.

Dennis Stock, fotógrafo nova-iorquino que acompanhou muitos atores e atrizes nas décadas de 40 a 60, flagrou vários momentos no set de Sabrina, como esse da foto, em que Audrey Hepburn triste aguarda o momento de filmar, e não via a hora de tudo acabar e partir para tomar um café da manhã no Tiffany's.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

além do nacionalismo


“A música brasileira do século 19, a dita do período romântico, amarga há muitíssimo tempo a condição de patinho feio da história da música no País. É vista como mera imitação dos europeus e simplesmente esquecida, marginalizada. Não chega às salas de concerto, não é gravada nem é objeto de estudos. Só é citada quando se encaixa na visão de que serviu de escada para o nacionalismo cujo esplendor aconteceu com Villa-Lobos, no início do século 20.”


Essa observação precisa e lúcida é do jornalista e crítico musical João Marcos Coelho, em artigo ao jornal O Estado de São Paulo, nos 150 de nascimento do compositor, pianista, organista e regente cearense Alberto Nepomuceno, em 2014

Coelho aponta o músico como o mais consistente símbolo de virada de concepção sobre a música brasileira do século 19.


Nesse mesmo ano foi lançado o ótimo e oportuno livro A formação germânica de Alberto Nepomuceno, do pianista e escritor paulista João Vidal, que desmitifica o dístico de que o compositor cearense foi apenas o “precursor” no nacionalismo musical, revelando e relevando a importância de suas inúmeras peças inspiradas nas tradições e caracteres brasileiros, mas ofuscadas pelo lema e estereótipo de caráter nacional.

Maxixe, lundu, polcas, estão presentes na música de Nepomuceno, assim como habanera, tango e polcas, Wagner e Brahms.

Também, vale salientar, Nepomuceno não foi um imitador ou divulgador da música europeia, o que se compreende bem na pesquisa de João Vidal, curiosidade que o título do livro provoca. O autor coloca o compositor cearense como um grande e talentoso músico, que soube muito bem empregar a síntese de influências e ecletismo em suas criações.

Hoje, aos 152 anos de seu aniversário, Nepomuceno continua praticamente sem nenhuma grande comemoração no país.

cores sofridas

 
Assim como Chaplin, James Dean, Marilyn Monroe, Janis Joplin, Che Guevara, Amy Winehouse... e outros, Frida Khalo virou ícone, estampa de roupas e bolsas, ímã de geladeira, botons... O que não desvaloriza nem vulgariza o significado dos personagens propagados em larga escala.
O risco é o interesse limitar-se ao modismo, às passarelas de shoppings e vitrines com suas grifes caras, sem a procura de conhecer a importância de cada um deles, o que é mérito e o que é exagero da Idade Mídia.

Hoje Magdalena Carmen Frieda Kahlo y Calderón faria 109 anos. No próximo dia 13, 62 que ela se foi. Sua morte, embora tenha sido atestada por embolia pulmonar, deixou margem para especulações. Em seu diário, a última anotação: "Espero que minha partida seja feliz, e espero nunca mais regressar”.

Armstrong, o jazz

Louis Armstrong minutos antes de uma apresentação em Philadephia, 1958, fotografado por Dennis Stock.

Hoje, 45 anos sem o grande cantor tenor e trompetista de jazz.

cê tá pensando que sou loki?

68 anos hoje do mutante Arnaldo Baptista

um dia vestido de saudade viva

Seis anos hoje sem o cantor e compositor piauiense-brasiliense Clésio Ferreira.
Juntamente com os irmãos Clodo e Climério, foi referência em belíssimas composições para muitos cantores que surgiram na década de 70.
Uma história interessante por trás das canções: Clésio fez uma melodia para o poema Memória, de Carlos Drummond de Andrade, mas descobriu que outro compositor tinha feito. Clodo fez uma nova letra para a música, Raimundo Fagner ouviu, gostou, e pediu para gravar. Assim, nasceu o primeiro grande sucesso do cearense, Revelação, faixa de abertura do disco Eu canto, 1978.
Nesse mesmo ano foi lançado o ótimo disco, Chapada do Corisco, o segundo da carreira dos Ferreira, produzido por Fagner. Clésio, o primeiro à direita na capa, tinha 65 anos.

terça-feira, 5 de julho de 2016

entre o inferno e o paraíso

No final dos anos 60, por toda a década de 70 e boa parte dos anos 80 e pouco nos 90, o cinema industrial americano de Hollywood teve uma cartela de cineastas talentosos que souberam muito bem produzir filmes mesclando perfil autoral com fórmula comercial, revertendo-se em reconhecimento da crítica e do público com bilheteria rendosa.

Peter Bogdanovich, Francis Coppola, Robert Altman, Martin Scorsese, Bob Rafelson, Hal Ashby, Bob Fosse, John Cassavetes, Sidney Lumet, Sydney Pollack, Jerry Schatzberg, são alguns desses cineastas, incluindo necessária e merecidamente Michael Cimino, falecido no último dia 2, aos 77 anos.

Cimino se destaca como um diretor marcado nessa lista por contrapontos em sua substanciosa filmografia de apenas sete filmes: o estrondoso sucesso de O franco atirador (The deer hunter), 1978, e o bombástico fracasso de O portal do paraíso (Heaven's gate), 1980.

O primeiro, um dos mais rigorosos relatos sobre a Guerra do Vietnã, (comparável em crueza e verdade a Apocalipse now); o segundo, uma espécie de anti-western sobre os barões do gado e imigrantes europeus no final do século 19, em Wyoming.

Enquanto Cimino recebeu cinco Oscars e reputação no paraíso entre os produtores por Atirador, O portal o colocou no inferno por suas extravagâncias no set de filmagem, levando um ano para concluí-lo, extrapolando o orçamento de 12milhões de dólares para 44. A United Artists faliu e Cimino só conseguiu recuperar um pouco a credibilidade em 1980, com O ano do dragão, sobre a máfia chinesa em Chinatown.

Cimino precisa ser revisto em sua genuinidade, principalmente analisando os seus filmes pós-desastre com Paraíso. Com tenacidade, o cineasta demonstra em seus derradeiros trabalhos, como no alusivo drama Na trilha do sol (The Sunchaser), 1996, o rascunho inquietante de uma América inclemente e ambígua em sua arrogância e prepotência.

Pode parecer contraditório para um cineasta pertencente a um cinema mercantilista e ideologicamente dominador. Mas Cimino pagou um preço por mexer na ferida, por provocar discussões sobre genocídios e racismo na zona de conforto.

Hollywood é implacável. Abatido, longe dos sets, Michael Cimino adoeceu e definhou por vinte anos e se foi silenciosamente. Entrou para a história do cinema. Virou cult.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Marion

Atriz Marion Cotillard fotografada por Craig McDean, 2014

Juliette

Atriz Juliette Binoche fotografada por Robert Doisneau, 2010.

sonhando com Eva

A bela Eva Green, 36 anos hoje, atriz que ganhou projeção em seu primeiro filme, Os sonhadores (The dreamers/Innocents), de Bernardo Betolucci, 2003, a quem se refere com a graça de sonhador, “é tão linda que chega a ser indecente”...

O cineasta sabe que a beleza da atriz francesa com sua pele de neve, cabelos escuros, corpo esguio e olhos verdes hipnóticos, traz um talento raro, comprovado em sua atuação como a intrigante e sensual Isabelle, a jovem envolvida na trama ambientada durante revolução estudantil, numa Paris agitada de 1968, e na relação com americano Mattews. Ficou na memória a sequência dos dois e o irmão gêmeo dela, nus na banheira vitoriana de um apartamento.

Monica


Atriz Monica Bellucci fotografada por Willy Rizzo, 2002.

o mesmo fruto

O cineasta iraniano Abbas Kiorastami, que faleceu hoje aos 76 anos, disse uma vez em entrevista, que "uma árvore transplantada de sua terra natal para outro solo nunca mais dará os mesmos frutos."

Talvez ele quisesse aplicar a metáfora a si mesmo. Principal nome a projetar o cinema iraniano no Ocidente, quando lançou em 1987 o ótimo Onde é a casa do amigo? (Khane-ye doust kodjast?), Kiarostami passou a ser presença constante em festivais europeus, ganhando prêmios, e revelando para o mundo compatriotas igualmente talentosos, com um novo olhar enviesado da arte cinematográfica, como Jafar Panahi, Mohammad Rasoulof, Ashgar Farahdi, Monsen Makhmalbaf.

O regime muçulmano xiita do Irã fez o cineasta buscar financiamento e apoio para suas produções em outros países, como França e Japão. Não somente Kiarostami foi reprimido. Panahi foi duramente punido com prisão domiciliar.

Kiarostami tinha residência francesa, e desde 2010 rodava seus filmes fora de casa. Talvez por isso, com certa humildade, considere-se uma árvore que não brota os mesmos frutos. Não é assim. Seus filmes "europeus", como Cópia fiel (Copie conforme), 2010, com Juliette Binnoche, é um exemplar fidedigno de sua cinematografia.

a beleza do cinema

A bela Juliette Binoche no belo filme Cópia fiel (Copie conforme), 2010, do iraniano Abbas Kiarostami, que faleceu hoje aos 76 anos.

O cineasta morava em Paris. Expulso de sua terra pelo regime muçulmano xiita fez Kiarostami buscar financiamento e apoio para suas produções em outros países, como França e Japão.

encontro com o cinema

Um menino de oito anos de idade pega por engano o caderno de seu colega na escola. Mesmo que tenha que desobedecer a sua mãe, sai à procura do amigo pelo emaranhado de ruas do vilarejo distante, pois pode ser expulso se não levasse o dever de casa no dia seguinte.

Com esse enredo simples, o cineasta iraniano Abbas Kiorastami compõe um dos mais belos exemplares da cinematografia mundial, Onde fica a casa do meu amigo? (Khane-ye doust kodjast?), 1987.

Recursos de atores não profissionais, locações reais e falado na língua nativa farsi, delineiam ao filme uma concepção neorrealista.

Kiarostami, que faleceu hoje aos 76 anos, aborda e disseca com sutileza sentimentos profundos como lealdade e amizade.

Um filme como uma perfeita paráfrase do Cinema.

o cinema que continua

Acima, o cineasta iraniano Abbas Kiarostami nas colinas que cercam a capital Teerã, onde seu filme Gosto de cereja (T’am e guilass) foi rodado, em 1997, Palma de Ouro em Cannes.

O longa tem um dos finais mais criativos da história do cinema. Após desenvolver por mais de uma hora a narrativa de um homem de classe média tentando suicídio, vagando por paisagens rurais e desertos, pedindo ajuda para o ato extremo a pessoas que encontra, o cineasta surpreende entrando ele mesmo em cena, gravando. Libera os atores que interpretam os soldados, que colhem flores, e o filme termina. O espectador sai, mas o filme continua: o homem, afinal, suicidou-se?

Abbas Kiarostami faleceu hoje de câncer, aos 76 anos, na França, onde morava desde 2010. Seu cinema grandioso continua.

o cinema no cinema

Um rapaz se hospeda na casa de uma família de classe média alta, em Teerã, admiradores de arte, e passando-se pelo cineasta Mohsen Makhmalbaf pede ajuda para financiar um filme.

Abbas Kiarostami, que faleceu hoje aos 76 anos, desenvolve um enredo simples em uma narrativa de metalinguagem surpreendente, tornando Close-up, de 1990, obra-prima da cinematografia moderna.

Kiarostami referencia Makhomalbaf, um dos nomes importantes do novo cinema iraniano, como matéria e substância do próprio cinema, assim como ele, diretor, pulsa no corpo do personagem como o eu-consciente, um alter ego. O cinema reverbera em três personagens, dois que existem, e um que poderia existir. Ou um ficcional para onde bifurcam os verdadeiros.

O filme dentro do filme dentro cinema. Não à toa, o título.

confissões de uma deusa

Ava Gardner é considerada uma deusa do cinema, com mais de 60 filmes, entre eles o mais emblemático para o atributo, Vênus, a deusa do amor (One touch of Venus), de William Seiter, 1948.

Nas décadas de 40 e 50, quando as loiras dominavam o título de símbolo sexual nas telas, a bela morena de vinte e poucos anos de Carolina do Norte veio com tudo, impondo-se como atriz de personalidade forte e própria para papeis dramáticos, além de se destacar como o mais belo rosto do cinema à época.


A vida pessoal de Ava Gardner se confundia muito com seus personagens, principalmente nos casamentos conturbados com o ator Mickey Rooney, o clarinetista de jazz Art Shaw e o cantor Frank Sinatra.

Em 2013 foi lançado o livro de memórias Ava Gadner: conversas Secretas, que como o próprio título diz, são longos relatos da vida íntima da atriz ao jornalista Peter Evans. Ava não chegou a concluir o que ela chamava de confissões: faleceu em 1990, aos 67 anos, paralítica, em consequência de um derrame cerebral, já abatida por um enfisema adquirido pelo abuso de álcool e cigarro durante o estrelato em Hollywood.

O texto é de uma precisão impressionante nos relatos. A atriz conta sua história sem culpas, sem contrições e autocomiseração, e, praticamente “entrega” personalidades de caráter ambíguo e controverso, como o aviador bilionário Howard Hughes, com quem teve um relacionamento por dez anos e tinha sucessivas discussões, acusando-o de racista.

Para lançar o livro tão tardiamente, o biógrafo preferiu amadurecer a proposta do trabalho de pesquisa, revendo, analisando e constatando o teor do conteúdo das conversas que teve com a atriz.