sexta-feira, 27 de novembro de 2015

vida na tela


cardiopata


atualização de aplicativo


clima tempo


amor filial

Noriko tem 27 anos, é bonita, prendada, e o pai, a tia e a vizinhança insistem que ela precisa casar. A moça não pensa nisso, prefere ficar cuidando do pai, viúvo.
“Quero ficar aqui com você para sempre, papai”, diz Noriko sempre que o pai volta ao assunto de que a filha precisa seguir seu caminho.

A partir desse enredo simples, o cineasta Yasujiro Ozu desenvolve o roteiro de um dos mais belos filmes da cinematografia mundial, Pai e filha (Banshum), de 1949.
Setsuko Hara foi uma das atrizes preferidas de Ozu. Pai e filha é o primeiro da trilogia de sua personagem Noriko, retornando em Também fomos felizes (Bakushû), 1951, e no clássico Viagem à Tóquio (Tokyo monogatari), 1953.
Quando Ozu faleceu, em 1963, a atriz parou de fazer cinema e se recolheu na cidade provinciana de Kamakura. Mesmo recusando-se a dar entrevistas e deixar-se fotografar, Setsuro Hara exilou-se com tranquilidade, sem amarguras, se forma zen, ao contrário de Greta Garbo.
Sua partida definitiva, aos 95 anos, foi em setembro passado, e anunciada no começo deste mês. Minimalista como em um filme de Ozu.

domingo, 22 de novembro de 2015

a volta dos boêmios


A Noite Do Meu Bem - A História E As Histórias Do Samba-Canção.


Até 1946, quando o presidente Eurico Gaspar Dutra proibiu os jogos de azar no Brasil, a noite carioca girava em torno dos grandes cassinos: o da Urca, o do Copacabana Palace, o Atlântico, ou subindo a serra, ao Quitandinha, em Petrópolis.

A canetada presidencial gerou uma legião de desempregados - músicos, cantores, dançarinas, coristas, barmen, crupiês - e um contingente ainda maior de notívagos carentes.

O novo livro de Ruy Castro, uma espécie de biografia dessas noites e seus boêmios anônimos e famosos, será lançado no final deste mês. 

Certeza de mais um texto arrebatador, bom de ler sem parar noite a dentro com meu bem.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

nem assim

"Eu só vou fazer sucesso depois de morto", disse o 'nego dito' Itamar Assumpção nos anos 80.
Ele se foi em 2003, e neste Brasilzim da idade mídia ninguém se deu conta disso.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

fragmentos


"Falar de amor é falar de uma extrema solidão"
Roland Barthes

Ver

© Ernst Haas, Grand Central Terminal, New York, 1958

“A câmera não faz diferença nenhuma. Todas elas gravam o que você está vendo. Mas você precisa Ver” 


loneliness before me

"Algum dia eu ainda irei compor uma música que explique o que é fazer amor com 25.000 pessoas durante um show e depois voltar para casa sozinha." 
 Janis Joplin

nunca houve Gilda como Rita

“Os homens apaixonavam-se por Gilda, mas acordavam comigo”.
Com uma ponta de angústia, Rita Hayworth repetia essa frase em algumas entrevistas. Mesmo com outras boas interpretações, a atriz viveu sua carreira imortalizada pela personagem do filme de Charles Vidor, um drama noir com enredo um tanto ousado para os padrões sociais de 1946.

Ambientado na Argentina, a história envolve um garbo vigarista, papel do ótimo Glenn Ford, que tem amizade sem escrúpulos com o dono de um clube noturno onde trabalha, na verdade um cassino às escondidas. Tudo se torna mais complicado quando seu amigo-patrão aparece de caso com seu antigo e mal resolvido amor: Gilda.
O furor sexual que Rita Hayworth deu a sua personagem passa muito longe da vulgaridade. Gestos, olhares, esbelteza e sensualidade como pouco se viu no cinema. É clássica a cena em que Gilda faz um voluptuoso strip-tease despindo apenas o longo par de luvas...

terça-feira, 17 de novembro de 2015

sonhadores

Livro Viver a paixão a cada passo, poesia, de Marco Celso Huffell Viola, 2006

não quero ser sua lembrança

foto Zuleika de Souza

Evite sentir saudades de mim
Não deixe que me perca de você
Eu não gostaria de existir no seu passado
Pois nem sua lembrança eu quero ser

Deixe meu sofrer ser seu presente
Permita meu chorar em seu agora

Não deixe que eu seja simplesmente
Um carinho que você mandou embora


olho-câmera

"É impossível fazer um bom filme sem uma câmera que seja como um olho no coração de um poeta."
- Orson Welles


Anthony Perkins em "O Processo" (The trial), Kafka sob o olhar de Welles, 1962.

amor e solidão


"Falar de amor é falar de uma extrema solidão"
 Roland Barthes

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

a cajuína cristalina em Teresina

"Caetano Veloso havia chegado a Teresina para um show, estava muito triste. Retornava pela primeira vez à cidade onde havia nascido um de seus principais parceiros na Tropicália e seu grande amigo, o poeta Torquato Neto, meu primo, que havia se suicidado em 1972.
Caetano procurou Tio Heli (foto), pai de Torquato. Já se conheciam do tempo em que Tio Heli ia a Salvador ver Torquato, que estudava na mesma escola de Caetano. Levou Caetano pra casa, serviu-lhe uma cajuína, e procurou consolá-lo, pois Caetano chorava muito, convulsivamente.
Em determinado instante, Tio Heli saiu da sala e foi ao jardim, onde colheu uma rosa-menina, que deu a Caetano. Ali mesmo os versos de 'Cajuína' começaram a surgir, entre antigas fotos do menino Torquato, penduradas pelas paredes."

- Paulo José Cunha, jornalista e poeta, residente em Brasília.
Torquato, 71 anos hoje, pessoais e intransferíveis.

o sangue de Clarisse

Um extenso paredão de uma pedreira explode após alguns segundos de um plano fixo na tela. A nuvem de poeira funde com a névoa de uma paisagem serrana. A câmera percorre em travelling lento a extensão de dois corpos nus fazendo sexo até parar no rosto indiferente da mulher enquanto o homem explode em um gozo dominador. A mulher no banheiro lava ostensivamente não o sexo, mas o ventre. Uma voz feminina em off diz que a cada pedra que explode faz jorrar o muro e a condenação que apodrece a carne.
Durante os próximos 84 minutos, o filme Clarisse ou alguma coisa sobre nós dois, terceiro longa-metragem de Petrus Cariry, discorre sobre o corpo, no mais perfeito atributo, representação e alegoria da alma aprisionada. O corpo é o lado externo da alma. Ainda nas sequências iniciais, a voz lembra que a morte é o fim de todos os segredos.
Com um roteiro primoroso em diálogos curtos e ambientação em cenários fechados, mesmo as externas, o filme narra a visita da filha ao pai, proprietário moribundo da pedreira, aos cuidados ritualísticos de uma criada que tem a mesma habilidade em abater um animal para a refeição quanto banhar o velho em uma banheira simbolicamente mortuária.
A viagem da filha é uma viagem ao passado, às vozes e memórias da mãe e do irmão mortos e encrustados em lembranças e mistérios em cada curva da casa. Só a morte desvendará esses segredos, lembremos. E a morte é personagem ameaçador, iminente na condução narrativa do cineasta cearense, que fecha com esse filme a sua trilogia sombria, iniciada com O grão (2007) e Mãe e filha (2011).
Exibido na mostra Première Brasil Novos Rumos no Festival do Rio em outubro passado, Clarisse, assim como os filmes citados, é pura luz de um cinema brasileiro contemporâneo, realizado por quem se preza com a câmera na mão e ideias na cabeça. O viés psicológico que conduz o enredo dos filmes de Petrus Cariry, através das relações que perturbam, inquietam, questionam núcleos familiares, demonstra uma cinematografia que sabe muito bem utilizar a linguagem audiovisual, sem concessões e com perfil autoral.
O domínio narrativo do cineasta se expressa na planificação devidamente trabalhada, na fotografia pictórica e onírica, na decupagem metrificada em cada movimento, alargada em sequências demoradas, dando o tempo merecido para que o personagem pulse e o espectador adentre o interior de cada um.
O esmero formal do cinema de Petrus não esvazia o conteúdo, como apressada e erroneamente possa parecer. Muito pelo contrário. A forma, a ambientação do cenário físico e humano de seus filmes, é o atrativo que faz o nosso olhar tornar-se imantado e assim interpelar o contexto, absorver a trama ao observar o drama.
Em Clarisse, Petrus atinge uma evolução narrativa digna de cineastas que tão bem sabem esculpir o tempo – aqui citando e reverenciando Andrei Tarkovsky. E o tempo no cinema se exprime não somente pela cronometragem do movimento, e sim pela composição espacial de objetos e seus símbolos, pelo desenho de rostos e suas conotações.
A dramaturgia manifesta no enredo de Clarisse tem o corpo como elemento cardinal. A pedreira é corpo, assim como é o corpo do marido sobre a mulher na cama, esta de corpo petrificado pela falta de prazer. O casarão de madeira onde mora o pai é corpo, assim como é seu corpo de velho solitário em arrogância decrescente na pele bolorenta. A história em grande parte de cenas noturnas é corpo, como é solar o lado de fora do dia que pouco se vê e parece mera esperança.
Assim como a personagem Clarisse esfrega com violência o seu ventre-corpo para limpar o sexo sem afeto do marido, ela bate na porta fechada do casarão com cadência pulsante da pedreira-corpo que detona. Os signos em Clarisse não são pontuações decorativas do enredo: são elementos que formam o tempo e os personagens nele circundados. A piscina de água estagnada é corpo represado que não flui vida para nenhum mar. A piscina é retângulo passado e suas culpas.
O traçado da direção fotográfica, com câmera do próprio diretor, é um condutor do tempo sem desviar a atenção do todo, assim como a discreta e precisa trilha sonora de Herlon Robson no corpo sensorial do filme. As atuações meticulosas e aprimoradas de Sabrina Greve e Everaldo Pontes, são corpos de interpretação que explodem a alma de uma filha em defrontação com o restante de alma do pai.
Clarisse abre com a pedreira explodindo e fecha com a mesma explosão denotativa com a sequência de sexo desesperado e catártico do casal no sofá, jorrando sangue pelos poros, orgástico e aflito, banhado de ânsia e remição, de vida e morte. Clarisse banhada de sangue e gozo redentor é o feto fazendo o caminho de volta, como expurgação.

Clarisse é alguma coisa sobre nós.

domingo, 8 de novembro de 2015

no coração das trevas

Um produtor de ficção científica B desaparece com os negativos durante as filmagens, em um hotel em Portugal. Sem dinheiro para continuar o trabalho, o diretor tenta achá-lo, partindo em um road movie e encontrando outros problemas.
A partir desse enredo, o cineasta alemão Wim Wenders realizou um dos seus melhores filmes, "O estado das coisas" (Der stand der dinge), 1982.

Desenvolvendo narrativas de metalinguagem, o diretor espelha-se em sua experiência quando tentou por um tempo, no final dos anos 70, fazer cinema nos Estados Unidos, fascinado pela cinematografia de John Ford, Nicholas Ray, Samuel Fuller e seu compatriota Fritz Lang.
Wenders sempre quis fazer um "filme americano", ser um "cineasta americano". "Hammett", uma história fictícia sobre o escritor Dashiell Hammett, de 1982, produzido por Francis Coppola, foi sua primeira experiência por lá. Desagradou completamente o cineasta alemão. Dos 95 minutos na tela, apenas 30 estavam como Wenders fez. Coppola finalizou à maneira dele e fim de papo.
Filmado nos Estados Unidos, mas financiado com francos e marcos, "Paris, Texas", de 1984, foi uma espécie de "vingança" de Wim Wenders. Ou, digamos, seu desejo realizado e "tchau, Hollywood!".
Irônica e pretensamente com roteiro dos americanos Sam Sheppard e Kit Carson, trilha sonora do guitarrista Ry Cooder, elenco com atores de filmes contraversos ao cinemão, como Harry Dean Stanton e Dean Stockwell, "Paris, Texas" chegou às telas com as 2h37min que ele quis.
Outdoors, graffites, néon, carcaças oxidadas, velhas linhas de trem, motéis em estradas que nunca terminam, e um homem maltrapilho e amnésico numa região desértica fronteira com o México, compõem o cenário físico e humano de um dos filmes mais significativos do olhar de um estrangeiro sobre a paisagem norte-americana.
Se "O estado das coisas" é a realidade em preto-e-branco da condição de um cineasta, "Paris,Texas" é um pesadelo minimalista em cores, pela angústia e letargia que se expressa na essência, pela desconstrução que Wim Wenders faz do "sonho americano". Aclamado pela crítica e bem recebido pelo público, em que pese algum rótulo "cult", o filme se insere na galeria do grande cinema contemporâneo.
Em entrevista para o livro "Na Estrada - O Cinema de Walter Salles", de Marcos Strecker, 2010, Wenders diz que sua experiência traumática com Coppola, foi como ter ido ao coração das trevas quando pensava estar a caminho do coração do cinema.

sábado, 7 de novembro de 2015

por que você faz cinema?

Jean-Louis Trintignant e Anouk Aimée em Un homme et une femme, de Claude Lelouch, 1966.

o retratista

Marlene Dietrich, Marcel Duchamp, W.H. Auden, Igor Stravinsky, Truman Capote, Pablo Picasso, Miles Davies, Ingmar Bergman, Al Pacino, Madonna, John Kennedy, Martin Scorsese, Salvador Dalí, Alfred Hitchcock, Simon de Beauvoir, Duke Ellington, Rudolf Nureyev, Albert Camus, Christian Dior, Edith Piaf, Jessye Norman, Woody Allen, Groucho Marx, Kate Moss, Gisele Bündchen...
Essas são algumas das centenas de celebridades que o fotógrafo norte-americano Irving Penn eternizou em seus belíssimos retratos em branco e preto.
Falecido numa manhã de 7 de outubro de 2009, aos 92 anos, Penn atravessou décadas significativas do século passado e começo destes 2000, registrando personalidades do mundo artístico e político, deixando em sua galeria parte da história em cada expressão que ele tão bem captou.
O seu trabalho na revista Vogue vai muito além do que erroneamente possa definir como fotógrafo de moda. Irving Penn pintou o tempo e a alma da moda.
Poucos usaram tão bem o fundo cinza em um estúdio. Penn colocava suas figuras humanas em uma composição de cenários em ângulo reto, e formava um canto forte, uma projeção aguda, e assim trazia um senso de drama sem precedentes para seus retratos, dirigindo o foco de quem olha sobre a pessoa e sua expressão.
Fora dos estúdios, Irving Penn fotografou os campos da Segunda Guerra, os índios da Nova Guiné, as comunidades hippies dos anos 60, sempre compondo os recortes do olhar com a profundidade da simplicidade, elegância e minimalismo.
Penn desenhava o grafismo da alma.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

o instante

Cecília Meireles, a poeta que não era alegre nem triste, e por isso teve a vida completa em um instante, faria hoje 114 anos de asa ritmada.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

bur I'm not the only one


além da beleza, além da tristeza

Nico-Inco, de Susanne Ofteringer, 1995.
Documentário sobre a cantora, compositora, modelo e atriz alemã Christa Päffgen, mais conhecida como Nico. Vocalista do Velvet Underground, musa de Andy Warhol, que lhe deu esse nome-anagrama, parceira de Lou Reed, Jim Morrison, John Cale... namorada de Alain Delon, com quem teve um filho.
Nico foi a concretização, ou dilaceração, da beleza triste, desesperada e exaltada. A beleza que pouco sorria, a beleza da voz grave e lúgubre, a beleza de uma diva curiosamente meditativa, autodestrutiva, junkie.
O documentário disseca através de entrevistas, fotos, shows, seus poucos e icônicos 49 anos de vida.
Nico foi pra lá, muito além de Lou Reed.