quinta-feira, 30 de abril de 2015

brasiliar


"Estou indo pra Brasília / neste país lugar melhor não há..."
  Renato Russo

cinema é cachoeira

Quando eu estava rodando o curta O último dia de sol, em Baturité, interior do Ceará, o cara que fazia o making of, estreando e entusiasmado na função de registrar os bastidores de uma filmagem, não deixava escapar nada.

A equipe foi fazer uma locação na região serrana e quando fomos assistir às imagens só tinham cenas de uma belíssima cachoeira. 

Acho que ele quis traduzir, literalmente, a definição do mestre Humberto Mauro, que dizia: "cinema é cachoeira".

Mauro, pai do cinema brasileiro, pastor de nosso cinema campesino, santo de todas as cachoeiras de nossas telas, faria hoje 118 anos.

cinemna

Quando eu estava rodando o curta O último dia de sol, em Baturité, interior do Ceará, o cara que fazia o making of, estreando e entusiasmado na função de registrar os bastidores de uma filmagem, não deixava escapar nada.

A equipe foi fazer uma locação na região serrana e quando fomos assistir às imagens só tinham cenas de uma belíssima cachoeira. 

Acho que ele quis traduzir, literalmente, a definição do mestre Humberto Mauro, que dizia: "cinema é cachoeira".

Mauro, pai do cinema brasileiro, pastor de nosso cinema campesino, santo de todas as cachoeiras de nossas telas, faria hoje 118 anos.

quarta-feira, 29 de abril de 2015

a lógica da imaginação

Psicose (Psycho), 1960, foi filmado em preto e branco por opção do próprio Alfred Hitchcock, que considerava que a cores o filme ficaria "ensanguentado" demais. Para criar o sangue na cena do chuveiro foi utilizada calda de chocolate.

Tudo coerente com a lógica da imaginação do mestre, que dizia que "existe algo mais importante do que a lógica: é a imaginação. Se pensamos primeiramente na lógica, não podemos imaginar mais nada."

Alfred Hitchcock, o mestre do suspense. O único. O inimitável. 

Hoje, 35 anos sem a lógica de sua imaginação.

domingo, 19 de abril de 2015

um índio

"E aquilo que nesse momento se revelará aos povos / surpreenderá a todos não por ser exótico / mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto / quando terá sido o óbvio..."

dia de todos os Galdinos

Na madrugada do dia 20 de abril de 1997, cinco jovens de classe média alta de Brasília, atearam fogo no índio pataxó Galdino Jesus dos Santos, que dormia num ponto de ônibus no início da avenida W3 Sul. Os burguesinhos alcoolizados e dementes acharam que o homem era mendigo, e disseram que pretendiam fazer “apenas uma brincadeira”, como se isso fosse "menos grave". O índio teve 95% do corpo queimado e faleceu horas depois no hospital.

Galdino voltava das comemorações do Dia do Índio, foi à Capital com outros sete líderes para pedirem pela recuperação de Caramuru-Paraguaçu, sul da Bahia, que são terras indígenas sagradas em conflito com fazendeiros. Chegou muito tarde dessas reuniões, cansado, com fome e sono, e a dona de uma pensão na W3 Sul não o deixou entrar.

Em 2001 os quatro criminosos maiores de idade receberam pena de 14 anos de prisão. Conseguiram alguns privilégios, como o direito de sair da cadeia para trabalhar e, desde 2004, 10 anos antes do previsto, estão em liberdade. Já foram vistos passeando em shoppings, filas de cinema, festas... O único menor de idade, na época com 17 anos, ficou apenas três meses detido numa instituição para menores infratores.

Hoje, 19 de abril, Dia do Índio. De todos os Galdinos.

sábado, 18 de abril de 2015

70 terrais

foto Angelica Maia
Ednardo, 70 anos hoje.

A equipe do documentário em realização Pessoal do Ceará - Lado A Lado B, deseja todo o ano, toda a vida, certezas mil de um pleno abril.

por que faço cinema?

 foto Laura Oliveira
O dedo em riste apenas aponta as palavras que vêm do coração para o coração do outro lado. Conversar com o compositor e artista plástico Sérgio Pinheiro,  uma figura admirável, foi um dos melhores momentos nas mais de 100 entrevistas que fiz até agora para o documentário Pessoal do Ceará - Lado A Lado B, um longa-metragem dividido em dois, de 1h30 cada, os tais lados, para dar uma ordem cronológica. 

O que compensa as extremas dificuldades financeiras, e outras logísticas, na realização desse filme sem edital e tais, é o contato com tanta gente com tantas histórias e tantas surpresas que veremos na tela. E espero, em tantas telas.

Sempre me perguntam quando será a estreia. Digo que será. Não tenho prazo nem pressa. Pago um preço, e mesmo assim, mais clamo do que reclamo. Estou na viagem, e sei que chegarei na estação final, onde haverá uma tela branca para projetar o filme. Entendo a ansiedade, o que desperta o tema. O avesso que questiono. 

Não faço concessões. Agrego sessões de amigos que topam o desafio e serei sempre grato a eles.

Alguns obstáculos na pista, alguns empecilhos, umas vaidades, e tanto "valha-me Deus!" de tudo que se possa imaginar numa produção dessa, deram-me e continuam dando motivos para desistir. Mas há muito desisti de desistir.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

o velho e o mar

Standing on a Beach, uma coletânea de The Cure, pra estar na praia e escutar com o velho e o mar nos perdidos anos 80.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

37°2 le matin

Foto de Nirton Venancio.
A moça de carinha abusada e charmosa é Béatrice Dalle, aos 22 anos, no papel-título de Betty Blue ( 37°2 le matin), de Jean-Jacques Beineix, produção francesa de 1986.

Com forte e bem elaborada dose de erotismo, o filme é um dos mais bem feitos ao traçar o perfil pessimista da geração sem rumo dos anos 80.

Baseado no livro de Philippe Djian, a história de um amor passional, conduzida por narrativa dramática e com algumas situações bem humoradas, se passa em uma vila no litoral da França, em cenário típico de liberdade e beleza que os comerciais de videoclipes vendiam em tempos pré-digitais. 

Todo enredo se desenvolve através da bela garota de temperamento instável e explosivo, e extremamente sedutor, em ótima interpretação da atriz que ficou marcada e sempre lembrada pela personagem.

uma atriz imortal

Antes de viver Orlando, a mulher imortal (Orlando), de Sally Potter, em 1992, a inglesa Tilda Swinton fez treze filmes.

Mas foi o papel do andrógino personagem de Virginia Woolf que lhe deu visibilidade mundial, revelando o seu grande potencial de atriz.

Assim como a imortal Orlando que atravessa os tempos do século XVI à 1928, Tilda viveu outra eterna no seu mais recente trabalho, na pele sem reflexo da vampira Eve em Amantes eternos (Only lovers left alive), filme de Jim Jarmusch, 2013, onde apresenta o conflito de seus personagens no universo de umas trevas, digamos, cool, sob a ótima trilha de riffs de guitarras. Um inteligente revés desses vampirinhos emos de shopping dos filmecos Crepúsculo e outras luas minguantes.

A atriz Tilda Swinton de beleza nórdica, tem em suas origens sangue longínquo correndo nas veias: a família é de sobrenome milenar anglo-escocesa, de uma linhagem da Alta Idade Média.

Uma atriz imortal. Por talento, batismo e personagens.

usura

"Com usura uma linha cresce turva / com usura não há clara demarcação / e homem algum encontra sua casa."  Ezra Pound

Cate Blanchett, atriz


O perfil da beleza e talento.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Simone

foto de Henri Cartier-Bresson, 1946.
Ela dizia que não se nasce mulher: torna-se mulher.
Hoje, 29 anos sem essa grande mulher, que se tornou Simone de Beauvoir.

essa mulher

“Quem é essa mulher / que canta sempre esse estribilho / só queria embalar meu filho / que mora na escuridão do mar”

Essa mulher é Zuzu Angel. Esses versos são da música Angélica, que Chico Buarque compôs para ela, e está no disco Almanaque, de 1981.

O filho que deixou de ser embalado pela mãe, era Stuart Angel, estudante de Economia, preso em maio dos anos de chumbo de 1971, por agentes do Centro de Informação da Aeronáutica, torturado e assassinado, e o corpo possivelmente jogado na escuridão do mar. Tinha 26 anos. Ela, 54, quando morreu em 14 de abril de 1976, misteriosamente em “acidente” de automóvel na saída do túnel Dois Irmãos, na Estrada da Gávea, Rio de Janeiro, local que hoje tem seu nome.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

aquele beijo que te dei

O famosa foto The Kiss, de Alfred Eisenstaedt, foi feita em 1945, em Time Square, logo após o anúncio do fim da Segunda Guerra. A enfermeira Edith Shain e um amigo, o marinheiro Glenn McDuffie, saíram às ruas para comemorar, e o primeiro impulso do rapaz foi dar uma boa pegada na garota e celebrar com um beijo. Estava certo!

Por muito tempo os protagonistas ficaram anônimos. Em 1970, Edith escreveu ao fotógrafo afirmando ter sido ela a felizarda. O moço era um apaixonado por ela que vivia "azarando", mas não conseguia quebrar a resistência da moça. Precisou a guerra acabar para enfermeira entregar os pontos. Ela confessou que o beijo foi de surpresa mesmo. E foi bom.

Edith Shain faleceu em 2010, aos 91 anos. O marinheiro partiu pra outros mares, em março do ano passado, aos 87.

Hoje, 13 de abril, sei lá porque inventaram que é Dia Internacional do Beijo. Todo dia é dia de beijaço. Pra não haver guerra

veias abertas da memória

"A memória guardará o que valer a pena. A memória sabe de mim mais que eu; e ela não perde o que merece ser salvo", dizia o escritor, ensaísta e historiador uruguaio Eduardo Galeano.

Nesta manhã chuvosa de segunda-feira em Fortaleza, leio a noticia de sua morte, às 9h, em Montevidéu. Minha admiração por ele é de ler e ouvi-lo com olhos e coração imantados. 

Galeano esteve em Brasília exatamente no dia 12 de abril do ano passado, na 2ª Bienal do Livro e da Leitura, quando abriu o evento e foi homenageado. Durante a palestra, no auditório lotado do Museu Nacional, disse que não leria nos dias atuais a sua maior obra, As Veias Abertas da América Latina, publicada em 1971. 
 
Achava a literatura de esquerda tradicional chatíssima, seu físico não aguentaria, teria que ir direto ao pronto-socorro. Lúcido e espirituoso, o escritor não renegou sua obra, importantíssima e pontualíssima para a reflexão do pensamento da esquerda latino-americana. Apenas atualizou essa reflexão. Esse clássico da literatura passou definitivamente no teste do tempo, é um livro imprescindível, para sempre. Da mesma forma, toda sua bibliografia de mais de 40 títulos.

Assim como a memória sabe dele mais que ele próprio, seu valor será guardado pela nossa memória.

sábado, 4 de abril de 2015

Like a Muddy Waters

O nome da banda Rolling Stones não foi pela de música de Bob Dylan, Like a Rolling Stone, que é de 1965, do álbum Highway 61 Revisited. Os Stones estouraram em 1962, e a inspiração para o batismo foi a canção Rollin' Stone, de Muddy Waters, de 1950, gravada em compacto simples.

Muddy Waters, o pai do chamado Chicago Blues, influenciou toda uma geração de músicos de rock e blues e baratos afins. O próprio Chuck Berry deve a ele a sua indicação para gravar o primeiro disco.

Nascido em um condado de Mississippi, Muddy Waters faria hoje 102 anos. Foi, é, sempre será o maior de todos os bluesmen.

qualquer amor

“Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura”
Guimarães Rosa

a cruz que não carrego

O ator que pegaram pra Cristo... depois da encenação, de crucificado, morto e sepultado, ressuscitou antes do terceiro dia e curtiu um balanço a céu aberto...

sexta-feira, 3 de abril de 2015

aquele beijo

Um dos beijos mais famosos da história da humanidade: o beijo com segundas intenções de Judas em Cristo.

O quadro de beleza hipnótica, A Captura de Cristo, de Caravaggio, 1602, encontra-se na Galeria Nacional da Irlanda.

Jesus superstar

Jesus sempre teve aquele jeitão de hippie, e no filme ópera-rock Jesus Cristo Superstar (Jesus Christ Superstar), ele manda ver no rock'n'roll, gírias e paixões carnais.

Baseado no musical homônimo de Tim Rice, o filme foi dirigido por Norman Jewison, produção americana de 1973, e narra de forma anacrônica a última semana no moço da Galileia. Claro que a Igreja não abençoou essa história.

Jesus nas ruas

Jesus de Montreal (Jésus de Montréal), de Dennys Arcand, produção canadense, 1989.

Um grupo de atores encena pelas ruas de Montreal, de forma nada convencional, uma versão teatral de A Paixão de Cristo. Para complicar, a via-crúcis de Jesus se confunde com as dificuldades de cada um do elenco. No filme, a peça é vista com maus olhos pela Igreja. Fora do filme também.

bendito fruto

A atriz Myriem Roussel em "Je vous salue, Marie", de Jean-Luc Godard, França/Suíça, 1985.

Maria grávida de José. Bendito é o fruto em Vosso ventre, Jesus.

tentações da Páscoa


Neste período de Semana Santa a televisão costumava reprisar alguns dos chamados "filmes bíblicos", como Ben Hur (Ben Hur), dirigido por William Wyler, em 1959, O rei dos reis (King of kings), 1951, de Nicholas Ray, e produções da década de 70, como a suntuosa minissérie televisiva Jesus de Nazaré, de Franco Zeffirelli, também lançada nos cinemas.

As reapresentações diminuíram, tanto em número como em qualidade. A grade de programação se resume a coisas como Maria - Mãe do Filho de Deus, dirigido por Moacyr Góes, com a cara-de-novela Giovanna Antonelli, e a obviedade nada-mais-nada-menos Padre Marcelo Rossi. 

Na foto, o ator Enrique Irazoqui, interpretando Cristo em O evangelho segundo São Mateus (Il vangelo secondo Matteo), dirigido por Pier Paolo Pasolini, em 1964. O filme é excelente, foge a todo tipo de leitura das produções que mitificam e edulcoram a "maior história de todos os tempos", como os títulos acima citados. Passar na TV? Não vejo a mais remota possibilidade.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

criador e criatura

"O cinema só trata daquilo que existe, não daquilo que poderia existir. Mesmo quando mostra fantasia, o cinema agarra-se a coisas concretas. O realizador não é criador, é criatura."

Manoel de Oliveira, o mais velho cineasta do mundo, existiu em plena atividade até hoje, aos 106 anos. Refazendo: o mais velho cineasta da Terra continua existindo na poesia concreta de seus filmes.

Gainsbourg, l'résolus

"Je connais mes limites, c'est pourquoi je vais au-delá", costumava dizer o cantor, compositor, ator, cineasta, sedutor, amante de tantas mulheres, marido de sua musa Jane Birkin, pai de Charlotte Gainsbourg, a cultuada atriz de Ninfomaníaca.

Gainsbourg, que faria hoje 87 anos, "foi mais além" aos 62 anos, tranquilão na certeza que ao saber dos seus limites, fez tudo que queria. Pode-se dizer que ele converteu a tradicional chanson francesa ao universo pop da música, com suas letras ousadas, polêmicas, com sua interpretação sussurrante, como estivesse à meia-luz e por inteiro numa alcova, num pub, entre a sensualidade de suas deusas, seus cigarros Gitanes, seus goles de Bourbon, e outros venenos antimonotonia e tais.

De certa forma, Gainsboug com seus traços de anjo torto, de dândi enviesado, revelou um lado furtivo da sociedade francesa naqueles pulsantes anos 60, 70. A beleza de suas músicas, refletivas em quase 30 discos, vai além da clássica canção de amor implícita, Je t’aime moi no plus. Gainsbourg construía uma espécie de labirinto de imagens com seu tempo poético, um caleidoscópio de sons sofisticados na simplicidade da narrativa.

Ele conhecia seus limites, por isso arriscava. “Je vais, je vais et je viens”, com diz a letra de Je t’aime...