domingo, 30 de agosto de 2015

no sol de quase dezembro

“Resolvemos dar início – de fato – ao projeto em 2013, um pouco antes das manifestações de junho. E a peça estreia agora neste estranho 2015, ano no qual uma onda conservadora assola o país e a mídia, a ponto de vermos pessoas indo pras ruas de uma maneira leviana e estapafúrdia pedindo a volta da ditadura militar.”

O texto é do diretor de teatro Felipe Vidal, nas primeiras páginas do catálogo da peça musical Contra o vento (um musicaos), concebida por ele e Daniela Pereira de Carvalho. Durante dez anos, de 2003 a 2013, eles pensaram a ideia de revisitar o lendário Solar da Fossa, um casarão no bairro carioca de Botafogo, que de 1964 a 1971 abrigou boa parte de grandes da cultura brasileira. 

A música, o teatro, do cinema, a literatura, o Tropicalismo, a ressonância do movimento antropofágico de Oswald de Andrade, tudo que se configurava nos agitados anos 60 como resistência pensante contra o conservadorismo e a Ditadura Militar. Resistência pautada, sobretudo, pela alegria, pelo deboche, mas focado em mudanças. Eram jovens que amavam e seguiam outros jovens que amavam e seguiam Engels, Marx, Marcuse, Glauber, José Celso Martinez... Jovens que amavam a Bossa Nova, e também os Beatles e os Rolling Stones. 

A lista dos moradores do Solar, à época não tão ilustres, é extensa: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Paulinho da Viola, Tim Maia, Paulo Coelho, Torquato Neto, Betty Farias, Darlene Glória, Tânia Scher, Paulinho da Viola, Zé Keti, Abel Silva, Maria Glayds, Naná Vasconcelos, Claudio Marzo, Ruy Castro, e muitos, muitos inquietos e criativos artistas, que viviam no aconchego comunitário de estudantes, bancários, prostitutas, travestis... Os que lá não moravam, lá passavam horas e dias com a turma de pensamento pulsante.

Obras-primas do nosso cancioneiro foram compostas naquele templo de brio e pertinácia, como Sinal fechado, de Paulinho da Viola, que pousou ao lado de um dos portais do Solar para a capa do seu terceiro disco, de 1971. Caetano compôs a emblemática Alegria, Alegria no seu quarto de pensão. Os intermináveis oito anos que Leminski se dedicou ao seu alucinado livro de prosa experimental, Catatau, foi dada a largada dos rascunhos entre as paredes e corredores do casarão. Chico Buarque e Marieta Severo se conheceram em uma das festas malucas nos jardins da colonial hospedaria. E muitas outras histórias que foram impressas por não serem lendas.

Contra o vento (um musical), foi criado de forma primorosa a partir de entrevistas dos remanescentes, de reportagens, das referências que constam no livro Solar da Fossa, de Toninho Vaz, uma espécie de “biografia” do corpo e alma do casarão, lançada em 2011. 

A peça tem o mérito de “revisitar” o passado sem o ranço deprê da nostalgia. Tendo como fio condutor da narrativa um suposto diário incompleto de uma moradora, encontrado nos escombros da demolição, em 1972, o musical une de forma cuidadosa a memória, a reflexão, e usa o divertimento, a alegria da dança e da música, como corpo que se formata no palco para expor o cerne dos personagens com suas histórias, que é parte desse latifúndio na história do país. 

A concepção cênica de Felipe Vidal e Daniela Pereira se passa no Agora. Eles na verdade trazem o passado para o presente, e não uma simples “revisita” à casa da velha senhora no bairro de Botafogo, hoje um mostrengo de shopping, essa arquitetura robotizada em série mundo afora nas capitais. Há uma cena na peça que traduz de forma inventiva e poética a conjunção de dois personagens do passado no presente, a conjugação dos dois tempos e dois espaços em um mesmo momento dramático, como “deja vu” e como uma visão futura. O musical se passa no final dos anos 60 sem se deslocar do palco presente. Tem-se a visão de retrovisor, mas há o painel na frente mostrando o Agora. Esse é o grande barato do musical!

A “onda conservadora” a que se refere o diretor da peça no texto acima, e que “assola o país e a mídia”, é uma consideração pertinente no espetáculo. O espaço físico do Solar da Fossa está situado no espírito e percurso do país. E o espírito do Solar vem até este “estranho 2015” incidir sobre um nacionalismo equivocado, que joga na vala comum do desdém duas décadas de arbitrariedades, de prisões, de torturas, de mortes, de "suicídios", de corpos sumidos jogados ao mar, de pais que não tiveram seus filhos de volta, de filhos que não conhecem seus pais.

Dividida em três blocos narrativos, com 13 atores em afinadíssimas atuações, duração final de duas horas, o musiCaos Contra o vento montado pelo grupo carioca Complexo Duplo, encerrou temporada de um mês em Brasília, com apresentações do dia 6 a 30 de agosto, no CCBB. 

Sala lotada, ingressos esgotados. A repercussão da peça reverberou pela alegria e sua clarividência, pelo riso que não está apartado nem alienado da sensatez, pela música que exalta os tempos e seus personagens, pelo teatro que com sua arte do efêmero no agora do palco, celebra o eterno. Pela Arte que nos “desobriga” de simplificar a vida.

E por falar nisso, viva Cacilda Becker!

sábado, 29 de agosto de 2015

ela dançando à beira do vulcão

Na Itália pós-Segunda Guerra uma jovem lituana casa-se com um rude pescador, que a leva para viver na sua ilha natal aos pés de um vulcão, Stromboli. E esse é o título do filme, acrescido de Terra di Dio, dirigido por Roberto Rossellini, em 1949, um dos melhores exemplares do cinema neorrealista. A fotografia crua, os enquadramentos simétricos, a beleza nórdica de Ingrid Bergman sob o sol insular.

A atriz, que casou-se com o gentil Rossellini logo após as filmagens, faleceu no dia do seu aniversário, 29 de agosto de 82. 

O músico brasileiro Alvin L., em homenagem ao cerne poético que o filme e a personagem exprimem, compôs a bela canção Stromboli, que Marina Lima gravou em 93: "e ela dançando à beira do abismo, e ela dançando à beira do vulcão..."

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

ad aeternum


O grande escritor francês André Gide dizia que "tudo já foi dito uma vez, mas como ninguém escuta é preciso dizer de novo."

assim descaminha a humanidade

"Boa parte das revoltas, guerras, batalhas, revoluções que ocorreram no mundo desde a abertura do primeiro poço de petróleo na Pensilvânia, em 1959, tiveram como causa a luta por esse óleo precioso, que fez a diferença do sucesso ou insucesso das nações."
  - Theófilo Silva em seu livro Shakespeare indignado, 2012

Há 156 anos, numa tarde de 27 de agosto, o empresário norte-americano Edwin Laurentine Drake, conhecido como "Coronel Drake", fez jorrar o líquido negro das entranhas de 23 metros de profundidade. Ele construiu a primeira torre de petróleo do mundo, na região centro-atlântico da Pensilvânia, hoje um dos estados mais industrializados e urbanizados dos EUA.

Naqueles meados do século 19, o posteriormente chamado "ouro negro" era apenas um mero, mas bem-vindo, combustível para acender lamparinas. Não demorou muito, quase nada no tempo, para o precioso líquido ser destilado com mais precisão e produzir carburantes como querosene e etc e tal. O resto é história. Bem sabemos. E bebemos diariamente o petróleo nosso de cada dia em que morremos. Até isopor é derivado de petróleo.

A foto acima é de Giant, de George Stevens, rodado em 1955, no Brasil adequadamente intitulado Assim caminha a humanidade

Baseado num romance pouco reconhecido de Edna Ferbes, o filme é ambientado no Texas, no começo dos anos 20, e narra a história de várias gerações de uma mesma família, tendo como pano de fundo as mudanças de um país com a descoberta e consolidação do tal “ouro negro”.

Costurado com a conflituosa relação amorosa entre três personagens, vividos por Elizabeth Taylor, Rock Hudson e James Dean, a narrativa consegue de forma magnífica mostrar a "involução" do ser humano em analogia com o que seria "evolução" e progresso com o advento do petróleo. Exatamente como discorreu e refletiu Theófilo Silva no trecho acima.

O filme foi, por outro lado, divulgado como um legado contra a intolerância racial, por pontuar essa contenda entre alguns personagens. Mas sempre considerei que esse grande filme americano – quando Hollywood fazia Cinema mesmo -, muito além disso. 

Giant não trata somente das divergências raciais: avança na dissecação desse rebanho humano que segue nas relações amorosas, familiares, nas disputas econômicas, sem medir esforços e dispostos a desconhecer valores de grandeza do combustível que jorra do coração das pessoas.

Algo como cada um por si e Deus (ou o Diabo) contra todos – parafraseando a frase de Mário de Andrade, usada em Macunaíma, e aproveitada como título original no filme de Werner Herzog, O enigma de Kaspar Hauser (Jeder für sich und Gott), 1974.

Assim caminha a humanidade, foi o último filme de James Dean. É a sua melhor atuação, entre os três principais em que trabalhou, Juventude transviada (Rebel without cause), de Nicholas Ray, e Vidas amargas (East of Eden), de Elia Kazan. 

O belo, carismático e mítico ator faleceu aos 24 anos, quando Giant ainda estava sendo montado. James Dean não viu até que ponto a humanidade descaminhou.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

o diabo investe prata

O projeto idealizado pelos cineastas brasilienses Marcio Curi e Renato Barbieri, Teste de Audiência, é uma das melhores programações para aqueles que acompanham as atividades culturais da cidade.

Com exibições na Caixa Cultural Brasília e Caixa Belas Artes São Paulo, o programa já testou mais de 70 filmes brasileiros de longa metragem, um número bastante considerável de qualificação e aprimoramento do diálogo entre os filmes e seu público.

Esse saudável e estimulante tipo de aferição, com a apresentação dos filmes ainda em aberto, em fase de finalização, tanto oferece aos cineastas questionar pontos importantes em seus trabalhos, visando falhas e acertos, eficácia na divulgação e na estratégia de lançamento, quanto uma formação de plateia que reflete a partir dessa primeira visão privilegiada.

A metodologia torna-se uma parceria entre público e diretores. Muitos filmes quando foram lançados tinham as impressões dessas experiências, de forma positiva, desde cortes de cenas à escolha de modelos de cartazes, depois da votação da plateia em questionários após as sessões.


Ontem, 25, foi apresentado o novo filme do cineasta paulista Toni Venturi, Comédia Divina, com Murilo Rosa fazendo um capeta garboso, sedutor, ardiloso, como compete a essa entidade do imaginário (ou do real) popular.

Adaptado livremente do curtíssimo conto de Machado de Assis, A igreja do diabo, o filme traça uma bem humorada crítica à eterna discussão entre o bem e o mal, entre céu e inferno, entre o que aceitamos como Deus e negamos como Diabo. Ou vice-versa. Ou de uma forma mais machadiana mesmo, o que é fé enquanto pensamos que é religião. Ou contrário.

Ameaçado pelos humanos muito chegados à bondade e outras virtudes, o Diabo resolve subir à Terra com sua equipe e fundar sua própria Igreja para derrubar a "concorrência" Divina, e assim aumentar sua legião de infiéis. Qualquer semelhança não é mera coincidência. 


Venturi ambienta seu filme nos tempos atuais, insere elementos contemporâneos na narrativa, cenários high tech, trilha sonora pauleira, gírias. Mesmo correndo o risco de se distanciar do texto original, consegue manter a essência que o grande escritor brasileiro questiona: a contradição humana. O “ou” do parágrafo anterior.

Autor de vários filmes importantes, como o documentário sobre Luiz Carlos Prestes, O velho, o estranho caso de amor de Latitude zero, e Cabra cega, um contundente recorte sobre jovens militantes na Ditadura Militar, Toni Venturi realiza com coragem o seu filme mais direcionado às grandes plateias, confessadamente desprovido do que se rotulou “cinema de arte”, o que não significa perder “qualidade”. Não, o cineasta não “vendeu sua alma ao diabo”. Ousou desafiá-lo, digamos. Ou não.

um conto a mais

O escritor argentino Julio Cortazar dizia que o conto é como fotografia, o romance como cinema. O cineasta Michelangelo Antonioni o contradisse quando filmou, em 1966, Blow-up - Depois daquele beijo, adaptado de um dos seus mais curtos textos, As babas do diabo.

Vários outros cineastas fizeram o mesmo, com vários contos de narrativas psicológicas, surrealistas, como Jean-Luc Godard, Luigi Comencini, Diego Sabanés, Guilherme de Almeida Prado, Roberto Gervitz, Manuel Antin, Jana Bokova, Sergio Bianchi, Claude Chabrol, Nina Grosse... A lista é longa, dá um romance.

Cortazar, que foi muito e merecidamente festejado ano passado, por ocasião do centenário de nascimento, faria mais um conto de aniversário hoje.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

à primeira vista

“Quando ouvi Salif Keita, dancei...”, diz Chico César em À primeira vista, aquela do refrão djvaniano “amarazáia zoê, záia, záia / ahin hingá do hanhan...”

Eu, quando ouvi Salif Keita pela primeira vez, em 1987, no seu disco de estreia, Soro, me emocionei. E mais ainda ao saber da história desse grande músico maliano. Nascido em uma família fundadora do Império Mali, o cantor tinha tudo para não ser cantor. Essa “tarefa”, pela tradição da cultura daquele país da África Ocidental, pertence a outro tipo de pessoas, ou povo, não sei bem como denominar. Por lá chamam de ”griots”, incumbidos com a arte de contar histórias, lendas, e, de certa maneira, informar e educar. Não deixa de ser, e configurar, uma estrutura social, porque evoca uma genealogia e história de seu povo. Guardando as devidas proporções, é como os nossos repentistas, por serem guardiões da tradição oral.

Mesmo com esse valor respeitado dos artistas populares, um membro do Império maliano, como Salif Keita, tem reputação nobre, não lhe cabe a incumbência. Mas sua arte ultrapassou esse conceito, rompeu os limites da linhagem, e a música foi abençoada com o talento desse grande compositor, que hoje completa 66 anos de idade.

Junta-se a esse detalhe na vida de Keita, o fato de ter nascido albino, como nossos Hermeto, Sivuca.... Uma raridade naquela região. Tanto é que tal condição caracteriza um sinal de azar na cultura dos maiores grupos étnicos do ocidente africano. Salif Keifa, mesmo com a repercussão de seus discos no exterior, o reconhecimento mundial de sua música, foi de uma forma disfarçada hostilizado na própria terra.

O cantor mora em Paris desde os anos 80. Quando criou asas, voou.

o amor de Nietzsche


"Adeus. Não a verei mais. Proteja sua alma contra ações semelhantes e realize melhor com os outros aquilo que comigo não tem reparação. Não li sua carta, mas li demais.”

O bilhete em tom firme, dolorido e poético é de autoria do filósofo alemão Friedrich Nietzsche, endereçado com a pontaria de um dardo à psicanalista e escritora de origem russa Lou Andreas-Salomé, em 1882, depois de ter seu pedido de casamento por ela recusado.

Nietzsche, o grande pensador da evolução humana, falecido há 115 anos hoje, sucumbiu à beleza e magnetismo de Lou ao ser apresentado a ela pelo amigo Paul Rée, também alemão e filósofo, autor do clássico Escritas básicas. “Que estrelas em nós caíram para nos encontrarmos aqui?”, teria dito Nietzsche quando a viu na Basílica de São Pedro, em Roma. Mas as intenções de Lou eram outras. Os três, na verdade, mantiveram um intenso relacionamento até que Lou e Paul decidiram viver juntos, quando Nietzsche parte para Veneza.

A foto acima é dessa época do triângulo amoroso, onde se vê Lou com um pequeno chicote e os dois amigos no lugar onde se puxa a carroça... Mas Nietzsche não aceitou a situação e deprimido recolheu-se na casa de sua irmã Elisabeth, falecendo em 1900. Um ano depois Paul abandona Lou e suicida-se.

A escritora tinha convicções e curiosidades avançadas para aquele final do século 19. Frequentava regularmente clubes para encontros lésbicos em Viena. Casou-se com o filologista Frederick Carl, 16 anos mais velho que ela, e tinha como amante nada menos que o famoso poeta Rainer Maria Rilke, 14 anos mais novo. Em 1952 foram publicadas as correspondências entre os dois. Lou faleceu em 1937, aos 76 anos, de uremia.

Sobre o relacionamento dos três, a cineasta italiana Liliana Cavani dirigiu em 1977 Além do bem e do mal (Al di là del bene e del male), tendo a bela Dominique Sanda no papel de Lou. Mas o filme não foi bem recebido. O sensacionalismo em torno do tema deformou a vida de Nietzsche, na fita interpretado pelo desconhecido Erland Jose, enquanto o inglês Robert Powell, que um ano antes pegaram-no para Cristo em Jesus de Nazaré, de Franco Zeffirelli, ressuscitou no papel de Paul.

Melhor é o livro Quando Nietzsche chorou, romance sobre o nascimento da psicanálise, lançado no Brasil em 1995. Nele, o autor Irvin D. Yalom, um psicoterapeuta americano, traça com personagens reais e situações que não aconteceram um interessante paralelo entre ficção e realidade. Lá estão Nietzsche, Lou, e os médicos austríacos Josef Breuer e Sigmund Freud.

Já o filme, baseado no livro, dirigido por um tal de Pinchas Perry em 2007, é de fazer Nietzsche chorar.

detalhes importantes

  Foto de Irving Penn, 1965

O Oscar concedido a Philip Seymour Hoffman, em 2005, por seu papel como Truman Capote no filme dirigido pelo estreante Bennett Miller, foi parte do interesse surgido nos Estados Unidos por um autor que nunca esteve tão na moda desde que morreu, há 31 anos hoje.

Além do filme Capote, a onda incluiu a estreia, no ano seguinte, de outro longa-metragem, Infamous, de Douglas McGrath , a publicação de vários livros e até mesmo a recriação das célebres festas que organizava o considerado precursor do "novo jornalismo".

Com a máxima de que "os detalhes revelam melhor do que nada as coisas importantes", Capote podia começar uma crônica judicial centrando a atenção do leitor no brilho da aliança do juiz ao invés de informar diretamente sobre a sentença.

Esse tipo de recurso foi empregado depois por autores tão conhecidos como Norman Mailer e Tom Wolfe, que, como Truman Capote, elevaram o jornalismo à categoria de literatura.

No entanto, sua influência e o êxito de novelas como A sangue frio e Bonequinha de luxo - ambas levadas ao cinema, respectivamente em 1967, por Richard Brooks, e 1961, por Blake Edwards - não impediram que Truman Capote morresse, aos 60 anos, sob crítica de seus colegas, esquecido por seus amigos e quase submerso no anonimato.

Sua homossexualidade e o abuso de álcool e drogas não o ajudaram, sobretudo durante seus últimos anos, a lavrar uma boa fama em alguns setores.

Capote recuperou, porém, o protagonismo que, segundo confessava, sempre perseguiu na vida, e conquistou em alguns momentos de sua existência, com ao menos dois filmes e publicações de plena atualidade nos dias de hoje.

A mesmice da grande Idade Mídia deve ter percebido os detalhes de Capote.

sorria, você está sendo amado


"Ricardo III", 1955, dirigido e interpretado por Laurence Olivier.

"É preciso saber sorrir. A força do senso de humor faz com que até um monarca cruel como Ricardo III possa ter a simpatia de alguém. Se Shakespeare escreveu catorze comédias e pôs figuras cômicas em todas as suas peças, mesmo na sombria Macbeth, é porque ele sabia da enorme importância do riso na vida dos homens. Sorrisos amáveis, nunca sarcásticos, O sarcasmo é perverso, desprezível e desagregador."

Theófilo Silva, em seu livro "Shakespeare indignado", 2012.

domingo, 23 de agosto de 2015

o teatro está nu

                                     foto Maurício Cuca

Ao sair da apresentação da peça Isso te interessa?, na programação do Festival Cena Contemporânea 2015, em Brasília, não tem como não se questionar: “por que os atores estavam nus? Faria alguma diferença se o texto fosse interpretado com eles vestidos?”.

Não, não faria diferença. Mas não teria o mesmo impacto que teve ao diretor decidir pela montagem dessa forma, todo o elenco apenas com o “figurino” de sapatos, pulseiras, colares. 

Vertida do texto original Bon, Saint-Cloud, da dramaturga francesa Noëlle Renaude, a peça do grupo curitibano Companhia Brasileira de Teatro, aborda, através de acontecimentos aparentemente pueris, as relações humanas que se modelam em uma família, os sentimentos que se definem entre pai, mãe, filho e filha, em espécies, descendências e gerações. E até com os animais, como um cachorro de estimação.

Na dissecação do texto, a narrativa em colocar as próprias rubricas da peça nas falas/interpretações dos atores, é um procedimento de adentrar nesse texto enquanto teatro, enquanto reflexão dramatúrgica, enquanto experimentação e busca nesse gênero artístico milenar que se define e se molda em um palco. 

Essa radicalização se completa, e ousa, e se argumenta espantosamente bem, pela nudez dos atores. Não há erotização nesse propósito. Os atores estão nus porque avançam no desnudamento da alma dos personagens. A nudez solidificada em cena, é a reflexão da alma dos personagens com suas vísceras de emoções, fraquezas, virtudes. 

A entrega dos atores em seus papeis, com coragem e compreensão, é necessária para que esse “figurino” não desvie a atenção para o que a peça intenciona ruminar e ecoar em cada um de nós. A atuação do elenco (Giovana Soar, Nadja Naira, Ranieri Gonzalez, Rodrigo Ferrarini), com a atenta direção de Márcio Abreu, contempla o objetivo, fundamenta cada gesto. A nudez dos atores é o desnudamento do texto, é a nudez do teatro. Mais: é a nudez dos nossos sentimentos. É o corpo interno, onde o que existe é o agora como real, sem as amarras do tempo psicológico de passado e futuro.

A Arte não existe apenas por dizer. E isso nos interessa.

sábado, 22 de agosto de 2015

olhar

Moscow Circus, União Soviética, 1954

"Temos que ver, olhar. É tão difícil fazer isto.
Estamos acostumados a pensar, todo o tempo.
É um processo muito lento e demorado, aprender a olhar.
Um olhar que tenha um certo peso, um olhar que questione.”

Não há nada a dizer."
 
- Henri Cartier-Bresson

Hoje ele faria 107 anos olhando os olhares.

a lenda do blues

Com mais de 100 discos gravados, John Lee Hooker foi o responsável por unir, no começos dos anos 60, o blues primitivo do Delta de Mississippi com a música folk norte-americana, caracterizada por cantores brancos. O próprio Bob Dylan se popularizou nesse momento, com seu estilo casual, falado, e os riscados de sua gaita.

Hooker se foi há 14 anos, aos 83. Viveu mais do que seus amigos bluesmen que também trouxeram a música e história da zona sul rural dos Estados Unidos, das fazendas de algodão, como Muddy Waters, Howlin' Wolf, Elmore James, Lightnin' Hopkins.

Vibrei quando ele fez duas pequenas participações no cinema, brilhando com seu carisma em Os irmãos cara-de-pau (The Blues Brothers), de John Landis, e A cor púrpura (The color purple), de Steven Spelbierg, respectivamente de 1980 e 1985. 

Aliás, foi nessa década que "redescobriram" Hooker. Em 1989 ele gravou o ótimo álbum The Healer, com participações cheias de reverências de Keith Richards, Carlos Santana, Los Lobos, Robert Cray e outros roqueiros que confessaram a influência em suas guitarras.

Hooker morreu enquanto dormia, no silêncio, no lamento de um blues.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

ligações perigosas

Bertrand Duarte e Marcelo Praddo em Quarteto, montagem de Teatro Nu, da Bahia, estreia no Festival Cena Contemporânea 2015, em apresentação no Teatro Sesc Garagem, Brasília.

Com direção de Gil Vicente Tavares, a peça faz uma ousada adaptação do ótimo texto de Heiner Muller, que por sua vez inspirou-se em Les liaisons dangereuses, curioso romance epistolar do século XVIII, da autoria de Choderlos de Laclos.

Assim como essa obra retrata as relações de um grupo de ociosos aristocratas, através das cartas trocadas um pouco antes da Revolução Francesa, o enredo da peça focaliza os personagens Visconde de Valmont e Marquesa de Merteuil, ágeis manipuladores de intrigas e jogos de sedução em si.

O cineasta francês Roger Vadim realizou a primeira versão para o cinema, em 1959, As ligações amorosas (Les liaisons dangereuses), com Jeanne Moreau e Gérard Philipe.

A mais conhecida adaptação para as telas é a do britânico Stephen Frears, Ligações perigosas (Dangerous liaisons), em 1988, com Glenn Close e John Malkovich nos papeis centrais. 

O interessante, e raro no cinema, é que o cineasta checo Milos Forman fez sua versão logo no ano seguinte, em Valmont, com Colin Firth e Meg Tilly interpretando os nobres franceses. O filme, apesar das qualidades na adaptação e direção, não teve a repercussão esperada, ainda ofuscado pela produção de Frears, premiada com Oscar, e, sobretudo, pela ótima atuação do sempre ótimo Malkovich.

Em Quarteto os atores baianos se revezam em quatro personagens da trama, tornando o desafio cênico como uma das propostas do grupo Teatro Nu. Com um cenário praticamente "desnudo" de objetos, a concepção precisa de iluminação de Eduardo Tudella, em perfeita pontuação narrativa, divide o tempo, local e drama dos protagonistas. Bertrand e Praddo se garantem, e muito à vontade nessa peleja, se movimentam com magnetismo em seus papeis.

Não por acaso e artimanhas dos deuses, hoje é comemorado Dia do Ator. Parabéns a vocês, que nos encantam com a multiplicidade humana.