quinta-feira, 30 de julho de 2015

o poeta da angústia


"Um filme não precisa ser entendido, basta que seja sentido".

A frase é do italiano Michelangelo Antonioni, chamado de o cineasta da incomunicabilidade. Prefiro considerá-lo o poeta da angústia. Ou mesmo da modernidade, como bem dizia o seu compatriota Walter Veltroni, um dos mais apurados críticos de cinema - outra espécie em extinção, infelizmente.

Antonioni não segurou a solidão neste mundo cheio de poucos bons cineastas e seguiu atrás de Ingmar Bergman, ambos falecidos em 30 de julho de 2007. Tinha 94 anos e morreu numa segunda-feira à noite, na tranquilidade de sua casa, sentado numa poltrona, ao lado da esposa Enrica Fico, como numa cena dirigida por ele.

É difícil escolher somente um ou dois filmes bons desses mestres que se vão e deixam o cinema órfão.

Antonioni dizia que se esforçava em exigir do ator o seu instinto mais do que seu cérebro. É exatamente isso que sentimos ao adentrar na tela quando assistimos A noite (La notte), de 1960, O eclipse (L'Eclisse), de 61, ou O deserto vermelho (Il deserto rosso), de 64. Ou ainda o clássico Blow-up, de 67, ou a viagem psicodélica de Zabriskie point, no sintomático ano de 1969. Ou ainda O passageiro - Profissão: repórter (The passenger), 1975, um dos pouquíssimos filmes em que Jack Nicholson não faz o papel de Jack Nicholson.

O cinema de Antonioni é marcado pela obsessão da imagem e a busca de uma linguagem formal e estética, com cenas longas e lentas, o que servia para indagar o interior de suas personagens, num espaço enigmático. Comunicava-se com sua câmera com a incomunicabilidade desses personagens.

a infância do cinema

“O privilégio da infância é podermos transitar livremente entre a magia da vida e os mingaus de aveia, entre um medo desmesurado e uma alegria sem limites.

Sentia dificuldade para distinguir entre o que era imaginado e o que era real. Se me esforçava, conseguia manter a realidade dentro dos limites, mas que fazer dos fantasmas e das almas penadas?


Foi quando um cinematográfico entrou na minha vida.”


(Trecho da autobiografia "Lanterna mágica")
 
Ingmar Bergman, oito anos hoje que partiu da ilha de Faro.

louco por cinema


 
"Todos os grandes filmes já foram feitos"

A "sentença" do cineasta norte-americano Peter Bogdanovich parece aplicar-se a ele. Depois de Na mira da morte (Targets), 1968, A última sessão de cinema (The last picture show), 1971, e Marcas do destino (Mask), 1985, nenhum outro trabalho de sua filmografia de 30 títulos, teve o mesmo impacto.

O cineasta, que completa hoje 76 anos, escreveu bons livros sobre sua profissão. Um deles, Afinal, quem faz os filmes?, é indispensável para se saber revelações preciosas sobre a criação de um dos grandes mitos da modernidade, o fascínio que a chamada sétima arte exerce sobre as pessoas. 

Lançado em 2000, o livro reúne quinze longas entrevistas com mestres do cinema, realizadas nas décadas 60 e 70, entre eles o veterano Howard Hawks, em quem Bogdanovich se inspirou para dar título ao trabalho, ao dizer que "são os diretores que contam a história e, para isso, devem ter seus próprios meios para contá-la”.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

o imaginário Buñuel

"A memória é permanentemente invadida pela imaginação e pelo devaneio, e como existe uma tentação de acreditar no imaginário, acabamos por transformar nossa mentira em verdade."
 
Luis Buñuel, cineasta espanhol que nos deu o prazer do devaneio e da imaginação em mais de trinta filmes ao longo de sua carreira. 

Obras como "Viridiana" (Viridiana), 1961, "O anjo exterminador" (El angel exterminador), 1962, "A bela da tarde" (Belle de jour), 1967, "O estranho caminho de São Tiago" (La voie lactée), 1969, "Tristana, uma paixão mórbida" (Tristana), 1970, "O discreto charme da burguesia" (Le charme discret de la bourgeoisie), 1974, estão definitivamente registradas na história do cinema. 

São indispensáveis, merecem sempre revisões e deleites. Buñuel viveu e trabalhou por muito tempo na França e também no México, onde fez um filme belíssimo sobre delinquência juvenil , "Os esquecidos" (Los olvidados), 1950. E foi lá que ele se auto-exilou, já abatido pela surdez e considerando finalizada sua contribuição ao cinema, embora desejasse filmar "A casa de Bernalda Alba", de García Lorca. 

"Meu último suspiro", livro de memórias, foi ditado ao roteirista Jean-Claude Carrière, em longas conversas, pouco antes de morrer, em 29 de julho de 1983.  O livro é de uma sinceridade comovente, mesmo que exista essa tentação de se acreditar no imaginário.

terça-feira, 28 de julho de 2015

Lampião não morreu há 77 anos

Lampião não morreu! Nem Maria Bonita!

Explicando: o cangaceiro viveu até os 96 anos em Buritis, interior de Minas Gerais, onde faleceu, deveras, em 1993.

Quem garante é o escritor mineiro José Geraldo Aguiar, que lançou em 2010, aqui em Brasília, o livro "Lampião, o invencível: duas vidas, duas mortes", pela Thesaurus Editora, resultado de 17 anos de pesquisa, e que esteve com o próprio Virgulino, então comerciante e fazendeiro.

A polêmica está lançada.

Oficialmente os legendários cangaceiros morreram numa emboscada na fazenda de Angicos, sertão do Sergipe, em 28 de julho de 1938.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

um girassol da cor dos seus cabelos

Em dezembro de 1888, em um momento de forte depressão, o pintor holandês Vincent Van Gogh cortou com uma navalha um pedaço da própria orelha esquerda. Embrulhou em um lenço e levou para uma amiga, a prostituta Rachel, que desmaiou ao receber o mórbido presente natalino. "Guarde com cuidado", dizia um bilhete anexo.

Essa é a versão que conhecemos sobre o fato ao longo desses dois séculos, desde as Enciclopédias Barsa, Delta-Larousse... até a Wikipédia. Em 2009, os historiadores suíços Hans Kaufmann e Rita Widegans publicaram o livro A orelha de Van Gogh, Paul Gaugin e o pacto de silêncio (Van Goghs Ohr, Paul Gauguin und der Packt des Schweigens), resultado de dez anos de pesquisa, e conta outra história para a atitude radical do pintor.

No bombástico livro, os autores apontam situações que em parte sabemos, a relação difícil de Van Gogh com o pintor francês Paul Gauguin. Morando juntos por um tempo, os dois discutiam muito sobre conceitos e formas de criação artística, e suas teorias eram sempre incompatíveis. Van Gogh, de temperamento instável, não se conformava com o plano do amigo sair do atelier nos arredores de Paris e voltar para a capital. Queria mantê-lo sempre por perto. Gauguin era um exímio esgrimista, e numa violenta discussão o fere acidentalmente. Diante da tragédia, sem quererem repercussão, os dois fizeram pacto de silêncio. Apaixonado pelo amigo, Van Gogh manteve a história de autoflagelo. Foi internado por um ano num hospício, e ao sair, no tempo que não se imaginavam as selfies, postou-se diante do espelho e pintou para a posteridade, e eternidade, o autorretrato reproduzido abaixo. O quadro encontra-se exposto no Instituto de Arte Courtauld, em Londres.

Mas Van Gogh foi ao extremo: suicidou-se dois anos depois, no dia 27 de julho.

O livro de Kaufman e Widegans, em uma investigação preciosa, baseia-se em inúmeras cartas de amigos e dos próprios pintores, relatórios policiais, escritos de testemunhas, notas de jornais. A leitura joga novas luzes sobre os girassóis e nos deixa com a pulga atrás da orelha - sem trocadilhos.

sábado, 25 de julho de 2015

dia de tudo

Hoje, 25 de julho, comemora-se o Dia Nacional do Escritor.

A data surgiu em 1960, quando Jorge Amado e João Peregrino Júnior realizaram o 1º Festival do Escritor Brasileiro, organizado pela União Brasileira de Escritores.

Para mim, todos os dias são dias de todos e de tudo. Hoje, por exemplo, é aniversário do meu cunhado, que não é escritor. E eu tenho essa mania de escrever, mas hoje não é meu aniversário.

Um dia comemorativo é bom para lembrar que todos os dias são comemorativos, pelo trabalho, pelo ofício, pelo sacrifício, pelo desejo, pelo prazer, pelo apego, pela ausência, pela esperança, pela saudade.

E pra não dizer que não falei de versos, deixo aqui a todos nós que nos debulhamos em bem e mal traçadas linhas, meu mais completo poema inacabado:

PRAZO

Impossível
terminar o poema nos próximos dias:
falta uma vírgula aqui
aguarda um sentimento ali,
avista-se uma cidade acolá.
E essas correções, dores e risos
costumam demorar
uma vida inteira...

(do livro Poesia Provisória)

sexta-feira, 24 de julho de 2015

nas escavações do rock

Assistir a um show de Sérgio Augusto Bustamante, esse senhor de 81 anos de loucuras e acordes dissonantes, mais conhecido como Serguei, é sempre um show, na melhor tradução da palavra.

Lembro-me de uma paleontóloga apresentação dessa lenda viva do rock brasileiro, há uns cinco anos, na cidade-satélite Taguatinga, aqui já colada de Brasília por prédios e linha do metrô. Em um pub reciclado a partir de um galpão, o local de apresentação foi apropriadíssimo para as escavações e exibição do pansexual Serguei.

A figura é uma figura. Só vendo. E ouvindo. Mesmo que a voz rouca não seja mais essas rouquidões todas. Serguei foi reverenciado, apalpado, beijado, por um seleto e eufórico grupo de fãs, como se fosse um Mick Jagger descamisado de Iggy Pop. A postura outsider cada vez mais reincidente.

Entre os covers de sua set list, Summertime, clássico eternizado pela versão blues de Janis Joplin, com quem ele assegura ter rolado sexo, drogas e rock and roll – não necessariamente nessa desordem. Ou sim.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

quarta-feira, 22 de julho de 2015

o jovem marinheiro

Com pose de James Dean, o ator inglês Terence Stamp em uma imagem pouco conhecida, do começo dos anos 60. Provavelmente fez parte de algum portfólio, justamente na época em que ele interpretou o jovem marinheiro de um navio mercante no filme  vingador dos mare (Billy Bud), um dos seis filmes dirigidos pelo ator Peter Ustinov, em 1962.

Geralmente a imagem mais remota que temos de Terence Stamp é do carteiro Angelo que passa o dia lendo Rimbaud em Teorema, de Pasolini, clássico de 1968, sempre bom de rever.

Stamp nunca parou de filmar. Fez alguns filmes sem muita repercussão, mas sempre se destacando pelo carisma. Em 1980, assumiu o vilão General Zod em Super-homem II, depois de um tempo na Índia, em exílio voluntário para "estudo e meditação", como ele dizia.

Foi com a estupenda interpretação do transexual Bernadette em Priscilla, a rainha do deserto, em 1994, que o ator ficou novamente em evidência, ou melhor, passaram mais a prestar atenção no seu talento.

Completando hoje 77 anos, Terence Stamp continua fazendo jus ao título conferido pela Empire Magazine na década de 90, como um dos atores mais charmosos da história do cinema. O que é apenas um detalhe para o grande ator que ele é.

terça-feira, 21 de julho de 2015

another brick in the wall

Há 25 anos, exatamente no dia 21 de julho, o ex-pink floyd Roger Waters apresentou um dos maiores concertos da história do rock, The Wall — Live in Berlin, com um público estimado de duzentas mil pessoas.

O show foi em comemoração à queda do muro de Berlim, ocorrida um ano antes. Tanto o álbum duplo The Wall quanto o filme homônimo são anteriores ao fato, respectivamente 1979 e 1982. Apesar de ser inspirado na vida pessoal de Waters, The Wall representa a opressão de todos.

O muro, com seus tijolos imbecis num desenho ilógico, foi o principal símbolo da Guerra Fria.

O mundo mudou de lá pra cá. Mas outros muros dentro de todos nós ainda precisam cair.

domingo, 19 de julho de 2015

caso de amor

O psicanalista, educador e escritor Rubens Alves costumava dizer que tinha um caso de amor com a vida... e isso não é pra qualquer um: é pra todos. Ele deu a dica.

Rubens Alves se foi há ano, muito tranquilo desse caso de amor.

sábado, 18 de julho de 2015

Mandela lá

Após mais de quatro décadas de regime segregacionista do apartheid (1948 a 1994), a África do Sul elegeu pela primeira um governante negro. 

Nelson Mandela, libertado em 1989, após 28 anos de prisão, tornou-se o Pai da Pátria, como foi ovacionado por uma multidão.

Falecido em 2013, Mandela faria hoje 97 anos.

fora do ar

A Rede Tupi foi a primeira emissora de televisão do Brasil, da América Latina e a quarta do mundo, criada em 1950. por Assis Chateaubriand.

Essa logomarca está na memória afetiva de muita gente. 

Hoje faz 35 anos que a vinheta com o simpático indiozinho tupiniquim saiu definitivamente das tribos urbanas.

dans mon île

  foto Marcos D'Paula
“Quem não sentiu o suingue de Henri Salvador?”, perguntava Maria Bethania, em Reconvexo, faixa que abria o disco Memória da pele, de 1989. A música foi composta pelo mano Caetano, um admirador desse grande músico francês, de quem gravou, em 1981, a belíssima Dans mon île, que está no vinilzão Outras palavras.

Corre a lenda que Tom Jobim teria se inspirado em Dans mon île para criar a Bossa Nova. O fato é que a canção estava no documentário Europa de noite (Europa di notte), dirigido pelo italiano Alessandro Blasetti, em 1958, e muitos músicos brasileiros, além de Jobim, ficaram fascinados com a canção daquele francês de ascendência espanhola e indígena. 

Henri Salvador faria hoje 98 anos, mas se mandou para sua ilha em 2008.

viva João Ubaldo brasileiro!

No silêncio da madrugada de um ano atrás, o escritor e jornalista João Ubaldo Ribeiro se mandou para casa dos budas ditosos, fazendo aqui uma reverência ao seu ótimo livro publicado em 1999.

Ubaldo tinha 73 anos, uma marcante carreira literária de quase trinta livros entre romances, contos, crônicas, ensaios, e uma pouco divulgada literatura infanto-juvenil, como o interessante Vida e paixão de Pandonar, o cruel, de 1983. 

Viva o povo brasileiro! Viva João Ubaldo!

sexta-feira, 17 de julho de 2015

a voz de Billie


Logo na abertura do filme Sophie Scholl - Uma mulher contra Hitler (Sophie Scholl - Die letzten tage), de Marc Rothemund, 2008, ouvimos a bela voz de Billie Holiday, em uma de suas mais bonitas canções, Sugar. A atriz Julia Jentsch, na personagem título, acompanha a música com o ouvido colado no rádio, cantarola, e a cena é interrompida, partindo para outra sequência.

Lembro que durante o desenrolar de quase duas horas de filme, aquela música lá do final dos anos 30, ficou na minha cabeça, suavemente ecoando. 

O que particulariza o estilo de Billie Holiday é a essência de sua interpretação. Sua conturbada vida parece desfolhar-se em cada canção, não somente pelas letras das músicas, mas pela maneira como essas melodias saem da sua alma, são extraídas lá do mais íntimo do coração.

Quando nasceu, seu pai, um tocador de banjo, tinha apenas quinze anos de idade e sua mãe não mais do que treze . O pai abandonou a família e a mãe deixava a filha bebê com familiares. Negra, pobre, desamparada, Billie amargou infortúnios logo cedo. Foi violentada aos dez anos de idade por um vizinho. Internou-se em casa de correção, lavou chão de prostíbulo, e virou prostituta aos catorze anos, em Nova Iorque. Isso nos anos 20. Na década seguinte começou como cantora, quando foi descoberta por um pianista em um bar do Harlem. Sua voz conquistou nomes como Benny Goodman, Count Basie, Artie Shaw, Duke Ellington e Louis Armstrong. Fez concertos com todos eles.

Nos anos 40, Billie entrou numa de ruim pra pior. Passando por vários momentos de depressão, afundou-se no álcool e drogas pesadas. Um caminho sem volta. Morreu com apenas 44 anos de idade.

Muitas dessas revelações corajosas, sem autocomiseração, estão na autobiografia Lady sings the blues, publicada pouco antes de sua morte, que hoje completa 56 anos.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

I'm still alive


"I'm still alive and well / I'm still alive and well every now / and then its kind of hard / to tell I'm still alive and well..."

Esses versos são de Still alive and well, uma das canções mais conhecidas do guitarrista Johnny Winter, músico que combinou o blues de estilo clássico com o funk do Texas, misturava numa boa o country blues primal no estilo de Robert Johnson e guitarras agressivas.

Winter compôs lá no começo dos anos 70, quando conseguiu sair de umas barras bem pesadas, que levaram seus companheiros de palco de Woodstock.

Hoje faz um ano que Johnny Winter se foi. Mas ele pode muito bem continuar dizendo para nós: "I'm still alive and well". Sua música o eterniza no coração de quem lhe escuta.

a cantora do amor demais

"Rua Nascimento Silva, cento e sete / você ensinando pra Elizete / as canções de canção do amor demais..."

Começa Vinicius de Moraes na linda Carta ao Tom, composta em 1974, em parceria com Toquinho, "endereçada" ao seu amigo Jobim.

Relembrando uma Ipanema que "era só felicidade", que "era como se o amor doesse em paz", com "esse Rio de amor que se perdeu", como continua a letra, a musa citada é a grande diva Elizete Cardoso, a voz enluarada do nosso samba-canção, que hoje faria 95 anos.

Ela nos deixou em 1990, ao final da manhã de 7 de maio. Elizete passou três anos se tratando de um câncer no estômago, diagnosticado em uma turnê no Japão, quando se sentiu mal no hotel.

Mesmo doente, a cantora comparecia aos seus shows, muitas vezes não conseguindo ir até o final, de tão debilitada. O público se emocionava e aplaudia a beleza daquela mulher e seu canto de amor demais.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Keith rock

Em 13 de julho de 1985, Bob Geldof, ex-vocalista da banda Boomtown Rats, organizou o show "Live Aid", que ocorria simultaneamente em Londres e Filadélfia, reunindo vários nomes famosos não somente do rock, como Led Zeppelin, The Who, Rolling Stones, Black Sabbath, também do blues, como B. B. King, e figuras emblemáticas da contestação política nos anos 60, como Joan Baez.

O objetivo era chamar a atenção para a miséria no continente africano, a partir da Etiópia. Muita música, discursos engajados, pressão em cima dos governos ricos para perdoar dívida externa dos países pobres. Se a intenção deu resultados práticos ao longo desses anos, é discutível. Pelo menos, por ocasião do show, e uma segunda edição em 2005, angariou fundos para a causa.

Desde então comemora-se neste cabalístico 13, o Dia Mundial do Rock. Gosto da postura de Geldof, diz o que pensa e bate de frente com poderosos. Mas minha homenagem hoje vai para meu roqueiro preferido, Keith Richards: o comportamento, a entrega, o conceito, os riffs, o junkie, a alma e essência do rock and roll. E do Rolling Stones. Mick Jagger é apenas o corpo.

cores sofridas

Assim como Chaplin, James Dean, Marylin Monroe, Janis Joplin, Che Guevara, Amy Winehouse... e outros, Frida Kahlo virou ícone, estampa de roupas e bolsas, ímã de geladeira, botons... O que não desvaloriza nem vulgariza o significado dos personagens propagados em larga escala.

O risco é o interesse limitar-se ao modismo, às passarelas de shoppings e vitrines com suas grifes caras, sem a procura de conhecer a importância de cada um deles, o que é mérito e o que é exagero da Idade Mídia.

Hoje faz 61 anos que Frida se foi. Sua morte, embora tenta sido atestada por embolia pulmonar, deixou margem para especulações. Em seu diário, a última anotação: "Espero que minha partida seja feliz, e espero nunca mais regressar"

domingo, 12 de julho de 2015

quando o carteiro chegou...

O livro Il Postino, de Antonio Skármeta, 1986, as lembranças do exilado Neruda contadas ao humilde Mário, o filme de Michael Radford, O carteiro e o poeta, 1994, as atuações humanas de Philippe Noiret e Massimo Troisi, e nós todos na Isla Negra, embevecidos de poesia por todos lados.

Pablo Neruda faria hoje 111 anos. Na posta-restante de nosso coração, continuam chegando seus poemas...

o poeta e a canção

"Devolva o Neruda que você me tomou / e nunca leu..."

Belos versos indelicados na canção de Chico... a uma amada ausente, citando o poeta presente, que hoje faria hoje 111 anos.

o último choro

No dia 10 de julho de 2010, o músico Paulo Moura tocou Doce de coco, clássico chorinho composto por Jacob do Bandolim e Hermínio Bello de Carvalho, em 1951.

Paulo tocou acompanhado do parceiro Wagner Tiso, ao lado de parentes, amigos e pacientes da Clínica São Vicente, no Rio de Janeiro, onde estava internado, em tratamento de câncer linfático.

Dois dias depois, o grande instrumentista cala para sempre sua clarineta.

Naquele dia 10, foi o seu último choro. O nosso continua.

like a Muddy Waters

Ao contrário do que se possa associar, o nome da banda Rolling Stones não foi pela música de Bob Dylan, Like a Rolling Stone, que é de 1965, do álbum Highway 61 Revisited

Os Stones estouraram em 1962, e a inspiração para o batismo foi a canção Rollin' Stone, de Muddy Waters, de 1950, gravada em compacto simples.

Waters, o pai do chamado Chicago Blues, influenciou toda uma geração de músicos de rock e blues e baratos afins. O próprio Chuck Berry deve a ele a indicação para gravar o primeiro disco.

E em 12 de julho de 1962, The Rolling Stones lançaram oficialmente o nome da banda em um histórico show no Marquee Club, em Londres, com a formação original: Mick Jagger, Keith Richards, Brian Jones, Ian Stewart, Dick Taylor e Tony Chapman.
De lá para cá muitas pedras rolaram debaixo da ponte.

sábado, 11 de julho de 2015

o ser e o não ser

Neste sábado, 11, justamente quando faz 26 anos da morte do maior ator shakespeariano, Laurence Olivier, ganho de presente o ótimo livro de ensaios de Theófilo Silva.

Sob a ótica da obra do grande dramaturgo, o autor faz nas páginas de Shakespeare indignado, uma precisa dissecação de acontecimentos, do cotidiano, da política, das relações pessoais, de tudo, e nos prova o quanto a visão de William Shakespeare é atual, é atemporal, é sempre.

Visionário, é como se o dramaturgo tivesse dito nas entrelinhas de suas peças maravilhosas: "decifra-te ou devore-se, oh, ser humano!" E disse.

E impressionante como Theófilo, com uma escrita admirável, imparcial e apartidária, analisa a tudo e a todos através dos fatos nossos de cada dia.

Há muito tempo dedicado à pesquisa e estudo da obra do dramaturgo, expondo suas análises em livros, sites e palestras, Theófilo Silva é, sem favores, doutor em William Shakespeare.

Desculpe-me a preferência e o trocadilho, Bárbara, Eu-Lhe-Adoro, mas sou mais o Theófilo.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

já que sou brasileiro...

A música não é dele, foi composta por sua esposa Almira Castilho e seu amigo Gordurinha, mas Chiclete com banana ficou como uma espécie de marca registrada de Jackson de Pandeiro. 
 
O simpático e franzino paraibano já fazia sucesso no rádio e em shows, nas décadas de 40 e 50, com Sebastiana, A mulher do Aníbal, O canto da ema, e outros forrós aloprados, mas foi quando começou a mascar chiclete com banana que estourou definitivamente, e, pode-se dizer, criando de uma forma tosca e brincalhona o primeiro samba-rock (viu, Seu Jorge?!).

Gravada em 1959, Chiclete com banana expressa em letra bem humorada e irônica a necessidade de manter a pureza da nossa música, sem influência de ritmos estrangeiros, mais exatamente da terra do Tio Sam, que só vai botar o bebop em nosso samba "quando ele tocar o tamborim / quando ele pegar no pandeiro e no zabumba / quando ele aprender que o samba não é rumba". Eles têm chiclete, e nós, yes! temos banana, que engorda e faz crescer. Então, cante lá, que eu canto cá.

Essa música é muito interessante, bastante sintomática, uma crítica direta à facilidade que temos de absorver ritmos musicais de outras culturas, o que não é condenável, desde que não seja em detrimento de nossa originalidade. À época da composição, o rock'n'roll reverberava pela América latina e Ocidente, refletindo não somente um gênero, também como comportamento de uma geração pós-Segunda Guerra, que veio explodir como um caleidoscópio cultural na década 60. As influências eram inevitáveis. Tanto é que o próprio Jackson do Pandeiro, batizado José Gomes Filho, logo no início da carreira adotou o "Jack" em homenagem a um ator de faroeste que ele adorava, Jack Perry. O acréscimo do "son" foi ideia de um produtor, o Pandeiro, por ser o instrumento que ele começou a tocar, presente de sua mãe.

Alceu Valença costuma dizer que Luiz Gonzaga é o Pelé da nossa música, e Jackson, o Garrincha. E faz sentido essa analogia: os dribles e o domínio que o paraibano tem com os ritmos, ao longo de mais de trinta discos, é impressionante. Ele vai do forró ao samba, passando com a mesma verve de interpretação e personalidade, pelo baião, xote, xaxado, coco, arrasta-pé, quadrilha, marcha, frevo... Não à toa, ficou conhecido como "O Rei do Ritmo".

Em 1982, após um show aqui em Brasília, Jackson sentiu-se mal no momento do embarque no aeroporto. Era diabético. Passou uma semana internado, faleceu em decorrência de embolia cerebral, no dia 10 de julho, em um hospital na W3 Sul.

E nosso samba ficou assim: "tururururururi bop-bebop-bebop / tururururururi bop-bebop-bebop /tururururururi bop-bebop-bebop..."

os convidados de Camões

No Sarau a Camões, desta sexta-feira, 10, no Empório Mineiro, Brasília, a presença de dois amigos queridos: o poeta Domingos Pereira Netto e o doutor em Shakespeare, Theófilo Silva, que além de recitar o homenageado bardo português, expôs uma aula sobre um trecho da peça Júlio César, do dramaturgo inglês. 

Domingos, depois de algumas leituras sobre Camões, surpreendeu-me ao falar meu poema Asas, do livro Poesia provisória

Esses encontros revigoram a amizade, alimentam o amor pela literatura, transformam a noite em orvalho de esperança, como dizia Neruda, que hoje faria 111 anos. 

O evento é organizado pelo jornalista e poeta Menezes de Morais. O próximo será dia 24/7, onde estarei como convidado.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

se todos fossem iguais a você...

"Foi sacanagem a forma que me expulsaram do Itamaraty!", desabafou o poeta Vinicius de Moraes, lá pelos anos 70, a respeito de sua saída compulsória, definitiva e sumária dos quadros do Ministério das Relações Exteriores na época da ditadura.

Após 26 anos de serviços prestados ao Itamaraty, o poeta foi "aposentado" pelo regime militar em 1968, já como resultado da promulgação do AI-5. O general-presidente de plantão, Costa e Silva, exigia o desligamento do serviço público de "bêbados, boêmios e homossexuais". Brincalhão, Vinicius disse "eu sou o bêbado." O ministro Magalhães Pinto foi curto e grosso: "demita esse vagabundo!"

Com a exoneração, o poeta ficou muito magoado e deprimido. Extravasou seus sentimentos na poesia e na música. Na língua nagô a expressão Na tonga da milonga do kabuletê, gravada em 1970 em parceria com Toquinho, significa algo como "vão todos à merda!" Curto e diplomático.

Em 2010, em Brasília, o poeta foi promovido pelo então chanceler Celso Amorim à condição de Embaixador do Brasil, com a presença de parentes e amigos, como a cantora Miúcha.

Em algum cantinho, em bom lugar, o nosso eterno poetinha deve estar curtindo, com seu uisquinho, essa tardia reparação, embora ele nunca tenha deixado de ser o que lhe tomaram, pois dizia-se "eu, o capitão do mato, Vinicius de Moraes, poeta e diplomata."

E porque hoje faz 35 anos que ele se foi, e é imortal posto que é chama, peço-lhe a bênção, meu mestre.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

remember when you were young?

Esse "era" Syd Barret, o cara que em 1965 fundou com Roger Waters a "minha" maior banda de rock, Pink Floyd.

Logo em 1968, Syd abusou das viagens, e ontem fez nove anos que ele não voltou mais.

Shine on you crazy diamond, composição dividida em nove partes, do álbum Wish You Were Here, de 1975, é dedicada a ele.

terça-feira, 7 de julho de 2015

matéria de capa

O meu documentário Pessoal do Ceará - Lado A Lado B é matéria de capa do caderno Diversão&Arte do jornal Correio Braziliense de hoje.

Aqui em Brasília as filmagens continuam.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

O "oxi" do escritor

"Um homem de verdade é aquele que resiste, que luta e que não tem medo de dizer NÃO, nem mesmo a Deus, quando necessário"

O "Oxi" do escritor, poeta e pensador grego Nikos Kazantzákis (1883-1957), através do seu último romance Testamento para El Greco, postumamente publicado em 1961.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

when you're strange

"When you're strange / faces come out of the rain, rain, rain / when you're strange / no one remembers your name / when you're strange / when you're strange / when you're strange..."

Essa letra do guitarrista Robby Krieger, musicada e cantada por Jim Morrison, é a cara do Jim Morrison.

People are strange foi gravada no segundo disco de The Doors, Strange Days, de 1967. Segundo a lenda em torno da canção, os dois músicos, em um dia daqueles psicodélicos, deprimidos, deu na telha de subir o Laurel Canyon, na Califórnia. Contemplaram não sei o quê lá de cima, quando desceram, voltaram com a composição pronta.

De lá pra cá surgiram várias análises em torno da letra: que é sobre as pessoas marginalizadas pela sociedade, que aborda a cultura hippie e o consumo de drogas, que é sobre a fragilidade do próprio cantor... o que acho mais provável.

Hoje faz 44 anos que o doce estranho Morrison não voltou mais.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

o poderoso Brando

Em 1973, Marlon Brando foi indicado ao Oscar de Melhor Ator, por seu magnífico trabalho em O poderoso chefão (The godfather), de Francis Ford Coppola. Ganhou, era o favorito, apesar dos fortes concorrentes, Laurence Olivier, Michael Caine, Peter O’Toole, Paul Winfield.

Mas o poderoso Brando recusou o prêmio. Não compareceu à cerimônia, enviou em seu lugar a atriz Sacheen Littlefeather, que, caracterizada de índia, subiu ao palco e fez um discurso em protesto pelo modo como os Estados Unidos discriminavam os nativos do país.

Brando estava com uma péssima imagem em Hollywood na época, por suas posições políticas, mas em nada alterou sua aura mítica. Continuou brilhando com seu talento em filmes nas décadas seguintes, mesmo em participações menores. O grande destaque foi a atuação em Apocalipse Now, também de Coppola, em 1978.

Nos anos 80 o ator se afasta dos holofotes e passa a morar em uma ilha na Polinésia. Recluso, enfrenta problemas financeiros, o julgamento do filho por assassinato do namorado da irmã, que, deprimida, se suicidou em 1995.

Hoje faz 11 anos que ele se foi, aos 80. Suas cinzas estão espalhadas no Taiti e Deserto de Mojave, EUA.