terça-feira, 31 de março de 2015

nunca mais outra vez

Hoje: 51 anos do golpe militar no Brasil. Não há motivos para comemorar. Pelo menos do lado de cá. Os reacionários, ultradireitistas, fundamentalistas de ideias conservadores devem estar saudosos.

Foram 20 anos de trevas sobre o país até os primeiros raios de luz das Diretas Já. Da "ditadura técnica" do abjeto Collor até a esperança de Lula chegamos a uma democracia. Não é a democracia que queremos, que sonhamos, mas é uma democracia, e mesmo com os defeitos, que precisamos combatê-los, o país é uma república federativa presidencialista.

Vivemos duas décadas de arbitrariedades, de prisões, de torturas, de mortes, de "suicídios", de corpos em valas comuns, sumidos, jogados ao mar. Há mais de quarenta anos que pais não têm seus filhos de volta, que filhos não conhecem seus pais, que brasileiros perderam o passado em cárceres e ainda ecoam em seus ouvidos a ira de seus carrascos. A tortura como instrumento do Estado, e da lei, foi uma marca registrada do governo militar.

Em 1998 realizei um filme curta-metragem, O último dia de sol, ambientado nesse período. Com roteiro a partir de lembranças minhas sobre o meu pai e histórias que ouvia, o filme se passa na madrugada de 1º de abril de 1964, quando um militante político foge com a mulher e o filho pequeno numa pequena cidade do interior cearense. Filmei em preto-e-branco, em película 35mm, com atores e técnicos de Brasília, Fortaleza e Rio, na pequena cidade de Baturité, a 100 quilômetros de Fortaleza, reconstituindo a época e revisitando as emoções. Foram dois anos entre filmagem e montagem, e junto a alegria de fazer cinema, de ouvir o toque da claquete e gritar "ação!", as dificuldades inerentes, principalmente de orçamento.

Neste 31 de março, a minha homenagem aos que lutaram contra a ditadura escancarada.

Foto: Deise Jeffiny Ao meu lado na câmera, o diretor de fotografia Miguel Freire e o assistente Matias Sebastian, à frente, o ator Joca Andrade.

Ao meu pai, Francisco. Aos meus filhos, Enzo e Manuela.

Ao diretor executivo do filme, Almiro Santos Filho, in memorian.

segunda-feira, 30 de março de 2015

Clapton

No final dos anos 60, em Londres, os adoradores do grande cantor, compositor e guitarrista Eric Clapton, que hoje faz 70 anos, defendiam nas ruas o slogan “Clapton is God". Nos anos 2000, a frase voltou em forma de arte em graffiti, pintada nas paredes de uma estação do metrô da capital inglesa.

Exageros à parte, o cara é demais. Assisti a um show dele em Brasília, em 1988, e mesmo sem essa fixação divina, não conseguia tirar os olhos e os ouvidos imantados nele.

professor do cerrado

Há dez anos partiu uma das pessoas mais sensíveis e gentis com quem convivi, o amigo cineasta argentino-brasileiro Lyonel Lucini.

Apesar de sempre me chamar de "professor", com ele aprendi muitas coisas de cinema e de vida em longas conversas. Ele vindo do deserto da Patagônia, eu do sertão do Ceará, convergimos no cerrado de Brasília onde moramos, histórias que inspiraram em comum nossos trabalhos.

útima segunda-feira da última semana do mês.


segunda-feira, 23 de março de 2015

meus Franciscos


"Eu sou muito ruim de datas", diz Chico Anysio em sua biografia Sou Francisco, de 1991, logo no comecinho do livro, e no capítulo ele justifica essa sua falha.

E eu já sou bom de datas, meu querido conterrâneo, e não vou esquecer o dia 23 de março 2012, quando liguei o computador e me deparei com a notícia de sua partida. Não achei a menor graça, Chico. 
Eu sei que você lutou durante os últimos três meses para não se encontrar agora com o Seu Rolando Lero, o Samuel Blaustein, Bertoldo Brecha, Baltazar da Rocha, Dona Bela, Galeão Cumbica, Mazarito, Manuela D'Além-mar, Gaudêncio, Rui Barbosa Sá Silva, Pedro Pedreira, alguns dos alunos da sua Escolinha, mestre Raimundo, e estão aprontando lá por cima. Mas a "indesejada das gentes" tem esse incômodo da pontualidade e não ser intermitente como bem idealizou Saramago em um dos seus livros.

Creio que sua última participação no cinema foi no filme do meu amigo Clébio Viriato, O auto da camisinha, e está ótimo no papel de Padrinho. Que personagem mais adequado! Você se dispôs tão simpaticamente ao convite de Clébio e encantou dezenas de atores que contracenaram com você no sertão de Quixadá.

Você é múltiplo, Chico. Escrevia, atuava, cantava, vivia! Você é multimídia, você foi visionário. Você ficou vários com seus mais de duzentos Chicos. É muita saudade, Chico.

E permita-me dizer-lhe que você é meu segundo Francisco: o primeiro é meu pai, que lhe admirava e também está sob outras luzes.

Um beijo, Franciscos.

Kurosawa

"Pegue meu eu, subtraia dele filmes e o resultado será zero", dizia Akira Kurosawa, que hoje faria 105 anos. 

Parafraseando o mestre japonês, subtraia da cinematografia mundial os seus filmes e o Cinema ficaria perto de zero.

Assim como Yasujiro Ozu dissecava de forma minimalista os sentimentos humanos, Kurosawa simetricamente fazia o mesmo com seus belíssimos filmes de narrativa operística, épica.

sexta-feira, 20 de março de 2015

palmas pra ela

Em 1988, a atriz Dina Sfat lançou Palmas pra que te quero, que ela chamou de mini-biografia.

O livro é ótimo. Escrito em parceria com a jornalista Mara Caballero, atriz faz uma delicada e bem humorada "retrospectiva" de sua carreira artística, pontuando com sinceridade e sutileza fatos de sua vida pessoal, como o casamento com o ator Paulo José.

Dina decidiu como uma firmeza impressionante, sem autocomiseração, deixar para a posteridade o testemunho de um pensamento de amor pela arte, pela família, amigos, pelo país, ainda naquela época saindo de um período ditatorial. Sabia que não tinha muito tempo: faleceu no ano seguinte, no dia 20 de março, aos 49 anos, de câncer de mama.

a palavra precisa

Graciliano Ramos dizia que "a palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso, a palavra foi feita para dizer". E a precisão da obra do grande escritor alagoano é definição desse pensamento. 

Graciliano está para a prosa assim como João Cabral de Melo Neto está para a poesia. A síntese da palavra, a palavra certa na síntese, é o ouro verdadeiro que brilha em seus livros. A secura de sua literatura não é aridez, é concisão, é métrica em diálogos, é a dissecação dos sentimentos dos personagens e desenho definido dos conflitos, sem rodeios, a fundo. Graciliano é um minimalista do sertão, se destitui de excessos para fixar no âmago. Por isso sua palavra diz.

Vidas secas, publicado em 1938, por exemplo, é uma espécie de romance-haicai, pelo texto e o diálogos sincopados, E essa objetividade e determinismo do escritor, faz o leitor partícipe do destino daquela família de retirantes.
Assim como romance citado, todos os livros de Graciliano têm essa beleza e esse olhar determinado da escrita. São Bernardo, Angústia, Caetés, Insônia,os memorialistas Infância e Memórias do cárcere, tudo, até mesmo a bela obra de correspondências, Cartas de amor à Heloísa, é de um esplendor poético impressionante pelo rigor das palavras. 


Há 62 anos morreu Graciliano, 60 anos. 20 de março. Precisamente.

quinta-feira, 19 de março de 2015

ser o que lê

“Não basta saber ler que 'Eva viu a uva'. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho.
 
Paulo Freire

em vez de tomar chá com torrada

"Vou parar de escrever, pois estou chorando de saudade de todos, e de tudo."

Bilhete encontrado no bolso de Assis Valente, após sua morte, na terceira tentativa de suicídio, em 1958, no Rio de Janeiro. O compositor baiano estava atolado em dívidas, não recebia os direitos autorais de seus sambas, muitos deles gravados por Orlando Silva, Altamiro Carrilho, Elvira Pagã, Carmem Miranda, por quem nutria grande paixão, e se sentiu por ela menosprezado ao recusar o samba-exaltação Brasil pandeiro. "Assis, isso não presta. Você ficou borocoxô”, teria tido a cantora dos balangandãs.

A composição foi gravada tardiamente pelo conjunto vocal e instrumental Anjos do Inferno, nos anos 40, fez sucesso, e ficou conhecida pelas novas gerações com a gravação dos Novos Baianos, em 1972, no ótimo disco Acabou chorare: "Brasil, esquentai vossos pandeiros / iluminai os terreiros / que nós queremos sambar”.

As anteriores tentativas de suicídio de Assis Valente seriam cômicas se não fossem trágicas. Na primeira vez, após uma tensa sessão de cobrança da cantora Elvira Pagã, cortou os pulsos com um pedaço de lâmina de barbear e desmaia. Da outra vez, pulou do alto do Corcovado e frondosas árvores ao pé do morro amorteceram a queda. 

Resoluto, após a uma visita inglória ao escritório de direitos autorais para cobrar o que lhe cabia, “vestiu uma camisa listrada e saiu por aí”, como diz sua canção, senta-se em um banco de praça na Praia do Russel, e ingere guaraná com formicida. Tinha apenas 47 anos, muitas dívidas, centenas de composições, uma separação, uma filha adolescente, e muita solidão.

“Eu pensei que todo mundo / fosse filho de Papai Noel...”, uma das mais tradicionais canções natalinas, Boas festas, é de sua autoria. A letra é muito apropriada a sua biografia atribulada. Ele pensou que felicidade fosse uma brincadeira de papel.

Hoje ele faria 104 anos.

José

Há alguns anos, lendo sobre Caravaggio, descobri um discípulo seu, o pintor francês Georges de La Tour, que viveu no final do século 16. Sua obra é de uma beleza fascinante, uma técnica de claro-escuro como poucos sabiam aprofundar. 

A vida de La Tour era outro fascínio. Criava uma enorme quantidade de cães, era intempestivo e não levava desaforo para casa, ou para o atelier, onde passava todo o seu tempo, na pequena cidade ao norte da França. O cristianismo e as pessoas comuns são os temas de sua vasta obra, somente descoberta no começo do século passado, e hoje espalhada em museus na capital francesa e Estados Unidos. Infelizmente, não encontrei publicações em português sobre esse grande artista pouco conhecido.

Lembrei-me dele por conta desse belíssimo quadro abaixo, São José, o Carpinteiro. Lembrei-me dele porque hoje é feriado local em Fortaleza, Dia de São José, e em mais de quarenta cidades brasileiras.

Dia de José e Dia dos Carpinteiros, Marceneiros. Esses mestres é mais um dos meus fascínios. Trabalhar com a madeira, talhar a madeira, transformar a madeira, esculpir a madeira em móveis, objetos, peças, é uma arte ainda não devidamente valorizada.

Quando criança, eu costumava frequentar a oficina do único carpinteiro da minha pequena cidade. Ele trabalhava vestido em frouxas calças de linho cinza e camisa de mangas arregaçadas, usava um enorme chapéu de feltro, e bigodes à Salvador Dali. A figura clássica de um grande artista renascentista no interiorzinho cearense. Não lembro o nome dele, mas eu o chamava de "Seu José", e pronto. Eu pisava o chão coberto de serragem, pegava uns pedaços de madeira e pregos pra fazer carrinhos na minha marcenaria improvisada no fundo do quintal.

Hoje é feriado em Fortaleza. Hoje é feriado em mim.

terça-feira, 17 de março de 2015

o cinema por testemunha


O sol por testemunha (Plein soleil), produção franco-italiana de 1960, dirigida por René Clement, é um dos melhores filmes de suspense da história do cinema.

A trama armada ao longo da narrativa, em ritmo crescente, nos tornando "cúmplices" dos planos do personagem principal, é um  exemplo de como se faz um bom filme de suspense. E suspense aqui não tem nada, nada vezes nada, a ver com sustos explícitos que esses estultos roteiristas de Hollywood "criam" nesses filmecos de shopping.



Na obra-prima de René Clément, que hoje completam 19 anos de sua morte, o suspense compactua com o voyeurismo de quem assiste, que é uma característica da relação cinema-espectador. Acompanhamos a história, e em algum momento nos pegamos a favor, mais do que contra, da personalidade dos personagens. Contextualizados que estamos no filme, nos flagramos e nos espantamos com comportamentos que escondemos à luz do dia lá fora. No escurinho do cinema, nos confrontamos com nossas mais secretas disponibilidades para isso ou aquilo. Tanto quanto entretimento, cinema é reflexão. Mesmo rindo, mesmo lacrimejando, mesmo se assustando. Mas o filme tem que ser Cinema, e não um "filme" tão somente.



Em O sol por testemunha, a segura direção e as afinadíssimas atuações de Alain Delon, Marie Laforêt e Maurice Ronet,  concretizam de maneira irretocável um roteiro bem construído, uma estrutura de narrativa clássica de suspense psicológico. O filme inspirou Roman Polanski a fazer o seu primeiro longa, o igualmente ótimo A faca na água (Nóz w wodzie), rodado na Polônia, em 1962. 

Naquele começo de década, o cinema francês reinventava os códigos da linguagem cinematográfica através da nouvelle vague, e mesmo sem estar inserido na nova onda, Clément  não se situa à margem por sua compreensão e inteligência atemporal.  Não por acaso, o diretor de fotografia, Henri Decaë, fez um  ano antes Os incompreendidos (Les quatre cents coups), de François Truffaut.


O sol por testemunha é baseado no livro O talentoso Mr. Ripley, de Patricia Highsmith, título da refilmagem feita por Anthony Minghella, em 1999, com Matt Damon e Gwynett Paltrow.  A diferença é enorme.  Sem comentários.  

E o personagem continuou se propagando, ou se diluindo, em continuações mais-do-mesmo: até a respeitada cineasta italiana Liliana Calvani dirigiu sob encomenda, em 2002, O retorno do talentoso Ripley (Ripley games), e o sempre encomendado Roger Spottiswood ousou um tal de Ripley no limite (Ripley under ground), em 2005. O cinema é testemunha do que fazem com esses remakes. 


Em tempo: Patricia Highsmith também foi adaptada por Alfred Hitchcock, em 1951, com o  excelente suspense Pacto sinistro (Strangers on a train). Cinema!

segunda-feira, 16 de março de 2015

bacana!

A obra do pintor francês William-Adolphe Bouguereau, do século 19, era centrada em temas mitológicos, alegóricos, históricos, religiosos. O quadro acima, O jovem Baco e seus seguidores, reproduz como ele imaginava os rituais em homenagem a Baco, ou Dionísio, deus do vinho, dos grãos, da fertilidade e da alegria. 

Em um dia do mês de março, a turma saltitante e embriagada invadia as ruas de Roma, soltando gritos estridentes, sensualizando e atraindo adeptos do sexo oposto, ou igual, causando desordens e escândalos. É o que hoje conhecemos como bacanal, ou mais corretamente no feminino, as bacanais.

Esse culto da pesada foi bem anterior a Cristo, uns quatro séculos. A coisa cresceu tanto, (ôpa!), digo, os rituais tomaram uma proporção tamanha, com a vulgaridade, cenas grotescas, e até crimes e conspiração política nas "haves" madrugada a dentro, que o Senado romano promulgou um decreto proibindo as bacanais em toda a Itália, exceto em alguns casos especiais que deveriam ser analisados e aprovados pelos senhores senadores... pasmem! Não tem jeito, não. A sacanagem tem raízes profundas.

Em tempo: "bacana" é uma forma sincopada de "bacanagem", derivado do rapazinho Baco...etc etc etc.

um homem da paz

"Sou um homem da paz. Mas a paz tem um inimigo: a passividade", dizia o teatrólogo Augusto Boal, que hoje faria 84 anos.

Ele foi um dos mais lúcidos homens de teatro que este país já teve. E continuará tendo, apesar da sua ausência física que marca os palcos desde 2009.

Era admirável seu espírito de contestação, que se destacou principalmente contra o golpe militar de 64. Boal dizia que não lhe incomodava perder "quando existe um debate ideológico e social, mas ser derrotado por um Estado armado, com canhões e tanques de guerra, dá uma tristeza enorme."

Sua filosofia de encenação teatral unia reflexão social e ação política, calcada na educação, na cidadania, nos princípios pedagógicos. Não foi por favores que o jornal inglês The Guardian o considerou o "reinventor" do teatro político. Torci muito por ele quando seu nome foi lembrado para o Nobel da Paz, em 2008.

Uma pena homens grandiosos como Boal partirem, enquanto uma canalhada continua dando o ar de sua desgraça neste país.

domingo, 15 de março de 2015

Tim Maia! Tim Maia!

 Hoje, 17 anos sem o síndico no condomínio

"Quero que tudo saia / como som de Tim Maia / sem grilos de mim / sem desespero / sem tédio, sem fim..."
- Caetano Veloso

"Tira essa escada daí / essa escada é pra ficar aqui fora / eu vou chamar o síndico /Tim Maia! Tim Maia! / Tim Maia! Tim Maia!...
 - Jorge Benjor  

"Vou cobrir as flores da estrada / de um vermelho amor, madrugada, eu.../ preciso ver Cristina, minha menina..."
- Tim Maia 

"my heart beat a little louder / every time that you're near..."
- Tim Maia
 

sábado, 14 de março de 2015

dia de tudo e de todos

Hoje, 14 de março, diz o calendário que é o Dia Nacional da Poesia. A data foi escolhida não sei por quem nem quando, em homenagem ao nascimento de Castro Alves. E tem o Dia Internacional da Poesia, no próximo 21 deste mês, e tem Dia do Escritor, 25 de julho, que não sei se é daqui, de lá, de qualquer país...

Para mim, todos os dias são dias de todos e de tudo. Hoje, por exemplo, é aniversário de uma amiga, que não é poeta. E eu tenho essa mania de escrever uns versinhos, mas hoje não é meu aniversário.

Um dia comemorativo é bom para lembrar que todos os dias são comemorativos, pelo trabalho, pelo ofício, pelo sacrifício, pelo desejo, pelo prazer, pelo apego, pela ausência, pelo esperança, pela saudade.
E pra não dizer que não falei de versos, deixo aqui a todos nós que nos debulhamos em bem e mal traçadas linhas, meu mais completo poema inacabado:

PRAZO

Impossível
terminar o poema nos próximos dias:
falta uma vírgula aqui
aguarda um sentimento ali,
avista-se uma cidade acolá.
E essas correções, dores e risos
costumam demorar
uma vida inteira...

(do livro Poesia Provisória)

terça-feira, 10 de março de 2015

cantar

Roberto Polillo, Milão, 1968
"Desculpe-me, não tenho palavras. Talvez se eu cantar, você entenda."
Ella Fitzgerald

alô

“Senhor Watson, venha para cá. Quero falar com você”, teria dito o cientista britânico Alexander Graham Bell, em 10 de março de 1876, fazendo o 'test drive' de sua invenção: o telefone.

O sr. Watson, Thomas Auguste Watson, era seu assistente, e estava em outra sala do laboratório. Foi a primeira pessoa no mundo a receber uma ligação telefônica, e diga-se de passagem, uma ordem em tom patronal, para dar a devida importância àquela estranha geringonça, tataravô dos smarthfones, iPhones e outras geringoncinhas com dezenas de coisinhas que fazem tudo, inclusive telefonar.

funny

"Not if you care for me / stay little valentine stay / each day is valentine's day"

segunda-feira, 9 de março de 2015

lúcida loucura

Ele dizia que "o indivíduo bem equilibrado é insano", e que "essas palavras que escrevo me protegem da completa loucura".

Assim foi Charles Bukowski. Aparentemente uma definição contraditória de si mesmo, como se negasse um momento em que se encontrou no outro.

O poeta, contista e romancista nascido na Alemanha, e naturalizado norte-americano, foi um artista lúcido, por isso a loucura protegida, ou conceituada, por sua obra. Afinal, ele dizia que "a diferença entre a Arte e a Vida é que a Arte é mais suportável."

Hoje completam 21 anos sem sua loucura. Ou lucidez.

beleza secreta

Juliette Binoche, uma das melhores, belas e enigmáticas atrizes do cinema contemporâneo.

Em 2007, aos 43 anos, em decisão surpreendente, posou para a Playboy francesa. O ensaio fotográfico fala do corpo de uma "maneira que lhe dar alma", como ela mesma definiu nas páginas. As fotos têm o encanto de uma beleza secreta. São outras curvas, são outras poses... de uma lânguida sensualidade, como esse seu olhar atlântico.

Binoche completa hoje 51 anos.

avant-garde do jazz

Considero Ornette Coleman um dos maiores nomes do free jazz. Ouso arriscar que ele praticamente solidificou o gênero quando lançou em 1960 o disco Free-Jazz, assim mesmo intitulado, uma longa faixa de mais de 30 minutos de harmonia pouco usual e imprevisível. Um álbum belo, clássico e controverso.

Minha primeira audição desse, digamos, jazz avant-garde, foi com o exemplar da coleção lançada pela Editora Abril, nas décadas de 70/80. Os discos eram vendidos semanalmente nas bancas de revistas, dentro de uma encadernação com ótimos textos informativos. O de Coleman tem adequadamente o subtítulo A mudança do século.

O saxofonista e trompetista americano completa hoje 85 anos, e continua fazendo shows regularmente, participando de apresentações de jovens bandas que têm sua música como referência.

terra à vista!

Essa minha fixação meio blasé por datas me persegue desde criança. Lembro que numa aula de História foi dito que em 9 de março de 1500, a armada de Pedro Álvares Cabral zarpou de Lisboa rumo a uma cidade na Índia.
 
Pra "descobrir" o Brasil quarenta e poucos dias depois até que foi rápido. Cabral deve ter acelerado as caravelas, pegando pesado nos marinheiros e grumetes que pilotavam as embarcações. Mesmo sem nenhuma analogia, essa imagem só me remete aos escravos de Ben Hur, que se esbaforiam nos porões das galés sob os gritos "remem! remem! remem!".

Muitas ilustrações mostram somente as três caravelas, as tais Santa Maria, Pinta e Nina, quando na verdade a expedição se enfileirava mar a dentro em mais dez naus. Eram embarcações tops. No século 18, Portugal era uma potência marítima.

Mesmo assim, li em enciclopédia bem antes do Wikipédia, que conforto básico não era para todos. A tripulação e serviçais dormiam mal, nos convés, comiam quase uma ração, conviviam com ratos, e a fedentina era heavy demais. Somente o "alto clero" do 'seu' Cabral tinha o luxo de um quarto, uma cama e vaso sanitário.

domingo, 8 de março de 2015

"vivam a imaginação"

“Não se curem além da conta. Gente curada demais é gente chata. Todo mundo tem um pouco de loucura. Vou lhes fazer um pedido: vivam a imaginação, pois ela é a nossa realidade mais profunda. Felizmente, eu nunca convivi com pessoas muito ajuizadas” 
 Nise da Silveira, médica psiquiatra.

Hoje é um dia para lembrar que todos os dias são das mulheres


quinta-feira, 5 de março de 2015

confia em mim


física


o esquecido

Romance publicado em 1965, caído no esquecimento, "Stoner" é lançado no Brasil. O mesmo esquecimento proporcional ao seu autor, o americano John Williams, falecido em 1994, aos 72 anos, um obscuro professor americano, de uma obscura universidade.

Resgatado das cinzas pela escritora francesa Anna Gavalda, o livro foi eleito a melhor publicação de 2013.

Assim como o personagem do romance, todo o desapontamento que temos com a pessoa amada e consequente intimidade com a solidão, são relativos se tivermos um livro a que nos agarrar.

quarta-feira, 4 de março de 2015

quem me criou foi Iemanjá

No final de janeiro escrevi aqui e no minha página no Facebook sobre o pré-lançamento de "Barlavento", terceiro disco de Gustavo Portela, um dos mais autênticos compositores da música cearense contemporânea.

Durante o show, no Teatro Sesc Iracema, em Fortaleza, ele apresentou o clipe Paratodos, conversou com a plateia e exibiu fotos de suas andanças pelas praias e sertões, refazendo, como pesquisa e encontro, o percurso da chegada dos índios Tremembé ao litoral cearense. O trabalho de Gustavo Portela tem a consistência da cultura popular numa projeção universal.


Domingo passado, 1º, ele lançou o disco com um show elaboradíssimo, no Anfiteatro Dragão do Mar. Uma apresentação cênica e musical comovente, dando forma às histórias que contam e cantam as canções. Partindo da faixa Caminho do mar, letra e música suas, Gustavo segue o roteiro do mar que virou sertão que virou mar, seguindo a saga do menino que por sua mãe foi dado a Iemanjá como oferenda. A construção dramática, para o que diz a letra e ondula a melodia, é a imagem de um artista esculpindo a beleza no palco. Tocante, enternecedor.


Gustavo torna-se ainda mais criativo pela inserção de personagens da cultura nordestina, como o ventrículo habilmente manipulado pela atriz Maria Vitória. O diálogo com o outro, o diálogo consigo. Da mesma forma, a participação da cantora Marta Aurélia interpretando em Ô Jandê/Água de manima, dos Índios Tremembé de Almofala, mixando com o grito urbano do rapper Erivan Produtos do Morro,  dão ao show a mais perfeita tradução que arte é da minha casa para o mundo, é do mar e da montanha, e de mim e de ti. É de todos. É paratodos.
louvação

Gustavo é presença no meu documentário Pessoal do Ceará - Lado A Lado B. 

os astronautas do mar

A ótima qualidade da cena musical cearense se estende por todos os gêneros, propostas e estéticas.

A música instrumental da banda Astronauta Marinho remete a tempos e lugares, e parte de imagens, cores, luzes, histórias e vivências que cidade Fortaleza desenha nas composições. Essa é a viagem, essa é a certeza que a arte universaliza a partir do canto da aldeia.

Criada em 2011, a banda tem dois álbuns e lança o terceiro, Menino Sereia, no próximo sábado, 7, no Bar Mamembe, em Fortaleza.  Como um preview do show, os integrantes se apresentarão amanhã, quinta, no mesmo local, discotecando faixas e conversando com a moçada.

O jornal Diário do Nordeste publica hoje matéria sobre o lançamento e trabalho dos astronautas.

A banda será entrevistada para o meu documentário Pessoal do Ceará - Lado A Lado B. 

donzelas uivantes

 arquivo Maira Sales
Na década de 80, um bem-vindo bando de garotas que se diziam ironicamente pré-históricas, agitava a cena musical cearense, com irreverência, saudável deboche, sensualidade sem vulgarização. Ainda em finais tempos brabos de ditadura no país, as meninas cutucavam com graça e sátira os costumes de uma sociedadizinha conservadora. A alegria era a tônica dos shows. E a alegria é sempre revolucionária.

Elas eram, e sempre serão, A Banda Pré-Históricas das Moças Donzelas, presente no meu documentário Pessoal do Ceará - Lado A Lado B.
 
Na foto, Eliana Olinda,Gigi Castro, Aurecy Pinheiro,Maira Sales e Lily Alcalay. Integravam ainda a caverna das moças uivantes, Olga Ribeiro e Eleuda Carvalho. 

JohnYoko

 foto Annie Leibovitz
- Por que você não pode ficar sozinho, sem a Yoko?
- Eu posso, mas não quero