domingo, 31 de maio de 2015

eu vou tirar você desse lugar

A belíssima Melina Mercouri (1920-1994) vive uma prostituta no filme do então marido Jules Dassin (1911-2008), o ótimo Nunca aos domingos (Never on Sunday), coprodução dos Estados Unidos e Grécia, de 1960.

Sua personagem não chega a ser como a ingênua Cabiria, do clássico das noites de Federico Fellini, mas Ilya é uma prostituta de bom coração, diferente das colegas de vida difícil no porto de uma cidadezinha perto de Atenas.

O conflito do filme se dá no momento em que um desses turistas americanos, metido a filósofo e salvador do mundo, chega à Grécia para entender a decadência da grande civilização que foi. O forasteiro, interpretado pelo próprio diretor do filme, vê na prostituta um símbolo da transformação que o país milenar precisa urgentemente. E o moço se empenha em tirar Ilya daquele pedaço, cheio de garotas indecentes e cafetões asquerosos. 

A analogia interessante que se pode fazer entre o filme e a realidade, é que a atriz abandonou o cinema em 1978, e entrou com tudo na vida política do seu país, Mesmo exilada na França, lutou contra ditadura, empenhando-se com o seu prestigio, em reerguer a civilização ameaçada. Com a redemocratização ainda frágil, Melina voltou à Grécia e vinculou-se ao Parlamento progressista, tornando-se a primeira Ministra da Cultura, cargo que exerceu por dois mandatos na década de 90.

A atriz tinha 75 anos quando faleceu em Nova Iorque. Mais uma vez retornou ao seu porto grego, para ser enterrada com merecidas honras de chefe de Estado.

domingo com Machado

"O dia estava lindíssimo. Não era um domingo cristão; era um domingo universal."

Machado de Assis, o maior de todos, no ótimo conto Uns braços, inserido na preciosa coletânea Várias histórias, publicada originalmente em 1896.

o último voo

"Sertão, olha o Concorde / que vem vindo do estrangeiro... "
  Belchior 

12 anos do último voo do mais belo e mais rápido que o som.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

o silêncio

"Os pintores têm as telas. Os escritores, os papéis em branco. Os músicos têm o silêncio."
                                                                                       Keith Richards

à margem da imagem

  Mary Ellen Mark no início da carreira
“Fotojornalismo não existe mais. Muita foto de arte, muito Photoshop. É tudo decoração. Não há mais tempo para elaborar um bom trabalho”

Desabafo da fotógrafa norte-americana Mary Ellen Mark em 2013, que faleceu no último dia 25, aos 75 anos.

 
 Com Federico Fellini, nas filmagens de "Satyricon", 1969, quando fez still

O trabalho de Ellen, declaradamente influenciado pelo perfil estético de Cartier-Bresson, é um mergulho profundo nos seres humanos à margem de tudo: os artistas de circos mambembes, os homeless, os internados em hospitais psiquiátricos, as pessoas não visíveis, os outsiders.

still em "Apocalipse Now", de Francis Ford Coppola, 1979 
Muitos diziam que por sua beleza, Mary deveria ser sido modelo. Mas ela preferiu ser uma retratista, como se definia, ampliando seu talento além do fotojornalismo. Madre Teresa de Calcutá, Woody Allen, Johnny Depp, Robert Downey, Jr., Tim Burton, Liza Minelli, Kris Kristofferson, Angelina Jolie, Leonardo Di Caprio, foram algumas de dezenas de celebridades eternizadas por suas lentes. 

Apaixonada por cinema, Ellen foi também still de vários filmes e produziu documentários, além de editar livros temáticos.


 Marlon Brando nos intervalos de "Apocalipse Now"

a outra face de Brando

O ator Marlon Brando no alto do comando do único filme como diretor, A face oculta (One-Eyed Jacks), 1961.

Apesar de inexperiente na função, Brando recebeu elogios pelo estilo inovador no gênero werstern, com planos longos e ritmo lento, incomuns cenários à beira-mar, ângulos coreográficos em cenas de duelo.

Mas a inabilidade no ator, que se dividiu no papel principal, deu prejuízo à produtora, rodando muito mais do que deveria. Faltou à Marlon Brando a destreza de Stanley Kubrick, a quem substituiu no início do projeto.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

compasso de espera

Certa vez, alguém parabenizou Marcello Mastroianni pelos seus 40 anos de cinema. 

- 40?! Não. De cinema mesmo, só foram uns 5. Os outros 35 eu passei esperando para filmar... - esclareceu o grande ator.

"não olhe para a câmera, continue lutando!"

O maestro Francis Ford Coppola regendo o fim do mundo em Apocalipse Now, clássico do cinema contemporâneo, 1979.

Filmado em 17 semanas, em uma produção literalmente de caos, com locações fieis nas Filipinas, equipe numerosa enfrentando chuvas, tufões destruindo cenários, elenco trocado com horas de cenas rodadas, atores infartados e insubstituíveis, orçamento estourado, Apocalipse... é baseado no denso e tenso romance Heart of Darkness, de Joseph Conrad, mas teve roteiro alterado, distanciando-se da obra literária.

Coppola mais do que manteve, ampliou a essência do pânico, o que o horror da guerra é capaz de provocar na mente humana. O filme denuncia a brutalidade e a supremacia norte-americana sobre o mundo. E isso não é pouco.

Satyricon de Fellini

O gênio Federico Fellini dirigindo os espíritos em "Satyricon", 1969.

A adaptação da atmosfera onírica, o sonho descontínuo do clássico livro de Petrônio, do distante século I.

você me dá bandeiras

Hoje, 27 anos sem as janelas, bandeirinhas e cores de Alfredo Volpi, um dos pintores mais importantes do modernismo brasileiro.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

seres

"Não somos seres humanos atravessando experiências espirituais, somos seres espirituais vivendo experiências humanas."

Ignacio Escribano / banda Indra Mantras

terça-feira, 26 de maio de 2015

Miles

Hoje, 89 anos de nascimento do compositor, trompetista e bandleader de jazz Miles Davis.

respeite meus cabelos brancos

No final da década de 70, quando comecei a ouvir Sivuca, e assistir aos seus shows, secretamente lhe dei o apelido de "cabelo de milho". Apesar de apropriado, achava grosseria de minha parte de fã. Nunca sequer comentei com alguém.

Eis que em 1980 ele lança o disco com título do cognome como obviamente era chamado, talvez desde criança, pelo seu albinismo, o mesmo distúrbio congênito de outros grandes artistas, como Hermeto Pascoal, os irmãos Edgar e Johnny Winter, e, reza a lenda midiática, Michael Jackson. 
Cabelo de milho, o disco, é um dos melhores dos mais de 30 que ele gravou, aqui e no exterior. A última faixa do lado B é a cinematográfica Feira de Mangaio, composta em parceria com Glorinha Gadelha, sua companheira de vida até os últimos momentos, quando faleceu em 2006.

Hoje ele faria 85 anos de vida. Como está liberado desde 1980, parabéns, Cabelo de Milho!

domingo, 24 de maio de 2015

os grãos

Desde 2005, a Associação Brasileira da Indústria de Café incorporou ao nosso calendário hoje como o Dia Nacional do Café. 

A argumentação é que no dia 24 de maio, lá por volta de 1727, chegaram as primeiras mudas dos grãos trazidas da Guiana Francesa para Belém, no Pará.

Se isso tem fundamento ou não, vai aqui a minha homenagem aos trabalhadores dos cafezais, com essa belíssima obra de Cândido Portinari, Colhedores de Café, de 1935.

Um brinde quentinho!

sábado, 23 de maio de 2015

quem é Tommy

Hoje, 46 anos do lançamento de um dos mais importantes discos da história do rock: Tommy, da banda inglesa The Who.

O álbum duplo, com 24 faixas, conta em narrativa de ópera, a história fictícia do Tommy Walker, que teve o pai de volta da Primeira Guerra Mundial, depois de considerado perdido nos campos de batalha. O grande trauma de Tommy foi, aos sete anos de idade, presenciar o pai ser morto pelo o amante de sua mãe. 

Todas as músicas foram compostas pelo guitarrista Pete Townshend, com vogais de Roger Daltrey. Naquele começo de 1969, os complexos arranjos de riqueza musical do disco, lançou o gênero que se denominou ópera-rock.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

é você que ama o passado

Não, não tem nada a ver com nosso rapaz latino americano. "Belchior", em bom português, é uma profissão, mercador de objetos velhos e usados, como bem explica o verbete do Dicionário Aurélio. Aquela pessoa que compra de tudo, que vende de tudo.

O senhor aí da foto é Joaquim da Cunha, que veio de sua terra natal em Portugal para viver em Porto Alegre, e montou essa casa de comércio, que existiu por 50 anos. Muito querido na capital gaúcha, "seu" Joaquim faleceu em 1995, aos 100 anos, e deixou muita saudade a uma vasta freguesia. Sua loja, que chegou a ser um local de curiosidade, vendia de soda cáustica a televisores, de veneno para ratos a pilhas para rádio, de moedas antigas a tinta para canetas... quem entrava lá encantava-se com tantas coisas empilhadas, instrumentos musicais, bússola, pregos antigos oxidados, sinos, leque, quadros, lampiões, louças, serrotes, câmeras fotográficas... 

Uns diziam que o ambiente abarrotado dos mais inusitados objetos, tinha odor de mofo, outros sentiam o aroma dos tempos idos.

a rosa de Cartola

"Simplesmente as rosas exalam / o perfume que roubam de ti..."

terça-feira, 19 de maio de 2015

compreensão do cinema

"O século 20 será compreendido através do cinema. Daqui a 50, 100 anos, o cinema vai ser a fonte de informação do século 20, porque o cinema não só reproduziu ou registrou o que estava acontecendo, como criou um mundo novo."

E essa compreensão passará também pelos filmes do grande cineasta brasileiro Cacá Diegues, que hoje completa 75 anos.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

cometa poesia

“No ar frio, o céu dourado baixou ao vale, tornando irreais os contornos dos sobrados, da igreja, das montanhas. Saímos para a rua banhados de ouro, magníficos e esquecidos da morte que não houve. Nunca mais houve cometa igual, assim terrível, desdenhoso e belo.” 

Assim registrou em seu diário o pequeno Carlos aos 7 anos de idade, quando e como viu deslumbrado o cometa Halley passar nos céus mineiros de Itabira, em 18 de maio de 1910.

Tempos depois, Carlos, já Drummond de Andrade, publicou em seu belíssimo livro de crônica A Bolsa & a Vida, o texto O Fim do Mundo sobre essa lembrança que marcou a infância. 

Lançada em 1962, a obra em prosa do poeta tem escrita leve, fluente e bem-humorada, e refaz diversos aspectos da realidade brasileira e mundial ao longo dos anos 1950. Já com o olhar adulto, mas igualmente fascinado, Drummond diz que "imaginei que ia presenciar a morte do mundo, ou antes, que morreria com ele. Um cometa mal-humorado visitava o espaço. (...) sua cauda tocaria a Terra; não haveria mais aula de aritmética, nem missa de domingo, nem obediência aos mais velhos. Essas perspectivas eram boas. Mas também não haveria mais geleia, Tico-Tico. (...) Ideias que aborreciam. Havia ainda a angústia da morte, o tranco final, com a cidade inteira (e a cidade, para o menino, era o mundo) se despedaçando – mas isso, afinal, seria um espetáculo. Preparei-me para morrer, com terror e curiosidade."

Drummond retraça o espetáculo desfazendo o vaticínio, o apocalipse anunciado: "O que aconteceu à noite foi maravilhoso. O cometa Halley apareceu mais nítido, mais denso de luz e airosamente deslizou sobre nossas cabeças sem dar confiança de exterminar-nos."

Na foto abaixo, o cometa riscando o céu andino de Arequipa, cidade peruana. Deveria ter acabado de passar no sertão verde de Itabira, e o menino Drummond já no seu caderninho-diário, "protocolando" o poema que ficou em seus olhos.

domingo, 17 de maio de 2015

o cinema onde estamos


Um dos poucos melhores filmes a que assisti nestes primeiros meses do ano, O tempo não existe no lugar onde estamos, encerrou hoje a Mostra Outros Cinemas, na Caixa Cultural, em Fortaleza.
Juntamente com o diretor do filme, o paraibano-cearense-mineiro
Dellani Lima, e do cineasta e professor Marcelo Ikeda, tive a honra de, a convite do organização do evento, mediar o debate após a sessão.

O tempo... é um exemplo de um cinema que não faz concessão à mediocridade dominante de filmes nacionais que repetem a "dramaturgia" televisiva.

Há vida inteligente, sim, na nova geração de cineastas brasileiros.

Aguardemos o filme ser lançado em salas que se prezem a uma boa programação.

Na foto de Rodolpho Soares, o ator André Gatti.

compreender cinema

"Nos filmes, somos treinados por meio de filmes norte-americanos a pensar que temos de compreender e pegar tudo de imediato. Mas isso não é possível. Quando você come uma batata, você não entende cada átomo da batata!"

sábado, 16 de maio de 2015

sábado à noite

E porque hoje é sábado, um frame de Psicose (Psycho), de Alfred Hitchcock, 1960.

Janet Leigh e John Gavin discutem a relação. Ela quer casar, ele argumenta que financeiramente não pode. Precisa de um tempo pra pagar umas dívidas, se estruturar. Ela tem pressa, acha que ele tá enrolando. Entediada, querendo coisas novas em sua vida, toma "emprestado" uma grana da imobiliária em que trabalha, pega o carro e se manda meio assim "easy rider". Mal sabe que iria de encontro a Anthony Perkins no Bates Motel, moço charmoso e esquisito, que tem a mania de se vestir como mãe dele e de atacar com uma uma faca as mocinhas no banheiro.

Melhor a solidão dos sábados.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

in a romantic mist...

Duas excelentes obras sobre o grande trompetista e cantor de jazz Chet Baker, de quem não sou fã, sou devoto: a biografia No fundo de um sonho - A longa noite de Chet Baker, escrita pelo jornalista James Gavin, publicada em 2002, e Let's Get Lost, documentário dirigido por Bruce Weber.


São referências definitivas sobre Baker. Nas páginas de um, nas imagens do outro, se se conhece a música do ícone do jazz cool, impossível não se emocionar com os relatos, os depoimentos, as entrevistas.

No filme, concluído um ano antes de sua morte, completando hoje 27 anos, o diretor grava longos planos de um Baker mais introspectivo do que se sabia. O seu olhar distante, o mergulho em suas dores. A câmera parece não estar ali. O cineasta e o músico eram amigos, e isso rendeu a intimidade necessária para extrair a mais verdadeira fala, o mais sincero silêncio.
Baker caiu-flutuou-levitou de uma janela de hotel em Amsterdan. Como diz a letra de sua canção Let's Get Lost: "in a romantic mist..."

my funny Chet

Uma foto pouco divulgada no grande trompetista e cantor de jazz Chet Baker, um dos meus anjos tortos favoritos. Nesta sexta amanheço ouvindo Baker no ar... The thrill is gone... Look for the silver lining... sua voz íntima em My funny Valentine. Um artista que eu queria muito ter visto e ouvido de perto. Lembro-me quando ele esteve no Brasil em 1985 para apresentações no Free Jazz Festival e minha frustração de não poder ir. Naquele ano Baker tinha na banda dois músicos brasileiros, o baixista Sizão Machado e o pianista Rique Pantoja, com quem gravou o ótimo disco Chet Baker & The Boto Brasilian Quartet, no começo dos anos 80 e depois gravaram juntos Chet Baker & Rique Pantoja, igualmente ótimo.

A passagem de Chet Baker pelo Brasil só é lembrada pelo problema que ele teve com drogas no Hotel Maksound Plaza. A imprensa noticiou o show como decepcionante, frustrante. Conheço pessoas, amantes insuspeitos do jazz, que viram o show e têm outra opinião: um momento inesquecível, impecável. 

A foto é de Pieter Boersma, 1975, e está no livro No fundo de um sonho - A longa noite de Chet Baker, biografia definitiva escrita por James Gavin, 2002.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

o fim e o começo

Quando o cineasta Eduardo Coutinho faleceu, ano passado, não consegui escrever uma linha sobre a tragédia... Lia as notícias na internet, as postagens no Facebook... e não conseguia dizer nada.
Meu silêncio só chorava.

Coutinho, um cabra que não estava marcado pra morrer daquele jeito, me desperta estas linhas traçadas de meu lamento sertanejo, de saudade. Hoje ele faria 82 anos.

be all right

Na filosofia rastafári, o corpo é um templo intocável, que não se pode alterar, modificar. Uma das características desse pensamento são as barbas crescidas, os dreadlocks

Bob Marley sofria de câncer de pele, que se desenvolveu fortemente sob uma unha infeccionada, no final dos anos 70. Segundo os médicos à época, se amputasse o dedo do pé, as chances seriam positivas de a doença ser curada. O cantor, além de seguir fielmente a doutrina, teria se negado a perder o dedo, embora tenha muito se divulgado que ele se preocupava que a cirurgia o fizesse parar de dançar e afetasse sua carreira, no auge de popularidade e reconhecimento. Preferiu um tratamento alternativo, com um médico naturalista alemão.

Mas em 1981, a doença avançou de uma forma incontrolável. O câncer se alastrou pelo estômago, pulmões, chegando ao cérebro. Marley morreu aos 32 anos, em sua casa na Jamaica, consolando a própria mãe, dizendo-lhe "mommy, no cry. I'm going ahead to prepare a place."

Hoje faz 34 que ele se foi. Ainda ouvimos o wailer nos consolar:
"my feet is my only carriage / so I've got to push on through... / but while I'm gone / I mean: everythings gonna be all right!"

domingo, 10 de maio de 2015

a mãe de Brecht

Em 1939 Bertold Brecht escreveu a peça Mãe Coragem e seus filhos. Era sua tentativa de alertar para o perigo do nazifascismo que ameaçava se alastrar por toda a Europa. 

Estratégica e simbolicamente ambientada no século 17, durante a Guerra dos Trinta Anos, a peça traz todos os conceitos da teatro épico e do que ficou conhecido como distanciamento e estranhamento brechtianos.

Anna Fierling, o personagem da mãe, é a cristalização da mulher que usa a coragem de forma enviesada, que decide seguir o exército sueco na guerra, que vive para a guerra, lucra com a guerra, e perde seus filhos. Não há sentimentalismos, não há compreensão emocional com os personagens. Há reflexão. Assim como a protagonista mantêm-se indiferente à realidade ao seu redor, uma hiena em campo de batalha, como observaram os críticos da época, a ausência da empatia faz com que se observe na personagem uma situação histórica e suas consequências para os homens e os tempos futuros.

A peça só chegou aos palco em 1941, no Teatro Schauspielhaus, em Zurique, dirigida por Leopold Lindtberg, com a atriz Helene Weigel no papel-título.

Pietá de Santo Amaro

Um das mais belas capas de um dos mais belos discos da música brasileira.

Mamãe Dona Canô e o filho Caetano devidamente no colo, fotografados por Januário Garcia.

O LP é o 13º de estúdio, lançado em 1978.

amor de mãe

Lançado em 1997, Só as mães são felizes é um belíssimo livro de coração aberto, escancarado, do amor de uma mãe por um filho. E filho único.

Lucinha Araújo conta a história de Agenor de Miranda Araújo Neto, seu e nosso querido Cazuza, desde a gravidez até a sua morte prematura, em 1990, aos 32 anos.

Escrito em narrativa de depoimento à jornalista e escritora Regina Echeverria, o livro tem a elegância e a doçura com que soube viver e enfrentar toda a trajetória, artística e pessoal, do filho.

sempre te vi, sempre te amei

“Escrever cartas para a mãe foi a forma que descobri de falar com o leitor, para facilitar o entendimento. Escrever carta para a mãe é o mínimo que cada um faz. Eu escrevo para minha mãe. Ora, todo mundo tem mãe – espero. Todo mundo tem filho. Todo mundo é mãe ou filho. Então, ou se identifica comigo porque é o filho escrevendo para a mãe ou então é o contrário”.

Assim definiu o cartunista, quadrinista, jornalista e escritor Henfil (1944-1988) sobre as crônicas que escreveu no período brabo de ditadura militar, publicadas em livros e jornais. Política, amor, cultura e amizade eram os assuntos pertinentes nos textos, sempre reflexivos e bem humorados, diretamente endereçados a sua mamãe, de quem ironicamente herdou a hemofilia, que o levou, assim como seu irmão, o sociólogo Betinho.

Pode-se dizer que essa série de cartas eram crônicas sobre o Brasil, ambientadas em tempos difíceis, mas cheias de esperanças, por isso, a mãe como primeira leitora e socorro.

Em 2000 Fernando Kinas e Marina Willer fizeram o documentário média-metragem Cartas da mãe, baseado em algumas das crônicas, com narração de Antonio Abujamra, disponível no Youtube.

a mãe de Pedro


A mãe do cineasta espanhol Pedro Almodóvar esteve presente em todos os seus filmes, de uma forma direta e indireta, citada, referenciada, simbolizada em todas as mulheres personagens que ele criou.


Como estrelas têm pontas que brilham, Dona Francisca Caballero fez pequenas aparições iluminadas em trabalhos do filho. O último foi Tudo sobre minha mãe (Todo sobre mi madre), de 1999, ano que ela faleceu, logo após as filmagens, aos 83.


O filme, excelente drama com ótimos elementos cômicos na narrativa, onde se discute identidade sexual com religião, fé com existencialismo, AIDS com travestismo, já começa com uma divertida contestação entre os protagonistas sobre o título do filme de Joseph L. Mankiewicz, 1959, traduzido em vários países de forma diferente, A malvada, Eva, em referência a personagem central interpretada por Bette Davis. Todos consideram que o título original, All About Eve deveria ser mantido, etc e tal. O que é certo. Almodóvar inteligentemente desenvolve o roteiro do seu filme, em um gesto de metalinguagem, com um título em alusão maternal.

uma mãe à procura do filho

“Quem é essa mulher / que canta sempre esse estribilho / 'só queria embalar meu filho / que mora na escuridão do mar'”

Essa mulher é Zuzu Angel. Esses versos são da música Angélica, que Chico Buarque compôs para ela, e está no disco Almanaque de 1981.

O filho que deixou de ser embalado pela mãe, era Stuart Angel, estudante de Economia, preso em maio dos anos de chumbo de 1971, por agentes do Centro de Informação da Aeronáutica, torturado e assassinado, e o corpo possivelmente jogado na escuridão do mar. Tinha 26 anos. Ela, 54, quando morreu em 14 de abril de 1976, misteriosamente em “acidente” de automóvel na saída do túnel Dois Irmãos, na Estrada da Gávea, Rio de Janeiro, local que hoje tem seu nome.

a mãe escondida

Li o romance A Mãe, de Máximo Gorki, nesse formato da foto, edição de livro de bolso. Cabia literalmente no bolso. 

Era década de 70, período brabo da ditadura Médici no Brasil, e eu, por não conseguir parar de ler, levava o livrinho encapado com papel pardo, e lendo com cuidado na rua, olhando pros lados.

Um autor russo era sinônimo de comunista, marxista, incluindo sua mãe também e toda família. Eu, adolescente e apaixonado por literatura, com um livrinho desse seria uma "ameaça", para a país. Mas cheguei ao final, com um mês e pouco de leitura escondida, até mesmo em casa, pois a "neura" fazia a gente se sentir vigiado como o personagem Winston Smith, de 1984, romance assustador e profético de George Orwell, publicado em 1948. 

A Mãe é um clássico escrito em 1907, sobre o desenvolvimento da individualidade da mulher proletária, forjada na luta revolucionária dos socialistas russo. Uma leitura que magnetiza pela atemporalidade e narrativa cativante.

yes, mami

"I remember you well in the Chelsea Hotel / you were famous, your heart was a legend / you told me again you preferred handsome men / but for me you would make an exception..."
- Leonard Cohen

Gravada em seu quarto disco, New Skin for The Old Ceremony, 1974, o cantor canadense compôs Chelsea Hotel #2 para Janis Joplin, com quem teve um caso quando os dois moravam no lendário Chelsea Hotel, New York, em 1968.

Li uma entrevista de Cohen, acho que no começo dos anos 90, época em que se tornou budista, e depois vi no documentário Leonard Cohen: I'm Your Man, de 2005, em que ele se arrependia de ter exposto tanto a relação com a cantora, não por ela, que nem ligaria pra sinceridade da letra, mas pela mãe (dele!) que achava grosseiro alguém dizer numa canção intimidades como "you were talking so brave and so sweet / giving me head on the unmade bed... ", arriscando aqui uma tradução livre, "você estava falando tão corajosa e tão doce / fazendo sexo oral para mim na cama desarrumada..."

O cantor preferiu nunca ter gravado, assim como fez com Chelsea Hotel #1.

duas mães


Mãe e filha, 2011. E quando se mergulha nos 80 minutos do filme, vê-se que até no resumo em que o cineasta abrevia a história, ele consegue proporcionar o tempo nas palavras certas. 

Depois de uma longa separação, mãe e filha se encontram no sertão, entre ruínas e lembranças. O destino da filha nega o sonho da mãe. O passado é um círculo que aprisiona os vivos e os mortos. A filha quer romper, mas as sombras espreitam – é o que diz a sinopse do segundo longa do cineasta Petrus Cariry Mãe e filha, 2011. E quando se mergulha nos 80 minutos do filme, vê-se que até no resumo em que o cineasta abrevia a história, ele consegue proporcionar o tempo nas palavras certas. 

Não há a chamada química entre as atrizes Zezita Matos e Juliana Carvalho: há uma alquimia na interpretação das duas, respectivamente a mãe Laura e a filha Maria de Fátima. A atuação é magnetizante. São duas mães em cena: uma que enterra o filho natimorto, outra que desenterra o passado, o presente e o desfuturo também natimorto.

sábado, 9 de maio de 2015

perfect way

Um de seus mais belos discos, de 1986.
Como diz o título da faixa 6, o perfect way do jazz fusion.

biografia de um país

Um dos mais importantes lançamentos deste começo de 2015 está nas livrarias com dez capas em cores diferentes. Apenas um atrativo de marketing da editora. 

Brasil: uma biografia, de Lília Morita Schwarz e Heloísa Standing, é uma leitura indispensável para compreender melhor 500 anos de nossa história. 

Ricamente ilustrado com fotos e fac-símile de documentação original, o livro magnetiza pela fluidez e curiosidade do texto.

Mandela lá

Há 21 anos, após mais de quatro décadas de regime segregacionista do apartheid, a África do Sul elege elegeu pela primeira um governante negro.

Nelson Mandela, libertado em 1989, após 28 anos de prisão, tornou-se o Pai da Pátria, como foi ovacionado por uma multidão.

opening time

Ao contrário do titulo, abrindo o tempo com um ótimo disco.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

let it Beatles

Hoje, 45 anos do lançamento do 13º e último disco dos Beatles.

alegria disparada

A gente nem sempre prepara o coração pras coisas que vão nos contar...não se aprende a dizer não, ver a morte sem chorar... e a morte, o destino, tudo, a morte e o destino, tudo estava fora do lugar...
Ele vivia pra consertar.

Um ano hoje sem a voz, o carisma, a alegria disparada de Jair Rodrigues.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

eu tu eles

Foto Bruce Davidson, 1960

Yves Montand olha para Marilyn Monroe que olha para Arthur Hiller que olha para Simone Signoret que fecha o circulo olhando para Yves Montand.

Eles estavam hospedados no Bervely Hills Hotel durante as filmagens de Adorável pecadora (Let's make love), comédia romântica dirigida por George Cukor, em 1960, com roteiro de Hiller, então marido de Marilyn.

O filme foi um fracasso de bilheteria e várias situações incômodas: Marilyn fazia par romântico com Yves Montand, casado com Signoret, que ficou enciumada com as cenas, assim como Hiller, que nem teve os créditos como roteirista.

Uma paráfrase enviesada do poema Quadrilha, de Carlos Drummond de Andrade.

o retratista

Phil Stern foi um dos maiores fotógrafos de celebridades, com trabalhos publicados nas revistas Life, Vanity Fair e Look. Falecido em dezembro passado aos 95 anos, ele se considerava um retratista. Seu interesse em registrar momentos inusitados e belos de atores, cantores, políticos, começou logo depois da Segunda Guerra, quando acompanhou as tropas americanas no norte da África e na Itália. 

Marlon Brando, Marilyn Monroe, Humphrey Bogart, John Wayne, Lauren Bacall, Tony Curtis, Sammy Davis Jr., Sophia Loren, Dean Martin, Jack Lemmon, Frank Sinatra, John Kennedy, Nixon, e tantos outros famosos, tiveram suas fotos em branco-e-preto emblemáticas pela forma muito própria como Stern enquadrou e usou a luz natural em momento raro. É dele a famosa imagem de James Dean com metade do rosto escondido atrás da gola de um suéter.

Abaixo, a cantora de jazz Ella Fitzgerald, no final da década de 50.