quarta-feira, 28 de outubro de 2015

ensaio sobre o amor

“Vivi tudo o que vivi para poder chegar até ela. A Pilar deu-me aquilo que eu já não esperava vir a ter”.
Assim se expressou José Saramago sobre o grande amor de sua vida.
A jornalista, escritora e tradutora espanhola Pilar Del Rio tinha 36 anos quando conheceu e casou-se com o escritor português.
Leu todos os seus livros e apaixonou-se pelo escritor. Pediu para conhecê-lo e amou homem.
Por 24 anos viveram um para o outro e os dois para a literatura.
O ótimo documentário “José e Pilar”, de Miguel Gonçalves Mendes, lançado cinco meses depois da morte de Saramago, em 2010, é um ensaio sobre o amor de personagens que são o amor por si só.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Cortázar inesperado


Julio Cortázar, em Papeles inesperados.

Esse belíssimo livro póstumo são manuscritos inéditos, escritos entre 1930 e 1980 e descobertos no final de 2006.

dejáme ver

“Dejáme entrar, dejáme ver algún día como me ver tus ojos”

Julio Cortázar e Carol Dunlop, fotógrafa e também escritora.
Os dois viveram uma das mais belas e intensas história de amor.


Durante dois anos moraram numa kombi, viajando entre Paris e Marselha, quando escreveram Os autonautas cosmopolitas, publicado em 1982, ano em que Carol morreu de uma doença à época misteriosa.

Na biografia Julio Cortázar, publicada em 2011, escrita pela jornalista uruguaia Cristina Peri Rossi, amiga do casal, defende a tese que a esposa morreu de AIDS, transmitida por Cortázar, contaminado por uma transfusão de sangue na França em 1981. O escritor, já deprimido, morreu dois anos depois, em fevereiro de 1984.

O cineasta canadense Tobin Dalrymple está finalizando o documentário “Julio & Carol”, tendo como fio condutor o citado Autonautas, uma espécie de diário a quatro mãos sobre os últimos anos juntos.

A frase acima é da novela Rayuela, que Cortázar publicou em 1963, quando ainda não conhecia Carol e só viria a encontrá-la em 1977. Mas cabe muito bem como legenda na foto acima: a literatura inovadora e original do escritor argentino é marcada pelo amor.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

poetas no dia do poeta


 No meio do calçadão tinha o Drummond
tinha o Drummond no meio do calçadão
tem o Drummond
no meio da minha vida tem o Drummond...

 Vinicius, em seu louvor hei de espalhar seu canto...


Meu poeta, moro em sua Pasárgada, onde é outra civilização. 
Você inventa palavras que traduzem "a ternura mais funda, e mais cotidiana". Você inventou "o verbo teadorar. Intransitivo". Teadoro, Manuel Bandeira.


 Gullar, tua poesia traduz uma parte de mim noutra parte de ti.

Quintana, poeta da simplicidade, você abriu meu caminho, passarinho... 

João Cabral: um galo sozinho tecendo uma manhã. Assim é sua poesia em mim. 


Cecília, eu canto porque sua poesia existe, "e a minha vida está completa."

 Torquato, sua poesia "é desferrolhada indecente feito um pedaço de mim."

 Leminski, "não discuto com o destino", o que você poetar eu assino.
   
Orides, um dia caí e fiquei na tua teia de poesia, "intensamente prenhe"...

A obscena senhora do silêncio. Nunca houve uma poeta como Hilda.

 Ana Cristina César, tua poesia diz que "é sempre mais difícil
ancorar um navio no espaço"...

  
Haroldo de Campos: "um poeta sentado é sempre um poeta em pé de guerra."
 
 Adélia, sua poesia "atravessa a noite, a madrugada, o dia,
atravessou minha vida, virou só sentimento."


 Patativa, sua poesia é "ispinho e fulô" no meu roçado. Você canta lá e eu escuto cá.


Francisco Carvalho, ao ler sua poesia, senti "o quanto basta à ceia do coração."

 Mário Faustino, conjuguei os teus versos: "vida toda linguagem".

 Cora Coralina, com sua poesia "abuela" e com saber de doce caseiro, aprendi a ter “mais esperança nos meus passos do que tristeza nos meus ombros.”


Fernando Pessoa dizia que tudo o que é bom dura o tempo necessário para ser inesquecível.
Na paisagem urbana das ruas de Lisboa, o poeta, hoje o seu dia no Brasil, atravessa as paredes do inesquecível.

sábado, 17 de outubro de 2015

dois perdidos numa noite suja

O filme Perdidos na noite (Midnight cowboy), John Schlesinger, revela um encontro clássico de atuações de dois atores, marcante na história do cinema.
Produzido em 1969, numa época em que Hollywood ainda fazia um cinema que prestava, a chamada química de dois astros em ascensão, Dustin Hoffman e Jon Voight, deu ao filme uma justa áurea exemplar de personagens que se perpetuam no imaginário coletivo, nos amantes de cinema de todos os tempos.
Hoffman tinha pouco mais de 30 anos, acabara de ser revelado no ótimo A primeira noite de um homem, de Mike Nichols, e não imaginaria que chegasse aos anos 2000 emprestando sua voz ao treinador Mestre Shifu da animação Kung Fu Panda.
Jon Voigh tinha feito uma pontinha no faroeste A hora da pistola, de John Sturges, e depois de ser o cowboy perdido na meia-noite, ganhou o Oscar pelo papel do montanhês aventureiro em Amargo pesadelo, de John Boorman, e jamais imaginou que no futuro continuasse como o desconhecido pai de Angelina Jolie.
Perdidos na noite, narra a história de um texano (Voight), que ganha a vida na metrópole nova-iorquina prostituindo-se com senhoras endinheiradas e solitárias. Sua vida toma outro rumo quando encontra pelas ruas o manco interpretado por Hoffman, que lhe mostra um lado mais cruel da vida.
E tem a trilha sonora, a canção de Nilsson, “everybody's talking at me / I don't hear a word they're saying / only the echoes of my mind…”

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

my baby just cares for me


"Nina Simone cantava com a emoção e sentimento daqueles que eram obrigados a entrar pela porta dos fundos, mas fez questão de sair dos porões para o mundo."

Mylanne Mendonça, site Obvious.

Eunice Kathleen Waymon adotou o nome artístico aos 20 anos, para cantar blues escondida dos pais. 

"Nina" veio do espanhol, "Simone" em homenagem à atriz francesa Simone Signoret.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

ele tinha um sonho

Em 14 de outubro de 1964, quatro anos antes de ser assassinado, Martin Luther King recebeu o Nobel da Paz.

Sua luta contra a desigualdade racial através da não violência, os corajosos e históricos discursos como I have a dream, em frente ao Memorial Lincoln em Washington, em 1963, e contra a guerra do Vietnã, em 1967, outorgaram a Luther King o reconhecimento de liderança na resistência pelo fim do preconceito racial.

Aos 35 anos, foi o mais jovem a receber um prêmio Nobel.

at arriving at the right time



George Harrison, 1970.

All things must pass é o terceiro disco-solo de Harrison, o primeiro como ex-beatle, e - dado importante - o primeiro álbum triplo da história do rock gravado por um único artista. Em 2001 foi lançado em CD duplo.

George guardou muitas de suas composições na época dos Beatles, não querendo “competir” com as músicas da parceria “oficial” Lennon-McCartney. O repertório de 28 canções dos três vinis tem criações que se tornaram clássicas, como My sweet Lord, a ótima If not for you, de Bob Dylan, canções escritas com Eric Clapton, Bobby Whitlock, Dave Mason...

Além dos cantores citados, o guitarrista convidou para dividir várias faixas: o grande pianista de música soul Billy Preston, o lendário roqueiro de arena Peter Frampton, o baterista e vocalista do Genesis Phil Collins, e o amigo Ringo Starr, pra dar aquele toque beatle, e o disco ficar “with a little help from my friends”.

Welles apaixonado

Orson Welles nos bastidores do seu filme Falstaff - O toque da meia-noite (Chimes at Midnight), fotografado pelo assistente Jesús Franco.

Com locações na Espanha, e produção envolvendo mais França e Suíça, é um dos filmes mais fascinantes do grande cineasta americano, sempre na contramão das mesmices dos grandes estúdios hollywoodianos.

Filmado em 1965, Falstaff, como o próprio título indica, é baseado em William Shakespeare. O diretor interpreta o bêbado e obeso Sir John Falstaff, amigo do Príncipe Hal, herdeiro do trono da Inglaterra.

O roteiro, na verdade, reúne de forma genial, fragmentos de Henrique IV, Henrique V e As Alegres Senhoras de Windsor, e assim ele recria na tela, no ambiente da idade Média, o mundo e os sentimentos de cobiça, soberba, inveja e traições, e outros pesares e afecções que marcam o ser humano por todos os tempos. 

Com uma decupagem deslumbrante, enquadramentos e angulações pouco vistas, e uma montagem precisa, Falstaf é uma aula de narrativa cinematográfica. 

O filme, premiado em Cannes em 1966, é uma epifania do cineasta às suas paixões: Shakespeare e o cinema.

muito além da praça

4º disco de Ronnie Von e um dos melhores dos mais de 60 gravados, entre LPs, compactos, CDs e álbuns coletivos.

Lançado em 1967, o auxilio luxuoso do time que participa do vinilzão, já anunciava o compositor de pop psicodélico que se revelaria em significativos discos conceituais na década de 70, como A Misteriosa Luta do Reino de Parassempre Contra o Império de Nuncamais e A Máquina Voadora.

Os Mutantes, Caetano Veloso, Beat Boys, Tony Osanah, Cacho Valdez e os arranjos do tropicalista Rogério Duprat, demonstravam um cantor muito além do mesmo banco na praça, de versões-carbono dos Beatles e outros covers enviesados da Jovem Guarda, da qual ele nunca participou.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

super-heróis

"Hoje é segunda-feira e decretamos feriado / chamei Dom Paulo Coelho e saímos lado e lado..."
- Raul Seixas  

                          

romaria

"Como eu não sei rezar / só queria mostrar / meu olhar, meu olhar, meu olhar..."
- Renato Teixeira

os titãzinhos



Go back, primeiro LP ao vivo da banda Titãs, gravado no Festival de Mountreux, em 1988.

Os componentes quando crianças só querendo saber o que pode dar certo:

na capa, em sentido horário, Nando Reis, Sergio Brito, Toni Beloto e Paulo Miklos. 

Na contracapa, Marcelo Fromer, Branco Mello, Charles Gavin e Arnaldo Antunes.

comes back


No ótimo álbum Reptile, que Eric Clapton lançou em 2001, ouve-se o bom e velho blues, com direito a versão da balada blueseira Comes back baby, de Ray Charles.

O "deus da guitarra" disse à época que com esse disco queria "acertar as contas com o passado"... seja lá o que isso for, o texto do encarte fala sobre família, uns assuntos chatos de infância... Ele só soube quem era o pai quando adulto.

Não à toa, Clapton colocou na capa uma foto sua quando criança.

in my youth


Em Going back, lançado em 2010, o batera e cantor Phil Collins revive ótimos standards de soul music da gravadora Motown.

Para ilustrar o que ele diz na letra da faixa-título, "I think I'm going back / to the things / I learned so well / in my youth", colocou uma foto sua quando criança na capa do disco.

o bebê no nirvana


A mistura do rock alternativo com o gênero grunge fez de Nervermind não somente o melhor álbum do Nirvana, como também um dos mais significativos da história do rock contemporâneo.

Lançado em 1991, traz na capa uma imagem que se tornou icônica, a do garotinho de quatro meses submerso no azul de uma piscina.

Filho de um amigo do fotógrafo, Spencer Elden tem hoje 24 anos e é artista plástico. Soube que o seu pai recebeu à época 200 dólares pelo mergulho.

Elden confessa que ficou feliz porque foi com o Nirvana e não um grupo como Backstreet Boys.

o menino da guerra


Peter Rowen tinha nove anos quando posou para a capa do disco War, terceiro da banda irlandesa U2, de 1983.

O irmão mais velho do garoto era muito amigo do vocalista Bono Vox, que pretendia com a imagem de uma criança, em vez de tanques e armas, mostrar que "a guerra pode ser também uma coisa mental, uma coisa emocional entre amores".

Antes de War, Rowen foi capas de outros álbuns da banda, Three, 1979, Boy, 1980, e posteriormente The Best of 1980-1990.

Passadas as "guerras", Rowen hoje trabalha como fotógrafo em Dublin.

o menino do Expresso


O ótimo álbum Expresso 2222, lançado em 1972, marca o retorno de Gilberto Gil ao Brasil após exílio de três anos em Londres.

Na capa, o filho Pedro, aos três anos, que faleceu em acidente de carro, aos 19, em 1990.

who are they?


Na capa do disco Meaty beaty big bouncy, da banda inglesa The Who, 1971, os componentes Pete Townshend, Roger Daltrey, John Entwistle e Keith Moon olham para as crianças que foram. Essa era a intenção, até porque o disco inicialmente se chamaria The Who look back.

O local da foto é um antigo pub londrino onde Townshend quebrou sua guitarra durante um show.

Na ficha técnica do disco não constam os nomes dos garotos, nunca foram identificados.

o efeito Placebo


David Fox tinha 12 anos quando essa foto foi feita pelo primo e vendida para a gravadora da banda Placebo. que faz uma mistura de rock alternativo, indie e glam punk.

A imagem do garoto aparentemente fazendo careta, estampou a capa do primeiro disco da banda londrina, de 1996. David soube que tinha ficado "famoso" quando o álbum estourou nas vendas. Ele desconhecia que estava sendo fotografado. Na verdade, estava chorando pela morte do irmão mais velho.

Na escola sofreu bullying pesado. Hoje, aos 31 anos, desempregado, processa a banda pela imagem não autorizada.

domingo, 11 de outubro de 2015

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

morte e vida cabralina

"O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte."

Esta maravilha de texto é a fala final do personagem Joaquim, do poema Os três mal-amados, livro Obras completas, do grande João Cabral de Melo Neto, o mais milimétrico de nossos poetas, que se foi há 16 anos hoje - em silêncio, sem medo.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

composição cubista

"Mas em composição cubista / meu mundo Thelonious Monk`s blues..."
 

- Caetano Veloso

o inventor de utopias

"Se não for o escritor a inventar utopias, os políticos não as inventam, com certeza".

- José Saramago, primeiro autor de língua portuguesa a ganhar o Nobel de Literatura, em 8 de outubro de 1998.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

"sua gula e jejum / sua biblioteca..."


à beira do coqueiro

"Pois eu vou me embora / vou ler o meu Pasquim..."

Trecho de Coqueiro verde, composição dos Carlos Roberto e Erasmo, a que diz que Narinha não veio depois de fumar um cigarro e meio... a que diz que Leila Diniz disse que homem tem que ser durão... 

Lançada no lado B do compacto simples O Som do Pasquim, em 1970, na interpretação samba-rock do Trio Mocotó, foi gravada no mesmo ano no elepê Erasmo Carlos e os Tremendões, que tem a ótima "Sentado à beira do caminho".

No lado A da bolachinha, Jorge Ben e Trio Mocotó cantam Cosa Nostra.

"I don't want to stay here..."


"Via Intelsat eu mando / notícias minhas para O Pasquim / beijos pra minha amada / que tem saudades e pensa em mim..."

Trecho de Quero voltar pra Bahia, composição de Paulo Diniz, em parceria com Odibar, no disco homônimo de 1970.

Quarta faixa do lado A, a música foi em homenagem à Caetano Veloso, exilado em Londres.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

no home movie

O crítico Luís Miguel Oliveira definiu muito bem a belga Chantal Akerman ao dizer que era 'filha' do casamento entre a Nouvelle Vague e a vanguarda americana. 

Cineasta de uma contemporaneidade inovadora impressionante, Chantal se foi ontem aos 65 anos. 

Um dos seus filmes mais conhecidos, e que de certa forma lhe projetou como uma realizadora singular, Jeanne Dielman, 23, Quai du Commerce, 1080, Bruxelles, ilustra adequadamente a definição acima: o cruzamento de influências de Godard e Jonas Mekas. Da mesma forma, exemplifica o ótimo News from home, de 1977, do qual o cineasta e professor Marcelo Ikeda  postou em sua página no Facebook a sequência final, como uma das mais belas da história do cinema.

Chantal Akerman, muitas vezes rotulada de cineasta feminista, pela constelação de personagens com seus conflitos, perplexidades e determinações comportamentais, fez um cinema sem concessões, sejam estéticas e muito menos mercadológicas, mesmo quando fez sua ousada incursão numa produção como Um divã em Nova Iorque, comédia romântica com Juliette Binoche e William Hurt, gênero por ela revisitado com autenticidade. 

O seu cinema sempre se manteve marcado por uma perfeita rigidez de composição cênica, principalmente nos documentários, onde seu estilo pessoal, ao tratar de temas recorrentes como solidão, sexo, religião, lhe fez uma autora inquieta, reflexiva, que soube experimentar com propriedade todos os cinemas de todos os lugares em todos os tempos.

No home movie, seu último filme, apresentado no Festival de Locarno este ano, trata dos meses finais de vida de sua mãe em Bruxelas, uma sobrevivente de Auschwitz, assunto que sempre marcou a vida da cineasta. Logo após a exibição do documentário, Chantal disse, como uma premonição, que “depois desse filme, não há praticamente mais nada a dizer.”