sexta-feira, 29 de abril de 2016

começaria tudo outra vez

Na manhã de 29 de abril de 1991 o carro de Gonzaguinha bate de frente com um caminhão, em uma estrada de Curitiba em direção a Foz do Iguaçu, onde faria show.
A súbita morte do cantor, aos 45 anos, deixou uma vazio na música brasileira, insubstituível como tudo que é uma só vez na vida.
Um dos mais forte contestadores do regime militar, o cantor tem em sua em sua obra o exemplo de resistência e poética nas canções.
Nestes tempos temerosos, com certeza ele bradaria "a gente quer viver numa nação / a gente quer é ser um cidadão".

o duke do jazz

O pianista Duke Ellington é considerado o maior compositor de jazz de todos os tempos, e o primeiro músico do gênero a entrar para a Academia Real de Música de Estocolmo.
Mortal, não faria hoje os 117 anos de vida, mas sua música imortal continuará por séculos.
Acima, Ellington fotografado por Koen Keppens, em Paris, 1958.

só quero chocolate

Psicose (Psycho), 1960, foi filmado em preto e branco por opção do próprio Alfred Hitchcock, que considerava que a cores o filme ficaria "ensanguentado" demais. Para criar o sangue na cena do chuveiro foi utilizada calda de chocolate.
Tudo coerente com o pensamento do mestre, que dizia que "existe algo mais importante do que a lógica: é a imaginação. Se pensamos primeiramente na lógica, não podemos imaginar mais nada."
Alfred Hitchcock, o mestre do suspense. O único. O inimitável.
Hoje, 36 anos sem a lógica de sua imaginação.

pin-up madrileña

Quando Penélope Cruz desembarcou em Hollywood, em 2000, dizia que só sabia falar duas frases em inglês: "how are you doing?" e "I want to work with Johnny Depp".
Conheceu muita gente e trabalhou com o ator em Piratas do Caribe 4 dez anos depois.
A hermosa musa de Almodóvar, que hoje completa 42 anos, mantém uma carreira sólida enquanto Hollywood oferece a vitrine que tem para dar. Nem precisaria. Suas atuações no cinema espanhol, desde Jamon, jamon, em 1992, lhe asseguram a atriz talentosa que é.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

a deusa dos tempos

Ursula Andress é Ayesha, a reencarnação de uma ancestral rainha egípcia com a chama eterna da juventude no filme She, no Brasil intitulado reforçadamente A Deusa da Cidade Perdida, para que ninguém tivesse dúvidas de como a beleza reverbera pelos tempos.
Dirigido por Robert Day em 1965, o filme é uma típica aventura fantástica produzida pelos estúdios da inglesa Hammer, baseada no mesmo autor de As minas do Rei Salomão.
A atriz suíça, hoje aos 80 anos, foi um dos símbolos sexuais do cinema nos anos 60, e a primeira a receber a faixa de bond-girl, em 007 Contra o Satânico Dr. No, com a memorável cena em que ela sai das águas em um provocante biquíni branco, com uma faca na cintura e carregando duas conchas, sabe-se lá porque, enlouquecendo Sean Connery e a plateia.
A icônica cena foi repetida como uma homenagem em “007 - Um novo dia para morrer, de 2002, com a deusa ébano Halle Berry.

o deserto de cada um

Michelangelo Antonioni e Monica Vitti no set de filmagem de O deserto vermelho (Il Deserto Rosso), 1964.
Foi o primeiro filme colorido do cineasta. Para ele, o advento tecnológico no cinema não poderia ser incorporado ao seu trabalho simplesmente pela novidade. As cores deveriam organicamente fazer parte da essência do filme, um elemento narrativo, anímico.
A concepção conceitual do diretor de fotografia Carlo Di Palma expressa muito bem a tese e decisão de Antonioni. Filme denso e expressivo, o sangue da angústia e deserto da solidão dos personagens estão em cada gesto, cada olhar, cada fotograma.
Foi também o último trabalho do diretor com sua musa Monica Vitti.

personas

O diretor de fotografia Sven Nykvist enquadra o diretor Ingmar Bergman, que enquadra a atriz Bibi Anderson que se enquadra no personagem em Persona, 1966, que se enquadra em dos melhores filmes da história do cinema.

estradas

Federico Fellini enquadra Giulietta Masina, que se enquadra na personagem Gelsomina em A estrada da vida (La strada), 1954, que se enquadra em um dos melhores filmes da história do cinema.

noites

O cineasta François Truffaut se enquadra no personagem do cineasta Ferrand, que enquadra a atriz Jacqueline Bisset se enquadrando na personagem da atriz Julie, enquadrados no filme dentro do filme A noite americana (La nuit américaine), 1973, que se enquadra em um dos melhores filmes da história do cinema.

viagens

Yasujiro Ozu enquadra sua câmera-tatame em um plano de Viagem à Tóquio (Tokyo Monogatari), 1953, que se enquadra em um dos melhores filmes da história do cinema.

cidadãos

Orson Welles enquadrando para seu diretor de fotografia Gregg Toland uma cena de Cidadão Kane (Citizen Kane), 1941, que se enquadra em um dos melhores filmes da história o cinema.

o enigma de Monica

Monica Vitti em A aventura (L'avventura), de Michelangelo Antonioni, 1960.
O mais enigmático filme da trilogia da incomunicabilidade, seguido de A noite (La notte), 1961, e O eclipse (L'eclisse), 1962.

o beijo em Berlim

"Berlim kiss", 1996
Nascido na Escócia, Harry Benson ficou famoso por suas imagens de artistas, políticos e outras celebridades. É dele a clássica foto dos Beatles em uma “luta” de almofadas no quarto do hotel, durante a turnê nos Estados Unidos, em 1964.
Flagrantes em ruas, parques, bares e restaurantes é também uma de suas marcas.

Marion

A atriz francesa Marion Cottilard, fotografada por Mark Seliger, New York, 2009

sol e lua

O lado solar de Alain Delon escondido no lado lunar de Monica Vitti no filme O eclipse (L'eclisse), 1962, de Michelangelo Antonioni.

Johnny Black

Em Man in black, composta no começo dos anos 70, Johnny Cash dizia "I wear the black for the poor and the beaten down..." explicando por se apresentar vestido de preto, calçando uma bota igualmente escura de cano longo, ao contrário da maioria dos astros country da época, que usavam chapéus, roupas claras e botas de caubói.
Acima, o homem de preto fotografado por Mark Seliger, Las Vegas, 1992.

impávido como Muhammad Ali

“Eu não tenho nada contra os Vietcongs”, disse Muhammad Ali ao se recusar lutar na Guerra do Vietnã, no dia 28 de abril de 1967.
Aos 25 anos e já um pugilista consagrado, Ali foi condenado a cinco anos de prisão, multado em 10 mil dólares, e banido do boxe por três anos.
Muhammad Ali foi também um lutador contra o racismo. Sempre que insistiam por que não foi à guerra, ele dizia que “nenhum vietcongue me chamou de crioulo, por que eu lutaria contra ele?"

um dry martini com Ann...

A atriz sueca-americana Ann-Margret no papel da sedutora Melba em A mesa do diabo(The Cincinnati Kid), de Norman Jewison, 1965.
Completando 74 anos hoje, Ann-Margret afastou-se do cinema, apresentando programas de televisão e fazendo algumas séries.
Seu último filme foi Táxi, em 2004. Isso mesmo, aquele com a nossa Gisele Bündchen desfilando de "atriz"...

com a força do seu canto

“...descobrir onde o mal nasce e destruir sua semente...”
Os versos de Cordilheira, de Paulo César Pinheiro, canção lamentavelmente cabível nestes tempos temerosos, foram musicados por Sueli Costa, por volta de 1977. A intenção era passar para Erasmo Carlos gravar, cantor e compositor que sempre esteve além das inocentes composições das jovens tardes de domingo, com discos primorosos onde faz incursões na black-music, no soul, no samba-rock.
Erasmo nunca quis ficar para sempre sentado à beira do caminho. Com sua fama de mau, queria mais era arrombar a festa e descolar o necessário da parceria Carlos com o dito “rei” da juventude.
Louvou as mulheres e as mulheres: de sua Narinha à Roberta Close, o doce grandalhão Erasmo achava um absurdo quando as chamavam de sexo frágil. Com a alma atarantada, o cantor atravessou umas barras pesadas com o suicídio da ex-mulher, a morte da mãe e do filho em acidente de moto.
Sobre a composição Cordilheira, a censura proibiu à época, claro. Além da letra direta aos ditadores de plantão, tinha o lado comportamental do "Tremendão" que incomodava os militares, ao contrário do "ar de moço bom" do parceiro Roberto. Os autores foram à Brasília tentar a liberação e não foram sequer recebidos pelos “zelosos guardadores” da moral e bons costumes impostos.
Somente em 1979 a música foi liberada e gravada por uma Simone-Pré-Então-é-Natal, no disco Pedaços. Ironicamente a mesma Simone Bittencourt depois de gravar no mesmo ano Pra não dizer que não falei de flores, de Vandré, no show ao vivo no Caneção, e apoiar o abjeto Collor vinte anos depois.
A única gravação de Erasmo Carlos está na caixa Mesmo que Seja Eu, com quinze cds comemorativos a sua carreira, lançada em 2002.

as letras das canções

Paulo César Pinheiro tem mais de mil letras musicadas em parcerias com Baden Powell, Pixinguinha, Radamés Gnatalli, Wilson das Neves, Moacyr Luz, Edu Lobo, Tom Jobim, Francis Hime, Cartola, João Nogueira, Egberto Gismonti, João Donato, Ivan Lins, Maurício Tapajós, Dori Cayminn, Hélio Delmiro, Eduardo Gudin, Toquinho, Guinga, Vicente Barreto, Lenine,... e tantos outros.
Viagem foi escrita quando ele tinha 14 anos. Seu primo João de Aquino musicou e vários cantores gravaram. Mas sua primeira gravação em disco foi Lapinha, composta com Baden, e a clássica interpretação de Elis Regina, primeiro lugar na I Bienal do Samba da TV Record, 1968.

A biografia A Letra Brasileira de Paulo César Pinheiro - Uma Jornada Musical, escrita pela jornalista Conceição Campos, lançada em 2009, é resultado de dez anos de pesquisa, e faz uma precisa radiografia afetiva e histórica do trabalho do mais importante letrista da música brasileira.
O compositor completa hoje 67 anos, muito bem vividos entre canções e parceiros de todas as gerações.
Parabéns, poeta!

flores no sertão

“Ô, Flora, meu sertão florido / aflora o meu peito só...”, canta Ednardo em Flora, gravada no disco de 1979.
Não por coincidência, porque o Universo tem suas artimanhas enquanto estamos distraídos, hoje é dia da Flora botânica, ecológica, e na mitologia, dia da Deusa das Flores.
Aqui no Brasil comemora-se o dia da Caatinga, paisagem do “sertão florido”, pois há “um tempo de plantar saudade” e “um tempo de colher lembrança”, como diz Ednardo no “roçado do peito” do seu coração.

sonhando com Eva

A bela Eva Green, atriz que ganhou projeção em seu primeiro filme, Os sonhadores (The dreamers/Innocents), de Bernardo Betolucci, 2003, a quem se refere com a graça de sonhador, “é tão linda que chega a ser indecente”...
O cineasta sabe que a beleza da atriz francesa com sua pele de neve, cabelos escuros, corpo esguio e olhos verdes hipnóticos, traz um talento raro, comprovado em sua atuação como a intrigante e sensual Isabelle, a jovem envolvida na trama ambientada durante revolução estudantil, numa Paris agitada de 1968, e na relação com americano Mattews. Ficou na memória a sequência dos dois e o irmão gêmeo dela, nus na banheira vitoriana de um apartamento.

O ótimo filme do mestre Bertolucci, adaptado de um romance do escocês Gilbert Adair, escrito em 1988, não somente capta o espírito libertário dos anos 60, como homenageia o próprio cinema, colocando seus personagens como cinéfilos, analogicamente emaranhados em uma série de jogos psicológicos e sexuais envolvendo temáticas da sétima arte.
Eva Green, filha da também atriz Marlène Jorbet, logo alcançou reconhecimento internacional e foi indicada para interpretar Vesper Lynd em Cassino Royale, refilmagem de 2006, contracenando com David Graig, da franquia James Bond. A personagem não é apenas uma bond-girl. Criada por Ian Fleming para o filme original, de 1953, ela é uma agente da inteligência polonesa e britânica, com sua lealdade dividida ao meio. O próprio nome é um trocadilho referente à Guerra Fria: Berlim Ocidental>West Berlin>VesperLynd.
Eva Green, talento e beleza em personagens de todos os lados.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

personas

O diretor de fotografia Sven Nykvist enquadra o diretor Ingmar Bergman, que enquadra a atriz Bibi Anderson que se enquadra no personagem em Persona, 1966, que se enquadra em dos melhores filmes da história do cinema.

terça-feira, 26 de abril de 2016

tudo a ver

A inauguração da famigerada TV Globo, há 51 anos hoje, foi precedida por vários testes de transmissão.
No dia 31 de março de 1965, quando o golpe militar completava um ano, todas as emissoras deveriam exibir um pronunciamento em cadeia nacional em comemoração à fatídica data.
As dificuldades foram muitas para que a novata e manipuladora Globo estreasse no dia combinado, 5 de abril daquele ano. A data precisou ser adiada, para que tudo saísse tecnicamente perfeito.
A dopante TV Globo estreou oficialmente às 11h da manhã de 26 de abril de 1965, ao som do Hino Nacional, enaltecendo o governo estabelecido.
Como se vê, sempre teve tudo a ver mesmo.

aconteceu, virou manchete

Revista Manchete Nº 1, publicada em 26 de abril de 1952, pela Bloch Editores Ltda.
Preço: CR$ 5,00, com 42 páginas.
Na capa, a bailarina Inês Litowski, do Teatro Municipal do Rio de Janeiro.

Visivelmente inspirada na Paris Match, tanto na parte gráfica quanto no conteúdo, foi a segunda maior revista brasileira, depois de O Cruzeiro.
Extinta em 2000, teve em quase cinco décadas de circulação, jornalistas e cronistas de peso, como Carlos Drummond de Andrade, Rubem Braga, Manuel Bandeira, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino,David Nasser e Nelson Rodrigues,
O cinegrafista e fotógrafo francês Jean Manzon foi o responsável pela parte editorial de imagens.

insólitos na pista

Esse encontro insólito da foto abaixo se deu no Studio 54, na inauguração da famosa boate em Manhattan, há exatos 39 anos hoje.
Woody Allen estava lançando Annie Hall (no Brasil, Noivo neurótico, noiva nervosa) e Michael Jackson era o astro que despontava nas pistas com a disco-music.
A intenção do proprietário do local, Steve Rubell, era atrair celebridades e dar ao local a característica de tudo livre, com noitadas regadas a sexo, drogas e rock and roll, ou melhor, dance music.
Woody Allen é por si um personagem de Manhattan, não se sabe se naquela hora estava de bobeira passando por ali e entrou...
O filme Studio 54, de 1998, dirigido por Mark Christopher, retrata bem a época áurea da boate. E quem faz o papel de Steve Rubell é o comediante Mike Meyes, famoso na série chatíssima de Austin Powers. Esse, sim, é um encontro insólito.

o último exilado



Quando Paris estava ocupada pelos nazistas, em 1940, um oficial alemão, olhando uma fotografia do painel Guernica, perguntou a Pablo Picasso se fora ele quem tinha feito aquilo. O pintor, então, teria respondido: "Não, foram vocês!".
Pintada a óleo em 1937, o quadro reproduz o bombardeio sofrido pela cidade de Guernica, em 26 de abril daquele ano, pela aviação nazista que apoiava o fascista ditador Francisco Franco, durante a Guerra Civil Espanhola.
Logo após a Segunda Guerra, o quadro foi transferido para o Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, e pelo que se sabe, Picasso só autorizou a volta à Espanha quando as liberdades democráticas fossem restabelecidas.
Com a morte de Franco em 1975 e a posse do Rei Juan Carlos I, iniciou-se o processo de retorno do mural, o que só ocorreu em 1981, oito anos depois de Picasso falecer na França.
Exposto no Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia, em Madrid, os espanhóis costumam dizer que a chegada do quadro foi o retorno do último exilado.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Del Rey na terra do sol

Geraldo Del Rey foi um dos mais completos e carismáticos atores do cinema brasileiro.
Entre quase trinta filmes em que atuou é memorável seu papel em Deus e o diabo na terra do sol, de Glauber Rocha, 1964, onde faz o humilde sertanejo Manoel que mata o patrão tirânico que lhe rouba umas cabeças de gado.
Toda narrativa do filme gira em torno do personagem de Del Rey. Ele foge com a mulher Rosa, interpretada por Ioná Magalhães, e se refugiam no campo santo de Sebastião, líder religioso em luta contra os latifundiários.
Um detalhe marcante na vida do ator foi na década de 70: por seu engajamento político contra o governo, foi banido da TV Globo, ficando sem trabalho, em atuações secundárias noutras emissoras. Ironicamente voltou à tela global em 1992, na minissérie Anjos rebeldes, ambientada no período da ditadura militar.
Del Rey faleceu um ano depois, no dia 25 abril.

round midnight

foto Roberto Polillo, no Festival Montreaux, 1977

Considerado um dos pioneiros do bebob, estilo surgido após a Segunda Guerra Mundial, o sax tenor do jazz Dexter Gordon foi um compositor virtuoso no cinema, fazendo trilhas e também atuando.
Em Por volta de meia-noite (Round midnight), de Bertrand Tavernier, 1986, foi indicado ao Oscar de Melhor Ator, por sua interpretação como um veterano músico de jazz na Paris dos anos 50. Não levou a estatueta, mas seu colega Herbie Hancock ganhou por Melhor Trilha.

Encontros e desencontros do universo: Dexter Gordon faleceu no mesmo dia 25 abril, 1990, quando o cineasta e amigo Tavernier fazia aniversário de 49 anos.
O músico fotografado por Roberto Polillo, no Festival Montreaux, 1977

no meio de olhares espio

Paulo Vanzolini, o autor do famoso samba Ronda, aquele do andarilho, ou andarilha, à procura de quem não lhe quer mais, era zoólogo de formação.
Assim como, por exemplo, os escritores Pedro Nava e Moacir Scliar sobreviviam e felizes viviam (até onde se sabe) de suas profissões de reumatologista e sanitarista, respectivamente, o compositor paulista curtia demais seus afazeres diários no ramo da biologia estudando os répteis e anfíbios, sua especialização.
Mas compor música não era um hobby. Até porque não se trata a arte como passatempo. E tempo não se passa: se vive. Paulo Vanzolini criava como prolongasse sua formação para entender esse bípede chamado homem e sua complicada alma anfíbia. Com certeza, os animais tinham mais definição e uma convivência aprazível.
Volta por cima, na voz de Noite Ilustrada, Na Boca da Noite, que compôs com Toquinho, são outras de tantas canções que se consagraram também pelo conteúdo dramático dos enamorados, dos amantes e seus abismos.
Ronda, de 1953, gravada inicialmente por Inezita Barroso, é uma crônica de amor e morte nos bares e ruas de São Paulo. Apesar de não ser sua canção preferida, é a que melhor resume esse olhar analítico.
No mesmo mês de abril, Vanzolini veio e foi embora. Hoje faria 92 anos. Partiu para outras rondas há três anos.

lady of song

Ella Fitzgerald, fotografada pelo grande Phil Stern, década de 50.
Hoje, 99 anos de nascimento da "First Lady of Song", a voz e a elegância do jazz.

a voz do Orfeu

Uma das belas vozes da música brasileira faria hoje 84 anos.
Agostinho dos Santos, com seu canto veludoso, é referência inevitável em canções como Felicidade, Balada triste, Estrada do sol, e entre tantos clássicos, Manhã de carnaval, composição de Luis Bonfá e Antonio Maria, que teve repercussão internacional a partir da trilha de Orfeu de Carnaval, filme ítalo-franco-brasileiro, dirigido por Marcel Camus, em 1959, baseado na peça de Vinicius de Moares.

O cantor teve projeção principalmente nos Estados Unidos, por toda década de 70, tornando-se praticamente um dos interpretes da Bossa Nova em discos e shows, como o de Carnegie Hall, Nova Iorque, em 1962, junto com Orquestra de Oscar Castro Neves.
Agostinho se foi no auge da carreira, precocemente aos 42 anos, em desastre aéreo nas imediações do Aeroporto de OrlyParis, em 1973. 

us and mr. Paul


"While the jukebox play our favourite song..."

Billy Paul ficou na memória afetiva de muita gente desde 1972, com a música Me and mrs. Jones, que narrava uma relação complicada, "terceirizada", com uma mulher casada.
Escrita por três letristas especialistas em compor soul que garantiam os chamados “hits parade”, o cantor, com sua voz rouca e suave, eternizou essa canção de um caso extraconjugal, gravada no disco 360 Degrees Of Billy Paul.
Mais do que um relato de encontros escusos em cafés e horários marcados, a letra discursiva é quase um manual de como viver um “amor proibido” e não entrar numa pior.
“We've gotta be extra careful / that we don't build our hopes up too high…”, pondera o carismático Billy Paul.
O cantor se foi ontem, aos 81 anos, depois de uma luta entre ele e o câncer, até onde a esperança lhe coube.

terça-feira, 19 de abril de 2016

a serpente

Brutus enfrenta o fantasma de César, gravura de Edward Scriven, 1802

“...e, portanto, pensar nele como um ovo de serpente,
que incubado, deverá, em sua espécie crescer perigoso; 
e matá-lo na casca.”


Fala de Brutus, na peça Julio Cesar, de Shakespeare, escrita em meados do século 16.
A trama gira em torno da conspiração contra o personagem título, que aparece somente em três cenas. Com perfil de psicodrama, patriotismo, amizade e traição, a peça é, como diria meu amigo especialista em Shakespeare, Theófilo Silva, uma atualíssima reflexão sobre sucessão de liderança e poder, despertando preocupante hipótese de guerra civil .
O cinema fez duas adaptações, uma em 1953, por Joseph L. Mankiewicz, com Marlon Brando no papel de Marco Antonio, na verdade, personagem no qual se desenrola toda a peça ao dissecar seu conflito íntimo com a honra; outra versão foi a dirigida por Stuart Burge, com Charlton Heston, produção britânica de 1970, de menor relevância dramatúrgica em termos de transposição para a tela.
O interessante na fala de Brutus é que o cineasta Ingmar Bergman escolheu o termo “ovo de serpente” para o título de seu único filme de coprodução Alemanha e Estados Unidos, rodado em 1977, fora de seu país, pois o diretor estaria exilado em território alemão por problemas com o fisco sueco.
Ambientado logo após a I Guerra Mundial, o filme é terrivelmente premonitório em seu enredo, ao contar a trajetória de um judeu norte-americano em uma Berlim dos anos 20, arrasada em pobreza e violência, com o caos econômico e político, e um horizonte apavorante nos escombros do que viria na próxima guerra.
O título é apropriadíssimo, Das schlangenei”/The serpent’s egg, pois trata em toda a narrativa dos contornos do nascente movimento fascista e surgimento do nazismo.
De Skakespeare a Bergman, o ovo incubado rompeu a casca e continua apavorando a humanidade. Inclusive no lado debaixo do equador.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

but I'm not the only one...


eu quero você!

O vampiro se levanta das tumbas do jaburu ameaçando em nova temporada de The Walking Dead...

o vice


"Em um país como o Brasil, onde a taxa de não finalização de mandatos é tão elevada, é preciso escolher muito bem quem será eleito vice-presidente."

- Daniel Vargas, professor da FGV Direito Rio

as vitórias de Darcy

“Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei.
Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu".
- Darcy Ribeiro


Christopher Lee em A maldição de Frankestein, 1957, saindo das trevas, ameaçando os Darcys num domingo agourento...

ritos satânicos

“Temos um povo maravilhoso, e uma classe dominante horrorosa."
- Darcy Ribeiro

(Christopher Lee em Os Ritos Satânicos de Drácula, 1974, estendendo a mão para os salamaleques e rapapés nos ritos satânicos de um domingo fatídico...)

o santo guerreiro contra o dragão da maldade

O nosso arquétipo Zé do Caixão José Mojica Marins de frente para o Drácula Christopher Lee, personagem vulpino das trevas transilvânicas, durante um domingo sinistro na 3ª Convenção do Cinema Fantástico, em Paris, 1974.
(Esta é uma postagem de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real não terá sido mera coincidência).

família temerária

"Pela Família, Tradição e Propriedade, em bebo sangue, sim, sr. presidente!"

Christopher Lee em Drácula no Mundo da Minissaia/Dracula AD 1972, de Alan Gibson, onde o conde vampiro é desafiado pelo seu caçador Van Helsing, que achava que o tinha destruído no final do século 19. Alguém pegou o anel de Drácula e recolheu um pouco de suas cinzas em uma ampola. Exatamente 100 anos depois, algumas jovens descendente de vampiro fazem uma missa negra em um domingo macabro, trazendo o mestre de volta.

o homem que amou o Brasil

"Doutora, estou com uma vontade de dar uma aula, a senhora não me traz uma criança pra eu dar a aula?“.
O antropólogo Darcy Ribeiro fez esse pedido no hospital, pouco antes de morrer, em 1997.
Ali no leito, deu aula a uma criança de 9 anos. Falou sobre o Brasil, sobre a importância de respeitar todas as culturas. Falou sobre escolas e sambódromos. Era o testamento que ele queria deixar.

nem o diabo quer

"Não vendi a alma ao diabo... / O diabo viu mau negócio nisso de comprar a minha."

- Belchior e Francisco Casaverde, em Bahiurno, letra de 1993, reproduzindo a fala do que eles apontam como "gênios-do-mal tropicais, poderosos bestiais, vergonha da Mãe Gentil..."


Acima, Christopher Lee em Os Ritos Satânicos de Drácula, de Alan Gibson, 1973, no portal de um domingo em chamas...

"Que Deus tenha misericórdia desta nação"

"Deus, o Pai", pintura do renascentista Cima da Conegliano, 1515
Perguntaram a Deus o que Ele teria a dizer sobre a frase acima no título, cometida por uma alma sebosa, no parlamento brasileiro, em um domingo de missa, esposas lisonjeadas, amantes zangadas, filhos em Miami, cachorros inocentes, sertanojos de coração de papel, fascistas redivivos, palhaços abestados...
Humildemente, o Pai Celestial recorreu a um de seus filhos, o grande escritor Mark Twain, a quem sempre admirou pela verve irônica e inteligente:
''Nunca discuta com um estúpido, ele o fará descer ao nível dele e ali ele lhe vencerá por experiência.''

a língua

Em março de 1951, o físico Albert Einstein saía com a esposa e um amigo de um evento em Princeton, Estados Unidos, onde comemorava seu aniversário de 72 anos. Vários fotógrafos o seguiram até o carro, insistindo que pousasse e sorrisse para as câmeras, o que já tinha feito quase a noite toda na festa.
"Já basta! É suficiente!", pedia. Como as palavras não convenceram o enxame de fotógrafos, entrou no carro, sentou-se e pôs a língua para fora, como se estivesse, digamos assim, dando uma banana aos inconvenientes precursores dos atuais paparazzos.
Arthur Sasse, fotógrafo da UPI, foi rápido no clique.
Einstein gostou tanto da foto que recortou a imagem, deixando apenas seu rosto, como ficou célebre. Fez várias cópias e enviou em forma de cartões postais para os amigos.

domingo, 17 de abril de 2016

71 abris

Hoje, 71 anos do cantor e compositor Ednardo.
A equipe do documentário Pessoal do Ceará - Lado A Lado B lhe deseja todos os terrais, todos os abris plenos em seu coração.
Na foto, de 1972, depois que deu o carneiro, Ednardo em seu fusquinha rumo ao Rio de Janeiro, com o corpo e a bagagem todo feliz na viagem.

mais cem anos de solidão



Hoje, dois anos sem Gabriel Garcia Márquez.

domingo com Cacaso

Belíssimo poema que abre o livro Mar de mineiro, publicado em 1982.
Os cineastas José Joaquim Salles e PH Souza concluíram o documentário Cacaso na corda bamba sobre o poeta que faleceu precocemente, aos 43 anos, em 1987.
Com vários poemas musicados por grandes compositores, Cacaso, ou Antonio Carlos de Brito, e um poeta raro na literatura brasileira.

dizer não

rua de Goiânia

domingo pelos muros do país...

foto Natalia Pinhabel
rua de Bauru, SP