quinta-feira, 30 de junho de 2016

coreografia da alma

A grande bailarina e coreógrafa alemã Pina Bausch partiu para outros palcos há sete anos, hoje. Em 2011, Wim Wenders lançou uma merecidamente homenagem, o documentário Pina. Duas horas de fascinação na tela.

O filme estava sendo rodado quando a bailarina foi diagnosticada com câncer. O cineasta tocado com a partida repentina continuou o documentário de forma ainda mais belamente surpreendente, manteve muitas das imagens da coreógrafa enquanto novas cenas são captadas, em espetáculos, entrevistas, silêncios...


Para dar essa composição sensorial, Wenders filmou em 3D, e assim reproduz uma sublime sensação de imaterialidade, como se a bailarina continuasse com sua presença no mesmo instante, em diálogo coreográfico de uma dimensão palpável com o abstrato, do tablado com o metafísico, do sonho dentro da realidade. Nunca no cinema o recurso tecnológico da tridimensionalidade foi tão bem e corretamente usado, ao contrário do que se vê em produções hollywoodianas.

Pina é um dos mais criativos documentários do cinema moderno, assim também como fez a cineasta belga Chantal Akerman em 1983, com Un jour Pina m'a demande, registro de viés conceitual de uma turnê da companhia da bailarina pela Europa, produzido para televisão.

Assim como a dança desenha e esculpe no espaço a respiração da alma, Wim Wenders consegue consubstanciar o onírico. E quando se trata de Pina Bausch a proporção do olhar reverbera infinitamente.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

a vez de Pedro, a voz de Paulo

Na liturgia católica, Pedro e Paulo são considerados como exemplos de apóstolos fiéis a Cristo.
Hoje é celebrada a festa em homenagem aos dois santos. A escolha da data é muito remota, não se sabe se foi marcada pelo dia da morte de um deles, ou se pelo traslado de seus restos de um local para outro.

Na tradição do Cristianismo, a remoção dos restos mortais e dos objetos pertencentes aos santos, era um ritual que se estendia por horas, com procissões e vigílias madrugada a dentro.

Não à toa, hoje no Vaticano o Papa entrega aos bispos e arcebispos o símbolo primário do cargo. Pedro foi o primeiro a ocupar o trono onde está o argentino Francisco, e ficou com a tiara de Sumo Pontífice por 37 anos.

Nas Igrejas Ortodoxas a data é também lembrada e festejada com a celebração de Jejum dos Apóstolos.

Ao longo dos séculos, esses movimentos ecumênicos foram marcados por alterações, adaptações, o que faz o mundo moderno confundir religião com fé.

No Brasil, seguimos o costume de comemorar com festas, bandeirinhas, comidas típicas, danças. E, sobretudo, com as chamadas "simpatias", como casar ou alcançar graças mais difíceis.

Durante o mês apelou-se para Santo Antônio, São João... Agora é com Pedro. Paulo continua na dele, é o biógrafo do Cristianismo.

(A reprodução da imagem abaixo é um grafite do século IV, encontrado em uma catacumba romana onde supostamente estavam os dois santos)

o olhar do cinema



“Eu não vim para Hollywood para ser a garota ao lado. Eu vim para ser uma estrela de cinema”, disse a atriz Jayne Mahsfield, no começo da década de 50, quando estreou nas telas, e foi uma das primeiras a posar na Playboy, além de ser apontada como a grande rival de Marilyn Monroe.
Jayne, falecida em um acidente de carro há 49 anos hoje, quando tinha apenas 34, ficou conhecida por suas artimanhas de publicidade, muito mais do que por seu talento nas telas. Fazia de tudo para atrair a atenção de todos. Um dos principais incidentes envolveu Sophia Loren.
Seus seios eram o foco de um golpe de publicidade notória. Em 1957, durante um jantar em homenagem à estrela italiana, no restaurante Romanoff, em Beverly Hills, Mansfield entrou no local chegando mesmo, fazendo-se notar a cada passo e rebolado, e "naturalmente" foi direto à mesa onde estava a convidada. Chegou, cumprimentou, e sentou-se, separando Loren de seu companheiro de jantar, o ator Clifton Webb. A intenção foi desviar a atenção da mídia sobre a atriz, já consagrada em clássicos como "Quo Vadis?", "Noites de Cleópatra", "O signo de Vênus", além de ser casada com o grande produtor de cinema Carlo Ponti.
Uma sequência de fotos foi publicada em várias revistas, mostrando o olhar de Loren caindo sobre o decote de Jayne Mansfield, que ao chegar se inclinou sobre a mesa, permitindo que seus seios ficassem à mostra, expondo um mamilo.
Analisando as fotos por outro viés, pode-se teorizar sobre um dos conceitos mais forte que definem uma narrativa cinematográfica. Ali não era um filme, claro. Mas na tela quando a expressão de um personagem desenha uma reação muito forte diante do que não vemos, mas conseguimos "ver" através desse olhar, o cinema atinge sua mais completa tradução. Cinema é sugestão. Cinema é também o que está fora do quadro. É o outro lado da lua.
A arte não imita, reflete a vida. Os volumosos e belos seios de Mansfield chamaram a atenção do mundo e dos presentes no Romanoff naquela noite. Mas foi o olhar de Sophia Loren que se cristalizou para sempre com o incidente.
Sophia, atriz. Mansfield, estrela. Longa é a arte, breves os seios de Mansfield. Na boa.

terça-feira, 28 de junho de 2016

o tempo não para

Durante oito anos o fotógrafo Barry Feinstein acompanhou Bob Dylan em uma turnê pela Europa, em gravações, shows e passeios.

Real Moments: Bob Dylan 1966-1974, livro lançado em 2008, reúne belíssimas e surpreendentes fotografias, muitas pouco divulgadas.

Feinstein tinha feito em 1963 a clássica foto do jovem Dylan que estampa a capa de The Times They Are A-Changin, terceiro álbum de estúdio, lançado em janeiro de 64, alguns meses depois do assassinato de Kennedy.

O fato perturbou o cantor, que trazia no disco letras fortes sobre mudanças sociais e políticas, como diz o título, e com melodias inspiradas no folk irlandês e escocês. No disco seguinte Dylan abandona um pouco essas influências e mergulha nas inquietações da geração beat.

somewhere over the rainbow

No começo da madrugada de 28 de junho de 1969, oito policiais, alguns deles à paisana, entraram no bar Stonewall Inn, em Nova Iorque, e aos gritos anunciaram que estavam tomando o lugar, ocupando o território, com a violência característica da arbitrariedade e preconceito. Predominante gay, o local era constantemente alvo de batidas policiais.

O ataque daquela noite, porém, teve repercussão inesperada e histórica. Motins reverberaram seguidamente entre os frequentadores, como reação às represálias, à discriminação e cerceamento da liberdade.

Os protestos desencadeados culminaram com a marcha ocorrida no dia 1º de julho de 1970. O evento tornou-se precursor das atuais Paradas do Orgulho Gay.

Renato Russo lançou em 1994 o seu primeiro disco solo, intitulado “The Stonewall Celebration Concert”, em comemoração aos 25 anos dos motins. Com 21 belíssimas canções em inglês, de clássicos de Irvin Berlin e Leonard Berstein ao pop-folk da alemã-britânica Tanita Tikaram, passando por Bob Dylan, Madonna e Billy Joe, o disco é precioso pelo repertório e pontuação ao histórico acontecimento.

É lamentável que essa onda conservadora, direitista, fascista, que circula e avança em todo o mundo em pleno século 21, seja preocupantemente proporcional a tantos direitos adquiridos, pela liberdade, pela paz, pelas diversidades, por todas as escolhas que se conquistou ao longo de décadas.

O massacre na boate Pulse, em Miami, no começo deste mês, é terrivelmente assustador, só revela um retrocesso inimaginável em um mundo em que a tecnologia e a ciência evoluem diametralmente opostas ao desmoronamento dos princípios, dos valores, em direção à barbárie.

Lembrando Eduardo Galeano, continuemos andando, lutando, para isso significam as utopias, para que não fiquemos parados. A meta é caminhar em direção além do arco-íris.

Raul Rock Club

Raul Seixas nasceu em 1945. "Metamorfoseou" a idade para poder ser membro do fã clube do seu ídolo Elvis.

Hoje ele faria 71 anos. Mesmo! Ou sim. Ou o oposto do que ele disse antes.

o real e o poético

O holandês Joris Ivens foi um dos maiores documentaristas da história do cinema, um dos expoentes do gênero. Por negar os traços e composição de uma cinematografia industrial, seus filmes eram vistos como experimentais, mas sem a alcunha de um cinema meramente empírico, e sim inventivo, autêntico, dinâmico, que buscava na aproximação orgânica com os temas a construção de uma linguagem, a interação do que podemos dizer do que são sujeito e objeto da arte cinematográfica, com um realismo curiosamente captado de forma minimalista.

Falecido há 27 anos, hoje, a característica em seus filmes é a estrutura poética das imagens, integrando os elementos da natureza ao ser humano, e, principalmente, o homem em seu trabalho, registrando e relacionando as atividades múltiplas e singulares de várias regiões do mundo.

A água era uma fascinação em Joris Ivens, que ficou muito bem definida logo seu segundo curta-metragem, Chuva (Regen), de 1929. Nuvens, pássaros, árvores, um homem na bicicleta, outros que atravessam a rua, um bonde que passa, guarda-chuva, o vento, o céu... e a chuva que molha como se abraçasse a alma de todos e de tudo.

O cinema de Joris Ivens corre como um rio.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

efígie

Laetitia Casta, modelo e atriz francesa, fotografada por Kate Barry, 2004.

Em 1999 foi escolhida para ser o rosto de “Marianne”, a efígie que representa a república francesa.

beijo

foto John Stezaker, 1976

os gigantes

James Dean e Elizabeth Taylor, fotografados por Richard Miller, 1955, nos intervalos das filmagens de Assim caminha a humanidade (Giant), de George Stevens.

everything's gonna be alright

Bob Marley fotografado por Kim Gottieb-Walker, 1975.

Keith e Patti

Keith Richards  Patti Hansen, fotografados por Lynn Goldsmith, New York, 1981.

Patti

Patti Smith fotografada por Judy Linn, 1969.

cores de Kieślowski



O cineasta polonês Krzysztof Kieślowski teve uma vida curta, uma morte precoce, aos 54 anos. Mesmo assim, deixou uma significativa filmografia com 28 títulos.
Como o compatriota e contemporâneo Roman Polanski, sua carreira dividiu-se entre a terra natal e França, onde a partir de 1990 começou a dirigir filmes que tiveram uma visibilidade maior em termos de mercado.
Dessa fase, é famosa a chamada Trilogia das Cores, com os ótimos A liberdade é azul (Trois couleurs: Bleu), A igualdade é branca (Trois couleurs: Blanc) e A fraternidade é vermelha (Trois couleurs: Rouge), realizados em 1993 e 94.
Com referência às cores da bandeira da França e menção ao lema da Revolução Francesa, os filmes abordam tramas e dramas atuais tendo como fundo a unificação da Europa, os conflitos de imigração, os laços de amizade.
A trilogia foi seu último trabalho. Em 1996, dois anos depois do lançamento de A fraternidade é vermelha, o rouge do coração de Kieślowski parou após complicações de uma cirurgia.
Hoje ele faria 75 anos.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Elza

foto Stèphane Munnier, 2015
A cantora faz hoje 71 anos. Ou 80, como registram alguns biógrafos.

Como ela mesma diz no seu ótimo disco recente, é a "mulher do fim do mundo / eu sou e vou até o fim cantar..."

saudade

"A saudade é um lugar onde os ausentes se encontram."
-Paulo Sérgio Viana

quarta-feira, 22 de junho de 2016

o mesmo fruto

O cineasta iraniano Abbas Kiorastami disse uma vez em entrevista, que "uma árvore transplantada de sua terra natal para outro solo nunca mais dará os mesmos frutos."

Talvez ele quisesse aplicar a metáfora a si mesmo. Principal nome a projetar o cinema iraniano no Ocidente, quando lançou em 1987 o ótimo Onde é a casa do amigo? (Khane-ye doust kodjast?), Kiarostami passou a ser presença constante em festivais europeus, ganhando prêmios, e revelando para o mundo compatriotas igualmente talentosos, com um novo olhar enviesado da arte cinematográfica, como Jafar Panahi, Mohammad Rasoulof, Ashgar Farahdi, Monsen Makhmalbaf.

O regime muçulmano xiita do Irã fez o cineasta buscar financiamento e apoio para suas produções em outros países, como França e Japão. Não somente Kiarostami foi reprimido. Panahi foi duramente punido com prisão domiciliar.

Kiarostami, que hoje faz 76 anos, tem residência francesa, e desde 2010 roda seus filmes fora de casa. Talvez por isso, com certa humildade, considere-se uma árvore que não brota os mesmos frutos. Não é assim. Seus filmes "europeus", como Cópia fiel (Copie conforme), 2010, com Juliette Binnoche, é um exemplar fidedigno de sua cinematografia.

hermetismo pascoais

"O amor é cego
Ray Charles é cego
Stevie Wonder é cego
E o albino Hermeto não enxerga mesmo muito bem"

(Trecho de O estrangeiro, de Caetano Veloso, faixa 1 do disco homônimo, 1989)

Cego às avessas, como nos sonhos, eles veem o que desejam: música!

O compositor, arranjador, multi-instrumentista Hermeto Pascoal, nasceu nas Alagoas há 80 anos, hoje.

Parabéns do Universo iluminado ao grande bruxo de todos os sons!

Andy

Andy Warhol fotografado por William Claxton, 1960

terça-feira, 21 de junho de 2016

Jane Russell

Jane Russell tinha feito dez filmes quando sua carreira impulsionou em Os homens preferem as loiras (Gentlemen prefer blondes), embora tenha sido a "preterida" no título do filme, contracenando com a blonde Marilyn Monroe.
A comédia musical, dirigida por Howard Hawks em 1953, na verdade não coloca as atrizes nos papéis de duas coristas como inimigas, nem concorrentes que disputam a atenção dos homens pelo lusco-fusco da pele de uma em detrimento da pigmentação diáfana de outra.
As atuações de Russell e Monroe são pontuações de perfis dentro do enredo. Mesmo narrada em situações divertidas, com humor típico das comédias da época, o filme faz lá uma crítica sobre caráter, acerca de posturas desacertadas de uma sociedade que ludibria os valores humanos.
Enquanto a morena é atraída por homens de boa forma, atléticos, sem maiores exigências econômicas, a loira tem gosto declarado pelos diamantes, e consequentemente por homens que possam lhe favorecer os anseios de um casamento seguro.
Como a cartilha da cinematografia industrial hollywoodiana preceitua, tudo acaba bem, em “happy end” clássico: as duas tem suas reflexões, o discurso sobre a objetivação do ser humano, como mercadoria, produto, artigo, item, etc etc etc... emoldurado com a sequência final do duplo casamento, ambas com seus respectivos amados. Algo bobo no subtexto como “os homens preferem loiras e morenas”.
Acima, Jane Russell, que hoje faria 95 anos, fotografada aos 20 por George Hurrell, em ensaio promocional do seu primeiro filme, O proscrito (The outlaw), de Howard Hughes, 1943.

domingo, 19 de junho de 2016

tijolo com tijolo num desenho lógico

A edição brasileira de 2009 da revista Rolling Stone fez uma enquete com 90 críticos especializados e mais alguns jornalistas da área musical, para saber quais as 100 maiores canções brasileiras. A lista foi destaque do número que comemorou três anos de publicação nacional.

"Construção", de Chico Buarque, ficou em primeiro lugar.

Composta em 1971, em pleno regime truculento do general Médici, é uma das letras mais bem elaboradas em toda história da música brasileira. Pouco se viu tamanha preciosidade poética.

Chico completa hoje 72 anos. Ergueu no patamar da música brasileira quatro paredes mágicas.

o dono da voz

Em 1980, sucessivos desentendimentos com a gravadora Ariola fizeram Chico Buarque buscar outro selo, a Polygram. O compositor, que hoje completa 72 anos, se viu meio encrencado no último dia de gravação de seu novo disco: a Ariola fora vendida exatamente para a nova gravadora de Chico. A confusão deu origem à bem-humorada canção A voz do dono e o dono da voz, última faixa do lado A do LP Almanaque, de 1982.

O bolachão é um dos melhores de Chico na década de 80. Tem lá Vitrines, Ela é dançarina, O meu guri, Tanto amar...

A criação da capa, contracapa e encarte do disco, assinada por Elifas Andreato, é uma obra-prima à parte: desenhos, ilustrações que remetem aos velhos almanaques em forma de livrinhos que tratavam de vários assuntos, como datas festivas, feriados, luas, eclipses, horóscopo, pensamentos, trechos de literatura, poesias, anedotas, charadas, palavras cruzadas, e coisas como datas certas para o plantio.

nosso cinema de cada dia

Hoje, quando se comemora o Dia do Cinema Brasileiro, lembro do crítico e historiador Jean-Claude Bernardet, que em seu livro "Cinema brasileiro, propostas para uma história", 1978, diz que "não é possível entender qualquer coisa que seja do cinema nacional, se não se tiver em mente a presença maciça e agressiva, no mercado interno, do filme estrangeiro."

E foi o italiano Afonso Segreto, o primeiro cinegrafista e diretor do país. Naquele 19 de junho de 1898, ele registrou as primeiras imagens em movimento do território brasileiro: a entrada da baía de Guanabara, a bordo do navio (francês!) Brésil.

sábado, 18 de junho de 2016

open your eyes

Há 52 anos, quando Paul McCartney começou a cantar "close your eyes and I’ll kiss you...", de All my loving, no programa The Ed Sullivan, em Nova Iorque, a América não fechou mais os olhos e se rendeu ao fenômeno do quarteto de Liverpool.

Hoje a voz dos Beatles completa 74 anos.
 
All my loving I will send to you, Paul.

Isabella

Isabella Rosellini, que hoje faz 64 anos, fotografada por Robert Mapplethorpe, New York, 1988.

a senhora do engenho

"Better, better, beta, beta, Bethânia / please, send me a letter / wish to know things are getting better... "'

Caetano Veloso tinha 4 anos de idade quando sua irmã Bethânia nasceu, em 18 de junho de 1946.

Na Rádio AM de Santo Amaro a voz de Nelson Gonçalves entoava a valsa Maria Bethânia, composta por Capiba, em 1944. O menino mano Caetano sugeriu ao pai Zeca aquele nome para a mana que chegava.

A relação entre os sete irmãos Viana Teles Veloso sempre foi muito forte. Roberto, Clara, Caetano, Isabel, Irene, Rodrigo, Nicinha, são enroscados em afetos e homenagens, axés e acarajés.

Com Bethânia, Caetano tem uma maior proximidade e cumplicidade afetiva e musical. Durante o exílio político em Londres, o cantor compôs para a irmã a bela canção que tem seu nome, gravada no seu terceiro álbum solo, de 1971.

Essa e as demais músicas do disco, exprimem uma toada melancólica além-mar, uma quimera. Bethânia ouvia a canção como se lia uma carta com saudades.

a última madrugada

"Cada coisa chegará no tempo próprio, não é por muito ter madrugado que se há de morrer mais cedo."

José Saramago, que madrugou pela última vez há seis anos, 18 de junho.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

o último ensaio

Marilyn Monroe fotografada por Bert Stern, em seu último ensaio para a revista Vogue, numa suíte do hotel Bel-Air, Los Angeles, 1962.

As imagens foram feitas seis semanas antes de sua morte.

tudo ao mesmo tempo

"O cinema pode ser muitas coisas ao mesmo tempo: amor, drama, paixão, e também diversão, mas isso não quer dizer trivialidade. Também nos faz vibrar e afeta nossas vidas, pois nos permite conhecer melhor a condição humana. Tem muita força e pode nos fazer crescer e nos fazer nos indignarmos."
- Ken Loach, cineasta inglês, 80 anos hoje de amor, drama e paixão pelo cinema.

Loach foi o vencedor em Cannes deste ano, recebendo a Palma de Ouro por Eu, Daniel Blake (I, Daniel Blake), drama com o viés esquerdista tão característico de sua carreira, assim como em Ventos da liberdade (The wind that Shakes the Barley), um dos seus trabalhos mais significativos, também premiado no festival francês, em 2006.

Abaixo, o cineasta fotografado por Jean Pierre-Vallorani no set de Ladybird Ladybird, de 1994, considerado um dos 1000 melhores filmes da história do cinema.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

a lógica da imaginação

Psicose (Psycho), 56 anos de lançamento hoje, foi filmado em preto e branco por opção do próprio Alfred Hitchcock, que considerava que a cores o filme ficaria "ensanguentado" demais. Para criar o sangue na cena do chuveiro foi utilizada calda de chocolate.

Tudo coerente com estilo do cineasta, que dizia que "existe algo mais importante do que a lógica: é a imaginação. Se pensamos primeiramente na lógica, não podemos imaginar mais nada."

Alfred Hitchcock, o mestre do suspense. O único. O inimitável.

jovem cavaleiro no sertão da memória

Abissal, curta-metragem do cearense Arthur Leite, abre hoje o 26º Festival Cine Ceará, participando da Mostra Competitiva.

Com viés pessoal, com o próprio cineasta e seus familiares no centro temático, o filme é excelente, quebra a mesmice narrativa da métrica comportada, pudorada entre o sujeito e o objeto, entre o olhar através do enquadramento e o recorte de uma memória diante da câmera.


Simples, direto, discreto, como um menino saudoso e ao mesmo tempo perdido, Arthur palmilha o chão de sua casa e de sua infância, revê avós e fotografias. Vai de encontro a uma coisa e se reencontra em outra, nele mesmo e nos parentes. O cinema como tempo e matéria. O cinema como cinema, em estado puro de sua definição, sem truques, sem malabarismos.

O curta foi premiado como o Melhor Filme na categoria, no 21º É Tudo Verdade - Festival Internacional de Documentários.

Simone

Simone de Beauvoir, fotografada por Elliot Erwitt, Paris, 1949.

Sammy

Sammy Davis Jr, fotografado por Burt Glinn, New York,1959.

Tatum

Art Tatum fotografado por Phil Stern, New Yook, 1947.

Ella e ele

Ella Fitzgerald e Louis Armstrong, fotografados por Phil Stern, 1946.

coração partido

foto Will McBride, Paris, 1964
A atriz austríaca Romy Schneider foi marcada por uma tempestade de problemas pessoais em seus 43 anos de vida.

Mãe dominadora que controlou sua carreira ainda adolescente, suicídio do primeiro marido, o diretor de teatro Harry Meyen, morte trágica do filho de 14 anos, um casamento atribulado com Alain Delon, sérias complicações de saúde com um tumor no rim...

Romy não gostava de ficar eternamente associada a personagem do filme Sissy, trilogia rodada entre 1955 e 1957, dirigida por Ernst Marischka, centrada na vida da imperatriz Elisabeth von Bayern. Para dar uma guinada radical e acabar com essa imagem de "filha boazinha" e "jovem princesa inocente", a atriz escandalizou com sua atuação em Senhoritas de uniforme (Mädchen in uniform), de Geza von Radvanyi, 1958, filme com ousadas cenas de lesbianismo para a época. Não adiantou muito.

Vários outros filmes lhe deram muito mais consistência como atriz, revelando sua grande capacidade dramática e sua beleza exuberante.

Glamour e reconhecimento não amenizaram as dores e adversidades de sua vida fora das telas. Semanas antes de morrer, Romy ligou para a mãe e se disse ”uma mulher acabada, isto com 43 anos".

Logo após a estreia do seu último filme, La passante du Sans-Souci, em 1982, a atriz foi encontrada morta pelo marido no apartamento em Paris. A mistura de álcool e medicamentos não tinha mais como lhe garantir a vida.

"Romy morreu de coração partido", diagnosticou o médico.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

maiores abandonados

foto Carlos Teles
A ONU, em 2006, instituiu 15 de junho como "O Dia Mundial de Conscientização da Violência contra a Pessoa Idosa".

A sociedade capitalista, como bem refletia duramente Walter Benjamin, desarma o velho mobilizando mecanismos pelos quais oprime a velhice, destrói os apoios da memória e substitui a lembrança pela história oficial celebrativa.
foto Carlos Teles

voz e elegância

Ella Fitzgerald aos 23 anos, fotografada por Carl Van Vechten, 1940.
Hoje, 20 anos sem a "First Lady of Song", voz e elegância do jazz.

terça-feira, 14 de junho de 2016

alguém para ficar do seu lado


a libertadora

Assim como Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison, Brian Jones, Kurt Cobain, Amy Winehouse, Noel Rosa, nossa musa maior, Leila Diniz, também morreu aos 27 anos, em 14 de junho de 1972.

Tão jovem, tão bela, tão autêntica, e muito à frente do seu tempo, Leila é a definição exata do poeta Carlos Drummond de Andrade: "Sem discurso nem requerimento, ela soltou as mulheres de vinte anos presas ao tronco de uma especial escravidão."

a leste do éden

foto Daniel Mordzinski

O poeta argentino Jorge Luis Borges dizia que sempre imaginava o Paraíso como uma espécie de livraria.

Hoje faz 30 anos que ele foi até ao Éden ver como está a repercussão de seus livros.

o último solo

O disco acima é o primeiro trabalho solo do guitarrista pernambucano Ivinho, gravado ao vivo no Montreux International Jazz Festival, 1978.

Há quem diga que Gilberto Gil foi o primeiro brasileiro a se apresentar no festival suíço... O baiano estava lá, e seu show também virou disco. Mas Gil apresentou-se com sua banda, formada por músicos como Pepeu Gomes e Djalma Correia. 
Ivinho foi o primeiro artista do Brasil a tocar sozinho no imenso palco do concorrido festival.


Em junho do ano passado, debilitado e sofrendo muito no hospital, em consequência de uma hemorragia digestiva, e sabendo da brevidade de suas horas, o músico suspirou uma frase tocante: "Meu colírio são as lágrimas", diante parentes e amigos.

Não resistiu e se foi aos 68 anos.

el nombre del hombre muerto

Obra do pintor renascentista Andrea Mantegna, Lamentações sobre Cristo morto, 1490, exposta em uma pinacoteca em Milão.

O belíssimo quadro lembra a imagem de Che Guevara morto, o cadáver exposto num lavadero do hospital Nuestro Señor de Malta, en Vallegrande, Bolivia.

"El nombre del hombre muerto, ya no se puede decirlo, quién sabe? antes que o dia arrebente, antes que o dia arrebente..." (Caetano Veloso, em "Soy loco por ti, America").

Che faria hoje 88 anos.

matriz do samba

"Não sei quando volto, mas não estou triste."

Dois anos antes de falecer, em 14 de junho de 2008, aos 95, o cantor Jamelão assim se despediu numa entrevista.

O grande intérprete dos sambas-enredo da Mangueira estava com a saúde abalada, era diabético e hipertenso. Ainda tinha o vozeirão, sua marca registrada em canções dor-de-cotovelo, como a clássica Matriz e filial, mas sem forças para se apresentar em shows.

Sabemos que não volta, por isso ficamos tristes.

três meninas do Brasil

As irmãs cegas Maria das Neves, Regina e Conceição desde crianças se apresentam cantando e tocando ganzá em troca de esmolas nas cidades e feiras nordestinas.

O documentário A pessoa é para o que nasce, de Roberto Berliner, 2004, narra a trajetória em vários dias na vida difícil e resignada das três, revela as estratégias de sobrevivência, acompanha uma trama complexa de amor e morte, miséria e arte.

São senhoras e meninas em sua pureza, em um mundo que se ilumina somente para elas no interior de suas escuridões.

Durante a construção do filme, uma reviravolta: o “efeito-cinema” na vida das mulheres, tornando-as conhecidas, célebres em suas simplicidades.

O filme em uma segunda etapa da narrativa, mostra que diretor e personagens confrontam-se com os laços que surgem entre eles, revelando a sedução e os riscos do ofício de documentarista.

A pessoa é mesmo para o que nasce?

segunda-feira, 13 de junho de 2016

somewhere over the rainbow



Quando o cantor havaiano Israel Kamakawiwo'ole, conhecido como IZ, faleceu em 1997, uma grande comoção envolveu os habitantes do arquipélago. Com sete discos gravados, sempre manteve-se na luta pela independência do Havaí, não admitia que sua terra fosse apenas mais um grupo de ilhas dos EUA.
E foi justamente com a versão de dois clássicos do cancioneiro norte-americano que IZ ganhou projeção internacional: Over the Rainbow, da década de 30, e What a Wonderful World, anos 60, imortalizados pelas vozes de Judy Garland e Louis Armstrong, respectivamente.
Com sua interpretação doce, ao som apenas do pequeno instrumento ukelelê, IZ uniu as duas músicas, numa mixagem natural tornando uma só canção. Foi trilha de filmes e comerciais no começo da década de 90.
O cantor teve um funeral digno de personalidade. Os nativos em barcos coloridos pelas águas do Pacífico, jogaram suas cinzas em um ritual de cantos, silêncio e saudade.
IZ tinha 37 anos, não resistiu aos problemas respiratórios causados pela obesidade mórbida.
Sua voz continua, em algum lugar além do arco-íris.

os argonautas

"Navigare necesse; vivere non est necesse"

O general romano Pompeu, por volta do século 70 a.C., disse essa frase aos seus marinheiros, que amedrontados, se recusavam viajar durante a guerra.

Naqueles tempos os riscos de navegação eram tão grandes quanto a extensão dos mares. A pirataria atemorizava tanto quanto as tempestades.

Mas Roma precisava se recuperar de uma grave crise de abastecimento, necessitava transportar trigo de outras províncias. Enfrentar os oceanos e seus perigos era necessário.
Fernando Pessoa, que hoje faz 128 anos de nascimento, foi um apaixonado pela tradição dos mares. E tomou emprestado a frase, como mote, como inspiração, para escrever o poema .
Navegar é preciso

E assim o poeta navega, discorre o poema em alegorias, pela necessidade de criar, de arriscar, em vez de viver recolhido diante às incertezas: "não conto gozar a minha vida; / nem em gozá-la penso. / Só quero torná-la grande, / ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo."