quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

o som ao redor

"O cinema falado é o grande culpado da transformação..." apontava Noel Rosa em Não tem tradução, de 1933.
O compositor com a canção, criticava a mudança de comportamento que o país atravessava naquela década, marcado por forte processo de colonização cultural europeia.
O cinema americano falado acrescentou forte influência nos costumes nacionais, e Noel, de uma maneira ufanista, expunha sua insatisfação dizendo que "o malandro deixou de sambar, dando pinote / na gafieira dançar o foxtrote...". Com sua genialidade, ironizava: "amor lá no morro é amor pra chuchu / as rimas do samba não são I love you.."
Imagino a inquietação do poeta da Vila nos dias de hoje, onde em vez de "vamos tomar um cafezinho" dizem "break coffee", e um programa de televisão que 'busca' novos cantores chama-se The voice quando A voz é nossa.
Seis anos antes da sintomática composição de Noel Rosa, exatamente em 21 de janeiro de 1927, foi apresentado em Nova Iorque O cantor de jazz (The jazz singer), o primeiro filme falado, com diálogos e músicas sincronizadas com um disco de acetato. Dirigido por Alan Crosland, filme deu largada ao cinema literalmente audiovisual. Deu o que falar.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

o barquinho vai

Do lado esquerdo do mar de Copacabana à garota deitada na areia: o músico Luiz Bonfá, as atrizes Glória Paul, Sylvia Koscina, o então tolerante com o barulho das ondas João Gilberto, o jovem maestro das águas de março Tom Jobim, e a atriz Mylène Demongeot.
A cena é de um dos três episódios do filme Copacabana Palace, coprodução franco-ítalo-brasileira, 1962, dirigida por Steno.
O filme é tão fraco que chega a ser engraçado. O Brasilzim cordial de bola no pé, bossanovista e da garota que passa cheia de graça, é a tônica de um enredo anêmico e óbvio. Os nossos mestres da música ainda se salvam quando cantam o barquinho que vai e outras bossas que vêm.
Nem José Lewgoy faz uma pontinha pra dar seu brilho de eterno vilão. Wilson Grey também não.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

o príncipe dos vilões

Pisa devagar, 2016!
Depois de David Bowie, vai embora Alan Rickman, o mais competente e charmoso vilão do cinema contemporâneo, o que fez brilhar produções mais-do-mesmo como Duro de matar, a série da magia Harry Porter, a aventura na floresta de Sherwood Robin Hood - O Príncipe dos Ladrões, e mais tantos de uma filmografia com quase 20 títulos, destacando-se Razão e sensibilidade, Michael Collins - O Preço da Liberdade, Dogma...

Rickman foi um grande ator de teatro, tipicamente shakespeariano. Nunca deixou de atuar nos palcos enquanto seguia carreira no cinema. Sua atuação em Marco Antonio e Cleopatra, foi sucesso de público em 1998. O mesmo aconteceu nas peças Vidas privadas, clássico do dramaturgo Noël Coward, e mais recentemente Seminar, texto da novata Theresa Rebeck.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

a vida completa de Oscar Wilde

Oscar Wilde, biografia definitiva do romancista, poeta, contista, teatrólogo e ensaísta irlandês, é um fascinante apanhado crítico, escrito por Richard Ellmann.
Wilde encontra em Ellmann o mais completo narrador de sua vida, da sua ascensão artística, de sua comovente dimensão trágica.
O biógrafo especializou-se em literatura de outros compatriotas de Oscar Wilde, escreveu magnificamente sobre James Joyce e William Yeats.
O volumoso Oscar Wilde, prêmio Pulitzer, teve lançamento póstumo em 1988: Richard Ellmann faleceu um ano antes, debruçado sobre as provas tipográficas do livro, vitimado por uma doença de esclerose dos neurônios.
A biografia serviu de base para o roteiro do filme Wilde, de Brian Gilbert, 1987, com a ótima atuação e semelhança física de Stephen Fry.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

primeiros takes

foto Marcos Vieira
Primeiros takes da entrevista com o cantor e compositor Daniel Groove, para o documentário Pessoal do Ceará - Lado A Lado B. 
Pessoal que comigo está em todos os takes, por todos os lados:
 Alex Meira, diretor de fotografia
 Lenio Oliveira, técnico de som
Rui Ferreira, editor e segunda câmera
 Priscilla Sousa, continuísta

o diretor de fotografia

foto Marcos Vieira
Do meu lado direito e no lado esquerdo do coração, Alex Meira, um dos diretores de fotografia de Pessoal do Ceará - Lado A Lado B,  que juntamente com Leo Mamede, fazem todos os lados da imagem do documentário.

a continuísta

foto Marcos Vieira

A continuidade de cada take do documentário Pessoal do Ceará - Lado A Lado B, com a graça e talento de Priscilla Sousa.

"some rock 'n' roll 'lotta soul..."

David Bowie

"there's a starman waiting in the sky..."

David Bowie

"cause he knows it's all worthwhile..."

David Bowie

o fascínio de Bowie

"Só uma pessoa levou o glam rock a novas alturas rarefeitas e inventou personagens no pop, casando teatro e música popular num todo poderoso."
- David Buckley em Strange Fascination: David Bowie, the Definitive Story, biografia, 2005

doce vampiro

Em Fome de viver (The Hunger), de Tony Scott, 1985, David Bowie é um vampiro violoncelista do século 17, e vive na contemporânea New York com a bela namorada, também vampira, interpretada por Catherine Deneuve.
A construção narrativa, com fotografia sombria e o viés pop neogótico do tema, tornou o primeiro longa de Tony Scott um filme cultuado pelos apreciadores do gênero. Logo na sequência de abertura, a história pega como uma mordida com a apresentação da ótima banda inglesa Bauhaus, com seu som pós-punk e visual gothic rock.
David Bowie, tão bom ator quanto compositor e cantor, durante as filmagens 
ia todas as noites até a ponte George Washington para entoar todas as músicas punk que conhecia, com a finalidade de tornar sua voz mais rouca possível.

eu sou Andy Warhol

No começo dos anos 80, um jovem talentoso grafiteiro é descoberto nas ruas de New York por Andy Warhol, e torna-se com sua pintura neo-expressionista uma celebridade no mundo das artes.
A história da meteórica vida desse artista é contada no filme Basquiat - Traços de uma Vida (Basquiat), de Julian Schnabel, 1996.
David Bowie, tão bom ator quanto cantor e compositor, descobre-se Andy Warhol em uma perfeita interpretação sem cair na armadilha de trejeitos caricaturais. E teve muito mais do que 15 minutos de fama. Merecidamente.

a eternidade do camaleão.

David Bowie por Clayton, jornal O Povo/CE

uma mão lava a outra

David Bowie, tão bom ator quanto compositor e cantor, interpreta Pôncio Pilatos em A última tentação de Cristo, de Martin Scorsese, 1988.

flores para o comandante



Major Jack Celliers é um prisioneiro inglês em um campo de concentração na ilha de Java, durante a Segunda Guerra. Sua desobediência às rígidas regras do capitão japonês é guiada por flores, o que enfurece cada vez mais o comandante.
David Bowie, tão bom ator quanto cantor e compositor, brilha no papel em Furyo, em nome da honra (Merry Christmas, Mr Lawrence), de Nagisa Oshima, 1983.

ele está entre nós

Tão bom ator quanto cantor e compositor, David Bowie é o alienígena em O homem que caiu na Terra (The man who fell to Earth), de Nicholas Roeg, 1975.

Várias canções que estão no seu disco Low, de 1977, não foram utilizadas na trilha sonora do filme.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

na real

"A realidade 
sempre é mais ou menos 
do que nós queremos. 
Só nós somos sempre 
iguais a nós mesmos. "

Ricardo Reis, um dos mais ou menos heterônimos de Fernando Pessoa.

o carma de um beijo

O ator Patrick Swayse tinha talento para muito mais, como por exemplo, sua interpretação em A cidade da esperança (City of Joy), de Rolland Joffé, 1992. Mas será sempre lembrado pelo carma de "Ghost - o outro lado da vida, e por esse beijo final em duas dimensões, om a ainda não anabolizada Demi Moore, que por pouco não fez a cena com o maridão, o "ator" Bruce Willis, que não topou o papel e errou no palpite infeliz que aquele tipo de filme não daria certo.
Dirigido por Jerry Zucker, em 1992, é típico do gênero de drama romântico, adocicado com temática espírita. O bom cinema americano que começou a entrar na UTI dos bons roteiros no final da década de 70, começou a agonizar de qualidade nos anos 80, e até hoje respira por aparelhos dos efeitos especiais de tão ruim que se tornou, tem em Ghost um exemplo de apelo ao outro mundo, para ver se mantém o público dopado em grandes bilheterias.
Ressalvo uma boa citação do roteiro: no início do filme o casal está saindo de uma apresentação teatral de Hamlet, de Shakespeare, onde a temática da morte, do convívio entre os que se foram com o que ficaram, tem a mais perfeita estrutura dramática e profundidade de caracterização.
Mas o filme não avança, nem se compara, claro. Ser e não é, eis a questão

o beijo do outro século

Os atores John C. Rice e May Irwin protagonizaram o primeiro beijo nas telas e o primeiro grande escândalo do cinema.
O filme é de 1895, não por acaso intitulado The Kiss, de William Heise, depois alongado para The Rice-Irwin Kiss, para deixar bem claro quem eram os capazes para tanta ousadia.
Os atores apenas reencenaram o final do musical em que trabalhavam,The Widow Jones, e o filme tem duração curtíssima de 18 segundos, tempo insuficiente para se conhecer a geografia de um beijo. Pode ser, assim, o primeiro "beijo técnico" do cinema, visto daqui da plataforma destes anos 2000.
No catálogo das concorridas sessões, um texto anunciava, ou prevenia, ou provocava: "Eles preparam-se para beijar, começam a beijar, e beijar e beijar e beijar de uma forma que traz para baixo a casa o tempo todo."

o beijo enquanto você dormia

Jude Law aproveitando-se do sono de Norah Jones em My Blueberry Nights, para justificar o título em português Um beijo roubado, produção com grana de Hong Kong, China e França, mas filmada em New York, 2007, com direção moderninha do honconguês Wong Kar-Wai.
O delito do talentoso Jude é perdoável. No filme a cantora e pianista Norah, filha do músico indiano Ravi Shankar, é traída pelo namorado logo em sua estreia como atriz. Dona de um restaurante, entrega a responsa do comércio e seus lábios para o charmoso empregado Law.
Quem com o beijo fere, com o beijo do outro será trocado.

a vida em ondas como um beijo


Às vésperas do ataque a Pearl Harbor, Burt Lancaster e Debora Kerr se atacam com um beijo numa praia do Hawai, em A um passo da eternidade (From Here to Eternity), de Fred Zinneman, 1953.

Ele é um sargento do exército, ela esposa do capitão interpretado por Montgomery Cliff. Pronto, está montada a estratégia de guerra ali mesmo na base militar na ilha. O que compensa a sequência de um dos mais demorados e salgados beijos da história do cinema.

e o vento não levou aquele beijo



E o vento não levou o esperado beijo entre Scarlett O'Hara e Rhett Butler, fazendeiro galante casado com a prima dela.
Drama romântico com fundo histórico na Guerra da Recessão no século 19 nos Estados Unidos, a produção de Gone with the Wind, filme dirigido por Victor Fleming em 1939, foi tão complicada quanto a logística do beijo apoteótico dos personagens de Vivien Leigh e Clark Gable, com aquela prima atrapalhando.

o beijo para sempre

Winona Wyder, depois de enfrentar as mãos de tesoura de Edward, não resiste ao beijo afiado e eterno de Gary Oldman em Drácula de Bram Stoker, de Francis Coppola, 1992.
Em se tratando do grande cineasta, qualquer mínimo gesto é operístico.

kiss me and go away

O suspense que precede o beijo entre a estátua Humphrey Bogart e a diáfana Ingrid Bergman, no clássico Casablanca, de Michael Curtiz, 1942.
Uma curiosidade sobre esse filme é a uma frase que nunca foi dita: "play it again, Sam". Ingrid também nunca diria "kiss me again" ao canastrão Humphrey.

kiss at Tiffany's

A sempre elegante Audrey Hepburn não perde a graciosidade nem debaixo de chuva.
O beijo molhado com George Peppard em Bonequinha de Luxo ( Breakfast at Tiffany's), comédia com um pouco de drama e muitos beijos, dirigida por Blake Edwards, em 1961, baseado no livro de Truman Capote.